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3. NOVAS MANEIRAS DE PENSAR O REAL

3.2. Linguagem e realidade

Em 1921, Ludwig Wittgenstein, em uma passagem de seu Tractatus Logico-Philosophicus, escreveu que “os limites de minha linguagem denotam os limites de meu mundo” (WITTGENSTEIN, 1968,

p. 111). Essa passagem ilustra um aspecto definidor da filosofia do século XX, a importância da discussão sobre a ligação entre linguagem e realidade, aspecto que se torna central a partir do que chamamos de Virada Linguística, que

...aponta para uma filosofia que quer pensar a linguagem e o complexo processo de significação em outras bases. No lugar de uma filosofia centrada na consciência e no sujeito, presa ao mentalismo e consequente psicologismo, surge uma filosofia que, através de uma investigação sobre o funcionamento da própria língua, tenta esclarecer os problemas filosóficos tradicionais através de uma crítica da própria linguagem em que tais problemas são elaborados. Dessa forma, propõe um novo enfoque para os velhos problemas da metafísica, ao abandonar a noção de que o pensamento é algo da ordem da subjetividade (NIGRO, 2009, p. 180).

Estabelecendo-se como movimento a partir de uma coletânea de ensaios organizada por Richard Rorty em 1967, com bases no pensamento do próprio Wittgenstein e também de outras correntes como o estruturalismo de Ferdinand Saussure, a Virada Linguística se iniciou na filosofia e se expandiu para as outras áreas das humanidades, reconhecendo a linguagem como um agente estruturador do que consideramos mundo, colocando-a por vezes como constituidora de realidade.

Essa ideia também ultrapassou a filosofia e as ciências humanas e chegou no senso comum e na cultura pop, no final do século, e é um forte elemento na história d’Os Invisíveis. Morrison joga com isso de diversas formas. Nos capítulos finais do primeiro volume, King Mob acaba capturado pelo inimigo e passa a ser torturado pelo Sr. Miles juntamente com Dr. Frankland, para que revele os planos e os contatos dos invisíveis. Como uma forma de tortura, Miles aplica uma droga em King Mob chamada Chave 17, que nas palavras de Frankland “embaralha a informação sensorial chegando no córtex visual secundário. Faz ele incapaz de dizer a diferença entre uma palavra descrevendo um objeto e o objeto em si” (MORRISON, 2007, Vol. 1, Cap. 18, p. 6).

Durante a tortura, Miles mostra um balde a King Mob, que está imobilizado em uma cadeira, e retira dele dedos recém cortados, ainda com sangue jorrando, atirando-os a seus pés. Diz ser os primeiros

pedacinhos tirados dele, e o encara com um olhar ameaçador (Figura 58). Nos quadros seguintes percebemos que eram apenas papéis com a palavra “dedo” escrita neles, que King Mob via como dedos reais por estar sob efeito da droga.

Figura 58 - King Mob sob influência da Chave 17. Fonte: MORRISON, 2007, Vol. 1, Cap. 18, p. 5.

O processo de tortura usando palavras continua, com Miles usando um espelho com a inscrição “face deformada” para que o prisioneiro acreditasse que haviam deformado seu rosto. Mais à frente, já no capítulo seguinte, mas ainda durante a tortura, Miles continua com o uso da Chave 17 sobre King Mob, por ter sido ordenado a não mutilá-lo, mas apenas subjugá-lo totalmente.

Figura 59 - Palavras enfeitiçadas no cérebro de cada criança. MORRISON, 2007, Vol. 1, Cap. 19, p. 7.

Morrison usa esse episódio para inserir mais um ponto de relações importantes na série, o do uso da linguagem como forma de dominação e controle. Isso está colocado alegoricamente na fala do Sr. Miles, que diz que há uma palavra enfeitiçada no cérebro de cada criança que fala inglês, o nome de um poderoso demônio, “abê-cê-dê-êefegê-agáijota- káeleemeene-ó-pêquê-erre-éssetê-uvêxis-dáblio-ípsilonzê”. Ou seja, o próprio alfabeto seria um demônio oculto, “a raiz do mantra da restrição”, e todos os nomes gerados a partir daí imporiam limites à habilidade

humana de expressar pensamentos abstratos. O mote principal, no entanto, está na frase seguinte: “o que você vê depende inteiramente das palavras que você tem para descrever o que você vê” (Figura 59).

Figura 60 - Coisa que não vemos porque não temos palavras. Fonte: MORRISON, 2012, Vol. 2, Cap. 13, p. 8.

No segundo volume, as abordagens de Morrison sobre o tema da linguagem começam a assumir outro nível. É revelada a existência de um “alfabeto alienígena”, o “verdadeiro alfabeto” ou “alfabeto invisível”, que seria composto de 64 letras. Através do uso de palavras montadas a partir desse alfabeto, seria possível “ativar” áreas cerebrais e fazer ver coisas que não poderiam ser percebidas antes por não poderem ser conceitualizadas.

No capítulo 13 do segundo volume, o grupo de King Mob entra em um grande complexo empresarial atrás de Boy, que havia fugido levando a Mão da Glória. Lá dentro, são atacados por alguns agentes que dizem usar vocabulário como arma, fazendo o grupo ver coisas e seres que não viam por que não tinham conceito para isso (Figura 60).

Conforme os agentes vão falando pelos autofalantes nomes de coisas na língua alienígena, os invisíveis passam a ver objetos e seres inimagináveis à sua frente. Novamente aqui temos a espetacular arte de Phil Jimenez para representar coisas “irreais”, difíceis até de descrever. Cada um dos personagens, no entanto, identifica as coisas que veem de maneira diferente: Fanny diz ser só espíritos; Mason associa com o que viu e experimentou quando foi abduzido; Robin diz ter uma droga no futuro que simula contato alienígena e é exatamente igual ao que estão vendo; Jack reconhece uma das coisas como algo que tinha quando era pequeno.

Um dos seres que apareceram ainda complementa essa postura de Jack, dizendo que “a ironia básica é que crianças pré-verbais nos veem em todo lugar, mas somos feitos de linguagem que não pode ser facilmente processada pelas mentes delas” (MORRISON, 2012, Vol. 2, Cap. 13, p. 9).

Morrison ainda vai além nessa abordagem da linguagem como definidora do real. Nos últimos capítulos do Volume 2 ele começa a mostrar momentos da vida de Ragged Robin no futuro, antes dela viajar no tempo para os anos 90. Ali, vemos Robin em 2005, dentro de uma espécie de “tanque de Ganzfeldt”, que supostamente ficaria dentro da Universidade de Berkeley (Figura 61).

O aparato Ganzfeldt realmente existe e consiste em um conjunto de aparelhos destinados a fornecer estímulos sensoriais homogêneos a uma pessoa para gerar um efeito similar ao da privação total de sentidos. É uma técnica desenvolvida em 1930 pelo Dr. Wolfgang Metzger, ao pesquisar casos de mineiros que alegavam sofrer alucinações quando ficavam algum tempo dentro de cavernas completamente escuras e silenciosas.

Metzger então desenvolveu um equipamento que consistia em semiesferas colocadas nos olhos para gerar uma sensação de infinito, luzes vermelhas no ambiente e fones de ouvido reproduzindo ruído branco ou rosa. Ao deitar-se no escuro, o paciente tem os mecanismos de sono de seu cérebro induzidos. No entanto, a sensação de infinito na visão mantém o cérebro trabalhando em busca de informação; a luz vermelha, mais baixa na escala espectral, leva menos carga ao cérebro, mas não induz o estado de sono; e o ruído rosa ou branco abafa os estímulos sonoros do exterior mas não fornece nenhum estímulo específico ao cérebro. O resultado são alucinações provocadas em alguns minutos (TAMOSAUKAS, p. 1).

No anos 1970, alguns pesquisadores de parapsicologia passaram a usar o experimento para estudos de percepção extrassensorial, alegando resultados significativos, embora parte da comunidade de parapsicologia discordasse.

Figura 61 - Robin no tanque de linguagem. Fonte: MORRISON, 2014, Vol. 2, Cap. 20, p. 2.

Morrison pega essa ideia e a transforma em algo mais, na sua história. O tanque em que Robin está tem o que ele chama de “processadores lógicos de estado-da-arte líquidos”, que acessados sob o uso de uma droga chama Sky, permitem que Robin construa realidades através de narrativa. Na imagem (Figura 61), vemos Ragged Robin sentada em um tipo de poltrona hipertecnológica, enquanto letras e números flutuam ao seu redor, em sua maioria “zeros” e “uns”, representando a linguagem binária, e o alfabeto – como se ela estivesse mergulhada em linguagem. Podemos perceber ainda figuras humanas, personagens, dentro das letras da palavra “zero”, quase no meio do quadro.

Ali, Robin diz estar escrevendo um livro de palavras vivas, “girando entre canos e tubos de linguagem fluida” (p. 9). Diz que o título do livro é “Os Invisíveis”, e que se escrever bem o bastante e for honesta o suficiente, pode torna-lo real. Daí em diante, o resto do capítulo, que mostra uma nova invasão dos invisíveis a uma base militar dos EUA (ainda em 1998, no passado), vai se alternando com imagens de Robin no tanque, escrevendo e modificando a história conforme ela acontece.

Perto do fim do capítulo, vemos Robin dentro do tanque (Figura 23) - com um traje especial, cheio de cabos e canos, flutuando em algum líquido, no primeiro quadro, e com um uniforme vermelho, flutuando em linguagem (é a maneira como ela se representa) no segundo. Ali, ela diz que a história que está criando ainda se mantém incerta e incompleta, mas que tem medo de terminá-la. Medo de que se ela se inserir completamente na história, não conseguirá sair mais dela, ficará presa nas próprias palavras.

Com o isso, o leitor passa a se indagar se toda a história, no fim das contas, não é criação de Robin, que a teria tornado realidade com ajuda daquele equipamento. No capítulo seguinte, ela está em uma espécie de manicômio, sendo tratada por ter um colapso devido ao uso excessivo de sky em condição de profunda privação de sentidos dentro de um tanque isolado. Assim, não sabemos se ela enlouqueceu pelo uso de drogas e do tanque, ou ela já está inserida dentro da história, presa dentro da realidade que criou com linguagem – um personagem de seu próprio livro, fato que fica em aberto até o final da série.

Essa ideia de transformar a realidade através da linguagem, no entanto, é ainda mais cara e mais profunda para Morrison. É a premissa básica da já citada Magia do Caos, ramo das práticas mágicas da qual Grant Morrison é declaradamente participante, e que está por trás de toda a obra. A Magia do Caos, juntamente com o Discordianismo, talvez sejam

as maiores influências de Morrison, pensamentos muito difundidos no final do século XX e que ajudam a compor Os Invisíveis.

Figura 62 - Robin se inserindo na história. Fonte: MORRISON, 2014, Vol. 2, Cap. 20, p. 21.