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No senso comum, a concepção de adolescência se inclina para uma homogeneização e universalização. O termo carrega os estereótipos da imaturidade, do desequilíbrio e da vulnerabilidade pessoal, justificados por características biológicas e sociais atribuídas à essa faixa etária. Por conseguinte, produz-se reducionismos perigosos, sobretudo quando se concebe, como uma espécie de perfil de referência para pensar os comportamentos nessa faixa etária, o adolescente ocidental urbano, sobretudo de classe média e alta, do sexo masculino, branco e de países de primeiro mundo (GOÉS, 2006).

Esse tipo de abordagem parece equívoca, por várias razões, entre as quais se destacam: exclusão de outros perfis e dimensões históricas, culturais e subjetivas; idealização e universalização da adolescência, não contemplando diferenças e singularidades, nem desigualdades e condicionamentos sociais diversos. Tudo isso contribui para uma imagem distorcida do adolescente e da

adolescência, o que pode fragilizar sua inserção social e também as ações e políticas voltadas a esse segmento da sociedade (CAGLIARIS, 2000).

No campo da saúde e, nela, também na Fonoaudiologia, o referido equívoco está presente e ajuda a alimentar certos reducionismos. Senão vejamos alguns exemplos. Segundo Snow e Powel (2005), adolescentes infratores teriam dificuldades em organizar informações e fatos para comunica-los a um interlocutor; situação que o prejudicaria em face do sistema legal, ao qual teria que dar informações e mesmo prestar esclarecimentos acerca das acusações que recaem sobre ele.

Essas dificuldades adviriam, entre outras, de questões ligadas à inadaptação social, à falta de acompanhamento e estimulação desde o período de desenvolvimento cognitivo e de linguagem. Por sua vez, Locke, Ginsborg e Peers (2002) sugerem que dificuldades persistentes de linguagem podem favorecer comportamentos antissociais e infracionais.

Em referência a vários estudos que correlacionam atos infracionais com dificuldades escolares, cognitivas e de linguagem em crianças e adolescentes, Destro (2011, p. 29) conclui:

é relativamente comum que o comportamento do delinquente seja associado à alguma dificuldade de aprendizagem relacionada à linguagem, uma vez que estas levariam à limitações cognitivas e linguísticas. As dificuldades de ler e escrever, por exemplo, poderiam isolar ou estigmatizar alunos que, às vezes, procuram

superar suas limitações linguísticas com comportamentos agressivos, rebeldes ou violentos.

A observação de situações como as mencionadas acima não é incomum, o problema parece estar em sua mera individualização e patologização, como se fossem causas suficientes das condições em que se encontram – em nosso caso – os adolescentes em conflito com a lei.

Ao atribuir eventuais dificuldades escolares, cognitivas e de linguagem aos adolescentes e a seus comportamentos pessoais opera-se um reducionismo: retira-se da problemática ou são diminuídas as condicionantes sociais envolvidas em sua produção e manutenção.

Além disso, tal tendência parece corroborar outra: a chamada medicalização da saúde e dos comportamentos individuais. Embora a noção de medicalização suscite controvérsias e tenha uma série de implicações, perspectivas e desdobramentos em estudos sociológicos e de saúde pública, o objetivo aqui não é adentrar esse debate, apenas demarcar a medicalização como aquilo que descreve um processo pelo qual problemas não médicos passam a ser definidos e tratados como problemas médicos e, nessa condição, frequentemente transformados em doenças ou transtornos (CONRAD, 2007).

Nesses processos, além do evidente reducionismo, o que se vê é aquilo que nomeamos de patologização de condições e comportamentos de atores sociais.

Se for assim, e sem negligenciar eventuais problemas individuais, a perspectiva precisa ser outra: os contextos e os fenômenos sociais não são

lineares, nem respondem a um único fator causal, ao contrário, são multicausais, são complexos e engendrados processualmente. Só podem ser minimamente compreendidos na trama de elementos e dimensões que o compõem: histórias de vida, contextos sociais (familiares, escolares, de vizinhança, de trabalho, etc.) e condições materiais e subjetivas que contornam a vida dos adolescentes em conflito com a lei.

Os preconceitos da sociedade com os pobres e miseráveis – marginalizados das riquezas (sociais, econômicas e culturais) – são muitos, começando pela desqualificação pelos de classes sociais diferentes, tal como afirma Souza (2009). Considerados inferiores, os pobres têm sido objeto de submissão e exploração pelos segmentos mais ricos da sociedade, que destilam estratégias disciplinares e de controle segundo seus interesses, considerando até a violência e o terror como condutas a serem utilizadas em certos casos:

Como o medo da dor gera obediência, provocar tal medo é considerada boa pedagogia. A marcação do corpo pela dor é percebida como uma afirmação mais poderosa do que aquela que meras palavras poderiam fazer, e deveria ser usada especialmente quando a linguagem e os argumentos racionais não são entendidos. Em geral, as mulheres que entrevistei acham que crianças, adolescentes e mulheres não são totalmente racionais, da mesma maneira que os pobres e, obviamente, os criminosos. Contra essas pessoas, a violência é

necessária; ela é uma linguagem inequívoca. (...) A dor é entendida como caminho para o conhecimento [especialmente moral] e a verdade. (...) Essa associação de dor, conhecimento e verdade torna-se especialmente clara em discussões sobre a tortura (CALDEIRA, 2000, p.

367).

Nos bairros periféricos, os adolescentes têm que lidar com a ausência de oportunidades reais, com a falta de políticas públicas, que poderiam favorecê-los direcionando-os ao estudo, aos esportes, ao lazer, à profissionalização e à cultura (IKUMA, KODATO e SANCHES, 2013). A imagem do jovem negro e pobre é emblemática nesse sentido, ele é visto, com frequência, como “marginal” e “perigoso” nos meios de comunicação de massa, o que fortalece o estigma e relaciona pobreza e etnia à criminalidade (TAKEITI e VICENTIN, 2015).

Vicentin (2005) mostra que a intensificação da violência praticada por jovens corresponde a um dos efeitos de uma sociedade que produz e reproduz iniquidades e desigualdades várias. Por isso mesmo, de nada adianta tratar os adolescentes infratores por meios meramente disciplinares e repressivos, isso apenas reforçaria a desqualificação a partir da qual são tratados como corpos destituídos de valor e à vidas que poderiam ser descartadas. Ainda segundo Vicentin (op. cit.) e não por acaso, a revolta e a transgressão aparecem para esses adolescentes como uma margem de liberdade, na qual se agrupam para existir ou subsistir, para resistir à opressão e para ganharem visibilidade e voz.

Vários movimentos sociais das periferias urbanas, como o hip-hop, os negativa dos jovens, qualificando-os como agentes de mudanças – para melhor – da sociedade (MAGRO, 2002), mesmo que uma parte deles possa ser tragado pela criminalidade e pela miséria social a qual estão expostos.

As diferentes formas de organização dos jovens permitem que sejam autores de transformações e que expressem suas realizações de maneiras singulares. Seus modos de falar e de escrever – com gírias, enunciados e, às vezes, sintaxe peculiares – não devem ser entendidos como “erros” em face das convenções da língua, mesmo que restrições de domínio da “norma culta”

existam e não sejam negligenciáveis, em função de limitações de acesso e de permanência no sistema educacional; sistema que, via de regra, mostra dificuldades em acolher e lidar com essa parcela da população, em considerar e se adequar às peculiaridades sociais e subjetivas que, com esses jovens, estão em jogo. É preciso perceber que os supostos “erros” em enunciados desses jovens (nas atividades escolares; nas conversas; na música; nos grafites; nas tatuagens; etc.) são, muitas vezes, transgressão e resistência ao status quo e às formas de opressão que, historicamente, recai sobre eles.

Tais produções podem ser consideradas como um campo simbólico singular, que possibilita o reconhecimento e a identificação desses sujeitos, nas

relações entre eles e na sociedade. Por isso mesmo, entrar em contato com os sentidos e formas de enunciação de determinados grupos é uma das chaves para entender os fenômenos sociais que protagonizam (CRUZ, 1991).

A análise do conteúdo da enunciação dos adolescentes contrapõe a complexidade de seus discursos às imagens ambíguas e reducionistas que a sociedade lhes destina. No entanto, se parte da juventude periférica consegue estetizar a discriminação e o preconceito, tornando-os como matéria prima da organização, da luta e da emancipação social e política, uma parcela das crianças e dos jovens em situação de vulnerabilidade social fica susceptível à cooptação por vários tipos de violência e criminalidade: prostituição infantil, tráfico de drogas, etc.

Significa dizer que a imagem que a sociedade devolve àqueles adolescentes residentes da periferia e em situação de vulnerabilidade social pode dificultar a (re)inserção social e favorecer o envolvimento com a criminalidade (SAWAYA, 2001).

Pelo lado da presente pesquisa, a intenção é, ainda que modestamente, contribuir para problematizar a ideia de que adolescentes em liberdade assistida, por terem cometido atos infracionais, podem ser portadores de dificuldades ou transtornos de linguagem oral e/ou escrita, e que eles, em alguma medida, se encontram entre as causas que favorecem ou mesmo determinam as infrações.

A partir da hipótese de que, na eventualidade de dificuldades ou transtornos de linguagem, não há relação necessária entre eles e o cometimento de atos infracionais pelos adolescentes que participaram do

estudo, estruturamos a pesquisa. Para testar nossa hipótese, entrevistamos adolescentes em liberdade assistida e os educadores que trabalham com eles;

realizamos também um rastreamento das condições cognitivas e de linguagem dos adolescentes para verificar se havia algum sinal de perturbação individual em tais domínios e, se houvesse, para observar se determinados aspectos cognitivos e funcionais no uso da língua interfeririam ou não nas condições de compreensão e produção enunciativa/discursiva dos sujeitos da pesquisa. Mais detalhes sobre as características do presente estudo serão oferecidos logo a seguir, no capítulo destinado ao método da pesquisa.

No entanto, antes de passar ao método, vale mencionar que, sobretudo no trabalho fonoaudiológico, não se deve confundir as dimensões da língua e da linguagem, uma vez que, embora a primeira esteja contida na segunda, a língua corresponde ao conjunto de signos e suas regras de combinação, compondo um sistema convencional necessário aos indivíduos para comunicação verbal em sociedade. Por sua vez, a linguagem é uma faculdade propriamente humana, que recobre vários domínios de nossa existência pessoal e social. Na clássica definição de Saussure (1999, p. 17):

Mas o que é a língua? Para nós, ela não se confunde com a linguagem; é somente uma parte determinada, essencial dela, indubitavelmente. É, ao mesmo tempo, um produto social da faculdade de linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos.

Tomada em seu todo, a linguagem é multiforme e

heteróclita; a cavaleiro de diferentes domínios, ao mesmo tempo física, fisiológica e psíquica, ela pertence além disso ao domínio individual e ao domínio social; não se deixa classificar em nenhuma categoria de fatos humanos, pois não se sabe como inferir sua unidade.

No campo estritamente linguístico, o estudo da linguagem volta-se ao terreno da língua, pois suas regularidades e convencionalidade, digamos assim, oferecem os princípios de classificação a partir dos quais opera a objetivação e a verificação empírica dos fenômenos linguísticos.

Por outro lado e ainda que, às vezes, em diálogo com concepções advindas de perspectivas linguísticas, o estudo da linguagem como faculdade ou capacidade humana de produção de sentido, de subjetividade e de modos de existência (pessoal e social) encontra acolhida em certas escolas filosóficas, psicanalíticas, psicológicas e antropológicas. Não seria o caso recensear essas correntes aqui, por isso a opção foi tomar apenas uma dessas possibilidades que, de resto, inspira ou dialoga com várias outras.

Trata-se de uma formulação de Bakhtin (1988), filósofo da linguagem, para quem o signo terá tantas significações quantas forem as situações concretas e historicamente determinadas em que for usado pelos indivíduos, o que o diferencia de Saussure, para o qual o signo é uma relação entre um significante (um som, uma imagem acústica, etc.) e um significado (um conceito circunscrito pela língua).

Em outras palavras, em Bakhtin, os signos devem ser pensados a partir dos enunciados, que são singulares, irrepetíveis e cuja composição produz os

discursos. É no plano enunciativo/discursivo que o estudo do funcionamento humano na linguagem torna-se possível. O modelo teórico e convencional da língua é, de fato, muito diferente de seus usos (na fala e na escrita) por sujeitos concretos em contextos variáveis e processuais da vida, nos quais sentidos são criados e/ou variam no tempo e em função das muitas situações em que são colocados em jogo nas interações comunicativas.

Essas rápidas definições teóricas acerca da linguagem dão ensejo para uma distinção que, em nossa pesquisa, é relevante. A rigor, o trabalho fonoaudiológico incide nas duas esferas aqui mencionadas: da língua e da linguagem. Em linhas bastante gerais, pode-se dizer que a habilitação e reabilitação fonoaudiológica dos chamados distúrbios de linguagem (oral e/ou escrita) implica ao menos uma das seguintes dimensões: fonética, fonológica, sintática e práxica (relativa às praxias orais envolvidas na produção e no ritmo da fala). Essas dimensões concernem ao plano das regularidades e padrões delimitados pela língua e pela motricidade oral, a atuação fonoaudiológica aí é a de utilizar métodos, procedimentos e técnicas para promover a funcionalidade dessas dimensões na fala e/ou na escrita.

Por outro lado, o fonoaudiólogo também atua, digamos assim, nas condições de comunicação dos sujeitos, a partir das quais as relações interdiscursivas fluem ou não, são legitimadas ou barradas. Aqui, escuta e interpretação de aspectos sociais e (inter)subjetivos, que incidem e/ou derivam da produção enunciativa/discursiva, são fatores decisivos à clínica fonoaudiológica da linguagem, uma vez que é por meio delas que se torna possível construir estratégias de elaboração e circulação discursiva junto com os sujeitos que recorrem aos cuidados fonoaudiológicos.

Naturalmente, o trabalho fonoaudiológico, muitas vezes, precisa compatibilizar as duas esferas (língua e linguagem), pois os distúrbios de linguagem podem afetar (com frequência o fazem) as condições de produção e de circulação enunciativa/discursiva dos sujeitos em suas relações no socius.

O contrário, embora aconteça, é menos frequente.

Enfim, são essas as razões que fizeram com que, no método de pesquisa, fossem conjugados um instrumento de rastreio cognitivo-linguístico e um procedimento conversacional na coleta de dados com os adolescentes em liberdade assistida, sob medida socioeducativa em meio aberto. Como foi dito antes, de um lado, buscou-se descartar ou considerar a presença e a eventual interferência de distúrbio de linguagem na percepção dos adolescentes pesquisados sobre suas relações comunicativas, pela fala e/ou pela escrita. De outro lado, também como já mencionado, a intenção de levantar as percepções e a elaboração que esses adolescentes têm sobre suas condições e relações comunicativas fez com que, por meio de entrevistas, fossem recolhidos sentidos e representações sobre o uso que fazem da fala e da escrita com parceiros da mesma idade, familiares, educadores e Instituições.

Dito isso, agora há condições para apresentar essa experiência, começando pelo objetivo e o método da pesquisa. Vamos a eles.

O

BJETIVO

Levantar aspectos da linguagem de adolescentes sob medidas socioeducativas em meio aberto, buscando problematizar ideias patologizantes e/ou de desqualificação social advindas de eventuais singularidades do repertório e das formas de enunciação desses sujeitos.

M

ÉTODO

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