3 O VÍDEO COMO LINGUAGEM NO ESTUDO DA GEOGRAFIA E DA PAISAGEM
3.3 LINGUAGEM VIDEOGRÁFICA E CONTEXTOS EDUCACIONAIS
Ao que se tem testemunhado quanto à evolução da linguagem videográfica desde seu nascimento nos anos finais do século XIX, pode-se dizer que esta é uma linguagem técnica relativamente nova, onde se reconhece que junto a esses avanços e evoluções, se deu sua popularização e diversificação de modo acelerado na sociedade, se difundindo e se tornando um objeto da cultura de massa (KENSKI, 2012).
O vídeo visto na sala de aula e nos espaços escolares, assim como a escrita, pede pela promoção de um domínio (mesmo que mínimo) para também proporcionar aprendizagens, o que corrobora para dizer que, apesar de instrumentos de exibição tais como a TV já estarem à disposição de muitas instituições escolares o fato é que telefones celulares, tablet’s e outros dispositivos móveis assim como programas e aplicativos de produção e edição videográfica necessitam estar entre estes instrumentais de uso corrente entre professores no contexto educacional, algo que demanda não apenas recursos estruturais, mas também de formação para os docentes. Dada a presença desta linguagem nas sociedades e consequentemente nas escolas, Fresquet (2013) expõe:
As novas tecnologias vêm produzindo certa revolução na relação da escola com o cinema. A leveza e a simplicidade de operação de equipamentos e programas de edição, cada vez mais acessíveis em custo e uso, facilitam que o cinema penetre o espaço escolar a partir de diversas iniciativas de produção simples: curtas-metragens de animação e ficção; documentários; “cinema-teatro”; pequenas filmagens com celulares ou câmeras digitais de fotografia, para citar alguns exemplos (FRESQUET, 2013, p. 40).
A presença das produções audiovisuais na sociedade cresceu e se tornou uma cultura de tão grande influência no contexto contemporâneo, que na conjuntura educacional brasileira foi criada em 26 de junho de 2014 a lei 13.006, que na verdade trata-se do 8§(parágrafo) acrescentado ao artigo 26 da lei 9.394 de 20 de dezembro de 1996, que em suma torna a exibição de produções videográficas nacionais componente curricular suplementar nas escolas do país, fazendo assim obrigatória a exibição de pelo menos 2 horas mensais destes produtos nas instituições escolares.
Esta lei representa uma iniciativa muito importante e interessante uma vez que a aproximação da linguagem audiovisual aos estudantes também valoriza o trabalho que é feito pelos profissionais brasileiros na produção de filmes e obras nacionais, nesta perspectiva é preciso salientar que quanto mais cedo estas atividades forem sendo incutidas na cultura escolar, mais a comunidade estudantil se familiarizará com a linguagem videográfica e suas nuances, o que não seria positivo se esta fosse ignorada ou negada às crianças e jovens, ao que Fresquet (2013) também irá dizer:
Ser privado de assistir a filmes de qualidade durante a infância significa perder uma possibilidade que não terá como acontecer com a mesma intensidade mais tarde. É como se as impressões produzidas nos primeiros anos pelo cinema deixassem uma marca inesquecível na memória afetiva pessoal (FRESQUET, 2013, p. 43).
A escola é um ambiente cujo desempenho está naturalmente e intricadamente ligado a princípios éticos e morais em que os comportamentos são balizados por regras e também ao respeito às hierarquias instituídas (diretores/as, coordenadores/as, professores/as, inspetores/as), a linguagem videográfica apresenta em sua natureza algumas práticas que dentro da obediência às regras das escolas podem gerar alguns impasses, dada a liberdade que se proporciona aos estudantes para dentro ou fora do espaço escolar ensaiar videografias que podem fugir do que tradicionalmente tem-se como padrão de comportamento (ARAÚJO, 2017), ao mesmo tempo em que as próprias instituições também representam locais legítimos para o desenvolvimento de aprendizagens no uso da videografia, neste sentido:
O encontro do cinema com a infância no contexto escolar traz, embutida, uma tensão, ou apresenta um paradoxo, que legitima sua força. Por um lado a escola se apresenta como o lugar tradicional do ensino, da regra e da transmissão padronizada da cultura, o que dificulta encarar o cinema como arte. Por outro, contudo a escola parece ser o lugar privilegiado de acesso coletivo ao cinema que foge, minimamente, do consumo hegemônico (FRESQUET, 2013, p. 44).
Dadas às circunstâncias em que a Educação e a abordagem da linguagem audiovisual na atualidade se tornam cada vez mais próximas, cabe aos professores buscarem usá-la dentro dos conteúdos e temas de seus componentes curriculares e áreas afins. Mesmo em busca árdua ou facilitada dessas potências, importa apontar que embora a linguagem videográfica cause certo ufanismo em relação a diferentes possibilidades metodológicas no contexto educacional, não adianta querer utilizá-la sem o quê se pretende construir com os alunos em termos de aprendizagem, Mário Sérgio Cortella (2018) ressalta a importância do uso das tecnologias na cena da Educação atual, entretanto alerta para essa dispersão do que se intenciona nos seus usos didáticos:
Para quem não sabe para onde vai, serve de qualquer maneira o jornal, a revista, o livro, a internet, o vídeo, o cinema etc. E aí qualquer um de nós, na ansiedade de modernizar o modelo pedagógico, eletrifica sofregamente a sala de aula ou, mais desesperadamente, sonha em fazer isso, imaginando o quanto o trabalho seria espetacular com esses instrumentos. [...]. Depende da finalidade, de para onde se desejar ir, se você sabe para onde quer ir, vai usar a ferramenta adequada. O que se deve modernizar não é primeiramente a ferramenta, mas sim o tratamento intencional dado ao conteúdo (CORTELLA, 2018, p. 92-93).
Há também situações, inclusive muito comuns, em que pelas tecnologias mais atuais terem surgido próximas ou paralelamente ao nascimento das gerações mais recentes de crianças e jovens, a familiarização destes com estas técnicas podem vir a ser até maior do que a de adultos e idosos contemporâneos, incluindo aqui também professores, nesta perspectiva Iara Guimarães (2017) expõe:
A prática de seleção, edição e remixagem de imagens é hoje um exercício corriqueiro e significativo para os estudantes, evidenciando processos de trocas e hibridismos, com os quais os espectadores constroem imagens e as imagens constroem os espectadores. Os estudantes não apenas olham e compartilham imagens, mas também as reelaboram, acrescentam, combinam, distorcem, recortam, colam imagens de fontes distintas (GUIMARÃES, 2017, p. 145).
Tal conjuntura não deve ser razão para angustia aos profissionais da Educação, já que em face de relativa desatualização quanto a uma linguagem pouco utilizada por professores isso não significa dizer que haja mais conhecimento por parte dos jovens do que dos professores em outras áreas, no entanto esta situação não deve gerar comodismos por parte do
docente em buscar formação continuada inclusive quanto à aquisição destes conhecimentos, o que se deve focar em tais circunstâncias é no aproveitamento e troca de informações através dos quais se abrangem possibilidades para o desenvolvimento de atividades e construções de produtos interessantes a aprendizagem, quanto a isso Guimarães (2017) continuará:
Como espectadores, os professores, por vezes, são tomados pela sensação de que os estudantes têm uma expertise maior que a deles, são mais competentes, transitam com mais agilidade nos diferentes suportes e linguagens, têm contato com mais artefatos. [...]. Assim, mais oportuno do que o contato com uma imagem é quando, em conjunto com os estudantes, temos a possibilidade de modificá-la, de imaginá-la de outra maneira. Produzir outra narrativa por meio da visibilidade (GUIMARÃES, 2017, p. 145-146).
Além dos aspectos e conhecimentos técnicos do fazer videográfico, diferentes aprendizagens referentes ao uso da linguagem concebem outros proveitos no que se refere às experiências e novas visões quanto ao caráter estético, social, psicológico e cognitivo de professores e alunos, pois se desenvolve uma maior sensibilidade no olhar ao redor, nos espaços e paisagens através das lentes das câmeras (NUNES; DINIZ; BARBOSA, 2017).
Nessa mesma vertente importa também destacar que na estreita relação que vem se ampliando entre cinema e educação é proporcionado gradualmente o desenvolvimento desta sensibilidade estética e neste sentido a formação para o uso do audiovisual promove crescimento pessoal, gerando significados e imaginários sobre o vivido assim como alto- conhecimento de modo que os sentimentos provenientes das experiências não podem ser medidos sem um olhar estético da existência. (BREZOLIN et al., 2017) um olhar que a linguagem videográfica auxilia o desenvolvimento.