do jornalismo participativo
LINHA EDITORIAL DA BLASTING NEWS (CAIXA 2)
A linha editorial da Blasting News define-se a partir de 10 princípios:
1. A Blasting News é uma comunidade aberta de repórteres, bloguers independentes, escritores e contadores de histórias de todo o mundo. 2. A Blasting News aprecia especialistas em qualquer
área de interesse e notícias de alta qualidade. 3. A Blasting News defende uma informação inde-
pendente, feita por pessoas independentes, com diferentes pontos de vista.
4. A Blasting News publica conteúdo original e verifica todas as fontes e as informações usada pelos seus repórteres.
5. A Blasting News assegura a qualidade e o rigor das suas notícias.
6. A Blasting News paga aos repórteres usando um princípio meritocrático: tem em consideração número de leitores que leem as suas produções no prazo de 30 dias a partir da data de publicação. 7. Os repórteres da Blasting News criam a sua co-
munidade de seguidores na plataforma.
8. A Blasting News estimula diálogos significativos entre os criadores de conteúdos e os seus leitores. 9. A Blasting News acredita na transparência e na
honestidade e, por isso, corrige prontamente os seus erros.
10. Tudo o que é publicado na Blasting News é pro- tegido por leis internacionais. Todos os artigos aí publicados são propriedade da Blasting News. Fonte: resumido, adaptado e traduzido pela autora a partir da informação disponível na página principal do website da Blasting News Portugal (informação publicada apenas em língua inglesa). Importa, contudo, assinalar que, não obstante o intencional distanciamento dos modos de operar dos meios de comu- nicação social “convencionais”, a Blasting News acentua também nas suas orientações algumas das regras que norteiam classicamente o jornalismo e os jornalistas, como a obediência a critérios de rigor, qualidade, originalidade e respeito pelas fontes. Aliás, no seu slogan, citado anterior- mente neste estudo, a empresa destaca que o conteúdo aí apresentado é elaborado pelos participantes da web – “Criado por si” – mas imediatamente assinala que o mesmo é “editado por profissionais”, reforçando a especificidade do trabalho do jornalista e a sua competência exclusiva para validar a informação. Quando questionado sobre a eventual falta de qualidade do trabalho da Blasting News face ao facto de ser produzida por qualquer participante que queira aí publicar, Manfredi tem salientado o rigoroso controlo de qualidade efetuado quer através da revisão e aprovação feita pelos Blasters a quem compete avaliar a informação submetida, quer pelo software que verifica se a peça já foi antes publicada103 e analisa a sua correção linguística104.
IMPLICAÇÕES DA DIGITALIZAÇÃO NO JORNALISMO
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103 A este propósito, refira-se um dado relevante: Em outubro de 2016, a edição portuguesa da Blasting News anunciava aos Blasters portugueses ter aligeirado as suas penalizações face à deteção de plágios. A informação foi apresentada deste modo: “A partir de agora o sistema anti-plágio da Blasting News deixará de “bloquear” os vossos artigos. Caso seja detectada alguma duplicação, vocês irão ter acesso a essa informação em tempo-real, no momento em que enviam para aprovação e sem perderem o trabalho feito! Adicionalmente, ao fim de 3 casos de duplicação, a possibilidade de publicar será suspensa por 24 horas (e não 7 dias como até aqui), podendo, contudo, entrar na plataforma para usar todas as outras funcionalidades. Ah, e essa suspensão será automaticamente levantada após as 24h). Acreditamos que esta melhoria vem facilitar a vida de todos e aumentar o prazer de trabalhar com a Blasting News. Bom trabalho”. O que estas definições demonstram é uma enorme ambivalência entre o estímulo à participação de todos e a preocupação com o rigor e a seriedade do trabalho apresentado. Neste caso, há uma prevalência do primeiro aspeto sobre o segundo.
O criador da publicação também rejeita a crítica de que a Blasting News não pode noticiar algo em primeira mão. Manfredi considera que esta, dentro do seu esquema de atuação, atribui particular relevância à informação local, nos vários países onde existe, e que isso funciona espe- cialmente bem105.
Embora se possa admitir que o modelo industrial dominante passa a ser alvo de alguns condicionamentos e que neces- sita de se adaptar às alterações que aparentam estar em conflito com os seus modos de operar habituais, é também notória a sua capacidade de se integrar no novo contexto. Com base no exemplo da Blasting News, propõe-se que o modelo industrial não é alvo de uma substituição, mas antes que, de modo cada vez mais sistemático, a indústria encontra forma de utilizar essas novas práticas, construindo negócios sustentados naquele que é considerado o ethos do trabalho em rede e apropriando e mobilizando o discurso que lhe é associado. As ideias de colaboração e de coauto- ria/coprodução passam a ser exploradas com objetivos comerciais. Na sequência disso, as várias iniciativas que são muitas vezes identificadas como motivadoras de uma alteração das relações de poder significam antes uma migração das “convencionais” estruturas de produção e difusão de conteúdos para um novo contexto, onde conti- nuam a exercer o seu papel habitual. Assim, o novo cenário de colaboração em rede, em vez de permitir a redistribuição do poder entre os vários indivíduos, gera o restabelecimento dos modelos comuns de negócio, servindo como estratégia para a criação de empresas e para o aproveitamento, por parte das mesmas, de mão de obra barata ou mesmo gratuita. Isto significa, como sugere Toby Miller, que as possibilidades apontadas pelo novo cenário “são domesti- cadas por processos que mercadorizam as relações livres entre os indivíduos” (2009, p. 435).
PRODUTORES
Os Blasters organizam-se de acordo com uma hierarquia, expressa nas suas orientações editoriais. Aí são identifi- cados três níveis ou categorias de participantes. No topo está o Senior Blaster, a categoria intermédia é ocupada pelo Mid Blaster, e o Junior Blaster é o que detém menos
privilégios. Aqueles a quem é atribuído o nível de Junior Blaster apenas podem submeter notícias como proposta de publicação, e as mesmas serão avaliadas por um Senior Blaster, que tem permissão para publicar, alterar ou rejei- tar essas notícias. Já os Mid Blasters podem publicar sem necessidade de aprovação prévia. A Blasting News refere que qualquer Blaster pode chegar ao topo desta hierarquia. Para abandonar a posição de Junior, é necessário demons- trar, determina o documento, “especialização numa área, ter um forte background jornalístico e boas competência de escrita” (Blasting News, 2016). O mesmo termina este tópico afirmando que tornar-se Blaster Senior é “um grande privilégio e simultaneamente uma grande responsabilidade” (Blasting News, 2016).
Além das categorias antes apontadas existem ainda outras duas. A primeira, a que não há qualquer alusão nos docu- mentos públicos, é a de Certified Blaster. A mesma foi re- ferida pelo responsável da Blasting News Portugal e definida como reservada a “jornalistas profissionais” e como sendo aquela que “permite a estes colaboradores criar artigos de capa (isto é, que cobrem a página inicial), sendo pagos de modo especial, com um fixo + variável”106. Estes artigos,
acrescentou ainda, “são exclusivos, entrevistas e informa- ções em primeira-mão”107.
A última categoria que falta identificar foi publicamente anunciada e utilizada como mais uma forma de promover a empresa e os seus princípios. Trata-se da categoria de Social Blaster, criada em maio de 2016, que se assume como algo distinta das restantes, pela natureza do trabalho que atribui a estes participantes e pelo modo de recruta- mento. Os Social Blaster operam como ‘influenciadores digitais’, tendo como função difundir a informação produzida. A esta tipologia de Blaster compete a partilha e divulgação de peças publicadas na Blasting News, e os que desempenham esta função são remunerados de acordo com uma tabela específica, difundida através do website108. A plataforma
permite que qualquer pessoa possa candidatar-se a esta tarefa, mediante o preenchimento de um formulário e a submissão de um curriculum vitae. Contudo, a mesma adverte para o facto de nem todos poderem assumir esse papel, que
OS MEDIA EM MUDANÇA EM PORTUGAL:
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105 Informações concedidas pelo responsável da Blasting News Portugal no âmbito de entrevista por e-mail.
106 Excerto de entrevista por e-mail ao responsável da Blasting News Portugal.
107 Excerto de entrevista por e-mail ao responsável da Blasting News Portugal.
108 De acordo com a referida tabela uma rubrica como TV & Famosos, que se situa, como já apontado, entre as mais bem pagas, permite a remuneração de 2,40 euros por mil leitores únicos gerados (Blasting News, s.d.).
exige avaliação do perfil do candidato. Segundo aí se aponta, a “oportunidade é limitada a quem ama as redes sociais e a agências” e, por isso, pretende-se encontrar “pioneiros das redes sociais e que sabem os seus segredos”.
Em termos de visibilidade no website, os Blasters são equivalentes e para o público não há maneira de os diferen- ciar. No caso português, a Blasting News, confirmou a exis- tência de Blasters em todas as categorias, mas não revelou os nomes dos participantes em cada uma das mesmas. A plataforma organiza um ranking que “mostra os melho- res Blasters de cada país”. Este ranking baseia-se em parâmetros que medem a qualidade e popularidade dos artigos publicados por cada Blaster. Vanda Cardoso era, em 4 de novembro de 2016, o primeiro Blaster do ranking português, com 165 notícias publicadas e próximo de 362 mil leitores (Caixa 3). Além desta premiação, os Blasters podem ser ainda alvo de outro reconhecimento, a atribui- ção da nomeação ‘Caneta de Ouro’, que distingue um Blaster, mensalmente, pela qualidade e popularidade das suas notícias. A Blaster anteriormente identificada foi assim distinguida no mês de outubro de 2016.
Todos os Blasters inscritos têm uma página de perfil na plataforma, editada por si. Em todos os casos há referên- cia a uma identidade, embora a mesma possa não ser real, já que não há lugar à verificação da mesma. Em vários casos, apesar de ser possível a inclusão de uma fotografia no referido perfil, os Blasters optam por não expor o seu rosto, escolhendo imagens que apresentam outros ele- mentos ou tornando o rosto difuso com pixelização, des- focagem ou outros efeitos. A descrição do Blaster é muitas vezes breve e contida, dando indicações muito vagas ou inexistentes acerca da sua formação académica e sobre outras atividades profissionais ou interesses pessoais.