Narrativa dos Sonhos de Rechung, que Levaram à Redação Desta Biografia, e da Linhagem e Nascimento de Milarepa.
Outrora, assim ouvi, o Grande Yogi, a Gema dos Yogis — da Escola Vajra-Yana Anuttara2 —, Jetsün-Mila-Zhadpa-Dorje viveu durante muito tempo na Caverna
semelhante a um Estômago de Nyanam,3 hoje um lugar muito sagrado de peregrinação.
Nesse local, encontravam-se os Ilustres Iluminados, Rechung-Dorje-Tagpa, Shiwa-Wod- Repa, Ngan-Dzong-Repa, Seban-Repa, Khyira-Repa, Bri-Gom-Repa, Lan-Gom-Repa, Sangyay-Kyap-Repa, Shan-Gom-Repa, Dampa-Gya-Phupa e Tonpa-Shakya-Guna.4
Esses foram os seus discípulos da ordem superior,
1. Todos os cabeçalhos da Biografia, tanto nas partes como nos Capítulos, e a sinopse no início de cada capítulo foram acrescentados pelo Editor, no intuito de proporcionar maior clareza ao leitor, porquanto o texto tibetano não apresenta esses títulos, embora os sugira.
2. Ou "Escola do Caminho (ou Vajra) Imutável do Anuttara [Tantra]". Esta é claramente uma das Escolas Esotéricas do Budismo Mahayana, baseada principalmente sobre um dos dois Tantras Superiores de nome Anuttara Tantra. O outro dos Tantras Superiores é o Yoga Tantra. Milarepa foi um mestre prático de ambos os Tantras. (Ver p. 219, n. 82.)
3. Nyanam é uma cidade, ainda existente, na fronteira tibetana com o Nepal, cerca de cinqüenta milhas a nordeste da capital do Nepal, Katmandu, e quase à mesma distância a sudeste do berço do Jetsün, Kyanga-Tsa, nas proximidades da moderna Kirong (cf. p. 42, n.28). Foi na Caverna Semelhante a um Estômago de Nyanam que Jetsün narrou a matéria principal do nosso texto (cf. p. 180).
4. Na ordem em que figuram, esses nomes podem ser traduzidos da seguinte maneira: (1) Pequeno Manto como um Dorje (o cetro lamaísta que simboliza o Relâmpago dos Deuses e a Imutabilidade), (2) Repa, a Luz da Paz, (3) Repa de Ngan-Dzong, (4) Repa de Seban, (5) Repa, o Caçador, (6) Repa, o Eremita de Bri, (7) Repa, o Eremita de Lan, (8) Repa, o Protegido de Buddha, (9) Repa, o Eremita de Shan, (10) Santo de Poderoso Alento, (11) Mestre Shakya-Guna. (Cf. J. Bacot, Le
Poéte Tibétain Milarépa, Paris, 1925, p. 34.) O termo tibetano Repa (Ras-pa, "o vestido de algodão") dado a
oito desses discípulos, como ao próprio Milarepa, indica que eles são seus seguidores, vestidos, como ele, com um traje de tecido de algodão branco. Graças ao "Calor Vital", gerado por meio de um peculiar controle yóguico da respiração, eles eram capazes de suportar as temperaturas extremas de frio e calor e, assim, não precisavam vestir nenhuma outra roupa, mesmo no inverno ártico das grandes altitudes do Tibete.
todos profundamente experientes na Yoga e possuidores de tranqüilidade mental. Encontravam-se, ainda ali, Lesay-Bum e Shen-dormo, duas noviças, além de inúmeros crentes leigos de ambos os sexos. Achavam-se também ali as Cinco Deusas Imortais da ordem superior das fadas, que depois evoluíram para anjos, além de numerosos yogis e yoginis altamente dotados, alguns seres humanos, alguns super-humanos, possuidores de conquistas superiores. Em meio a essa congregação, Jetsün colocou em movimento a Roda do Budismo Mahayanico.
Uma noite, estando Rechung sentado em sua cela meditando, teve ele o seguinte sonho:
"Eu caminhava por uma terra que diziam ser a Terra Ocidental de Urgyan, habitada por anjos de ambos os sexos. O país era delicadamente belo e agradável, e as casas e palácios eram feitos de ouro, prata e pedras preciosas. Ao passar pela capital desse país, percebi que seus habitantes trajavam vestes de seda e estavam adornados com grinaldas de jóias e metais preciosos e ornamentos de osso, e que todos eram muito belos. Olhavam-me com semblantes sorridentes e olhares de aprovação, mas ninguém ousava falar comigo.
"Entre eles, encontrei uma velha conhecida, com quem travara conhecimento no Nepal, na ocasião em que ela era discípula de Tiphupa, um de meus Gurus. Vestida de vermelho, ela dirigia a congregação, e me abordou com palavras de boas vindas, dizendo: `Sobrinho, muito me agrada a tua vinda'. Conduziu-me em seguida para uma soberba mansão repleta de tesouros, onde muito me regalei. Ela então disse: `O Buddha Akshobhya6 está no momento pregando a Doutrina nesta Terra de Urgyan. Se tu, meu
sobrinho, quiseres ouvir sua pregação, obterei dele a permissão para tanto'. Eu desejava ardentemente ouvi-lo e respondi: `É muita gentileza de tua parte'.
"Acompanhando-a, cheguei ao centro da cidade, onde vi um imenso trono feito de metais e pedras preciosas, e sobre ele, sentado, o Buddha Akshobhya, muito mais belo e majestoso do que a figura que eu havia imaginado para meditar. Ele pregava o Dharma a uma vasta congregação, que parecia tão grande quanto o oceano. Ao ver tudo isso, enchi-me de tal regozijo e beatitude extática, que quase desfaleci. `Fica aqui, sobrinho, enquanto tento obter a permissão do Buddha', disse a senhora. Obtendo-a de imediato, ela voltou para me conduzir à Sagrada Presença, e, enquanto me aproximava, prestei homenagem ao Buddha, e recebi a Sua bênção. Sentei-me, então, para ouvir o sermão religioso, e por um instante o Abençoado me olhou com um semblante sorridente, benigno e um olhar de infinito amor.
"O assunto sobre o qual Ele pregava era a linhagem, o nascimento, os feitos
5. No Apêndice (pp. 231-33), damos uma lista mais completa dos nomes dos diversos discípulos.
6. Tib. Mi-bskyod-pa (pron. Mi-kyod-pa), sânsc. Akshobhya (que significa "O Inabalável"), o Dhyani Buddha da Orientação Oriental. Os quatro outros Dhyani Buddhas são: Vairochana, do Centro; Ratna-Sambhava, do Sul; Amitabha, do Oeste; e Amogha-Siddhi, do Norte.
os incidentes relacionados com os diversos Buddhas e Bodhisattvas do passado. A narrativa me inspirou uma profunda fé. Por fim, Ele relatou as histórias de Tilopa, Naropa e Marpa,7 muito mais extensamente do que eu estava acostumado a ouvir de
Jetsün, e tais narrativas comunicavam a cada pessoa presente uma profunda admiração acompanhada de fé. Ao concluir Seu discurso, Ele disse que queria narrar a história de Jetsün-Milarepa, a qual ultrapassaria em prodígio a de qualquer um dos seres acima mencionados, e convidou-nos a todos para ouvi-la.
"Alguns dos presentes disseram que nada poderia ser mais maravilhoso do que já ouvíramos e que, se algo pudesse mesmo ultrapassar esses prodígios, deveria ser de fato algo assombroso. Outros disseram: 'As histórias que acabamos de ouvir são de pessoas que aniquilaram suas más ações e adquiriram mérito durante várias existências anteriores, mas Milarepa foi alguém que adquiriu mérito e alcançou uma iluminação não inferior à de qualquer um desses em apenas uma existência.' Outros disseram ainda: `Oh, se essa história for tão interessante, será realmente um pecado da nossa parte, como discípulos, se não aproveitarmos a oportunidade de ouvi-la, desistindo de pregar o que poderia ser narrado em benefício de todos os seres. Deveríamos fazer tudo para ouvi-la.' Alguém perguntou: `Onde está Milarepa agora?' Outro respondeu: 'Ele está em 'Og-min8 ou em
Ngon-gah9 .' Eu (Rechung) pensei: `Ora, Milarepa vive agora no Tibete, mas essas
pessoas parecem estar sugerindo que eu deveria pedir ao próprio Milarepa para contar a história de sua vida; pois é isso mesmo o que farei.' Nisso, a senhora segurou minha mão e, apertando-a gentilmente, disse: `Sobrinho, compreendeste?'
"Então eu (Rechung) despertei e descobri que já era dia; nessa manhã, minha mente estava muito clara e minhas devoções foram cordiais e sinceras. Relembrando o sonho e refletindo sobre ele, pensei que era muito auspicioso sonhar ter estado na Terra de Urgyan e ter ouvido a pregação do Buddha Akshobhya, e que eu tinha boas razões para me congratular por ter encontrado Jetsün-Milarepa na vida real. Meu atual privilégio de ouvir a pregação do Buddha, embora apenas em sonhos, devia-se, segundo pensei, a uma graça de Jetsün. Reprovei minha falta de verdadeira fé e de percepção espiritual quando, ao lembrar os pensamentos que havia tido, ouvi as pessoas dizerem que Jetsün poderia estar em 'Og-min ou em Ngon-gah. Compreendi que foram os sentimentos irreverentes de familiaridade com o meu Guru que me haviam feito considerá-lo apenas um ser humano,10 ao pensar que ele estava no Tibete. Que estúpida e insensível pessoa eu
era! Não sabia eu que
7. Quanto a esses três Grandes Yogis, dos quais originou-se a seita Kargyütpa, ver. pp. 5-7, e XIII-XIV.
8. 'Og-min (sânsc. Akanishtha), o Céu do Adi-Buddha, por meio do qual o Nirvana pode ser alcançado sem retorno à encarnação na Terra, como sugere o sentido de 'Og-min ("Não-Para baixo", ou "Sem Retorno Para baixo").
9. Ngon-gah (sânsc. Amaravati), o Céu de Indra, a Leste, equivalente ao Céu de Akshobhya, o Dhyani Buddha da Orientação Oriental. Ngon-gah (Mngon-dgah) significa "Feliz por conhecer", i.e., o Reino cujo pensamento nos enche de bem-aventurança.
10. "Passagem paralela à do ditado tântrico: 'Gurung na martyang budhyeta', i. e., 'Jamais penses no Guru como um mortal'. O Bramanismo ensina que a forma humana é simplesmente o veículo pelo qual o Guru se manifesta" (Sj. Atal Bihari Ghosh).
Jetsün havia obtido a perfeita iluminação, que era de fato um Buddha e que era capaz de reproduzir sua forma em números inconcebíveis?!11 Além disso, onde quer que Jetsün
pudesse estar habitando, não se tomava esse lugar igualmente sagrado, tanto quanto 'Og- -min ou Ngon-gah? Tomei meu sonho com a senhora e com a multidão que ouvia a pregação como uma injunção divina para escrever uma biografia de Jetsün, e decidi resolutamente conseguir que o próprio Jetsün me relatasse todos os passos de sua vida. Nessa disposição de espírito, enchi-me de um sentimento de profunda e exaltada fé verdadeira em meu Guru, à qual dei expressão em fervorosas preces. Minha mente ficou então tranqüila por algum tempo.
"Em seguida, adormeci profundamente e tive outro sonho, embora este não tenha sido tão vívido quanto o primeiro. Nele existiam cinco belas donzelas, respectivamente branca, azul, amarela, vermelha e verde,12 da Terra de Urgyan, que vieram juntas à minha
presença, e uma delas disse o seguinte: `Amanhã será narrada a história da vida de Milarepa; deixa-nos ouvi-la!', depois do que, outra perguntou: `Quem vai pedir-lhe para narrá-la?' Uma terceira respondeu: `Os discípulos principais de Jetsün é que lhe vão pedir!!' Enquanto isso, todas me lançavam olhares de soslaio e sorriam. Disse uma delas: `Este será um sermão tão excelente que todas teremos o prazer de ouvir. Não deveríamos juntar também as nossas preces, para que isso ocorra?' Respondeu outra: `Cabe aos discípulos pedirem pela dádiva, e será nosso o encargo e o prazer de difundir e proteger a Fé.' Nisso todas desapareceram, tal como desaparece o arco-íris. Ao despertar, descobri que o Sol já ia alto e compreendi que meu sonho era um sinal das Cinco Irmãs Imortais!'13
Tendo partilhado sua refeição matinal nesse alegre estado de mente, Rechung buscou a presença de seu Guru Jetsün e descobriu que o grupo de discípulos e se- guidores já se havia sentado. Rechung então se prostrou em adoração diante de Jetsün e, perguntando-se como se sairia, com o joelho direito no chão e as palmas das mãos juntas, dirigiu-lhe as seguintes palavras: "Seria do agrado de nosso gracioso Mestre e Senhor obsequiar-nos com um relato dos eventos de sua vida em benefício dos presentes, e que servirá como exemplo para os futuros discípulos e seguidores? Os Buddhas do passado narraram também as histórias de Seus Doze Grandes Feitos14 e
fizeram outros relatos para o bem dos seres sobre a Terra, que
11. Este poder yóguico, atribuído a Milarepa, de assumir múltiplas personalidades e corpos é ilustrado no Capítulo XII, em que Jetsün o exibe quando está prestes a passar para o outro mundo. (Ver pp. 202-03.)
12. Estas donzelas são deusas tântricas, conhecidas também como Dakinis, e a cor de cada uma tem um significado esotérico.
13. Essas Dakinis de cinco cores são as Cinco Encarnações da Deusa Durga, que têm sua morada no Himalaia tibetano, segundo algumas tradições, na região do Monte Kailasa, segundo outros, no Monte Everest, sagrado para Milarepa como local de sua meditação. (Cf. p. 232)
14. Os doze grandes feitos (ou regras de vida) de um Buddha encarnado na Terra (sânsc. Dvadasha-avadhuta-gunah) são os seguintes: (1) trajar roupas usadas (ou rasgadas); (2) trajar apenas três espécies de vestes, a saber, o manto externo, como o de um viajante, e o manto e a saia interna para o uso diário; (3) utilizar um cobertor nas regiões frias; (4) mendigar alimento
contribuíram para a difusão e a prosperidade geral da Fé budista. Tilopa, Naropa, Marpa e muitos outros grandes santos, ao deixarem suas autobiografias, muito auxiliaram o desenvolvimento de seus afortunados seguidores.
"Do mesmo modo, Ó Senhor Jetsün, tua biografia também conduziria grandemente ao desenvolvimento de muitos seres, para cujo benefício rogamos ao nosso Senhor que nos agracie com um relato de sua vida."
Assim instado, Jetsün sorriu e disse: "ó Rechung, já estás bem familiarizado com a história de minha vida, mas, como fazes esse pedido para proveito dos outros, não vejo mal algum em fazer o que me pedes. Sou do ramo dos Josays (Descendentes de Nobres), do Clã de Khyungpo (Águia), e meu nome pessoal é Milarepa.15 Em minha juventude realizei alguns feitos negros, em minha
maturidade alguns feitos brancos; mas agora superei todas as distinções entre o negro e o branco.1ó
Tendo cumprido a tarefa principal, sou agora alguém que não precisa lutar por mais nada no futuro.17 Se me pusesse a descrever com extensão os acontecimentos de minha vida, a narrativa de
alguns deles faria as lágrimas correrem, ao passo que de outros provocaria hilaridade; mas, como isso seria de pouco proveito, prefiro que permitas a este velho ficar em paz."
Rechung levantou-se novamente e, curvando-se, fez a seguinte súplica ao Mestre: "Ó gracioso Senhor, a narrativa do modo como obtiveste as Verdades Transcendentais, e dos grandes sofrimentos e sacrifícios que te custaram para descobri-las, e de como meditaste sobre elas sem cessar até teres dominado a natureza real da Verdade Eterna e alcançado o Objetivo Superior de todo o conhecimento espiritual, e do caminho no qual foste capaz de voar para além da rede das forças kármicas e impedir a manifestação do Karma futuro,18 será muito interessante e de grande
proveito a todos os que acalentam esperanças e aspirações semelhantes. Sendo o teu Clã o de Khyngpo (Águia) e o teu ramo o dos Josays (Descendentes de Nobres), como vieste a ser chamado pelo sobrenome de Mila? Além disso, como chegaste a realizar feitos negros em tua juventude e o que te levou a realizar
(ou viver de esmolas); ( 5 ) desfrutar apenas uma refeição diária — ao meio-dia ou antes; (6) abster-se de refrescos líquidos após o meio-dia; ( 7 ) meditar na floresta; (8) sentar-se (ou habitar) sob as árvores — e não numa casa; (9) habitar ao ar livre — onde não houver árvores; (10) habitar nos cemitérios (ou nos locais de cremação) — com vistas à meditação sobre a impermanência da vida; ( 1 1 ) dormir numa postura sentada, sem se reclinar; e ( 1 2 ) praticar todas as regras acima voluntariamente (ou de bom grado) — e não por coerção.
15. Que significa "Mila, O Vestido de Algodão". (Ver pp. 150 e 228, n. 92.)
16. Graças à Suprema Iluminação do Budado, Jetsün pôde realizar o estado da não-dualidade, em que todos os opostos, até mesmo o Bem e o Mal, são vistos como uma unidade, ou como oriundos de uma única fonte, que é a Mente.
17. Alcançado o objetivo, todos os esforços, até mesmo a morte e o nascimento, estão superados.
18. Se, como também ensina o Bhagavad- Gita, o Mestre da Vida realiza ações neste mundo sem qualquer interesse e para o bem do seres sencientes, nenhum Karma futuro — tal como o que conduz ao renascimento neste ou em qualquer outro reino do Sangsara — se produzirá, e a morte e o nascimento estarão normalmente perto de seu fim. O Conquistador retorna, então, se assim o quiser, numa reencarnação voluntária, como uma Encarnação Divina, ou Avatara — um Buddha, um Krishna ou um Cristo.
feitos brancos durante o período em que, segundo disseste, há vários acidentes que despertarão o riso e alguns tão penosos que farão correr as lágrimas? O conhecimento de todas essas coisas será de inestimável valor para as gerações futuras. Portanto, por compaixão de mim e destes meus colegas, anima-te, Ó Senhor, a pôr de lado tua aversão, e condescende a tudo nos narrar em detalhes. Peço a todos os meus amigos e irmãos de Fé que se juntem a este meu apelo."
Imediatamente, todos os presentes se ergueram e, prostrando-se várias vezes, disseram: "Juntamos também nossas súplicas às do Reverendo Rechung, e te pedimos, Ó Senhor, que ponhas a Roda do Dharma em movimento."
Disse então Jetsün: `Bem, se todos o desejam, vou satisfazer-vos, porquanto nada há em minha vida que precise ser ocultado.
"No que diz respeito ao meu clã e ao meu ramo, posso acrescentar que, na parte norte do país, chamada Uru, havia uma grande tribo de nômades que possuía gado e carneiros. Dentre eles havia um, pertencente ao Clã da Águia, que, tendo-se devotado ao estudo religioso, tomou-se um Lama da seita Ningmapa, à qual o seu pai também pertencera. Esse pai era um Josay (um filho de nobre). O jovem veio de Uru em peregrinação juntamente com alguns outros companheiros. Ele havia desenvolvido certos poderes sobrenaturais, tendo-se tornado adepto da invocação de certas divindades tutelares e alcançado grande habilidade na magia. Após sua chegada à Província de Tsang, num lugar chamado Chungwachi, seus poderes mágicos de curar as enfermidades e de exorcizar as pessoas obsedadas por demônios foram muito requisitados, de modo que muito grande se tornou sua fama.
"Nesse lugar, onde passou vários anos, ele ficou conhecido pelo nome de Khyungpo-Josay (Filho Nobre do Clã da Águia), e toda vez que alguém estava enfermo ou perturbado por um mau espírito sua presença era imediatamente requisitada. Mas havia urna família nesse lugar que não acreditava nele. Certa ocasião, aconteceu que essa família veio a ser atormentada por um terrível mau espírito, que jamais ousara se aproximar de Khyungpo-Josay, mas que não podia ser exorcizado por ninguém. Embora a família aflita recorresse a outros Lamas e estes tentassem os seus exorcismos, o demônio replicava ironicamente às tentativas de expulsá-lo e, zombando da família, torturava-os e tiranizava-os cada vez mais, até que eles cessaram seus esforços, que se tinham mostrado todos ineficazes.
"Por fim, alguns parentes dessa descrente família aconselharam-na a chamar Khyungpo-Josay, citando o provérbio: `Usa a gordura de um cão se só ela cura a ferida.' O chefe da família disse: `Sim, façamo-lo vir por todos os meios.' Conseqüentemente, Josay foi convidado e, ao se aproximar do demônio, disse três vezes em tom ameaçador: `Eu, Khyungpo-Josay, vim para comer a carne e beber o sangue de todos os demônios. Espera! Espera!', investindo rapidamente contra ele. O pobre demônio foi tomado de tamanho terror, antes mesmo de Khyungpo-Josay estar perto dele, e gritou: 'Apa! Ama! Mila! Mila! (Ó homem, és meu pai, Ó homem, és minha mãe!)’19 Quando Josay se
aproximou dele, o demônio disse: `Mila! Eu jamais me aproximaria do lugar em que estás; poupa a minha vida!' Então Josay,
tendo feito o demônio jurar que jamais voltaria a afligir quem quer que fosse, permitiu-lhe que partisse. Em seguida, o demônio se achegou a uma família que costumava adorá-lo, e lhes disse: `Mila! Mila! Eu nunca sofri tanto como dessa vez!' Ao lhe perguntarem o que lhe havia causado tanto sofrimento, ele respondeu que Khyungpo-Josay havia lhe inflingido uma dor tão excruciante que quase o matara e, por fim, havia lhe arrancado um juramento. Desde então, Josay foi chamado de Mila, como forma de exaltar seus extraordinários poderes mágicos e, assim, seus descendentes vieram a ser chamados pelo sobrenome Mila.20 Quando viram que o demônio, de fato, não atormentava mais
ninguém, todos concluíram que o demônio havia sido morto, ou melhor, havia transmigrado para outra forma de existência.
"Khyungpo-Josay casou-se, então, e teve um filho que, por sua vez, teve dois filhos; o mais velho deles foi chamado de Mila-Dotun-Sengé (Mila, o Leão que ensina os Sutras), e o filho mais velho deste veio a se chamar por sua vez Mila-Dorje-Sengé (Mila, o Leão Imutável). Desde então, essa família foi notória por ter apenas um sucessor masculino em cada geração.
"Mila-Dorje-Sengé era um exímio e apaixonado jogador, que costumava ganhar vultosas apostas. Ocorreu que havia um homem naquela parte do país que era ainda mais exímio na arte de jogar, e que tinha muitos parentes e relações pelo lado paterno. Esse homem procurou Mila-Dorje-Sengé no intuito de testar-lhe a habilidade e o desafiou a uns poucos jogos por pequenas apostas e, jogando com ele, logo obteve uma nítida idéia da força de seu jogo. Nesse dia, o homem jogou como se a própria sorte o estivesse