Capítulo 2. Revisão da Literatura
2.2. Linhagens bacterianas envolvidas neste estudo
As bactérias da família Enterobacteriaceae, como Escherichia coli e Klebsiella
pneumoniae, tem um destaque importante nas infecções hospitalares e comunitárias, pela
sua alta frequência e nas últimas décadas devido a altos índices de resistência a diferentes classes de antimicrobianos (ANTs), sendo consideradas como um dos principais agentes etiológicos dentre os Bacilos Gram-Negativos fermentadores (BGN-F) se tornando um problema de saúde pública (Gales et al., 2012).
As bactérias do grupo dos BGN não fermentadores (BGN-NF) como Acinetobacter
baumanni e Pseudomonas aeruginosa, são considerados microrganismos ubíquos,
podendo ser encontrados no solo, na água e até mesmo colonizando a pele ou mucosas de humanos. São patógenos oportunistas que estam frequentemente envolvidos em surtos de infecções em todo o mundo, ocorrendo principalmente em pacientes imuno comprometidos no CTI. Dada a sua competência natural de sobrevivência em reservatórios ambientais e humanos, ao longo dos anos sua evolução foi surpreendente, onde o bombardeio constante de um arsenal de ANT, proporcionou um excelente terreno fértil para o surgimento de linhagens MDR (Carvalho et al., 2009).
As bactérias representadas pelos cocos Gram-Positivos (CGP), como o
Stapylococcus. aureus, que apesar de ser comumente considerado um patógeno
surgimento desta infecção, atualmente são encontrados causando infecções graves também na comunidade (Caraciolo et al., 2012), sobretudo nos casos onde exista uma doença de base grave, como diabetes ou ainda, devido ao uso descontrolado de ANTs.
O Stapylococcus epidermidis é considerado como um dos principais causadores de infecções nosocomiais, principalmente em pacientes com fatores pre-disponentes, tais como uso de CVC e/ou dispositivos implantados, devido a formação de biofilme (von Eiff et
al., 2002).
Os Enterococos Resistentes a Vancomicina (VRE) representam um grande problema na assistência hospitalar, com dificuldades terapêuticas e de controle ambiental, pois colonizam trato gastrointestinal e são capazes de sobreviver no ambiente por tempo prolongado sobrevivendo a dessecação e aquecimento. A presença de VRE em hospitais ao redor do mundo é uma realidade e muitas vezes têm sido descrito na forma de epidemias (Neuman et al., 1998).
2.2.1. Escherichia coli: Características gerais
A Escherichia coli é um BGN, anaeróbio facultativo, não esporulado, com 0,5 µm de diâmetro e 1-3 µm de largura, oxidase negativa. É uma espécie comensal predominante na microbiota anaeróbica, além de ser encontrada no trato gastrointestinal de humanos e animais.
A Escherichia coli também pode ser encontrada no solo e na água, como resultado de contaminação fecal. As linhagens patogênicas são divididas entre as causadoras de patologias no trato gastrointestinal e as causadoras de infecções extraintestinais. As infecções extraintestinais podem ocorrer por características invasivas de algumas linhagens, por conta de fatores de virulência. A infecção pode ocorrer pela presença acidental extraintestinal, como em casos de perfuração intestinal, levando a uma peritonite ou em caso de pacientes imunocomprometidos.
A maioria dos isolados é capaz de crescer em um grande intervalo de temperatura (aproximadamente de 15 a 48ºC), mas a sua maior taxa de crescimento se dá entre as temperaturas de 37 e 42ºC. O microrganismo pode crescer em um intervalo de pH que varia entre 5,5 a 8,0 com maior crescimento ocorrendo em pH neutro (Brenner, 1984).
2.2.2. Klebsiella pneumoniae: Características gerais
A Klebsiella pneumoniae é um BGN, anaeróbio facultativo, não esporulado, imóvel, aeróbio facultativo, de tamanho variando de 0,3 x 1,5 µm a 0,4 x 2,0 µm. Dentre as espécies do gênero Klebsiella, a espécie K. pneumoniae é a mais importante e frequente. Não produz gás sulfídrico (H2S), nem a enzima citocromo oxidase. Tem a capacidade de utilizar o citrato como única fonte de carbono e possui a enzima lisina descarboxilase. No ágar EMB
(Ágar eosina, azul de metileno), produz colônias róseas elevadas com centro negro, brilhantes, de consistência mucóide devido à produção de cápsula. São ubíquas na natureza, podendo ser encontradas em águas, esgoto, solo e na superfície das plantas. A relação deste gênero com humanos varia desde a colonização a infecções, principalmente em pacientes hospitalizados. Pode colonizar a pele, nasofaringe e o trato gastrointestinal (Brenner, 1984; Koneman et al., 2008).
2.2.3. Pseudomonas aeruginosa: Características gerais
A Pseudomonas aeruginosa é um BGN-NF (0.5 a 1,0 x 1,5 a 5 µm), ubíqua, com predileção por ambientes úmidos, sendo encontrada no solo, água e plantas. É oxidade positiva, aeróbio, mas pode crescer em condições de anaerobiose utilizando o nitrato ou a arginina como aceptor final de elétrons, é móvel, produz pigmentos hidrossolúveis, tais como a pioverdina (pigmento fluorescente) e a piocianina (pigmento fenazina de cor azul), responsáveis pela cor característica verde brilhante. Algumas linhagens também produzem outros pigmentos hidrossolúveis como piorrubina (avermelhado para o marrom), ou piomelanina (marrom a preto). Conseguem tolerar uma ampla variedade de temperatura (4°C a 42°C). São capazes de utilizar diversos compostos orgânicos como fonte de carbono e nitrogênio e de crescer em meios de cultura contendo somente acetato como fonte de carbono e sulfato de amônio como fonte de nitrogênio, mostrando sua grande versatilidade nutricional (Pollack, 1995).
O morfotipo mucóide é devido a produção de grandes quantidades de um mucopolissacarídeo denominada alginato que envolve a célula. A sua produção é em última instância responsável pelo mau prognóstico e pelas altas taxas de mortalidade entre os pacientes com fibrose cística (Koneman et al., 2008).
2.2.4. Acinetobacter baumannii: Características gerais
O gênero Acinetobacter é composto por BGN-NF, geralmente que se apresentam na forma de cocobacilos aos pares, aeróbio, não fermentadores, não fastidiosos, imóveis, catalase positivo e oxidase negativo (Koneman et al., 2008). Possui elevada versatilidade nutricional e metabólica, podendo adaptar-se facilmente a diferentes ambientes. Várias espécies têm sido isoladas do solo, da água, de vegetais, de animais, da pele e do trato gastrointestinal de seres humanos saudáveis. Além disso, no ambiente hospitalar, algumas espécies foram isoladas de objetos inanimados.
2.2.5. Staphylococcus spp: Características gerais
Os Staphylococcus são bactérias pertencente à família Staphylococcaceae, que se apresentam como CGP com 0,5 a 1,5 µm de diâmetro, isolados ou aos pares, em pequenas
cadeias de três a quatro células ou em cachos, são anaeróbios facultativos imóveis, não formam esporos, produtores da enzima catalase, com raras exceções (S. saccharolyticus e da subespécie S. aureus anaerobius), capazes de crescer em meio contendo até 10% de cloreto de sódio e a temperatura ótima de crescimento está entre 30 e 37ºC. Apresentam colônias grandes em meios de cultura (1 a 2 mm de diâmetro), podem ter tonalidade branca, creme, até o amarelo-ouro (Koneman et al., 2008).
O gênero Staphylococcus apresenta 49 espécies e 26 subespécies (Euzéby, 2014) e divide-se em dois grandes grupos, de acordo com a produção da enzima coagulase, que é responsável pela conversão do fibrinogênio sanguíneo em fibrina: Staphylococcus coagulase positivo, tendo como seu principal representante o S. aureus e os
Staphylococcus coagulase negativo (SCN) onde podemos destacar o S. epidermidis
(Koneman et al., 2008).
Os SCN fazem parte da microbiota normal da pele e mucosas. Dentre os SCN podemos destacar o S. epidermidis. Portanto, um dos principais desafios do trabalho de diagnóstico diário no laboratório de microbiologia é distinguir SCN clínicamente significativo de linhagens contaminantes. Estão entre as bactérias mais frequentemente isoladas no laboratório de microbiologia clínica e vem se tornando cada vez mais importante, especialmente como causas de infecções hospitalares graves.
2.2.6. Enterococcus spp.: Características gerais
Os enterococos são CGP que geralmente se dispõem aos pares e em curtas cadeias. São anaeróbios facultativos, não produzem gases e têm a habilidade de crescer em temperaturas que variam de 10 a 45ºC, apresentando ótimo crescimento a 35ºC com prova da catalase negativa, bile-esculina positivos e crescimento em caldo com 6,5% de NaCl a 45ºC. São naturalmente resistentes a vários ANTs e em diversas situações clínicas os pacientes com infecção necessitam de dois ANTs para o tratamento. Os enterococos são parte da microbiota normal do homem e vertebrados. Podem sobreviver em condições adversas em vários ambientes, tais como solo, água, alimentos e dispositivos médicos (Neuman et al., 1998).