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Parte II: Edificando os pilares de uma ética para clínica psicológica

Capítulo 5: Linhas gerais do pensamento heideggeriano enquanto

Ética, atenta ao cotidiano, é possível de ser alcançada no pensamento heideggeriano. Contributos heideggerianos que colaboram com intuito de alcançarmos ética como morada, advém de sua Analítica do Dasein e do seu compreender ser. Até agora, venho discutindo que embora não tenha explicitado seu interesse por ética, é possível identificar o posicionamento de Heidegger (1946/2005, 2009 e 1927/2012) por esta temática.

Em Heidegger (1927/2012), o filósofo nos apresentou sua Analítica do Dasein, e um novo modo de pensar e compreender o humano é inaugurado. Conforme vimos, compreender, amplia o modo de nos aproximarmos daquilo que somos, nossos modos vistos que somos constituídos e enquanto organizamos nosso existir frente às solicitações cotidianas. Na medida em que compartilhamos a condição de existentes, não sendo esta tratada de acordo com categoria exterior e que serve em direção a nos universalizar, encontramos modos de nos singularizarmos.

Existir singulariza o Dasein, ao passo que este ente humano é privilegiado pela possibilidade de questionar o sentido de ser. Aos outros entes esta possibilidade não ocorre. Logo, o ente humano ao questionar a respeito de sua condição de abertura existencial se encontra, permanentemente, passível de privações, por exemplo, o adoecer e de expandir-se, por exemplo, quando nos relacionamos e exercitamos cuidado.

Somente ao ente que se questiona e que se dispõe à compreensão do ser é possível aproximar-se dos outros entes de formas não objetificantes e não desertificantes66. Tematizar ética é possível a partir do fundamento heideggeriano de que somos lançados no mundo, e que nisto não reside problema. Lançados na abertura existencial, nos encontramos correspondendo, compostos uns-com-os-outros.

Este compor, ao invés de justapor partes isoladas, por exemplo, características e categorias, reúne a condição de não isolamento que nos encontramos. Encontro, em Heidegger (1946/2005), passos em direção a edificar morada ética em que possamos nos abrigar não isolados. Às vezes, agimos acreditando que se acaso fossemos compostos de categorias boas ou más, mais facilmente, encontraríamos explicações que justificassem e punissem quem não coopera adequado às relações coletivas.

A palavra abrigo/morada que associo a ética poderia ser entendida conforme lugar isolado, onde procuraríamos com o objetivo de nos distanciar; no entanto, por abrigo/morada quanto à ética, entendo-o como lugar de apoio no sentido de continuarmos sendo projeto. Viver eticamente contempla desassossegos do relacionar-se, e não isolamentos. Nesta caminhada, com finalidade de edificar morada ética, atualizamos a condição de ser projeto, sem fim previsto e intransponível, com exceção da morte. As indicações que reúno preconizam investirmos na atenção ao estar-no-mundo-com-os-outros, pois nos encontramos em condição privilegiada para nos cuidarmos, ao passo que experimentamos ser livres e responsáveis uns-com-os-

outros.

66 “Que a desertificação se expande e toma conta de nós como um destino. A desertificação é mais poderosa que

a destruição, mais estranha que a aniquilação. A destruição elimina tão-somente o que até agora cresceu e foi construído, enquanto a desertificação põe amarras ao crescimento futuro e veda toda a construção. A aniquilação elimina isso ou aquilo, mas a desertificação encomenda e espalha a própria amarração e vedação” (Loparic, 2004, p. 28).

Nas requisições a fim de que falasse relativamente a ética, o filósofo ressaltou a necessidade de indicativo de regras referentes ao modo como o ente humano experimenta sua existência. Heidegger afirmou que o ente humano só necessita de regras na medida em que ele está entregue ao domínio do ente e distante das questões que povoam o sentido do ser. Na tentativa de chamar atenção para a Analítica da Existência que nos acompanha, destaco os existenciais cuidado, liberdade e responsabilidade conforme constitutivos dos modos de ser do ente humano, mesmo ente que requisita, cotidianamente, a presença de regulamentações que o informe consoante deve viver. Ética apoiada nas questões da existência, conforme preconizo, fortalece humanamente morarmos/habitarmos a condição de ser-com.

O uso da palavra ética pode confundir, sendo usualmente lembrada e requerida enquanto utilidade ao nosso dispor, exemplificando o esquecimento do sentido do ser. Justamente, na vivência do esquecimento do sentido do ser, se dá o espaço propício com relações às requisições de ética no caráter metafísico, voltada à proposição de explicações e regulamentações. Este é o cenário da história do pensamento Ocidental equivalendo à história do esquecimento do ser. Nesta história que se constrói, predominantemente, de acordo com história do ente, encontramos ética voltada ao conhecimento e às ciências que mensuram e se especializam, distanciadas da ética como morada heideggeriana.

Heidegger (1929/1996) propôs a desconstrução da Metafísica e da forma que eram lidos, por exemplo, o tempo e a relação sujeito e objeto, noções importantes a se considerar quando defendemos ética que nos abrigue. Heidegger e Kant compartilharam a ideia de que está no dever do filósofo o questionamento da condição humana. Em adição, alargo a ideia dos filósofos considerando que cabe a todos nós humanos, o questionamento e o zelo da condição humana, a ética se apresenta como possibilidade na direção de efetivar essas tarefas. Ao insistirmos no contínuo zelo e questionamento do sentido do ser, provocaríamos a necessidade de reconstrução

das bases daquilo que nos inspira refletir: as possibilidades mais originárias em direção a esta tarefa.

Ao questionar o sentido do ser, em Heidegger (1927/2012), temos a expressão da Fenomenologia em seu método, este modo de investigação apoia-se em proveniência ontológica e isto se caracteriza num trabalho genealógico. O questionamento quanto ao sentido do ser, proposto por Heidegger, não nos leva a um transcendente, mas à análise daquilo que ele toma na qualidade de acessível, isto é, a existência, tratando-se, portanto, de análise da existência.

Ressalto que a compreensão do ser não visa a compreensão aleatoriamente do ente igualando-os, a desconstrução quanto à uniformização do sentido do ser não visa algo em particular, mas ao que seria o sentido do ser em geral. O abrigo que ética como morada nos contempla, não é sentença a igualar a ética ao padrão que devemos seguir, ao contrário, contempla de maneira que o sentido do ser nos desperte, individual e coletivamente, a fim de organizarmos, coerentemente, nosso pensar, agir e sentir. Nesta direção, os capítulos desta tese seguem admitindo que os modos de ser expressos em cuidado, liberdade e responsabilidade constituem e abrem existencialmente possibilidades de nos organizamos eticamente e, com isso, deslocar entendimentos deterministas que depositam na razão prática justificativas e explicações.

Afinal, estamos em constante ameaça de interpretar sentidos que são vividos, em circularidade corrompida, nos inscrevendo dentro daquilo que desejamos e que estamos habituados a ler, ou seja, nossas conveniências.

Assim, a fim de não assumirmos a postura recorrente, precisamos voltar a atenção não posicionando compreensão segundo modo de conhecimento simplesmente dado, visto que tal feito resultaria na confirmação do sentido que nos motiva. Na Ontologia Fundamental, o Dasein abre mão da estrutura categorial a priori para nos mantermos abertos à Analítica do Dasein e

à condição de existência no mundo que habitamos. Nesta analítica se desfazem objetivações do mundo e subjetividades prontas e reservadas ao ser humano.

Com o Dasein e o apelo às questões existenciais encontramos, em Heidegger, apoio em direção a ultrapassarmos a inautenticidade de apenas seguir as ações conforme se essas estivessem de acordo ou não com leis. Essas leis nos são apresentadas enquanto se funcionassem nos abrigando e laborando aproximadamente deveres, frente às solicitações de mundo, o que nos distancia das dinâmicas de nossas faticidades.

Essa faticidade recorda-nos que estamos no aberto, entregues a nós mesmos, de maneira que nos é exigido mais do que categorias a priori com o intuito de nos refugiarmos, onde as categorias estabelecessem o que devemos fazer e como devemos nos encontrar no mundo. Chamo atenção para o Dasein que existe de modo único, na sua condição genealógica, e em nada se parece com a condição do simplesmente dado.

A Análise Existencial não significa fim ou determinação. Atentar quanto às questões da existência no trabalho clínico psicológico e psicoterapêutico, por exemplo, é um modo de acautelamento frente às noções já estigmatizadas e à reflexão, quanto às possibilidades, dos entes habitarem em suas especificidades. Consoante Barreto (2012), “[…] a compreensão ontológica move a construção da Analítica da existência que consiste na interpretação dos múltiplos modos possíveis de ser do ente, que tem a prerrogativa da existência” (p. 27).

Na compreensão fenomenológica apreendem-se possibilidades e isto não é escondê-las ou amarrá-las, mas admiti-las, no nosso horizonte, enquanto mudanças e redefinições contínuas. Loparic (2008) elucidou a condição de esquema compreensivo associada ao Dasein:

O sentido do ser é projetado pelo homem no horizonte do tempo originário, explicitado por uma nova disciplina filosófica criada por Heidegger: a analítica existencial […] o homem acontece como uma relação ao ser (presença) e que essa relação se realiza não como um ato de consciência, mas como compreensão projetiva do ser e como cuidado pelo sentido do ser, sempre no horizonte do tempo originário (p. 3).

A pergunta pelo ente é, inclusive, pergunta quanto aos seus aspectos representacionais, que quer dizer: como temos acesso ao seu uso? Esta não deixa de ser forma de nos deixar conduzir conforme instrumentos, contudo esta lógica vai de encontro com o que foi defendido em Kant e em Heidegger, ao invés de procurarmos a finalidade de serventia do ente humano, do mundo e das ações, no estilo heideggeriano, retornaríamos ao fundamental, à nossa morada, àquilo que acontece a homens/mulheres e às suas relações. O modo de pensar heideggeriano reflete o modo de pensar ontológico, por isso ele falou no âmbito pós-metafísico e baseado nisto o filósofo repudiou uma Antropologia Filosófica. Questionarmos nossa faticidade contraria a objetivação do ente.

Um exemplo de lógica produtiva para o domínio de natureza material é a lógica transcendental de Kant […]. Tanto as ontologias como as ciências factuais nelas fundadas possibilitam e promovem a objetificação do ente como tal no seu todo. No essencial, a objetificação é um acontecer no ser-o-aí pelo qual o ente é descontextualizado, ou seja, isolado do aí, desmundanizado, e projetado como algo em si mesmo, a ser caracterizado apenas por um ou outro aspecto considerado essencial, a qüididade (Loparic, 2008, p. 6).

A relação de objetivação, posteriormente, associada à técnica envolve o ente numa limitação em que este se apresenta já dado precocemente. Heidegger visualizou perigo às objetivações do humano, além da ameaça de sua destruição, caso o plano da consciência nos absorva. Quando o filósofo propôs Análise Existencial quanto ao modo de existir no mundo, compreendo que abre espaço a inferirmos que no campo da ética como morada precisamos, muito além, de uma evidência entre certo e errado. Defendo considerarmos o compromisso da responsabilidade, do cuidado e da liberdade, a fim de não sermos sufocados entre discursos de certo e errado.

Loparic (2008) inferiu que as experiências, as quais refiro se tratarem do discurso de certo e de errado, se aproximam muito de uma metafísica da natureza, funcionando como se a investigação a respeito da consistência da objetivação pudesse ser sinônima de uma espécie de

representação. Saliento que a pergunta pelo ser e a urgência por objetivação, própria de nosso tempo, situam-nos nos limites generalizando leis. Por exemplo, os princípios categorizados a priori de maneira que equivocados ou corretos só poderiam colocar-se, desta maneira, se fossem anteriores, ao ser-aí, isto é, antes de ser abertura.

Atualmente, vivemos tempos em que o objeto de pesquisa é oculto, não o compreendemos ou o sabemos. O ente humano, na atualidade, encontra-se sozinho diante de si mesmo e a lógica atual de tentar, antecipadamente, conceituá-lo e abrigá-lo, partindo de critérios que adotam princípios das ciências naturais. Além disso, humanamente, ao perseguirmos antecipar formas de representações, convivemos e demonstramos ares de cansaço e de esgotamento na falta ou na liquidez de respostas. Não existem conceitos gerais prontos a serem atribuídos ou mesmo substituídos por outros mais completos.

Verdades corretas e imutáveis exigiriam de nós pressupostos de bases fixas nas quais poderíamos sem qualquer dúvida confiar, arquétipos de critérios estáticos, sem quaisquer variações, porém, de que modo poderíamos consegui-los? E isto é de fato de suma importância? Nossa procura por Ontologia, é mesmo pela Ontologia ou ficaríamos satisfeitos com alguma garantia de que estamos certos e de que temos onde nos refugiar? Há um relativismo que persegue as ciências não naturais, por exemplo, a Psicologia.

Partimos de suposições de que seria possível compreensão, no entanto, não estabelecemos previamente o significado de compreender. Portanto, a ciência moderna, nomeadamente, a Psicologia, tem à sua frente possibilidades conforme projetar-se no anseio permanente de horizontes de sentido ou investigar objeto de pesquisa que unificaria os seres humanos, na posição de regidos por leis universais sobrepostas, aquilo que Nietzsche afirmava tratar-se do domínio do positivismo. Quando ouvimos falar em relação a ética, interpreto que são desejados os efeitos que esta palavra possa fazer nascer, isto repercutiria na idealização de compromissos e de certezas? Como poderíamos pensar a passagem da idealização ao

desocultamento (Alethéia)? Às possibilidades de respostas a essas indagações, persigo não baseando esses exercícios de pensar em lógicas restritivamente positivistas.

Retomando a noção Alethéia é mais do que a verdade, somente esta possibilita a verdade, que apenas pode estar no contexto aberto pela clareira, e o seu desocultar não legisla se tratar de certo ou errado. Na leitura heideggeriana, o diálogo com a ciência que objetiva foi interpretado a partir de sua orientação de pensamento, que se inspirou na fenomenologia husserliana e na metafísica aristotélica. Saliento que em Heidegger, a Metafísica é basilar quanto ao processo de objetivação do ente e Kant trouxe à objetivação um status desvinculado da Ontologia.

Acompanhamos, no desenvolvimento das ciências modernas, a impossibilidade da apreensão uniforme da natureza de modo universal. Humanamente estamos localizados neste limbo que não consegue ser determinado, pois é nele que se desoculta/desvela o ser. Não podemos dizer, afirmar ou negar quanto à especificidade do que é o humano, justamente, porque ele só é sendo.

Permaneço inquieta e indagando esta ética, que nasce ao passo que vamos nos construindo a cada tempo e a cada organização social. Os problemas éticos não nascem do nosso deslumbramento diante do mundo, mas, justamente, quando nos admitimos ignorantes quanto à forma e ao modo de proceder. As questões ligadas à ética na clínica psicológica, a partir da Fenomenologia Hermenêutica de Heidegger, não estão envoltas, necessariamente, ao que foi desvelado/desocultado. A pergunta pelo ente enquanto modo de ser é desveladora, na medida em que, é anterior à presença de sua efetivação.

Creio ser correto afirmar que a linguagem filosófica do primeiro Heidegger – o mesmo valendo, mutatis mutandis, para linguagem do segundo Heidegger – interpela o ser humano no sentido de uma ética originária. O que essa ética pede ao homem é sustentar a abertura do ser, a qual, por sua vez, possibilita os modos de manifestação essencialmente não-objetificáveis do si-mesmo e de outros seres humanos, modos de ser, portanto, que não farão sentido algum se não for obedecida a exigência em questão (Loparic, 2004, p. 24).

O ser-aí heideggeriano é “conexão viva” que não aceita ser refém à exigência por ética, avançou Heidegger em sua analítica, quanto a Kant e seus conceitos a priori que expõe significado visando limitar e expor conceitualmente. Em Heidegger, não há esforço por garantir ao ente humano especificidades dos significados, os quais lhe permitiria permanecer seguro e antecipado. A ética não é este aspecto, não detém esta segurança, por via da regência, por exemplo, das leis casuais ou dos esquemas sistemáticos do que é ser livre, isto resultaria em mais objetivações. Profissionalmente, observo as objetivações nas requisições de garantias, na execução de normas dos códigos deontológicos ou no ratificar da felicidade, tais objetivações nos segregam a agirmos e explicarmos, distanciando-nos abrigados em nós e de sermos ser-no-

mundo.

Alcançar compreensão, no sentido hermenêutico desenvolvido por Heidegger, de que somos uns-com-os-outros não coopera em direção a substituirmos ou ignorarmos nossas relações com ocasiões mais oportunas. A noção de que somos existencialmente ser-com não nos afasta das incertezas, se seremos correspondidos ou esquecidos, inclusivamente, se seremos julgados menos humanos e merecedores de afeto e de cidadania.

Conforme referi, no início deste capítulo, as inquietações não diminuem, o que não se trata de um conformismo, mas adotar nosso habitar no mundo enquanto tarefa incessante, permanentemente, permitir-nos confrontar segundo expressão de cuidado. Além disso, confrontar mostra-se zelo pelo que cerca nossa casa, nosso corpo, nosso modo de estar-no-

mundo. Compreender que somos cuidado é modo de reascender a Analítica do Dasein que é

analítica não porque decompõe, mas, justamente, porque torna ativo o corresponder nosso com entes e não entes.

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