EC – Ensino Clínico
EESMO – Enfermeiro Especialista em Saúde Materna e Obstetrícia OE – Ordem dos Enfermeiros
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É indiscutível que a enfermagem como profissão cresceu em muitos sentidos, baseada em conhecimentos próprios, sedimentada pela investigação nos fenómenos de enfermagem, dando a conhecer-se à população, com muita força de vontade de todos os intervenientes dentro da profissão.
Os Enfermeiros Especialistas em Saúde Materna e Obstetrícia (EESMO), fazem parte de um passado longínquo e de uma cultura antiga, sobrevivente a muitas transformações próprias de cada época. Hoje, trabalham principalmente em meio hospitalar, articulando-se numa equipa multidisciplinar, em que a permanência de boas relações inter-pessoais constitui uma garantia da sua autonomia profissional. Dada a interdependência das profissões na área da saúde, considero ser importante o desenvolvimento de estratégias de parceria ou de interligação com as outras profissões, tendo para isso que assumir o seu lugar no contexto da equipa multidisciplinar. No contexto da acção, na sala de partos de um hospital especializado, o EESMO desenvolve um papel fundamental na intervenção junto das grávidas e família, com o objectivo de os ajudar a viver o trabalho de parto e parto positivamente.
Este diário de aprendizagem sobre competência e autonomia do EESMO, surge como fruto de uma profunda análise, pesquisa e reflexão pessoal relacionada com diversas situações vivenciadas no âmbito do Ensino Clínico (EC) IV.
Le Boterf (2000), considera que a competência é a capacidade de agir eficazmente num tipo de situação, capacidade de utilizar os conhecimentos e recursos, mas não se reduzindo a eles. Considerando que o saber, o saber fazer e as aptidões e qualidades são os recursos inerentes ao profissional na construção da sua competência. Assim, o conjunto de actividades que uma profissão desenvolve, atribui a força para o reconhecimento da sua capacidade e poder (competência), a sua idoneidade.
De facto, a responsabilidade que o EESMO assume é bem distinta daquela a que estou habituada a assumir enquanto enfermeira generalista. Confesso que no inicio desta especialidade foi um aspecto que me causou alguma ambivalência de sentimentos: por um lado, alegria, entusiasmo , expectativa e
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excitação, por outro lado, medo, receio, apreensão, dúvidas, será que vou ser capaz…
No quotidiano de uma sala de partos de um hospital especializado, desenvolvem-se múltiplas práticas, que se enlaçam na grávida, feto/recém- nascido, família. Para além das actividades rotineiras do dia-a-dia, o EESMO desenvolve um leque de intervenções autónomas e interdependentes, que vão ao encontro daquela que é a sua área de intervenção. Segundo a OE (2010, p.1) o EESMO “assume no seu exercício profissional intervenções autónomas em todas as situações de baixo risco, entendidas como aquelas em que estão envolvidos processos fisiológicos e processos de vida normais no ciclo reprodutivo da mulher e intervenções autónomas e interdependentes em todas as situações de médio e alto risco, entendidas como aquelas em que estão envolvidos processos patológicos e processos de vida disfuncionais no ciclo reprodutivo da mulher”.
No decorrer do EC, tenho vindo a aperceber-me que uma das maiores diferenças reside na autonomia e no poder de decisão que se reconhece ao EESMO.
O EESMO, e na ausência da chefia, é responsável por tudo aquilo que acontece no serviço estando por isso atento a todos os casos e a par da evolução de todas as utentes. É o elemento a quem os outros profissionais recorrem quando existem dúvidas, questões, necessidades de ajuda teórica e prática ou ainda especificidades de gestão do próprio serviço. Por vezes existem pequenos sinais, pequenos dados para os quais o enfermeiro generalista não está desperto e é ai, também, que o enfermeiro especialista faz a diferença na identificação precoce de várias complicações.
O EESMO desempenha sem dúvida alguma, um papel multifacetado no qual é responsável não só pela qualidade do serviço de enfermagem, quer ao nível da competência técnico-científica, relacional e ética, quer ao nível individual e colectivo, através da promoção do trabalho em equipa, ou da intervenção nas políticas estratégicas, metodológicas, organizativas e estruturais.
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A autonomia consiste na liberdade que temos em tomar decisões com base nos conhecimentos e competências necessárias ao exercício da profissão. O EESMO assume o conhecimento, a responsabilidade e a competência nos cuidados que presta, devendo adoptar uma posição adequada com as exigências de um agir autónomo. Face a uma situação nova e inesperada que exige uma decisão torna-se necessário não só a mobilização dos conhecimentos que deve possuir, mas também o confronto com a prática e o agir. Agir com sentido de responsabilidade é considerado um meio para garantir a autonomia nas práticas (Costa et al, 2004); (Ferreira, 2005); (Ribeiro, 2009).
Ter autonomia, é não depender de outros profissionais para tomar decisões, é poder decidir sobre as intervenções de enfermagem. Esta autonomia está directamente ligada à responsabilidade, o que implica uma intervenção mais atenta nas práticas, na medida em que se sentem responsabilizados. Agir com sentido de responsabilidade é considerado um meio para garantir a autonomia nas práticas.
0 conceito de autonomia parece assumir especial relevância, quando entendido na área de competências do EESMO, uma vez que se considera ser fundamental saber qual o limite da nossa autonomia; isto é, saber onde acaba a nossa responsabilidade na tomada de decisão e onde começa a responsabilidade de intervenção de outros profissionais. Da mesma forma o conteúdo funcional assume também alguma relevância, na medida em que nos ajuda a discernir, até onde podemos avançar na nossa intervenção de forma autónoma.
O EESMO assume ao longo de todo o processo de trabalho de parto e parto intervenções que desenvolve com autonomia as quais (resumidamente) incidem desde a avaliação das necessidades da grávida, avaliação da dinâmica uterina, analgesia do TP, controlo do ritmo da perfusão de ocitocina, a necessidade de deambulação da grávida, a vigilância do bem-estar fetal, a avaliação da progressão da apresentação, a posição fetal e a compatibilidade feto-pélvica; até, no momento do parto, a decisão de fazer a episiotomia, a
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laqueação e corte do cordão umbilical, a dequitadura e a decisão de como fazer a episiorrafia.
É necessário avaliar cada situação, decidir e intervir, assumindo a responsabilidade da decisão tomada. Torna-se imperativo reflectir sobre as acções praticadas e saber justificá-las correctamente, salvaguardando não só o nosso trabalho mas igualmente defendendo os interesses e as necessidades das utentes.
Os saberes adquiridos pela experiência na prática surgem como importantes para o desenvolvimento das práticas com autonomia. O conhecimento prático associado ao conhecimento teórico reforça ou ajuda a garantir a autonomia nas práticas, porque proporciona mais segurança e toma-se fundamental para a adopção de determinadas atitudes e comportamentos. O conhecimento é uma estratégia e um veículo para garantir a autonomia, permitindo a obtenção de maior confiança para uma acção autónoma e o reconhecimento de capacidades técnico-científicas, importantes na definição profissional perante os outros profissionais (Sardo e Sousa, 2000); (Franco, 2001); (Lucas et al, 2010).
Um outro ensinamento que eu retiro deste EC é a importância da partilha. Partilhar saberes com outros elementos da equipa considerados mais experientes, é um comportamento que se considera facilitar a autonomia, na medida em que valorizar essa experiência, permite tomar decisões com maior tranquilidade. (Ribeiro, 2009); (Lucas et al, 2010). Assim, trabalhar em equipa, respeitando os saberes e competências de cada um dos intervenientes, é sinónimo de autonomia.
Para finalizar gostaria de referir que contribuir para a autonomia é também ajudar a reflectir sobre as práticas, é proporcionar momentos de "pensar sobre o que se faz", em que as situações portadoras de significado constituem o suporte e são o vector para que isso aconteça. Foi isso mesmo, que procurei fazer neste diário de aprendizagem.
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