2.1 RESISTÊNCIA MICROBIANA
2.2.3 Lista de Verificação de Elementos Essenciais
O CDC enfatiza a necessidade de melhoria dos processos que norteiam o uso de antibióticos, como a implementação de programas de gestão centrados nesta prática e entende que esta medida é indispensável para enfrentar o problema da resistência nos EUA (POLLACK, L. A., SRINIVASAN, A., et al, 2014).
Em 2014, recomendou que todos os hospitais americanos implementassem o programa para otimização do uso de antimicrobianos e propôs uma Lista de Verificação dos Elementos considerados essenciais (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION et al, 2014). Inserido neste contexto, estes elementos estratégicos foram elencados, sendo eles: Compromisso da liderança, Prestação de Contas, Expertise em Medicamentos, Ações para apoiar a otimização do uso de antimicrobianos, Monitoramento (da prescrição, uso e resistência microbiana), Relatório de divulgação de resultados (referente à melhoria do uso e resistência microbiana) e Educação (TEAM et al, 2016). A ferramenta, em estudos anteriores, se mostrou útil, para o direcionamento de ações estratégicas, mesmo não sendo necessariamente aplicável para todos os perfis de hospitais (CDC et al, 2014).
Em 2019, novo documento foi publicado pelo CDC, atualizando a publicação anterior que relacionava os Elementos Essenciais para administração de antibióticos em hospitais. A revisão foi baseada fundamentalmente em novas evidências e série histórica de experiência, pautadas no que se compreendeu como sendo elementos principais para o ASP. O documento afirma aplicabilidade da ferramenta para todos
os hospitais, independentemente do seu porte e complexidade (CDC, 2019). Relaciona como sendo os principais elementos do programa de gestão de antibióticos em hospitais: o Compromisso da Liderança Hospitalar, a Prestação de contas, Expertise em Farmácia, Ação (implementação de intervenções para melhorar o uso de antibióticos), Rastreamento do uso de antibióticos e resultados, Relatórios (referentes ao uso de antibióticos e resultados) e Educação (CDC, 2019).
O “Compromisso da Liderança Hospitalar” prevê a dedicação, especialmente das gerências Médica, de Enfermagem e da Farmácia para que seja possível garantir que o desenvolvimento do programa seja eficaz. A escassez de recursos se refere a uma das principais adversidades para o triunfo dos resultados. As lideranças são responsáveis por tentar captar recursos humanos, financeiros e tecnológicos, que auxiliem no alcance dos objetivos do programa (CDC, 2019). Este elemento tem ligação direta com resultados promissores decorrentes da implantação. A alta liderança deve tratar a questão com a prioridade que ela exige, não medindo esforços para que os recursos necessários sejam direcionados de maneira efetiva. Deve existir um compromisso institucional para que a gestão do programa seja conduzida com apoio sólido e disponibilidade racional de recursos humanos, financeiros e tecnológicos, a favor da maximização dos resultados. É fundamental que este suporte seja formal, descrito como políticas e diretrizes institucionais (ANVISA, 2017; TEAM et al, 2016). Segundo Spellberg, B., Srinivasan, A., & Chambers, H. F. (2016) para a eficácia do ASP faz-se necessária a incorporação das melhores práticas, o que inclui a disponibilização de recursos suficientes à gestão do programa e a nomeação de um líder responsável pelo desempenho, com experiência no manejo da antibioticoterapia (SPELLBERG, B., SRINIVASAN, A., & CHAMBERS, H. F., 2016).
A “Prestação de Contas” abrange a necessidade de se ter lideranças responsáveis pela gestão de processos que envolvem o Stewardship e seus respectivos resultados. A liderança efetiva requer perfil compatível para a condução das atividades, além de habilidades de gestão e comunicação, devendo estar bem definidas as responsabilidades e expectativas voltadas para o ASP. A nomeação de Médicos e farmacêuticos, como liderança e co-liderança, respectivamente, tem se mostrado determinante, segundo relatos de experiências exitosas descritas na literatura (CDC, 2019). Deve-se nomear profissionais com perfil, habilidades técnicas e expertises voltadas para o manejo e tratamento de doenças infecciosas. A
responsabilidade designada a estes profissionais perante a liderança da unidade assistencial é fundamental para o cumprimento das metas e objetivos traçados. O perfil dos coordenadores do programa deve incluir experiência no manejo de antibióticos, treinamento em gestão de programas como estes, habilidades de liderança e de trabalho em equipe, dentre outros atributos (BRASIL, 2017; TEAM et al, 2016).
A “Expertise em Farmácia”, descrita anteriormente como “Expertise em Medicamentos”, corresponde a um elemento que prenuncia a escolha de um farmacêutico como co-líder da gestão do programa, para contribuir na condução das medidas e esforços necessários à otimização do uso de antibióticos na unidade hospitalar (CDC, 2019). A literatura aborda que programas altamente eficazes tem envolvimento ativo do farmacêutico na sua liderança, especificamente aqueles om expertise em doenças infecciosas (CDC, 2019).
O elemento “Ação” visa a implementação de intervenções focadas na melhoria do uso de antibióticos. Auditoria e feedback prospectivos e pré-autorização para uso de antibióticos, são alguns exemplos de ações que podem ser implantadas e que apresentam boas evidências de resultados. Trata-se de dois métodos considerados prioritários, segundo os resultados publicados, sendo fortemente recomendados em diretrizes baseadas em evidências e consideradas, portanto, ações fundamentais em programas de gestão de antibióticos. A intenção é que estas intervenções preencham lacunas existentes na prescrição de terapias antibacterianas em hospitais (CDC, 2019). Okumara e col. (2015) também compreendem que estas se referem a estratégias promissoras de intervenção e constataram que estas medidas reduziram o uso de antimicrobianos em ensaios randomizados e controlados. Embora a maioria dos estudos avaliando programas com auditoria prospectiva e feedback, tenha sido conduzida em pacientes de Clínica médica e cirúrgicas, as unidades de terapia intensiva (UTI) podem corresponder a um cenário com maior impacto (OKUMURA, L. M., SILVA, M. M. G., VERONEZE, I., 2015). O plano de intervenções deve ser programado, considerando as necessidades locais da instituição, bem como as oportunidades de melhorias. As ações devem ser monitoradas para que a avaliação de seu impacto possa ser reportada à alta liderança da unidade (TEAM et al, 2016).
O “Rastreamento” envolve o monitoramento da prescrição de antibióticos, a aferição do impacto das ações e de outros resultados importantes, como o acompanhamento de infecções provocadas por C. difficile, bem como identificação
dos padrões de resistência. Medir é fundamental para avaliar processos e resultados, identificando dessa forma chances de melhoria (CDC, 2019). O gerenciamento através do monitoramento de prescrições, do uso e do perfil de resistência é imprescindível para identificação de oportunidades de revisão e aprimoramento de processos, permitindo avaliação do impacto dos resultados. A coleta sistemática de dados relacionados ao uso de antibióticos e do panorama microbiológico do perfil de resistência permitem que os estabelecimentos de saúde avaliem, monitorem, e melhorem as práticas de prescrição de antibioticoterapia (TEAM et al, 2016).
A emissão de “Relatórios” prevê que sejam regularmente disponibilizadas informações referentes ao uso de antibióticos e padrões de resistência bacteriana à equipe multidisciplinar (prescritores, farmacêuticos, enfermeiros) e ainda à liderança hospitalar. Os relatórios deverão contemplar medidas de processo e de resultados. Os dados referentes ao perfil de resistência deverão ser fornecidos pelo laboratório de microbiologia do hospital e serviço de controle de infecções e epidemiologia da unidade (CDC, 2019). A divulgação na instituição dos resultados e dos indicadores se refere a um dos elementos-chave para programas bem-sucedidos envolvendo o uso de antibióticos em unidades de saúde. A gestão compartilhada com a equipe e a alta liderança, envolvendo ainda a gestão da qualidade e serviço de prevenção e controle de infecção, facilita a integração e contribui com os resultados produtivos (BRASIL, 2017).
O último elemento descrito pelo CDC no novo formato da Ferramenta de Avaliação se refere à “Educação” como sendo um componente indispensável à gestão de antibióticos. É preciso mover esforços para melhorar o uso destes medicamentos nos hospitais, educando prescritores, farmacêuticos, enfermeiros e pacientes sobre reações adversas, resistência a antibióticos e prescrição ideal, destacando-se que a educação, por si só, não corresponde à solução das não conformidades envolvidas no manejo destes medicamentos. Uma administração de antibioticoterapia eficaz envolve muito mais, e não deve ficar limitada apenas a este tipo de intervenção (CDC, 2019). As chances de treinamento e capacitação devem ser constantes e disponibilizadas a toda equipe envolvida. Spellberg, B., Srinivasan, A., & Chambers, H. F. (2016) reforçam que prover educação é pré-requisito para o bom desempenho do ASP. Inserido neste contexto, também cabe o envolvimento dos pacientes e familiares para o melhor resultado (BRASIL, 2017; SPELLBERG, B., SRINIVASAN, A., & CHAMBERS, H. F., 2016).
A ANVISA também publicou diretriz, assim como o CDC, que prevê a lista de verificação dos elementos, considerados como sendo essenciais, podendo ser um instrumento de aplicação eficaz, tanto com finalidade de definição de diagnóstico situacional inicial, quanto de acompanhamento periódico dos processos. O uso da ferramenta deve envolver a equipe multidisciplinar (BRASIL, 2017).