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LITERATURA AFRO-BRASILEIRA NO PROGRAMA NACIONAL

A opção pelo acervo do PNBE (BRASIL, 2008b) deu-se em função de pressupormos serem as obras por ele distribuídas as de mais fácil acesso aos leitores, visto que se encontram disponíveis nas bibliotecas das escolas. Partimos do princípio de que as obras de literatura infantojuvenil eleitas pelo Programa representam o que há de melhor no universo atual da literatura, voltado para esse público, inclusive aquelas que versam sobre a questão étnico- racial. Essa condição leva-nos ainda a crer que, no processo de formação leitora sobre o tema das africanidades e afro-brasilidades, a grande maioria das escolas conta com esse recurso para atender ao que prevê a Lei 10.639/2003.

Atemo-nos as obras literárias do PNBE, voltadas para o Ensino Fundamental, anos iniciais e finais, dos anos de 2006 a 2013, período de divulgação no sítio do Ministério da Educação e Cultura (MEC), ponto crucial para nossa escolha, a fim de propormos uma classificação das obras, a partir do tema. Essa classificação visa situar os leitores na literatura que versa sobre as africanidades e afro-brasilidades, percebendo, dentre elas, aquelas cujos os temas podem ser considerados como afro-brasileiros, de acordo com o nosso entendimento.

Vale ressaltar que a obra selecionada por nós, para análise, isto é, Os Reizinhos de Congo, escrita por Edimilson de Almeida Pereira, não consta nesse acervo do PNBE. Muito

embora, o autor da obra escolhida figure como produtor de textos didáticos sobre africanidades e afro-brasilidades no referido acervo. Dentre os materiais produzidos por esse autor está Malungos na escola: questões sobre culturas afrodescendentes e educação (PEREIRA, 2007b). Então, a nossa escolha amparou-se no fato de não encontramos na categoria Ensino Fundamental, séries iniciais e séries finais, entre o ano de 2006 a 2013, uma literatura que se enquadrasse como literatura infantojuvenil afro-brasileira, de acordo com nosso ponto de vista. Entretanto, muitos podem ter sido os fatores que influenciaram para que a obra Os Reizinhos de Congo não integrasse a relação do PNBE, os quais não pretendemos compreender agora, mas em pesquisa futura.

Salientamos que não está no nosso entendimento que deva existir uma relação direta entre esses dois acervos, ou seja, entre os livros didáticos e literários distribuídos pelo PNBE, mas quando o assunto em pauta são as africanidades e afro-brasilidades e, sabendo que poucos leitores conhecem essas culturas em sua profundidade, passamos a considerar que o Programa poderia estabelecer uma relação entre didáticos e literários, como forma de proporcionar aos leitores outra fonte de informação. Essa outra fonte, possível de ser acionada, colaboraria para uma melhor interpretação da obra literária. Outro motivo relevante que nos levou a selecionar a obra literária mencionada deu-se pelo fato de ser ela a que melhor atendeu as nossas expectativas, quanto àquilo que passamos a considerar como uma literatura, voltada para a criança e jovem, esteticamente bem construída e verdadeiramente afro-brasileira. É isso que pretendemos mostrar na análise, na última seção desta tese. Antes, porém, julgamos pertinente apresentarmos algumas informações acerca do PNBE.

O Programa visa “promover o acesso à cultura e o incentivo à leitura nos alunos e professores por meio da distribuição de acervos de obras de literatura, de pesquisa e de referência” (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2012, s.n.p.). Com vistas à democratização da leitura, o Programa busca difundir em escolas públicas, o uso do livro como bem cultural e dotar de independência intelectual os brasileiros, ligados ao sistema público de educação. Em meio a essa proposta de emancipação leitora, tão almejada pela escola pública brasileira nas últimas décadas, acontece no campo da literatura um movimento que tenta “recuperar obras marginais ou silenciadas, para dar voz às minorias, abrindo caminho para que diferentes imaginários sociais fossem afirmados” (MARTINS; COSSON, 2008, p. 53). Se até pouco tempo atrás a literatura canônica ocupava um lugar de referência, quando se pensava em leitura de qualidade, essa visão foi (e continua sendo) desconstruída, por meio do movimento conhecido como contracanône. A busca por afirmação no que se refere à cultura africana e afro-brasileira configura-se, no Brasil, como uma necessidade, bem como uma obrigação, a

partir da promulgação da Lei 10.639/2003. A principal exigência é proporcionar aos brasileiros conhecimentos relativos às raízes da cultura africana e afro-brasileira, bem como reconhecê-las e valorizá-las enquanto constituinte da nossa própria cultura. Conforme Martins e Cosson,

O campo da educação não ficou imune às disputas em torno do cânone literário, uma vez que a formação dos alunos passa necessariamente pelas obras que são lidas e valorizadas nas escolas, nem ao multiculturalismo e às suas demandas de inclusão e reconhecimento das diferenças, que exigiram uma revisão da igualdade cega que dominava o ambiente escolar (MARTINS; COSSON, 2008, p. 53-54).

Esses pesquisadores, assim como nós, reconhecem que muito do desenvolvimento em leitura, em tempo presente, tem a escola como lócus principal e que, por isso, ela passa por transformações constantes, tendo por fim adequar-se às novas demandas de ensino. As exigências sociais da atualidade solicitam um deslocamento da visão “da igualdade cega”, como mencionado, especialmente, em relação à condição pluriétnica de que é composta a sociedade brasileira e nela destaca-se a cultura das Áfricas, assim como a afrodescendente. Essa é uma das razões para o PNBE ofertar obras de literatura que versam sobre o referido tema.

É importante lembrar que o PNBE está presente na educação brasileira desde 1998. Contudo, retrocedendo um pouco, encontramos outros programas que tiveram intuito semelhante, em décadas passadas, visando ao acesso à leitura da literatura. Nessa direção Zilbermam assevera,

Oriundo do poder público federal é o projeto de financiamento de publicações de obras literárias, por intermédio do Instituto Nacional do Livro. Este implantou, nos anos 70, uma política de co-edições que patrocina parte do custo de produção de textos, responsabilizando-se também pela distribuição de sua cota de livros, procurando, com isso, suprir bibliotecas públicas nos níveis estadual e municipal (ZILBERMAN, 1995, p. 125).

É possível perceber por essa exposição, que a preocupação com a formação leitora, pelos órgãos oficiais, não é recente. E, ainda, que os programas foram sendo, aos poucos, ampliados e reorganizados. Embora o PNBE esteja em ação desde 1998, somente no ano de 2006 encontramos a relação de livros literários selecionados pelo MEC, disponibilizada no sítio do referido órgão, divididos em acervos e identificados de acordo com o nível escolar a que se destinam. O histórico do PNBE informa também que, a partir do ano de 2007,

[...] foi mudada a nomenclatura do PNBE. Até 2006, o nome do programa se referia ao ano de aquisição. Em 2007, passou a referir-se ao ano de atendimento. Assim, os livros do PNBE 2008 foram adquiridos em 2007. Os livros do PNBE 2009 foram adquiridos em 2008 e assim por diante. Desta forma, não existiu uma versão do programa “PNBE 2007” (FUNDO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO DA EDUCAÇÃO, 2013, s.n.p.).

Quanto aos outros programas que precederam o PNBE, Zilberman (1995), Antunes (1995), Yunes (1995) apresentam alguns: Programa “Salas de Leitura”, da Fundação de Assistência ao Estudante - FAE; Programa “Ciranda de Livros” e “Viagem à Leitura”, com parcerias da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e Instituto Nacional do Livro, bem como a Fundação Nacional Pró-leitura; Projeto “Livro mindinho seu vizinho”, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e Associação de Moradores do Rio de Janeiro e outros estados; Projeto “Meu livro, meu companheiro” e “Projeto “Leia criança, leia”, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil; Programa “Re-criança”, Ministério da Previdência Social e participação da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Esse cenário mostra que os investimentos feitos, procurando melhorar a qualidade leitora bem como ampliar o número de leitores no país, foram expressivos.

Fica claro que há (e houve), por parte dos órgãos governamentais, um interesse em atender a demanda social de uma educação voltada para uma cidadania democrática, e a distribuição de obras literárias que contemplam os mais diversos temas pelo PNBE é um exemplo disso. Mas, essas intenções, ainda hoje, apresentam problemas de várias ordens, principalmente, quando se trata das questões étnico-raciais, visto que deixa a desejar no que concerne ao previsto na Lei 10.639/2003. Um dos problemas verifica-se em relação à quantidade e distribuição de obras sobre o tema, a qual é infinitamente menor que as demais; o outro liga-se ao acesso aos livros que, muitas vezes, são guardados nas escolas, deixando os leitores sem um acesso amplo a eles. A pesquisa e publicação intitulada Avaliação diagnóstica do Programa Nacional Biblioteca da Escola - PNBE, realizada com professores, diretores, coordenadores pedagógicos, responsáveis por bibliotecas, estudantes e familiares, no ano de 2003, visou “investigar a realidade das práticas pedagógicas em torno das obras distribuídas pelo Programa Nacional Biblioteca da Escola” (BRASIL, 2008b, p. 9). Essa pesquisa concluiu que “o cotidiano das escolas visitadas pelas equipes, as condições sociais onde estão inseridas, revelam o PNBE como uma ação cultural de baixo impacto em políticas de formação leitor e produtor de textos” (BRASIL, 2008b, p. 123). Acreditamos que, pelo tempo decorrido, desde a coleta de dados da referida pesquisa, essa realidade tenha melhorado um pouco, mas sabemos que, muito ainda há por ser feito. Outro fator que não está ligado ao

PNBE, mas não se mostra menos relevante, é a falta de conhecimentos específicos, por parte daqueles que são os responsáveis pela formação em leitura e cultura africana e afro-brasileira, para a realização de um trabalho mais profícuo com essa literatura. Acrescenta-se a isso a falta de conhecimentos por parte de muitos leitores sobre as questões afro-brasileiras. Nessa direção, Pereira argumenta,

Estamos cientes de que a geração de práticas educacionais baseadas nas culturas africanas e afrodescendentes (assim como em outros referentes culturais) depende de um sólido conhecimento de suas fundamentações simbólicas, de seus modos de percepção do meio ambiente e de seus sistemas sociais, políticos e econômicos” (PEREIRA, 2007b, p. 12)

Compreender as várias faces que envolvem tanto o processo de leitura como as culturas africanas e afrodescendentes, exigem além de conhecimentos amplos, critérios para a leitura. A partir dos aspectos simbólicos da cultura é possível entender o foco temático, escolhido para a construção do enredo das obras literárias, disponíveis no acervo do PNBE. A partir dessa percepção, pode-se explorar a leitura de forma mais segura.

O PNBE tem sido tomado como foco de múltiplas pesquisas, tanto aquelas voltadas para a leitura e formação leitora, como outras que buscam discutir acervos que tratam das questões relacionadas à afro-brasilidade. Neste último viés, encontramos Venâncio (2009), com Literatura infanto-juvenil e diversidade e, ainda, Martins e Cosson (2008), em Representação e identidade: política e estética étnico-racial na literatura infantil e juvenil. A pesquisa de Martins e Cosson (2008) tomou como corpus as obras inscritas no PNBE8, buscando respostas para as seguintes questões:

Como a literatura infantil e juvenil no Brasil responde contemporaneamente às demandas étnico-raciais de identidade e representação dos negros? Qual o alcance desses conceitos no campo literário e como são articulados na literatura infantil e juvenil que trata da cultura afro-brasileira? Quais as características dessa literatura infantil e juvenil que circula no Brasil contemporaneamente tendo como base o acervo do PNBE? (MARTINS; COSSON, 2008, p. 56).

Os resultados do trabalho são apresentados em forma de artigo na obra Literatura Infantil: políticas e concepções (MARTINS; CASSON, 2008). Esse trabalho colaborou com as nossas reflexões, em especial a resposta encontrada para a última pergunta, que versa sobre

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As obras inscritas no Edital, corpus da pesquisa de Martins e Cosson (2008), refere-se a inscrição de obras de literatura no processo de avaliação e seleção para o Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) de 2008, realizada pelo MEC, em Brasília, no ano de 2007. Deve ficar claro que não são exatamente as obras selecionadas e adquiridas pelo PNBE. Chegamos a essa conclusão comparando os títulos das obras mencionadas na pesquisa de Martins e Cosson (2008), quando percebemos que, alguns títulos citados na pesquisa, não se encontram na relação disponibilizada no sítio do MEC, no PNBE, ano 2008.

as obras do PNBE,

[...] a literatura infantil e juvenil que trata da cultura afro-brasileira no PNBE pode ser visualizada em quatro grandes grupos [...] um grupo de textos, talvez o mais extenso, que pode ser denominado de base cultural, porque busca resgatar e registrar a literatura oral, notadamente lendas, mitos, fábulas e outras narrativas tradicionais [...] Também se registra nesse grupo a presença de obras de caráter mais informativo [...] O segundo agrupamento é composto pelas biografias de personagens históricas [...] Os dois grupos seguintes são constituídos por narrativas que, apesar de trazerem o negro como personagem principal, assumem diferentes direções na sua representação. O terceiro [...] encena o período de escravidão [...] há um predomínio da denúncia social, mostrando que o racismo originado com a escravidão continua discriminando e oprimindo a população afro-brasileira. O quarto [...] percorre caminhos de afirmação da identidade que não passam pela denúncia do racismo, trazendo protagonistas negros em situações menos marcadas (MARTINS; COSSON, 2008, p. 65-66).

De imediato podemos perceber que a pesquisa parte do princípio de que as obras presentes no PNBE tratam da cultura afro-brasileira, isso, por certo, se deve ao fato do estudo realizado por Martins e Cosson (2008) centrar-se nas questões de representação e identidade dos negros nessa literatura e em obras contemporâneas. Embora a pesquisa de Martins e Cosson tenha um foco diferente do estabelecido em nossa pesquisa, a classificação das obras do PNBE em quatro grandes grupos, feita pelos pesquisadores, servem-nos de parâmetro para a categorização das obras que têm por tema as culturas afro-brasileiras. Outro aspecto relevante é que a referida pesquisa deixa evidente a diversidade de focos que compõem as obras literárias infantojuvenis no PNBE do ano de 2008.

Dito de outra forma, ainda que o nosso foco de estudo não esteja voltado para as representações e identidades nas obras literárias afro-brasileiras, o resultado da pesquisa elencada, acerca das referências sobre o PNBE, serve-nos para inferir sobre os temas propostos nas obras distribuídas pelo Programa. Ao considerarmos a perspectiva de Martins e Cosson (2008), os quatro grandes temas são: 1) obras que tratam da cultura tradicional, pelo viés literário e informativo, com destaque para o aspecto da oralidade; 2) obras que adotam a biografia de personalidades como ponto central; 3) narrativas que enfocam a discriminação e a opressão, vivenciadas pelos negros desde o período da escravidão; 4) as obras em que a denúncia de racismo não se sobressai e os personagens negros aparecem de maneira mais afirmativa.

No intuito de propor outra possibilidade de categorização, a partir das classificações propostas pelos autores estudados anteriormente, como Bernd (2003) Martins e Cosson (2008), elaboramos outra classificação para o acervo da PNBE, tendo por base

exclusivamente os temas veiculados pelo Programa. Assim, os temas passam a ocupar a seguinte ordem, na nossa pesquisa: 1) obras que tematizam a África ou as histórias da África; 2) obras que abordam a cultura negra, o negro e as questões raciais; 3) obras literárias que têm como tema a cultura afro-brasileira. A decisão por esses três temas deu-se, a partir da leitura das obras ou de resumos, quando não foi possível ter acesso à literatura.

Ao darmos preferência, neste estudo, para a classificação do tema e, a partir dele, identificar as obras literárias infantojuvenis como sendo afro-brasileira ou não, sabemos dos riscos que essa leitura pode trazer. Estamos cientes, também, de que se trata de um olhar particular, de pesquisadora, sem, contudo, acreditar que seja essa a única possibilidade de categorização. É importante ressaltar que consentimos na existência de pontos de vistas específicos, em cada empreendimento que visa classificar obras literárias. Pudemos perceber isso em Amâncio, Gomes e Jorge (2008) quando traçam os objetivos da literatura, assim como na classificação de Bernd (2003) quando define literatura negra, afrodescendente ou afro-brasileira.

Na intenção de deixarmos mais clara a ideia que defendemos quanto à classificação dessas obras, apresentamos, na sequência, por meio de um Quadro, os pontos de convergência e distanciamentos entre a classificação realizada na pesquisa de Martins e Cosson (2008) e a nossa proposta. A diferença mais marcante estabelece-se na concepção que adotamos para o que seja a literatura afro-brasileira. Quando comparado os grupos de classificação da literatura afro-brasileira, os encontrados por Martins e Cosson (2008) e a nossa proposta, os temas das obras mostram-se da seguinte forma (Quadro 2):

Quadro 2 - Comparação entre os temas, segundo Martins e Cosson e a proposta desta tese

Classificação em Martins e Cosson (2008) Classificação da nossa pesquisa

1º Obras que tratam da cultura tradicional (textos literários e informativos com destaque para a oralidade)

1º Obras que versam sobre a África ou as histórias da África

2º Biografia de personalidades negras ou

afrodescendentes

2º 3º Narrativas que enfocam a opressão e discriminação

vivenciadas pelos negros desde a escravidão.

3º Obras que versam sobre a cultura negra, o negro e as questões raciais

4º Narrativas em que personagens negros aparecem de maneira afirmativa.

5º 5º Narrativas que tematizam a cultura afro-brasileira

FONTE: Autora desta pesquisa.

Em relação ao primeiro item não ocorre divergência entre uma pesquisa e outra, visto que a grande maioria das obras literárias infantojuvenis versa sobre a África ou as histórias da

e sobre a África, resgatando a cultura tradicional do povo africano. Constatamos nas obras literárias desse primeiro item, assim como Martins e Cossoni, uma ênfase aos aspectos da oralidade, visto ser esse um recurso marcante nessa cultura. Entre os textos em que o caráter informativo se sobressai, os quais foram citados em Martins e Cosson, estão: O Congo vem aí, de Sergio Capparelli; e Um passeio pela África, de Alberto da Costa e Silva. Porém essas obras não constam na relação de obras selecionadas pelo PNBE de 2008. Isso nos leva a inferir que, possivelmente, não tenham sido aprovadas pela comissão do Programa. Como comentamos anteriormente, a pesquisa realizada por esses pesquisadores tomou como referência as obras inscritas no Edital do MEC/2007, isso leva-nos a crer que nem todas foram aprovadas, e dentre elas estão as duas obras referenciadas por Martins e Cosson (2008).

No que tange ao segundo item, composto por biografias de personagens históricas, Martins e Cosson trazem, como exemplo, a obra O Rei Preto de Ouro Preto9, de Sylvia Orthoff, a qual relata a história de um escravo que comprou sua liberdade durante o período colonial. Nesse aspecto, nossa tese diverge da classificação feita, ou seja, como literatura de cunho biográfico, tendo em conta que a obra trata, a nosso ver, sobre o negro e as adversidades vividas pelos escravos, por ocasião da escravatura. Dessa forma, esclarecemos que a nossa classificação, primeiramente, não contempla a categoria biografia. Segundo, entendemos que o tema tratado na obra citada, relaciona-se ao tema três, isto é, cultura negra, o negro e as questões raciais, de acordo com nossa classificação.

Os itens terceiro e quarto, da pesquisa de Martins e Cosson (2008), equivalem, também, ao que classificamos no terceiro item, ou seja, as obras que versam sobre a cultura negra, o negro e as questões raciais, não se configurando, portanto, em nossa opinião, como sendo literatura afro-brasileira. Isso porque, essas obras não trazem como temática, específica, uma situação que se possa compreender como sendo decorrente de uma miscigenação cultural. Nessa perspectiva comparativa, o quinto item, isto é, as narrativas que versam sobre a cultura afro-brasileira, não aparecem na pesquisa de Martins e Cosson (2008) e são inexistentes na relação do PNBE como se pode constatar nos Quadros na sequência.

Lembramos que os dados expostos nos Quadros que se seguem, trazem informações acerca das obras distribuídas pelo PNBE, nos anos de 2006 a 2013, para o Ensino Fundamental, séries iniciais e finais, com exceção do ano de 2007 (Quadro 3). Essas informações foram coletadas no sítio do MEC, em http://www.fnde.gov.br, em trinta de setembro de 2013.

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A história, contada em rimas, refere-se a um rei negro que, traído pelos brancos, torna-se prisioneiro junto com seu povo e é trazido ao Brasil como escravo. O tema gira em torno do sonho de liberdade de todos os cativos, exaltando aqueles que lutaram por todo o tempo pela liberdade, sem deixar escravizar a mente.

Quadro 3 - Classificação das obras do PNBE por temas

TÍTULO AUTOR

TEMA 1 – A ÁFRICA OU HISTÓRIAS DA ÁFRICA – ANO 2006

A gênese africana- contos, mitos e lendas da África Dinah de Abreu Azevedo

Histórias africanas para contar e recontar Rogério Andrade Barbosa