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Literatura Comparada: um vasto campo de estudo

A Literatura Comparada é uma das áreas de investigação do analista literário. Nitrini (2000, p.19-20) afirma que delimitar o campo da disciplina de Literatura Comparada é tarefa difícil, uma vez que “seus conteúdos e objetivos mudam constantemente de acordo com o espaço e o tempo”. A pesquisadora aponta que a Literatura Comparada encontra suas origens com a gênese da própria literatura, tendo em vista que bastou a existência de duas literaturas, a grega e a romana, para que elas fossem comparadas. Entretanto, o século XIX constitui um marco temporal para que a Literatura Comparada se consolidasse enquanto disciplina acadêmica no contexto europeu.

Um dos primeiros estudiosos que definiram a Literatura Comparada, Philarèt Chasles (apud NITRINI, 2000, p.20) concebe-a enquanto uma possibilidade de avaliação da influência “de pensamento sobre pensamento”, abarcando a forma pela qual os povos transformam-se mutuamente e o levantamento daquilo que cada um dos povos ofereceu e recebeu, contemplando-se os mais diversos intercâmbios entre a literatura e as expressões humanas.

Na visão de Carvalhal (2010, p.74), a disciplina constitui-se em uma maneira específica de interrogação dos textos literários na interação com outros textos, sejam eles literários ou não. Ultrapassando as barreiras textuais, a Literatura Comparada também tem interesse pela relação dos textos literários com outras

formas de expressão cultural e artística, a exemplo da Psicologia, Folclore, História, Música e Cinema, contemplando, assim, vários aspectos da relação interliterária.

Acentua-se, então, a mobilidade da literatura comparada como forma de investigação que se situa “entre” os objetos que analisa, colocando-os em relação e explorando os nexos entre eles, além de suas especificidades. Os estudos interdisciplinares em literatura comparada instigam a uma ampliação dos campos de pesquisa e à aquisição de competências. (CARVALHAL, 2010, p.74)

De igual modo, Henry Remak (apud CARVALHAL, 2010, p.74) classifica a Literatura Comparada como um estudo que vai além das fronteiras de um país em particular e que abrange a análise de vínculos entre literatura e outras esferas da expressão humana, abarcando diversas áreas de conhecimento, a exemplo da Filosofia, as Ciências Sociais, a História e outros terrenos profícuos para a produção de conhecimento e cultura que são explorados pelo homem. Nesses espaços de conhecimento, o analista literário comparativista trafega em busca de analogias.

Carvalhal (2010, p.85) acrescenta que os estudos comparativistas devem colaborar para a estruturação de uma “história das formas literárias” e concepção de um traçado de sua evolução, “situando crítica e historicamente os fenômenos literários”. Para a autora, a investigação das hipóteses intertextuais, com o estudo dos modos de absorção ou transformação em que se observa a maneira como um sistema incorpora elementos alheios ou os rejeita, oferece a possibilidade de vislumbrar os processos de assimilação criativa dos elementos. Com tal perspectiva, favorece o conhecimento das peculiaridades inerentes a cada texto, bem como ilumina os processos de produção literária, promovendo sua compreensão.

Entendido assim, o estudo comparado de literatura deixa de resumir-se em paralelismos binários movidos somente por um “ar de parecença” entre os elementos, mas compara com a finalidade de interpretar questões mais gerais das quais as obras ou procedimentos literários são manifestações concretas. Daí a necessidade de articular a investigação comparativista com o social, o político, o cultural, em suma, com a História num sentido abrangente. (CARVALHAL, 2010, p.86).

Nitrini (2000, p.125-126) esclarece que, embora o campo de estudos da Literatura Comparada desenhe-se amplo e contemple distintos métodos e finalidades, “uma questão medular congrega todas as discussões em torno do conceito de influência” – com o objetivo de afirmá-la ou negá-la, conforme a concepção teórica do pesquisador, bem como substituindo a concepção de

influência por um novo conceito, como o da intertextualidade. A autora aponta que, a partir da segunda metade do século XX, a teoria da intertextualidade foi recebida pelos comparativistas “como um instrumento eficaz para injetar sangue novo no estudo dos conceitos de fonte e influência” (NITRINI, 2000, p.157-158).

Leyla Perrone-Moisés (1978, p. 59) reitera que recorrer a outros textos para escrever um novo é um recurso que nasce com a Literatura. Para a autora, “em todos os tempos, o texto literário surgiu relacionado com outros textos anteriores ou contemporâneos”, de forma que “a literatura sempre nasceu da e na literatura”, podendo-se comprovar esta característica ao analisar as relações temáticas e formais de grandes obras do passado com relação à Bíblia.

Para Carvalhal (2010, p.50), a partir da concepção do termo intertextualidade, mérito de Julia Kristeva, em 1969, o processo de escrita deve ser considerado resultante do processo de leitura de uma coletânea literária que o precede, caracterizando todo texto como a absorção e réplica de outro escrito:

O texto literário insere-se no conjunto dos textos: é uma escritura-réplica (função ou negação) de um outro (de outros) texto (s). Pelo seu modo de escrever, lendo o corpus literário anterior ou sincrônico, o autor vive na história, e a sociedade se escreve no texto. A ciência paragramática deve, pois, levar em conta uma ambivalência: a linguagem poética é um diálogo de dois discursos. Um texto estranho entra na rede da escritura: esta o absorve segundo leis específicas que estão por se descobrir (KRISTEVA, 2012, p.176).

Na concepção de Cury (2003, p.45), o escritor é um porta-voz de um patrimônio cultural coletivo. Em consequência, ainda que não se perceba como um ser social, o escritor demonstra em sua produção “uma confluência de práxis coletivas”, que perpassam não apenas a literatura, mas outras práxis coletivas relativas à sua atividade noutros campos sêmicos do trabalho social, de modo que o escritor quando engajado “procura ter consciência dessa inserção social”.

A compreensão do texto literário nessa perspectiva conduz à análise dos procedimentos que caracterizam a relação entre os diversos textos. Diante disso, a concepção de invenção não estaria ligada à ideia do novo, mas sim ao fato de que ideias e formas se cruzam continuamente, estabelecendo novas formações e padrões. Para Carvalhal, a análise intertextual muda o posicionamento do pesquisador de Literatura Comparada:

Essa é uma atitude de crítica textual que passa a ser incorporada pelo comparativista, fazendo com que não estacione na simples identificação de relações, mas que as analise em profundidade, chegando às interpretações dos motivos que geraram essas relações. Dito de outro modo, o comparativista não se ocuparia a constatar que um texto resgata outro texto anterior, apropriando-se dele de alguma forma (passiva ou corrosivamente, prolongando-o ou destruindo-o), mas examinaria essas formas, caracterizando os procedimentos efetuados (CARVALHAL, 2010, p. 51-52).

Carvalhal (2010, p.57-86) reitera que diversos pesquisadores daquilo que atualmente é classificado como Literatura Comparada estudaram as relações entre textos e aqueles que os precedem. Dentre os estudiosos dessa disciplina, a autora realça T. S. Eliot, Jorge Luiz Borges, Harold Bloom e Kristeva, os quais descrevem e investigam de formas diferentes as relações entre textos. No Brasil, destacam-se os estudos de Afonso Romano de Sant’Anna a respeito dos mecanismos intertextuais, os quais, na visão de Carvalhal, prolongam as considerações iniciais de Tynianov e de Bakhtin (CARVALHAL, 2010, p.52).

Com essas observações, rememora-se aqui o fio condutor do posicionamento teórico e analítico desta pesquisa, que visa apresentar conceitos de intertextualidade, adotando-se a perspectiva de Kristeva (1969), complementando-a com os apontamentos de Claude Bouché (1974) e Gérard Genette (1982). De modo mais prático, este trabalho objetiva analisar nas obras Cato (Joseph Addison) e Catão (Almeida Garrett) os mecanismos que dão corpo à técnica de escrita intertextual, verificando-se a hipótese de que o drama garrettiano apresenta mecanismos intertextuais que se diferenciam daqueles já observados na literatura acerca do tema.

Para tanto, nas próximas páginas, apresentar-se-á mais a fundo o conceito de intertextualidade segundo os autores mencionados e a descrição das técnicas que tornam isso possível, exemplificando-as no capítulo seguinte, por meio de excertos extraídos das obras analisadas.