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Para tentar conceituar a literatura infantil, recorremos a Peter Hunt (2010), em seu texto Definição da literatura infantil18. Ao tratar de aspectos da definição, esse autor afirma que não pode haver uma definição única de literatura infantil, pois o que pode ser considerado

um bom livro, depende da visão que adotamos, por exemplo: “bom” pode ter sentido prescritivo pela corrente/literária dominante, também pode ser considerado “bom” em termos de eficácia para educação, ou “bom” em sentido moral, etc. Hunt (2010) afirma, ainda, que há uma grande discordância quanto à possibilidade de se abordar a literatura infantil da mesma maneira que a literatura adulta, tendo em vista que alguns estudiosos defendem a ideia de que a literatura infantil é inferior à literatura adulta e, por isso, não pode ser avaliada de acordo com os mesmos critérios, enquanto já há outros que defendem justamente o contrário.

Para Hunt, a literatura não pode ser conceituada como útil por seus aspectos superficiais, é necessário extrair sensações ou reações do leitor e isso formará as opiniões da criança. Todavia, muitos podem compreender a linguagem literária como algo que define a literatura, “[...] o que o leigo normalmente se refere por „linguagem literária‟ é uma linguagem desviante e inacessível” (HUNT, 2010, p. 89). Nessa via, é comum pressupor que a apreciação estética não seja algo disponível à criança.

A literatura se define, segundo Hunt (2010), de acordo com o seu público, ou seja, a literatura é um termo-valor, de modo que não há como pensar em literatura infantil sem pensar na criança. No mesmo sentido, Daniel Goldin Halfon (2012) preceitua que a história da infância se vincula à história da literatura infantil. Nesses termos:

Vincular as histórias da infância e da literatura infantil é escrever a história do sentido extraído da literatura pelas crianças e, ao mesmo tempo, a história do significado que a literatura deu a inúmeros gestos, a vidas que não foram resgatadas por nenhum discurso; vidas que devemos intuir a partir de vagos indícios, pois um dos maiores problemas que a pesquisa historiográfica enfrenta nesse campo é a escassa existência de testemunhos ou fontes históricas. (HALFON, 2012, p. 57). Verificamos que Halfon (2012) também relaciona a literatura infantil à história da infância, contudo afirma que há uma dificuldade nessa historiografia. Com vistas a esse posicionamento, acreditamos também que é necessário definir o que vem a ser a infância. Para Halfon, o que chamamos de infância varia de acordo com a cultura e com o momento histórico, e não pelos padrões biológicos ou de faixa etária. Por isso, ele entende que as determinações do conceito de infância são culturais.

Larrosa (2013) trata a infância como enigma ao afirmar que as crianças “[...] são seres estranhos dos quais nada se sabe, esses seres selvagens que não entendem nossa língua.” Nessa perspectiva, traz à baila dois pontos de vista simultâneos e controversos. Primeiramente, aduz que a infância é “[...] algo que podemos explicar e nomear, algo sobre o qual podemos intervir, algo que podemos acolher.” (p. 184). Sendo assim, a infância se

referiria ao nosso conhecimento sobre as crianças e nossa adaptação a elas. Em contraposição a essa tentativa de definição, o mesmo autor diz que “[...] a infância é um outro: aquilo que sempre além de qualquer tentativa de captura, inquieta a segurança de nossos saberes, questiona o poder de nossas práticas e abre um vazio em que se abisma o edifício bem construído de nossas instituições de acolhimento.” (p. 184), de sorte que, neste último sentido, parece se referir ao vazio, ao questionamento, à inquietação. Reforçando, dessa forma, o caráter enigmático da infância.

Em virtude do exposto, podemos perceber que não há um conceito claro do vem a ser a infância. Consoante Hunt (2010), como a definição de infância não é estável, consequentemente a definição de literatura infantil também não o é. Destarte, o autor apresenta a definição de que a literatura infantil pode ser entendida como “[...] livros lidos por; especialmente adequados para; ou especialmente satisfatórios para membros do grupo hoje definido como crianças.” (p. 96).

Zilberman (2005) tem um posicionamento semelhante, no que concerne à definição dos livros para crianças, afirmando que a literatura infantil se refere aos livros que predominam na nossa primeira década e meia de vida, os quais contribuíram para construção de nossa biblioteca interior:

Poder-se-iam definir os livros para crianças por essa característica: são os que ouvimos ou lemos antes de chegar à idade adulta. Não significa que, depois, não voltaremos a eles; importa, porém, que o regresso se deva ao fato de terem marcado nossa formação de leitor, imprimirem-se na memória e tornarem-se referência permanente quando aludimos à literatura. (ZILBERMAN, 2005, p. 10-11).

Hunt (2010) acredita que parte da definição de literatura infantil implica em verificar se o texto foi expressamente escrito para crianças reconhecidas como crianças, com uma infância legitimada na atualidade. Por fim, o autor afirma que o livro pode ser definido em termos do leitor implícito, ou seja, a partir de uma leitura cuidadosa, ficará claro a quem o livro se destina: quer o livro esteja totalmente do lado da criança, quer favoreça o desenvolvimento dela ou a tenha como alvo direto. Então, o que define o valor da obra depende das circunstâncias de seu uso.

Consoante Halfon (2012), a palavra infância vem do latim infantia que significa mudez. Assim, a infância estaria relacionada ao sujeito que não fala, que não detém a voz. Contudo, o autor explica que a evolução da literatura infantil se relaciona, diferentemente, com um sujeito que tenha o direito de falar reconhecido. Nessa perspectiva, “[...] a evolução da literatura para crianças deixou de ser uma literatura infantil, ou seja, uma literatura para ser

ouvida e acatada (não para fazer falar), para uma literatura que busca ou propicia, de diversas formas, o diálogo, a participação ativa das crianças no mundo.” (HALFON, 2012, p. 59). Logo, para compreendermos melhor o conceito de literatura infantil é necessário compreendermos também, seu percurso histórico.