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3 A ESCRITURA E A DYFERENÇA

3.2 O INÍCIO DA ESCRITURA

3.2.2 Livro, programa e jogo

3.2.2.1 O programa gramatológico

Convertendo o problema clássico da metafísica para uma linguagem mais contemporânea, poderíamos afirmar que a mathesis universalis platônico-teológica era a busca do programa universalíssimo. Não por acaso as novas tecnologias, ao mesmo tempo em que invadem o espaço do puro inteligível, contêm a ambivalência de ressuscitar o sonho da "computação universal", isto é, uma "teoria de tudo" que explique a realidade em termos computacionais600. Depois de uma quarentena da noção de programa utilizada diversas vezes

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Em trabalho posterior, Meillassoux passa a nomear as "qualidades primárias" cartesianas como figuras enquanto "propriedades necessárias" (MEILLASSOUX, Quentin. Iteration, reiteration, repetition, p. 11). 600 DERRIDA, Jacques. O livro por vir (PM), pp. 30-31.

em "Da Gramatologia"601, Derrida o retoma exatamente para falar de Platão em "Khora". O que a filosofia idealista buscava era o programa do mundo: segundo a imagem duplicada e suas formas diferenciadas, trata-se de encontrar o Livro secreto cujas regras correspondem ao

logos do mundo. A codificação oculta das leis do Livro que comanda a natureza aparece a

partir da verdade (lógico-matemática-calculatória) enquanto desvelamento transparente desses códigos cifrados. O "programa dos programas" para a tradição, portanto, era nele próprio

logos (eterno, essencial e suprassensível), um algoritmo geral que a ciência (a metafísica, a

teologia, enfim, todo campo do logos) desvelaria ao longo do seu desenvolvimento histórico por meio de mensagem revelada602. A transparência cobiçada pela filosofia, inclusive no privilégio do ar como elemento fonocêntrico, é a possibilidade de revelar o logos intrínseco que comanda e começa o mundo, seu arconte ou telos.

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Por que, então, Derrida enuncia sua matriz teórica como "programa gramatológico"? A gramatologia insere-se no corpo de teorias pós-cibernéticas que procuram repensar o âmbito transcendental a partir da escritura, gerando uma teoria geral que permite cruzar os domínios separados do natural, cultural e artificial. A própria noção de programa atravessa esses domínios (pro-gramma)603. Nesse sentido, a gramatologia, seguindo o fio leibniziano dos anos 60, ocupa o espaço da mathesis universalis. Mas como pensar isso? Nada pode parecer mais repulsivo aos leitores de Derrida do que a proposição anterior. A ideia de

mathesis universalis parece exatamente o oposto daquilo que o filósofo almejava. No entanto,

601 Essa quarentena, contudo, não foi absoluta. O seminário La vie la mort, ainda não publicado na integralidade, trata exatamente do conceito de programa como novo equilíbrio entre necessidade e contingência a partir da obra de François Jacob e Georges Canguilhem. Relacionando "Da Gramatologia" e o trabalho de Jacob: KIRBY, Vicki. Tracing life: 'la vie la mort', pp. 111-113; JOHNSON, Christopher. La vie, le vivant: biologie et autobiographie, pp. 353-368; MALABOU, Catherine. The end of writting? Grammatology and plasticity, p. 436 (seguido de críticas a partir da biologia contemporânea); JACOB, François. A lógica da vida, pp. 11-31. Voltarei a esse ponto.

602 "Diremos que elas constituem um programa? Uma lógica cuja autoridade se impôs a Platão? Sim, até certo ponto, somente, e esse limite aparece no próprio abismo: o ser-programa do programa, sua estrutura de pré- inscrição e de prescrição tipográfica forma o tema explícito do discurso em abismo sobre khôra. Esta figura o lugar de inscrição de tudo aquilo que no mundo se marca. Da mesma forma, o ser-lógica da lógica, seu logos essencial, seja ele verdadeiro, verossímil ou mítico, forma o tema explícito do Timeu, ainda iremos precisá-lo. Não se pode, então, chamar tranqüilamente, sumariamente, programa ou lógica a forma que dita a Platão a lei de uma tal composição: programa e lógica aí são apreendidos, como tais, mesmo que em sonho e mise en abyme" (DERRIDA, Jacques. Khôra, pp. 37-38). Voltarei a esse ponto adiante.

a proposição é verdadeira. Ao mesmo tempo em que o programa gramatológico cobre o espaço da metafísica, ele o cancela. É por isso que o espaço gramatológico se forja e implode quase simultaneamente, em uma manobra demissionária que o converte em desconstrução. O grande ponto de ruptura que o separa de todos os projetos anteriores é o logocentrismo da tradição. A escritura é maior que o logos; o logos é uma economia da escritura. A clausura seguidamente referida é a clausura do sentido604. Mas a escritura não é comandada por um sentido. A escritura é a origem de todo sentido, enquanto sua condição de possibilidade, mas ela exorbita qualquer tentativa de aprisioná-la em um sentido.

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Olhemos mais lentamente esse movimento que vai da Introdução à 'Origem da

Geometria', em 1961, até Da Gramatologia, de 1967. Na Introdução, quando o conceito de

escritura emerge, é para pensar justamente a possibilidade de uma estrutura transcendental que ultrapasse o sujeito na constituição das idealidades ou da objetividade em geral. Ela aparece exatamente no momento em que Husserl investiga o papel da linguagem na constituição das idealidades geométricas que devem ser, ao mesmo tempo, históricas ou culturais e objetivas, válidas universalmente. Assim, se a linguagem ainda depende do emissor, impossibilitando sua perpetuidade, seria no espaço da escritura que essa "presença perdurante" se perpetuaria. Ela asseguraria a "tradicionalização absoluta do objeto", sua "objetividade ideal absoluta", ou seja, a "pureza de sua relação a uma subjetividade transcendental universal". Em outros termos: a escritura permitiria delimitar o espaço transcendental sem recorrer a uma subjetividade:

Sem a última objetificação que permite a escritura, toda linguagem restaria então cativa de uma intencionalidade fática e atual de um sujeito falante ou de uma comunidade de sujeitos falantes. Virtualizando absolutamente o diálogo, a escritura

604 Como afirma Hamacher, "if the criterion of existence - of its objectivity and reality - is 'meaning and sense', if positing always posits an existing entity by simultaneously positing meaning, then ontotheseology is possible only within a logic of Being as meaning: only as semontology" (HAMACHER, Werner. Premises: essays on philosophy and literature from Kant to Celan, p. 12). Ver ainda, NANCY, Jean-Luc. El sentido del mundo, pp. 13-16; DERRIDA, Jacques. La voix et le phénoméne, pp. 109-111; Limited Inc, pp. 11-12.

cria um tipo de campo transcendental autônomo no qual todo sujeito atual pode se ausentar605.

Mas, para tanto, já antecipando o movimento que irá se realizar em "Da Gramatologia", a escritura precisa adquirir um novo sentido. De meio mnemotécnico de registrar informações, ela se transformará em um campo transcendental, superando as restrições em torno de emissão e recepção próprias da linguagem. Afirma ele:

Portanto, a escritura não é mais somente o auxiliar mundano e mnemotécnico de uma verdade cujo sentido do ser se passaria alheio à toda consignação. Não apenas a possibilidade ou a necessidade de ser encarnada numa grafia não é extrínseca e fática em relação à objetividade ideal: ela é a conditio sine qua non de sua realização interna. Tanto que não esteja gravada no mundo, ou bastando que ela não possa ser, tanto que ela não esteja à medida de se emprestar a uma encarnação que, na pureza do seu sentido, é mais que uma sinalização ou vestimenta, a objetividade ideal não estará plenamente constituída. O ato da escritura é portanto a mais alta possibilidade de toda "constituição". É a isso que se mede a profundidade transcendental da sua historicidade606.

Em "Da Gramatologia", essa relação irá se aprofundar a partir da textualização geral das ciências modernas: biologia, cibernética, antropologia, psicanálise, paleontologia, ciência da escritura. A escritura não recusa a condição formal do discurso filosófico, mas, ao contrário dos projetos de mathesis anteriores, não se submete à soberania do Livro. A própria divisão entre transcendental e empírico já é um efeito econômico da escritura. A "ontologia transcendental" dá mais um passo, após Kant, Husserl e Heidegger, em direção a uma "dessubjetivização". Não é o sujeito que pensa a escritura, mas a escritura que faz o sujeito607.

605

DERRIDA, Jacques. Introduction (OG), p. 84, tradução livre. No original: "Sans l'ultime objectivation que permet l'écriture, tout langage resterait encore captif de l'intencionnalité factice et actuelle d'une sujet parlant ou d'une communauté de sujets parlants. En virtualisant absolument le dialogue, l'écriture crée une sorte de champ transcendantal autonome dont tout sujet actuel peut s'absenter".

606

DERRIDA, Jacques. Introduction (OG), p. 86, tradução livre. No original: Dès lors, l'écriture n'est plus seulement l'auxiliaire mondain et mnémotechnique d'une vérité dont le sens d'être se passerait en lui-même de toute consignation. Non seulement la possibilité ou la nécessité d'être incarnée dans une graphie n'est plus extrinsèque et factice au regard de l'objectivité idéale : elle est la condition sine qua non de son achèvement interne. Tant qu'elle n'est pas gravée dans le monde, ou plutôt tant qu'elle ne peut l'être, tant qu'elle n'est pas en mesure de se prêter à une incarnation qui, dans la pureté de son sens, est plus qu'une signalisation ou un vêtement, l'objectivité idéale n'est pas pleinement constituée. L'act d'écriture est donc la plus haute possibilité de toute 'constitution'. C'est à cela que se mesure la profondeur transcendentale de son historicité".

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Esse movimento é ratificado en passant nas críticas a Lévi-Strauss: "Que l'on ne tienne aucun compte de l'idée et du projet de la science, c'est-à-dire de verité comme transmissibilité en droit infinie : celle-ci n'a en effet de possibilité historique qu'avec l'écriture. Devant les analyses husserliennes (Krisis et L'origine de la géométrie) qui nos rappellent cette évidence, le propos de Lévi-Strauss ne peut se soutenir qu'en refusant tout spécificté au projet scientifique et à la valeur de verité en général" (De la grammatologie, pp. 187-188). Vladimir Safatle percebe com agudeza que o projeto de um campo transcendental dessubjetivado era comum a Derrida, Foucault