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3 METABOLISMO DOS RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS: MATERIALIDADE E

3.2 A gestão e as representações dos resíduos sólidos ao longo dos anos

3.2.2 Lixo como recurso: perspectivas ambientais

A partir da pesquisa de Kristeva (1982), nos estudos de lixo e descarte, a abjeção é frequentemente usada para entender como objetos, pessoas, lugares e práticas são rotulados como sujos e, consequentemente, marginalizados. Conforme Sarah Moore (2009), o lixo é um abjeto resultante das contradições entre as expectativas da modernidade e a forma material real das cidades modernas. Ao mesmo tempo que seria um abjeto por perturbar as ordens normativas e higienizadoras do corpo, da família, da cidade e da nação modernas, o lixo é uma consequência do modo de produção e consumo que pautam a modernidade.

A partir da década de 1970, cresceu o movimento ambientalista no mundo, apontando as externalidades negativas do modelo desenvolvimentista em vigor. Nesse sentido, mobilizações foram realizadas na busca da regulação e da preservação dos recursos naturais. A saturação dos aterros em vigência e o reconhecimento de uma variedade de poluições tóxicas decorrentes da forma de descarte dos resíduos passaram a indicar a necessidade de uma nova definição da gestão dos resíduos, que deveria levar em conta os impactos ambientais do lixo em proliferação.

A Conferência de Estocolmo, de 1972, lançou bases para o desenvolvimento de políticas ambientais que promovessem a proteção do meio ambiente humano. Contou com a presença de representantes de vários países para discutir acerca da limitação dos recursos naturais e das ameaças da civilização industrial-tecnológica. Nesse aspecto, a Conferência de Estocolmo foi um marco para que a questão ambiental passasse a compor a agenda de temas globais, e a diretriz de gestão dos resíduos baseada nos movimentos ambientais pudesse se consolidar.

Essa diretriz baseada nos movimentos ambientais levou a uma fase de controle na gestão dos resíduos sólidos. O objetivo era evitar vazamentos e acúmulo inadequado de substâncias que pudessem resultar em problemas ambientais (MARSHALL; FARAHBAKHSH, 2013). Segundo Gille (2007), inicialmente a maioria das políticas de resíduos da União Europeia, por exemplo, estava relacionada a um paradigma corretivo,32 buscando remediar os problemas ambientais. No caso dos resíduos, as regulações voltaram-se para os aterros e para as práticas de incineração. Dessa forma, as cidades tiveram que trabalhar para substituir os lixões pelos aterros sanitários. Ao mesmo tempo, os movimentos ambientalistas empenharam esforços para

32 Uma das primeiras legislações da Comunidade Europeia relacionada aos resíduos foi a Diretiva- Quadro sobre Resíduos (75/442/CEE), aprovada em 1975, que apresentava a preocupação dos Estados- membros tomarem as medidas necessárias para garantir que os resíduos fossem eliminados sem por em perigo a saúde humana nem prejudicar o ambiente.

consolidar a reciclagem como atividade relevante para a gestão e gerenciamento de resíduos, dado que a produção dos resíduos sólidos continuava a crescer e a apresentar mudanças tanto na sua quantidade quanto na sua qualidade e composição (MARSHALL; FARAHBAKHSH, 2013).

Em 1987, a Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, vinculada à ONU, publicou o documento “Nosso Futuro Comum”, também conhecido como “Relatório Brundtland”. Conforme já mencionado, nesse relatório foi apresentado o conceito de desenvolvimento sustentável, que salienta a preocupação com a garantia de recursos para o desenvolvimento das gerações futuras. Em geral, as medidas do relatório perpassam pela necessidade de limitação do crescimento populacional, pela preservação da biodiversidade e dos ecossistemas, pelo compromisso de adoção de tecnologias ecologicamente adaptadas na produção industrial e, ainda, pela crença na tecnologia como uma alternativa para fontes de energia limpas.

O Relatório Brundtland marcou o debate global a respeito da escassez dos recursos naturais e da pressão populacional e de produção em relação ao meio ambiente. A temática dos resíduos sólidos também estava presente nesse documento. A destinação final inadequada dos resíduos foi apontada como um problema. Mas, a importância de apoiar a reciclagem, envolver práticas comunitárias e de promover o fortalecimento de pessoas que vivem da catação dos resíduos na cidade foi destacada como mecanismo legítimo para se lidar com a problemática dos resíduos sólidos (COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO, 1991).

Outros recursos pouco utilizados são os resíduos sólidos, cuja eliminação tem sido bastante problemática em muitas cidades; grande parte desse lixo ou não é coletada ou é despejada em depósitos. A recuperação, reutilização ou reciclagem dos materiais podem reduzir o problema dos resíduos sólidos, estimular o emprego e resultar em poupança de matéria-prima. O adubo composto pode ser útil à agricultura urbana. Se um governo municipal não dispõe de recursos para coletar regularmente o lixo doméstico, ele pode dar apoio aos sistemas comunitários existentes. (COMISSÃO MUNDIAL SOBRE O MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO, 1991, p. 285).

A diretriz de gestão dos resíduos sólidos baseada na escassez de recursos valorizou os resíduos enquanto recursos para a reciclagem. De acordo com Marshall e Farahbakhsh (2013), os resíduos sólidos passaram a ser considerados como potenciais fontes de energia a serem empregadas nas usinas de tratamento térmico, denominadas waste-to-energy, para geração de energia elétrica. Segundo Gille (2007), foi a partir desse momento que se passou a falar de uma

hierarquia desejável no âmbito de gerenciamento de resíduos. Essa hierarquia inicia-se com a prevenção – não geração e redução – dos resíduos e tem como última possibilidade a disposição final dos rejeitos. Os caminhos possíveis são: a não geração; a redução; a reutilização; a reciclagem; o tratamento dos resíduos (como a compostagem ou ainda a geração de energia – o waste-to-energy); e a disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos. A figura a seguir apresenta graficamente a hierarquia dos resíduos.

Figura 3 – Hierarquia desejável da gestão dos resíduos sólidos

Fonte: Elaborada pela autora a partir de Amaro (2018).

Exemplo de manifestação política da diretriz baseada na escassez de recursos foi a publicação de 1989, da União Europeia, denominada “Estratégia Comunitária de Gerenciamento de Resíduos”. Essa normativa estabeleceu a prevenção da produção de resíduos como uma prioridade máxima a ser adotada pelos Estados membros (COMISSION OF THE EUROPEAN COMMUNITIES, 1989).

Concomitantemente aos debates sobre a questão da escassez, havia a discussão que vinculava a gestão dos resíduos sólidos urbanos ao tema das mudanças climáticas. Principalmente a partir de 1975, com a publicação de Wallace Broecker, intitulada “Mudanças Climáticas: estamos à beira de um pronunciado aquecimento global?”. Nela foi posta a problemática de que gases do efeito estufa (GEE), produzidos pelas atividades humanas estavam alterando a dinâmica climática global. Em 1988, foi criado o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (Intergovernmental Panel on Climate Change

– IPCC),33 com vistas ao desenvolvimento de pesquisas e à divulgação de informações sobre o assunto das mudanças climáticas.

A partir do final da década de 1990, os RSU foram apontados pelo IPCC como fonte geradora de GEE devido, especialmente, à emissão de dióxido de carbono (CO2), metano (CH4), e óxido nitroso (N2O). As emissões de dióxidos de carbono são as mais expressivas quando se considera todo o ciclo de vida de um produto que virá a tornar-se um resíduo: desde a extração da matéria-prima até o transporte para o aterro, e quando o resíduo sólido urbano é destinado ao tratamento térmico para a obtenção de energia elétrica. Por sua vez, as emissões de metano e óxido nitroso estão ligadas à decomposição anaeróbica, a qual ocorre quando os resíduos estão enterrados por uma camada de terra ou outros resíduos (AMARO, 2018).

De acordo com Marshall e Farahbakhsh (2013), a diretriz de gestão dos RSU a partir da temática das mudanças climáticas influenciou na consecução de ações públicas para a redução dos níveis de material biodegradável enviados para os aterros sanitários. Pretendia-se diminuir as emissões de metano e, para tanto, as orientações reiteravam a importância da reciclagem e da compostagem.

3.2.3 Relação sociedade-natureza: conscientização, participação e gestão integrada