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Palavras-chave: Gênero, Imprensa, Direito e Justiça Social.

1 Mestrado em Direito e Justiça Social – FURG [email protected]

128 GT2: CONHECIMENTO, DIREITO E ICONOGRAFIA A caracterização da mulher casada na década de 40 ressaltava o ideal de beleza e o papel dessa mulher casada no seio familiar. Nesse período é que o ideal de magreza começa a se estabelecer, juntamente com os exercícios para manter a linha, que consistiam basicamente em afinar a cintura e alinhar a postura, seja ao caminhar ou para tornar os movimentos rotineiros mais suaves e delicados. A juventude se aproximava mais de um ideal de beleza graças aos cosméticos e a novas intervenções estéticas.

No seio familiar, uma boa esposa precisava, além de dar conta das atividades domesticas e do cuidado dos filhos, zelar pela manutenção da felicidade conjugal. Além da submissão ao marido, tida como “[...] um consenso entre juristas, padres, cientistas e articulistas da imprensa[...]” (PINSKY, 2012: 486), a mulher precisava ser amável, doce, compreensiva e sempre ceder mais que o parceiro pelo bem do casamento. Uma mulher mal arrumada, mal-humorada ou que não dava conta dos afazeres do lar (principalmente quando esta, por algum motivo, trabalhava fora de casa) corria o risco de colocar a felicidade da família e seu casamento em xeque. Combater os males menstruais - utilizando, por exemplo, o regulador Gesteira e vinhos “santos” - (PRIORI, 2011: passim) era importante não para o bem-estar da mulher em si, mas para que facilitasse suas obrigações como esposa.

Através dos cartuns publicados na seção Da Mulher para a Mulher da revista O Cruzeiro entre 1946 a 1948, podemos distinguir estas caracterizações e categorias: por exemplo, determinadas mulheres obviamente eram casadas por estarem a acompanhar homens em situação intimas ou cotidianas – noivos ou namorados tinham uma intimidade muito limitada, e as seções trabalhadas não incentivavam liberdades demasiadas antes do casamento. Outro ponto que os primeiros níveis de análise documental nos permitem verificar são que entre os casais aparentemente felizes, a mulher está bem arrumada, tem uma boa postura e cintura fina, nos padrões da época, para mulher bonita. Quando a esposa aparece histérica, mal arrumada, com má postura e/ou muito acima do peso, ela está infeliz, e geralmente seu marido está interessado em outra que esteja possuindo as características

desejáveis da mulher na década de 1940.

Teórico-metodologicamente, optamos por avaliações de gênero e decolonialismo aplicadas após o tratamento das fontes selecionadas, pelo método de interpretação documental, em seus segundo e terceiro níveis, onde se refere o conteúdo expressivo que o realizador da imagem tenciona manifestar, e se interpreta o sentido cultural desvelando numa imagem os princípios fundamentais de uma postura frente a realidade sobre os quais esta repousa, compreendendo tal fenômeno como manifestação ou documento de uma determinada concepção de mundo (MARTINEZ, 2006:395). Num colóquio entre o direito, a história e a sociologia, o gênero, para o qual este trabalho se volta, é utilizado como categoria de análise fora de determinismos, fazendo com que possamos perceber “[...] as origens exclusivamente sociais das identidades subjetivas de homens e mulheres. ‘Gênero’ é, segundo esta definição, uma categoria social imposta sobre um corpo sexuado. ” (SCOTT, 1995: 75). Ademais, a corrente teórica decolonial informa que há uma matriz colonial de poder, como construção de aspectos voltados à normatização e à formação verticalizada e classificada de identidades; uma colonialidade

do ser que tem como uma de suas facetas o controle do gênero e da sexualidade, domínio dos pré-

conceitos de família cristã, valores e condutas sexuais e de gênero (MIGNOLO, 2010: 10, 11, 79; CASTRO-GOMEZ e GROSFOGUEL, 2007:122 e 123).

A falta de beleza e vaidade, somado a atitudes histéricas da esposa leva a fazer com que ela perca a atenção do marido frente à uma mulher mais bonita, jovial e vaidosa: essa pretensa graça dos cartuns estudados, na verdade é o sentido expressivo que manifesta a categoria imposta, matricial. No sentido documental, sobre a posição da mulher casada, o que os desenhos nos mostram? A resposta é simples, a responsabilidade da mulher na felicidade conjugal como postura frente à realidade sócio- jurídica feminina, normatizadora de comportamento e mantenedora da matriz colonial da subjetividade, da família tradicional como baluarte legítimo da ordem conservadora (MARTINS, 2012: 142). As correlações e implicações destes modelos imagéticos servem a uma trama da normalização da ordem

social na vida cotidiana (MARTINS, 2012: 132), e refletem no ordenamento jurídico, especialmente em

seu caráter monolítico e conservador, que manteve a mulher casada sob tutela de seu cônjuge até a década de 1960, talhou um conceito de mulher honesta, etc.

A análise documental desta série de imagens e iconografias, portanto, possibilita construir um conhecimento histórico, sociológico e jurídico das mesmas e de seus efeitos, condição necessária a uma crítica e desconstrução da condição feminina e do direito subjacente, dirigindo-se ao fim das relações hierárquicas de gênero, criadas na modernidade e processos de conquista e escravidão, e deixadas intactas pela primeira descolonização (CASTRO-GOMEZ e GROSFOGUEL, 2007: 17, 161).

Referências

CASTRO-GOMEZ, Santiago; GROSFOGUEL, Ramón. El giro decolonial: reflexiones para uma

diversidade epistémica mas allá del capitalismo global. Bogotá: Siglo del Hombre, 2007.

MARTINEZ, Amalia Barbosa. Sobre el método de interpretación documental y el uso de las imágenes en la sociologia. Sociedade e Estado. Brasília, v. 21, n. 2, p. 391-414, mai-ago 2006.

MARTINS, Paulo Henrique. La decolonialidad de América Latina y la heterotopía de uma

comunidad de destino solidaria. Buenos Aires: CICCUS, 2012.

MIGNOLO, Walter. Desobediencia epistémica. Buenos Aires: Ediciones del Signo, 2010.

PINSKY, Carla Bessanezi, PEDRO, Joana Maria (orgs). Nova História das Mulheres no Brasil. São Paulo: Contrexto, 2012.

PRIORI, Mary Del. Histórias Íntimas: sexualidade e erotismo. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2011

SCOTT, Joan Wallach. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação & Realidade, Porto Alegre, vol. 20, n. 2, p. 71-99, jul./dez., 1995.

SMITH, Bonnie G. Gênero e História: Homens e mulheres e a prática histórica. São Paulo: EDUSC, 2003

O USO DA IMAGEM NO ENSINO DO FUNDAMENTO DA