Capítulo III – Redes Nacionais: um conceito
5. As Redes e a Representação Simbólica
5.3. Local e Nacional: mediação e subjetividade
A subjetividade tem um papel não apenas na mediação da recepção, mas também no processo de produção da notícia, e permeia toda a estrutura de edição de um telejornal. Tome-se como referencial novamente o JN (seg.a sábado, 20h), que tem por premissa levar aos lares brasileiros os principais fatos do Brasil e do mundo, diariamente. Contudo, quem determina, de acordo com os valores da notícia, quais são os assuntos mais importantes são pessoas, que têm convicções pessoais e origens diversas. O que vai guiá-las são os critérios jornalísticos, tais como grau de interesse, abrangência, entre outros. Porém os critérios são relativos e os contextos atuam sobre eles.
Em 2005, quando indagado se os assuntos locais e regionais (pautas) são interpretados do mesmo ponto de vista pelos jornalistas que atuam nas afiliadas e os que editam os produtos nacionais (Jornal Nacional, Jornal da Globo, Jornal Hoje), o diretor de redes da Central Globo de Jornalismo, Marco Antonio Rodrigues, afirmou:
Jornalismo é o mesmo em qualquer lugar, mas é claro que há diferenças.Temos assuntos de interesse local e assuntos de interesse nacional. A visão do jornalismo da Globo é uma só, focada na prestação de serviço, no interesse da comunidade, no jornalismo de interesse público. A missão deve ser igual na rede ou no local.
A influência da subjetividade na estrutura entre nacional e regional pode ser percebida claramente na definição do que faz uma matéria regional virar notícia nacional. Margarida Santi e Maria da Graça Vasques são jornalistas experientes. Ambas têm mais de 15 anos de vida profissional e são produtoras/editoras do Núcleo Globo em Santa Catarina. Maria da Graça Vasques usa como exemplo o tornado que varreu a região Sul do Estado, em 2004. O editor de Criciúma havia avisado que iria mandar para Florianópolis, na geração da tarde, imagens de um
“vento forte”; mas ao ver as cenas de destruição a jornalista percebeu que aquilo era um “tornado”. Imediatamente falou com a redação da Globo, e tanto os editores do Jornal Nacional quanto do Jornal da Globo quiseram mostrar. De acordo com Maria da Graça Vasques alguns aspectos devem ser considerados neste caso especificamente: as pessoas estavam desabrigadas, não tinham onde dormir, e muitas famílias em casas semi-destruídas se recusavam a sair196.
Muitos assuntos, como uma chuva forte em Joinville, por exemplo, podem não ser considerados importantes individualmente, mas quando os editores recebem muitas pautas deste tipo eles percebem que aquela questão virou um assunto de interesse nacional. Depende muito do que estiver acontecendo no resto do Brasil, “às vezes tem uma pauta relevante, mas aí fora o mundo está desabando”, como afirma Margarida Santi197.
Outro aspecto a considerar é o enfoque que será dado a um assunto. Por exemplo, uma forma original ou curiosa de abordar uma pauta comum, como feriados e datas comemorativas que se repetem todos os anos. Margarida Santi exemplifica com uma matéria sobre o lançamento do carnaval de praia de Florianópolis, no verão de 2005. A princípio não despertaria grande interesse, mas a produção envolveu turistas, belas cenas no entardecer e a matéria “emplacou no nacional”, expressão usada no jargão jornalístico198. Maria da Graça Vasques lembra uma dessas pautas ditas curiosas: “uma repórter estava em Içara (cidade do litoral sul de SC) quando ouviu no rádio que estavam sorteando caixão para os ouvintes. Caixão com direito a enterro, e todo mundo começou a ligar para essa rádio. Isso é uma curiosidade”199. Percebe-se nitidamente que os critérios apontados, tais como interessante, curioso e original são subjetivos. Esta, porém, não é uma
196 Dados obtidos através de entrevista concedida à pesquisadora em 19 de jan. de 2005, pelas jornalistas Margarida
Santi e Maria da Graça Vasques.
197 Ibidem, loc. cit. 198 Ibidem, loc. cit 199 Ibidem, loc. cit
peculiaridade do jornalismo catarinense, pode-se buscá-la em todos os manuais sobre os critérios da notícia200.
O depoimento da coordenadora do Núcleo Globo, Brígida Poli, chamou a atenção para os “cânones do jornalismo”, isto é, as regras que se tornam imperativas. De acordo com Brígida, seria impossível conhecer todos os “cânones” da Globo, porque eles sofrem atualizações de acordo com a dinâmica social ou evolução da linguagem. Um deles é especialmente importante na narrativa jornalística, e diz respeito ao enquadramento da câmera. A regra que orientava o entrevistado de televisão a olhar diretamente para a lente da câmera, ignorando a presença do repórter, foi alterada, dando lugar ao seu oposto. Em 2005, nos depoimentos do jornalismo da Rede Globo, o entrevistado deveria olhar para o repórter. Isto é, assumir que a atividade de transmissão de notícia é mediada por um interlocutor, o repórter. Esta mudança talvez seja resultado de um amadurecimento da linguagem televisiva, ou talvez um distanciamento da publicidade e propaganda, nas quais os atores falam diretamente com o telespectador, sem intermediários, a fim de potencializar a capacidade de persuasão.
Brígida Poli reconhece a dificuldade para se adaptar ou mesmo prever tantas mudanças. Em 2005, ela imaginava que já conhecia quase todos os “cânones”. Mas foi surpreendida quando soube que uma reportagem sobre uma campanha de vacinação contra o tétano deixaria de ser exibida porque havia a imagem de uma agulha penetrando o braço de uma pessoa. A orientação era de que só poderia ser usada a imagem de uma agulha saindo do braço. A matéria já estava pronta e, às pressas, encontrou-se outra imagem para a substituição. A equipe do Núcleo Globo
200 Ver mais em HENN, Ronaldo. A Pauta e a Notícia: uma abordagem semiótica. Canoas: Editora Ulbra, 1996, p.
atribui alguns destes imperativos às pesquisas qualitativas desenvolvidas pela Rede Globo junto ao público201.
Os profissionais da equipe Globo em Santa Catarina concordam que a questão é subjetiva, e admitem que isso se aplica aos editores nacionais - aqueles profissionais encarregados de selecionar as pautas locais - de modo geral. O que parece ficar evidente é que, dependendo do perfil dos editores, o jornal sofre influências de determinados padrões. Assim matérias médicas teriam mais ou menos atenção, ou a questão indígena seria mais ou menos privilegiada e assim por diante, dependendo da formação da equipe.
A análise da participação das afiliadas na estrutura operacional da Rede Globo comprova que estas têm apoiado a operação nacional, garantindo cobertura jornalística em qualquer ponto do país. Esta capilaridade, construída ao longo de 37 anos de formação da Rede Globo de Televisão, parece funcionar como mais uma barreira à entrada de concorrentes que, em conjunto com o “Padrão Globo de Qualidade”, tem ajudado a emissora a se manter na liderança.
A baixa auto-representação das culturas regionais parece ser um imperativo do modelo de rede nacional. A economia de escala de uma produção centralizada de alto nível, com divisão dos custos entre muitos parceiros, parece ser um modelo difícil de ser superado na lógica empresarial. Cada vez mais esta vantagem operacional afasta as possibilidades de interação entre os conteúdos nacionais e regionais. Qualquer justificativa para garantir diversidade cultural na programação televisiva brasileira por certo não seria econômica, pois as empresas operam por resultados. Ao que parece, só mesmo uma política pública poderia reverter o quadro.
201 Dados obtidos através de entrevista concedida à pesquisadora em 16 de set. de 2005, pelos jornalistas Brígida Poli