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Com o processo de integração mundial do capital, as formas de relação entre o global e o local se complexificaram, até mesmo nas sociedades locais mais periféricas. Nas regiões de fronteira esse impacto tem sido maior, porque produtos e efeitos do desenvolvimento científico e tecnológico chegam a essas sociedades locais modificando as relações até então vigentes na infra-estrutura econômico-social e produzindo mudanças em aspectos das suas culturas. A complexificação fica mais evidente nessas regiões de fronteira, justamente porque envolvem mais de uma sociedade organizada, mais de um nicho de culturas. Contudo, há a integração dessas à dimensão macro de um mundo globalizado, a qual permite e provoca maior relação entre as sociedades.

Esse cenário fronteiriço se define a partir de vários aspectos, dentre eles distinguindo-se, por sua relevância, o que define essas regiões limítrofes como regiões que assumem a peculiaridade de serem “fim de linha”. De um lado, localiza- se uma determinada cultura, um determinado modelo econômico e social e uma língua, o que distingue a comunicação entre os povos. Esses fatores, associados, possibilitam que uma sociedade como essa assuma uma determinada singularidade, a qual decorre da forma como as mais diversas questões de âmbito social, econômico e cultural se integram.

O município de Garruchos, objeto da presente pesquisa, embora fazendo parte desse mundo globalizado, como área de fronteira pode ser caracterizado como um desses “fins de linha”. E mais: além de estar na fronteira, há um rio que limita as suas relações e a circulação de informações e conhecimentos (pontos fortes da globalização) entre os dois lados (o brasileiro e o argentino). Informações e conhecimentos não circulam com tanta intensidade, mesmo que o acesso a eles possa ocorrer de forma indireta pelas mídias eletrônicas e digitais que, no caso, possuem sinal mais forte do lado argentino.

Nesse sentido pelo fato dos meios de comunicação serem instrumentos de fundamental importância no meio social globalizado, e por Garruchos estar localizado em uma área geográfica que garante proximidade a regiões mais modernizadas que pertencem a Republica Argentina, prevalece na maioria das vezes elementos dessas regiões como o sinal telefônico argentino. Com isso, o telefone celular, que hoje é um meio de comunicação acessível à grande maioria da população em outras cidades gaúchas, em Garruchos é um meio de comunicação precário. Para captação do sinal brasileiro é necessária a instalação de uma antena fixa, já que a cidade está localizada a uma distância significativa das torres de telefonia brasileiras e a torre vizinha, compete. O mesmo ocorre com as redes de televisão e rádios, o que possibilita ao Município localizado na Região das Missões do estado do RS, pouca convivência e participação nos acontecimentos da sua região, no Brasil.

Neste contexto da globalização as sociedades fechadas se tornam raras, porque há mais informações, maior penetração de novas tecnologias, de novos conhecimentos e valores. A circulação (troca) desses ocorre por dentro de cada casa e no interior das instituições afetando as relações das forças locais em geral os investimentos produtivos mais característicos da região e mais dinâmicos no passado perdem força; dão lugar a outros, que usam mais tecnologia e que seguem os padrões produtivos da época. Grupos e instituições que aglutinavam gente perdem intensidade, novas lideranças aparecem e um novo padrão de consumo se constitui.

Isto é visível no que diz respeito às atividades agrícolas onde as áreas que eram utilizadas com bovinocultura de corte, extensiva, cedem lugar para as culturas anuais (principalmente soja e milho), atividades estas que estão dentro da agricultura mecanizada, além de ceder espaço também para a implementação da bovinocultura leiteira. Os que ainda permanecem com a pecuária de corte, também buscam novas tecnologias melhorando o manejo das pastagens, inserindo forrageiras que proporcionam melhor qualidade e quantidade de alimentos para os animais. Além disso, ocorre suplementação alimentar através de rações e concentrados.

Dentro desse, contexto, pode-se perceber que a relação entre os latifundiários (fazendeiros/granjeiros) e os agricultores familiares muda lentamente, na visão extensionista (que, como reportamos anteriormente, é mais imediatista).No entanto, para a população local esse avanço é significativo, pois grande parte dos pequenos proprietários, que arrendavam suas pequenas áreas, acabam assumindo o cultivo de suas áreas, enquanto outros adquirem suas próprias áreas por meio do Programa Nacional de Crédito Fundiário (PNCF) e passam então a administrar a sua própria propriedade investindo em culturas de subsistência e em atividades que lhes tragam maior rendimento financeiro, como bovinocultura leiteira, hortigranjeiros, artesanato, fruticultura, avicultura e suinocultura.

Essa mudança na cadeia produtiva possibilita a implementação de tecnologias que fazem parte do cenário global, além de inseri-los nesse contexto com condições sociais e econômicas favoráveis, pois traz melhorias na habitação, vestuário, alimentação, lazer, cultura e manejo dos processos produtivos. Nesse sentido, a extensão rural no município teve um papel importante desenvolvendo atividades como seminários, dias de campo, cursos, palestras e acesso ao crédito; contudo, foram fomentadas práticas de forma sustentáveis, as quais serão detalhadas no decorrer dos outros capítulos. Surgiram várias mudanças no contexto social do município, mas a essência da cultura das comunidades e das famílias não foi abalada, pois houve um cuidado especial em manter vivas as atividades corriqueiras desse povo, mesmo havendo certas implementações.

Com essas mudanças que ocorreram em relação aos padrões produtivos, sociais e culturais do município em questão, percebe-se que o grupo de mulheres de Passo da Tigra cresceu, no sentido de proporcionar à comunidade novas lideranças, novos agentes do processo de transformação e novas personalidades do ser mulher. A partir de então, essas mulheres organizaram um ambiente propício à abertura de novos horizontes para a propriedade e também para a comunidade, aglutinando a discussão na família sobre essas novas atividades, já referidas anteriormente, bovinocultura de leite, avicultura, pomares comerciais e agroindustrialização de produtos coloniais, assim como assumindo o processo de implementação e coordenação destas dentro da cadeia produtiva da sua propriedade rural. Deste modo, essas mulheres promovem, com sua organização e participação, um movimento por vezes silencioso em sua comunidade e no município em si, mas acabam ocasionando uma significativa implementação na questão financeira, o que repercute nas diversas esferas do comércio local, ou seja, na compra e venda de produtos para o consumo da família. A capacidade de organização possibilitou a conquista de vários desejos até então impossíveis, como, por exemplo, participar de seminários, encontros, excursões, atividades de lazer, aprimorar seus conhecimentos por meio de cursos, buscando melhorar a qualidade de vida da família, desde a alimentação até a auto-estima, incrementando a renda e possibilitando com isso a aquisição de produtos que facilitam o trabalho do seu dia-dia e trazem conforto para a família, como máquinas de lavar e aparelhos eletrônicos.

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Lugares pouco conhecidos e isolados, hoje, pelo processo da globalização, têm oportunidade de conviver com bens materiais e culturais desenvolvidos em diversas partes do mundo. Isto, contudo, é possível, desde que façam uso dos diversos meios tecnológicos que os atuais tempos oferecem, necessitando, para tanto, de um alto investimento financeiro. Na maioria das vezes, o maior entrave para que municípios pobres passem a integrar esse processo é a falta de recursos financeiros, prevalecendo assim o seu isolamento, como é o caso do município pesquisado.

Nesse sentido o desenvolvimento técnico e científico aplicado à produção, o desenvolvimento do mercado mundial e das empresas multinacionais, longe

de anularem o espaço, permite sua mundialização, pois os mecanismos espaciais repousam na justaposição entre o local, o regional e o nacional e, nesse sentido, o espaço inteiro torna-se o lugar da reprodução, que se realiza tendo como pano de fundo o mundial que se sinaliza nas tendências pela atenuação das fronteiras nacionais e na constatação de que o local se torna global e o global se localiza no lugar, (Carlos, 1996, p.44).

O que foi previsto e refletido pela autora está sendo vivido hoje. Isso possibilita uma relação mais próxima entre nós humanos e os mais amplos espaços do mundo, o que implica em vantagens e desvantagens. Os lugares tornam-se mundos em miniaturas; à sua maneira, cada lugar é, o mundo (Santos, 1999, p. 252).

Portanto, há uma tendência de adaptar as diversas atividades desenvolvidas nesses locais, nas áreas econômica, social e política, para que as pessoas possam experimentar mudanças, abrangendo e se inserindo cada vez mais nas práticas implementadas e potencializadas no global, posto que, segundo Santos (1999, p. 251), nossa relação com o mundo mudou. Antes, ela era local-local; agora é local-global. Mas também não podemos cair na ingenuidade de desconsiderar, nesse processo, as especificidades de cada lugar; por isso, esse autor destaca que os lugares são, pois, o mundo, que eles reproduzem de modos específicos, individuais e diversos. Eles são singulares, mas são também globais; manifestações da totalidade-mundo, do qual são formas particulares.

Como a educação na extensão rural reconheceu e respeitou isto no processo de educação? Como vimos anteriormente, a grande maioria das práticas pedagógicas de extensão rural, realizadas a partir da teoria clássica/difusionista que serviu de modelo para a implantação do sistema no Brasil e em grande parte dos países subdesenvolvidos da América Latina, estavam ancoradas em um processo em que a diretriz geral era a todos dirigida, a partir de uma mesma perspectiva. As orientações de como proceder em determinada prática local eram sugeridas por um centro dominante, no caso, os Estados Unidos da América, com base em sua realidade social, cultural e econômica.

As práticas de extensão sempre aconteceram em espaços locais comunitários, mas, na grande maioria, seguiram diretrizes gerais que eram estipuladas externamente: primeiro, pelos países que representavam o capitalismo em expansão, depois, por organismos internacionais, globalmente ordenados e orientados. Mesmo reconhecendo as comunidades locais, estas eram forçadas a se adaptar a uma lógica que lhes era externa. Hoje, com o mundo globalizado, a maior parte do trabalho extensionista continua se fixando no âmbito local, com ideologias configuradas a partir do sistema global, e ainda se desenvolve como se esse local culturalmente não existisse. Pouco se trabalha o vínculo entre o local e o global - visto a partir de uma dinâmica de interação, singularização e não-dependência - com os agricultores. O local é trabalhado com os pressupostos de uma cultura global, sem levar em conta as diferenciações que existem nesses dois níveis. Mesmo que iniciativas como a de Passo da Tigra queiram fazer diferente, e que autores apontem para a força do lugar, não é fácil para uma comunidade se auto-afirmar, rompendo com as heranças culturais e com as forças da globalização. Em relação ao trabalho da extensionista, ocorre algo semelhante – para atuar de forma educativa e libertadora, tem que enfrentar inclusive a expectativa do “seu público” quanto ao seu trabalho em razão da história institucional.

O ambiente criado pela dominação econômica, política e cultural sobre os países latino-americanos proporcionou a uma grande parte da população, especialmente a rural, um processo ágil de aculturação, ou seja, a cultura local foi negada (e em parte continua sendo), para que houvesse espaço de inserção de uma outra cultura. Nesse sentido, Santos (1989, p. 263) afirma: “esse povo sentiu-se em um processo de desterritorialização, e com isso precisou reaprender o que nunca lhe foi ensinado, e pouco a pouco vai substituindo a sua ignorância do entorno por um conhecimento, ainda que fragmentário”.

Essa situação, que se ancorou em parâmetros externos, hoje, tendencialmente globais, “busca impor, a todos os lugares, uma única racionalidade. E os lugares respondem ao mundo segundo os diversos modos de sua própria racionalidade”(Santos, 1999 p. 272). É mais prático inserir-se e praticar aquilo que já vem sendo realizado do

que readequar uma prática a novas demandas, a partir do “local” onde essa prática deverá ser criada ou recriada. Santos (1999, p.272) faz a seguinte consideração:

A ordem global e a ordem local constituem duas situações geneticamente opostas, ainda que em cada uma se verifiquem aspectos da outra. A razão universal é organizacional, a razão local é orgânica. No primeiro caso, prima a informação que, aliás, é sinônimo de organização. No segundo caso, prima a comunicação. A ordem global funda as escolas superiores ou externas à escola do cotidiano. Seus parâmetros são a razão técnica e operacional, o cálculo de função, a linguagem matemática. A ordem local funda a escola do cotidiano, e seus parâmetros são a co-presença, a vizinhança, a intimidade, a emoção, a cooperação e a socialização com base na contigüidade. A ordem global é “desterritorializada”, no sentido de que separa o centro da ação e a sede da ação.

Mediante essa lógica, as práticas extensionistas, na maioria das vezes, desconsideraram os potenciais que existiam nos diversos locais onde estas se faziam presentes. Então, com esse modo de fazer a extensão rural e com a incapacidade dos técnicos para resistir às forças externas e às suas propostas de mudanças, pode-se afirmar que foram desconsideradas as formas de vida, os costumes e os valores que os diferentes “públicos” possuíam, com muita propriedade. Hoje se sabe que é tão necessário considerar os aspectos do local, assim como os aspectos de fora, pois esses se interpenetram, já que vivemos em um mundo globalizado.

Contudo, a localização de Garruchos acaba por beneficiá-lo em dois aspectos: por estar situado em uma região de difícil acesso, mantém um diferencial em relação a outros municípios de mesmo porte, que é a conservação de alguns dos seus traços culturais. Mesmo que isso ocorra pelo isolamento, produz marca, singulariza. O segundo ponto vem do fato de se encontrar na divisa com a Argentina, na fronteira entre os dois países e de estabelecer uma relação binacional. Sabe-se que, na relação entre duas ou mais sociedades locais, há o enriquecimento de umas sobre as outras. Este enriquecimento dá-se por relações institucionais e pelo convívio informal, quando

alguma forma de troca ocorre. O convívio pode, inclusive, ajudar a absorver e situar o que chega do global.

Essa singularidade, na maioria das vezes, atrai para junto da população brasileira um determinado medo de absorção em demasia da cultura do outro (no caso, dos argentinos), pois teme a perda da sua cultura, dos seus costumes. Isso faz com que eles se fechem nas suas tradições, apenas cultuando os seus usos e costumes, fechando-se para a integração e inserção no mundo globalizado. Uma minoria aceita participar, fazer uso de certas vestimentas da cultura argentina, mas não tolera que isso venha a ser partilhado pelos argentinos. Ou seja, o brasileiro pode “imitar” o argentino, mas jamais o argentino imitar o brasileiro. Isso é forte em relação ao vestuário e festas.

Esse contexto todo resulta então no que muitos chamam de isolamento, o qual não ocorre por acaso, mas pela complexidade na qual o modelo econômico, cultural e social em que vivemos nos coloca, com o passar dos tempos, através do processo acelerado de modernização e mudanças tecnológicas influenciado pela globalização.

Portanto, se faz necessária a reconsideração do sistema local no âmbito do trabalho da extensão rural, ressignificando e valorizando a cultura, os costumes, as crenças. Os saberes locais que emergem das relações sociais e culturais que se fazem presentes no cotidiano do povo que ali convive. Seria interessante que todas as demandas, advindas dos setores ligados à questão agrícola e desenvolvidas em diferentes municípios, fossem analisadas e readequadas conforme as necessidades e potencialidades dos referidos locais. Proporcionariam, assim, um desenvolvimento local a partir daquilo que se tem e se quer, buscando potencializar os saberes e demais recursos desse local.

Sabemos que o processo de globalização, ao mesmo tempo em que inclui, também pode excluir, dependendo do local, do momento, da classe social em que o “indivíduo” se encontra inserido. O objetivo do trabalho da Emater é inserir os seus

assistidos nesse processo, mas nem sempre leva à reflexão dos técnicos e agricultores a maneira de atingir esse objetivo. Para se basear nas propostas de Freire, as culturas locais teriam que ser compreendidas e fortalecidas com o trabalho educativo que visasse a inclusão social. Mas isto não é simples de ser feito, principalmente porque os técnicos na extensão rural trabalham muito isolados e têm muitas atividades a fazer, inclusive as burocráticas. Com isto, o trabalho pôde manter-se invadindo culturalmente os grupos que atinge, como nos períodos clássico e difusionista da extensão rural ocorria. E então a inclusão no processo de globalização pôde apresentar sua face excludente.

Se a extensionista vai a uma localidade para ministrar um curso de pizza – mas não explica a que cultura pertence esse prato, nem que ele possa sofrer alterações conforme o costume de cada região. As mulheres saem com a receita, mas, mediante a falta de algum ingrediente, acabam não a utilizando. Se elas vão trabalhar com um bordado do qual ninguém da comunidade havia ouvido falar, mas que reproduz os padrões de beleza da mídia, acabam, igualmente, deixando de lado o que alguém da comunidade sabe fazer e que poderia ser visto como marca da cultura local.

O que se buscou fazer foi, por meio de palestras e reuniões, mostrar para essas mulheres que elas estavam inseridas em um processo de globalização e que as coisas acontecem ao mesmo tempo em lugares diferentes, e que o que fazem, comem e vestem em Ijuí, Porto Alegre ou Buenos Aires, também poderia ser feito em Garruchos, mesmo passando por algumas adaptações. Buscou-se instigar a curiosidade do grupo, e então se trabalha a partir do que elas solicitaram, procurando deixar claro que poderiam ser feitas adaptações a partir da cultura local. Isso justificaria a melhor aplicação dos recursos públicos, contribuindo para o desenvolvimento do espaço global, de forma geral. Afinal, esse é constituído pelos “diferentes” locais, assim como afirma Santos (1999, p. 273): “cada lugar é, ao mesmo tempo, objeto de uma razão global e de uma razão local, convivendo dialeticamente”.

Essa lógica de pensamento está relacionada ao processo de globalização no qual nos encontramos inseridos. Mesmo tendo consciência do perigo que enfrentamos com

isso, inclusive o da desterritorialização,18 não há como pensar e organizar o viver, a educação, a extensão, fora dessa dinâmica local-global. “Cada vez mais o espaço se constitui em uma articulação entre o local e o global-mundial, visto que, hoje, o processo de reprodução das relações sociais dá-se fora das fronteiras do lugar específico até há pouco vigentes”(Carlos, 1996, p. 14).

Contudo, há também a possibilidade de alguma forma de resistência, para evitar o expansionismo da sociedade mais complexa e mais dinâmica das duas em relação. Essa resistência pode levar a um fechamento cultural de uma das “sociedades em questão” para preservar os seus traços, a sua singularidade e, por que não, a sua identidade. Isto pode diminuir um pouco sua predisposição às mudanças. Essa resistência é perceptível em algumas atividades sociais dos residentes no município de Garruchos em relação aos vizinhos argentinos, tendo como exemplo a participação em bailes, festas e jogos. Mesmo que os visitantes normalmente apresentem uma postura mais recatada para não causar discórdia, há uma tendência a não aceitar que os argentinos ajam como os brasileiros. Aparentemente é como se houvesse uma invasão de território, como se a chegada de estrangeiros causasse um estado de alerta à população local.

O lugar é também o espaço do vazio que se refere ao da monumentalidade do poder (Carlos, 1996, p. 23). Trazendo essa idéia para a questão da educação em extensão, quando o extensionista se empodera do saber intelectual, ele acaba criando uma barreira que impede a interação dos camponeses nesse processo, possibilitando assim uma relação de superioridade de uma categoria em relação à outra, o que impede a riqueza de saberes que há nas relações de trocas e vivências dos diferentes saberes (técnico/agricultor, técnica/agricultora). Isto porque, de um modo

18 O conceito de “desterritorialização” ocorre quando não se tem mais um ponto de referência exato: as

empresas, os trabalhadores, os produtos, passam a ser mundiais, estão em permanente mudança. A desterritorialização seria, portanto, uma característica da sociedade global que se organiza neste início de século. O fenômeno de globalização veio reforçar ainda mais a noção de desterritorialização, uma vez que não se tem mais um ponto de referência para a infinidade de produtos que são fabricados pelas empresas