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Fonte: IBGE. Org. GHCF.

O município de São Miguel do Guaporé se localiza no entroncamento da BR 429 com a RO-370, modelo de ocupação conhecido como “espinha de peixe” ou de linhas, onde os lotes foram criados, assim como os grandes empreendimentos. A famosa BR 364, conhecida na voz de Chico Mendes ao expor o problema do desmatamento e da ocupação na região amazônica frente aos representantes do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) que financiavam a pavimentação e expansão da rodovia até o Rio Branco no Acre, são os grandes projetos que visam à modernização para alguns, os de “fora”. No município em questão constatam-se 14 linhas com 60 comunidades92

. A recente expansão da fronteira mostrou isso de maneira muito clara. Práticas de violência nas relações de trabalho, com a escravidão por dívida, próprias da história da frente de expansão, são adotadas sem dificuldades por modernas empresas da frente pioneira. Pobres povoados camponeses da frente de expansão, permanecem ao lado de fazendas de grandes grupos econômicos, equipadas com o que de mais moderno existe em termos de tecnologia. Missionários católicos e protestantes, identificados coma orientações teológicas modernas da Teologia da Libertação encontram lugar em suas celebrações para as

92 O documentário “Encontro e Desencontros na Amazônia Rondoniense” (2008) resgata parte das escolas das linhas e como os filhos dos camponeses migrantes estão organizados na escola e lidam com a terra. Disponível em: <http://www.youtube.com/user/cepolini>. Acesso em: 02 fev. 2016.

concepções religiosas tradicionais do catolicismo rústico, próprio da frente de expansão (MARTINS, 1996b, p. 40).

A Igreja tem um papel de suma importância em organizar as lutas na região. Ao lidar com o avanço da frente pioneira sobre a frente de expansão, os conflitos coexistem sobre distintas ocupações do território. Bombardi (2005), ao analisar o campo paulista, aponta para a compreensão da totalidade das lutas travadas pelo campesinato.

A Igreja aparece, portanto, no auge da ditadura, como a instituição que poderia e deveria não apenas amparar aqueles que se encontravam “cativos”, ou seja, como alvo direto da repressão, como também deveria estimular uma prática libertadora. A Instituição, tendo em vista sua secular importância (evidentemente em função do poder a que sempre esteve atrelada), deveria funcionar como a “voz forte” dos “sem voz fracos” (BOMBARDI, 2005, p. 660).

Dessa forma, a luta de classe tem respaldo numa noção legitimadora da terra, por vezes, como dádiva, e, sobretudo, com autonomia e liberdade que move os movimentos sociais no campo, os quais buscam a recampesinação (BOMBARDI, 2005).

Os camponeses não só de São Miguel do Guaporé estão na terra até o limite, pois, além de ser sua, é a garantia da reprodução da sua vida e da família; essa lógica faz com que a terra de negócio e de trabalho abordada por Martins (1990) e a ordem moral camponesa em Woortmann (1900) se complementem, nos auxiliando na compreensão em que envolve esses camponeses – desgarrados das terras onde nasceram, visto o processo de transformação para o capital, que não os transformou em capitalistas. Mas, os subordinam para se manter. Essa totalidade move a reforma agrária, sendo essa “[...] apropriação de frações do território pelo campesinato, fruto da luta e do enfrentamento de classe levado a cabo por ele. É assim que a luta pela terra está enraizada em todo o país e tem se territorializado ao longo das décadas.” (BOMBARDI, 2005, p. 681).

Nesse contexto, a discussão feita por Moura (1986) ao conceituar o campesinato, visto as apropriações feitas,“[...] não é chamando o camponês de pequeno produtor que se resolve o problema de sua permanência e transformação na sociedade capitalista.” (p. 69 e 70). Dessa maneira, as territorialidades nas linhas através do encontro nas escolas do campo, nos ciclos agrícolas e nos conflitos oriundos do processo de ocupação é a trama central, permeada pelos dilemas de ter a terra, mas não a “largueza” que acreditavam que conquistariam na Amazônia.

As transformações territoriais recentes no campo, apontadas por Oliveira (1999), rementem a um olhar crítico e dialético para os conflitos instituídos pelo capital e legitimado pelos governos, sejam eles militares ou aqueles cunhados sob a égide da democracia. Assim, vale reforçar que as lutas vivenciadas em Rondônia nos indicam muitas perspectivas para esses camponeses migrantes que ao lutarem pela terra reescrevem a história, destacando aqueles que foram brutalmente levados pela barbárie do capital. São verdadeiros conhecedores da Amazônia, da agricultura camponesa e da partilha da terra, como o Padre Ezequiel Ramin, assassinato em 24 de julho de 1985, ao organizar os posseiros na Fazenda Catuva, em Cacoal. Por tais motivos, constroem a justiça social e a cidadania.

O pobre é um sofredor Trabalha pra outro comer Ajuda Ezequiel a este problema resolver Ezequiel você foi vencido, Jesus está contigo morando no céu E pintamos cruzeiro Servir onde morava Existe tanta terra para o fazendeiro mandar Ezequiel você foi vencido, Jesus está contigo morando no céu Ezequiel a dor foi tanta que cortou meu coração Vendo seu sangue derramado pelo fazendeiro que não tem compaixão Ezequiel você foi vencido, Jesus está contigo morando no céu Lá na fazenda Catuva Onde jagunço foi cruel Atiraram sem piedade Mataram nosso padre Ezequiel Ezequiel você foi vencido, Jesus está contigo morando no céu

Sr. Orídes, em homenagem ao Pe Ezequiel, seis meses após seu assassinato. Entrevista em 16 de julho de 2009. Essas leituras de Rondônia permitem reconhecer parte dos cenários registrados por Cowell que serão apresentados na sequência e devem ser compreendidos e, sobretudo, atualizados sob a falácia de uma colonização perversa que agravou a tensão entre distintas territorialidades.

3.3 - Na trilha dos Uru Eu Wau Wau93

E nós abrimos estradas, estradas de mentira estradas de miséria, estradas sem saída. E fizemos do Lucro o caminho fechado para o povo da Terra.

Dom Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra (2000, p. 67)

A leitura sobre o documentário “Nas trilhas dos Uru Eu Wau Wau” (1990) remete à expansão da fronteira sobre os territórios indígenas. Assim, nota-se um amplo diálogo entre a obra de Martins (2014) com a produção de Cowell, sobretudo, ao compreenderem o encontro conflitivo repleto de violências.

O documentário de Cowell é filmado em Rondônia na área de expansão da colonização e registra o contato inicial com os indígenas na floresta. Trata-se de uma leitura que segue com o documentário “O destino dos Uru Eu Wau Wau” de 1999, cujo reencontro, três décadas depois, indica algumas marcas das transformações em seu mundo.

Perdigão e Bassegio (1992), ao analisarem os migrantes amazônicos a partir de uma trajetória da ilusão em Rondônia, reafirmam que os indígenas sofreram inúmeros processos de insegurança territorial com a política de retalhamento do solo, dos projetos de colonização oficiais e não oficiais. Sobre os Uru Eu Wau Wau indicam que localizavam-se numa vasta área do estado, cuja referência era o Posto Ari.

Conhece-se esse grupo desde o século XVI. Os Uru-eu-wau-wau têm tido uma presença forte em relação à preservação ecológica, atuando diretamente nas nascentes dos rios, na manutenção da atividade da caça e da coleta. A atividade deles é de interesse não só de sua tribo, mas de todos os povos que vivem na floresta (PERDIGÃO; BASSEGIO, 1992, p. 18-9).

A questão da mobilidade é fundamental para os Uru Eu Wau Wau e, com tais projetos sendo territorializados, há uma nítida e acirrada disputa conforme constatado no decorrer do documentário.

93 Na maioria dos textos e filmes, Adrian Cowell utiliza-se: “Uru Eu Wau Wau” sem hífen, por isso, manterei dessa forma ao analisar seus materiais. Ressalta-se que outros autores utilizam com hífen, assim como nos documentos e notícias na página da FUNAI.

Teixeira (1999) também corrobora no entendimento inicial desses estudos ao analisá-los a partir da tríade: terra, colonização e violência; essa última atrelada ao território indígena e aos invasores, nesse contexto, leia-se os colonos que se instalavam como os projetos governamentais. Nas figuras a seguir é possível verificar as capas dessa produção a partir da edição da Universidade Católica de Goiás e outra da Verbo Filmes.

Figura 25: Capa do documentário – Na Trilha dos Uru Eu Wau Wau – UCG

Figura 26: Capa do documentário – Na Trilha dos Uru Eu Wau Wau – Verbo Filmes

Fonte: Versão Verbo Filmes. Acervo pessoal do autor.

O documentário concentra-se na tentativa da FUNAI em contatar os desconhecidos – Uru Eu Wau Wau (Mapa 9), bem como estabelece uma narrativa envolvendo o desmatamento na Amazônia Ocidental e a trajetória das famílias do colono Chico Prestes e da liderança indígena Tari.