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Notas de Galba Velloso na argüição de sua tese

PROFESSORES DA BANCA

4.7 Lopes Rodrigues: Diretor do Instituto Raul Soares

No início de Fevereiro de 1929, o Diretor do Instituto Raul Soares Alexandre Drummond, foi acometido por sérios problemas de saúde. Em 07/02/1929, têm início as especulações sobre a sua substituição nos jornais:

Vem causando revolta entre a classe médica desta capital, a attitude escandalosa de um certo esculápio que, por se encontrar enfermo o ilustre e conceituado director de um dos nossos estabelecimentos technicos, ostensivamente se tem inculcado para succeder ao distincto profissional ao cargo que, mercê de Deus, ainda exerce, e que, praza aos céos, ainda exercerá por disputados annos. Esse procedimento inqualificavel está a revelar de que parte é a estructura moral de semelhante candidato, a quem faltam noções triviaes e comesinhas de decôro, generosidade, cavalheirismo e sobretudo de piedade (CORVEJANDO..., 1929a, p.1). A reportagem não especifica quem está “corvejando” o lugar de Drummond. No dia seguinte (08/02/1929), é publicada uma carta ao Estado de Minas, elogiando a matéria e tentando dar mais dicas sobre o “corvo”:

A propósito de uma nota hontem inserida nesse jornal, com o titulo acima, recebemos a seguinte carta:

Sr. Redator:

“Li no seu jornal de hoje uma nota, sob a epigraphe – corvejando – em que V.S. estigmatisa um certo esculapio, que dando mostras de uma absoluta falta de escrupulo, de generosidade e de decôro, se vem candidatando a um certo cargo que elle, o corvo sinistro, almeja vague o mais depressa possível, na esperança já propalada de que a coisa lhe fosse parar aos gadanhos. Só lamentamos nós outros que lemos a sua nota e lhe apreciamos o alcance moral, que V.S. caracterizando o “quidam”, para quem talhou tão de molde aquella carapuça, não destacasse mais e melhor certos dados – côr dos tegumentos, traços physionomicos, proveniencia, etc, do indicado – afim de que a “sombria” e esgadanhada silhueta do candidato se retraçasse nitida e inconfundivel ante os olhos de todos, mesmo dos que não andem a par dos detalhes escusos dessa sinuosa empreitada” G.V.80 (CORVEJANDO..., 1929b, p.2, grifo nosso).

As relações entre Rodrigues e Velloso continuavam tensas. Alexandre Drummond morreu no dia seguinte (09/02/1929), conforme os jornais da época. Antônio Carlos Ribeiro de Andrada resolveu recorrer à fórmula de Arthur Bernardes na substituição do cargo de Drummond: nomear o Professor de Psiquiatria da Universidade de Minas Gerais, Hermelino Lopes Rodrigues, para ocupar este lugar. Andrada era muito querido pela população, mas essa indicação de Lopes Rodrigues para a diretoria do Instituto Raul Soares foi muito criticada na época. Pelo material

80 É possível que G.V. sejam as iniciais do psiquiatra Galba Moss Velloso. Esse médico tinha o hábito

de escrever ao jornal Estado Minas, e muitas vezes assinava seu nome por inteiro. Outra possível evidência é o estilo da escrita, comparada pelo autor deste trabalho.

pesquisado, podemos inferir as razões que levaram Andrada a escolher Rodrigues. O Presidente conhecia os avanços psiquiátricos mundiais e sabia que no Brasil era a safra de alienistas produzidas pela escola de Juliano Moreira que traduzia esse saber em nosso país.

Em Minas Gerais, Lopes Rodrigues era o escolhido por Andrada, que admirava Moreira:

Na evolução das liberdades cívicas, só faltava á liberdade do alienado um nome de um Andrada, para que o heráldico presidente viesse a proclama- la, ligando para sempre o seu nome aos principios liberaes de assistencia,

colhidos por elle nos centros scientificos da Europa, blindando a fama libertadora a epopéia que immortalizou o grande Pinel em França, o sábio Juliano como o precursor brasileiro, e agora Antonio Carlos no

mais populoso Estado do paiz. (HEROISMO..., 1929, p.6, grifos nossos). Para a comunidade científica de Belo Horizonte, entretanto, o nome mais adequado para ocupar o cargo de diretor seria o do alienista Sylvio Cunha(1893– 1972), uma vez que este médico já trabalhava no Instituto Raul Soares. Cunha tinha ingressado no Instituto referenciado por Juliano Moreira, durante o governo do Presidente Mello Viana.

Figura 24: O Presidente de Minas Gerais a partir de 1926: Antônio Carlos Andrada(1870-1946)81

Em Fevereiro de 1929, a imprensa trazia a seguinte questão: teria tido o Presidente Antônio Carlos o cuidado de pedir referências aos alienistas cariocas para nomear Lopes Rodrigues? O trecho a seguir ilustra o momento da nomeação:

“Consta que será assignado hoje o decreto de nomeação do dr. Hermelino Lopes Rodrigues para o cargo de director do Instituto Raul Soares. É de crêr-se que o sr. Presidente do estado, mui naturalmente cieso das suas responsabilidades – já das que decorrem de suas altas funcções, já das que são inehrentes ao seu elevado feitio moral, - terá tido a preoccupação de escolher para tão melindroso posto um profissional absolutamente idôneo. E nem seria offensivo aos melindres do candidato que o governo do Estado, no desejo e no dever de acertar e de fazer acto meritório de justiça procurado obter no serviço de assistência a alienados do Rio, de onde nos vem o indigitado director, informes a elle concernentes, para o que aliás, dispunha o sr. Antonio Carlos de pessoas como Henrique Roxo (o dr. Juliano está ausente), Pernambuco Filho, Adauto Botelho, Bueno de Andrade, Mario Pinheiro, etc, etc. Foi bem o que fez o illustre Mello Viana que pediu informações ao dr. Juliano Moreira para indicar o nome de mais um alienista a trabalhar no Instituto Raul Soares, e a resposta não tardou por telegramma, recomendando o candidato Sylvio Cunha. Ora, si taes precauções foram havidas por necessárias para nomear um simples alienista, por maioria de razão se forrará a surprezas um governo de honestas intenções, quando se trate de escolher um technico que, pela sua probidade profissional, pelo seu critério, pela sua austeridade e inteireza de caracter esteja na altura de assistir scientificamente aos demenciados que batem às portas do Instituto” (INSTITUTO.., 1929a, p.3).

O artigo não tem assinatura, o que era comum na época. Percebemos uma desconfiança dos mineiros ao ato do Presidente de indicar Rodrigues. Além disso, ficam claros dois pontos: em primeiro lugar, que não se sabe se o Presidente pediu referências ao serviço de referência em Psiquiatria da época, o Hospício Nacional no Rio de Janeiro, e em segundo lugar, a matéria lembra que Juliano Moreira tinha indicado Sylvio Cunha (1893–1972) para o cargo de alienista, mas Moreira não estava no Brasil. Seria mesmo o nome de Lopes Rodrigues o escolhido por Moreira, caso ele pudesse opinar?

No dia seguinte, o jornal continuava seu ataque. Na matéria de 17/02/1929, o ataque foi à atuação do Professor Lopes Rodrigues desde o concurso que fez para Catedrático, em 1926. A suas idas e vindas ao Hospital Nacional no Rio de Janeiro foram lembradas:

Em primeiro lugar, não é preciso confessar que ainda não se sabe ao certo, si o Dr. Hermelino Lopes Rodrigues é mesmo, de verdade, o Professor da Cadeira, uma vez que seus multiplos affazeres só lhe permitiram, em 2 annos proferir 4 aulas, o que não impediu, entretanto que o felizardo embolsasse seu salário. Professor Cathedratico nesta cidade, exerce o indigitado (si é que já não director), contemporaneamente, as suas funções de assistente interino do Hospital Nacional. Ora, isto exigia

do Dr. Lopes Rodrigues uma constante ida e vinda entre o mar e a montanha, entre o emprego e a cathedra, situação onerosa que não podia perdurar. Fiquei sabendo que o Dr. Lopes Rodrigues é comissionado para estudar bocio endemico em Bello Horizonte. Não é engraçado? Não é divertido? De sorte que situação é a seguinte: O Dr. Lopes Rodrigues é assistente interino do Hospital Nacional, está comissionado para estudar nossos papos, é Professor Cathedratico a duas aulas por anno e a 6 contos por aula, e vae ser director do Instituto Raul Soares! Caramba, sí a isto não se chama um moço de meritos, então é que a palavra merito nada significa. (INSTITUTO...,1929c, p.2).

A matéria sem assinatura não mentia. Nos principais jornais da época eram comuns informações sobre viagens de pessoas ilustres, bem como sua hospedagem no “Hotel dos Estrangeiros”, em Belo Horizonte. Até 1929, Lopes Rodrigues ainda estava ligado ao Hospital Nacional, e pouco ficava na capital mineira. A pressão em torno da indicação se tornaria mais pesada dois dias depois. Desta vez, em vez de uma dúvida, uma matéria mais uma vez não assinada traz o repúdio em relação à nomeação, que ainda não tinha sido definitiva, pelo que pesquisamos:

[...] a classe medica desta cidade continua profundamente interessada pela solução do caso creado em torno ao preenchimento do cargo de director do Instituto Raul Soares, vago com o fallecimento do inolvidável Alexandre Drummond. É sabido que um candidato impertinente e impiedoso se arvorou, corvejando, ainda em vida do antigo director, o que lhe valeu uma severa reprimenda nestas columnas. De nada lhe serviu a lição; o cavador continuou impávido a cavação, extranho a tudo que não seja o seu fim collimado. Abocanhe elle o logar, que o mais não tem importância. A opinião pública, entretanto, por mais que o candidato propale, jactancioso, que a coisa é certa, é segura, continua a duvidar, confiada na austera linha de conduta do presidente Antonio Carlos. (INSTITUTO..., 1929d, p.6). A argumentação da matéria prossegue ressaltando que Lopes Rodrigues não teria um bom relacionamento com os médicos do Instituto Raul Soares, com exceção de Francisco de Sá Pires (os outros dois médicos eram Sylvio Cunha e Galba Velloso):

Não é possível que s. Excia., depois de conversar 15 minutos a sério, com o gozadíssimo dr. Hermelino, ainda permaneça no propósito de impingil-o, de impôl-o, violentamente, por capricho, por um golpe deselegante de força, à direcção de um serviço onde, ao que sabemos, dois dos três médicos do estabelecimento têm com o candidato sérias incompatibilidades. (INSTITUTO... , 1929d, p. 6).

Além disso, a matéria levanta uma dúvida: teria mesmo a Congregação da Faculdade de Medicina prestigiado Lopes Rodrigues com uma recomendação? O autor (anônimo) da notícia não acredita nisso:

Tem-se allegado que uma circumstancia que está pesando no animo do sr. Presidente do Estado, em prol de tal nomeação, provem de uma recommendação com que a congregação da Faculdade de Medicina teria prestigiado o candidato. Nós, entretanto, pedimos licença para não crer na existência desse documento. O que? Hugo Werneck, Borges da Costa, Roberto Cunha, Eurico Villela, Samuel Libânio, Octaviano de Almeida, Zoroastro Passos, Baeta Viana, Otto Cirne, Aurélio Pires, etc., atestaram, num documento, que o dr. Hermelino tem os requisitos essenciaes para o cargo de responsabilidades, em que se quer encarapitar? Não acreditamos! (INSTITUTO..., 1929d, p.6).

Naquele mesmo dia, o Presidente Antônio Carlos nomeou Hermelino Lopes Rodrigues Diretor do Instituto Raul Soares segundo o Diário de Minas (1929). No dia seguinte, Rodrigues compareceu ao Palácio da Liberdade para agradecer ao Presidente de Minas pela nomeação. No dia 21/02/1929, Rodrigues visitaria o Secretário de Segurança Pública, Bias Fortes. Ele se fez acompanhar de um médico jovem e seu amigo, Francisco de Sá Pires. Os dois sabiam que para organizar o Instituto, a parceria com essa Secretaria seria fundamental.

O Instituto começaria uma mudança extremamente radical, como poderemos ver no capítulo seguinte. No entanto, as ironias aumentaram ainda mais nos jornais. O diretor anterior do Instituto, Dr. Alexandre Drummond, tinha também o cargo de Conselheiro Penitenciário, posto que não rendia remuneração. O Presidente de Minas Gerais dispensou Rodrigues deste trabalho, o que provocou a seguinte matéria:

Viajou para o Rio de Janeiro para se por em dia com funcções que exerce no Hospital Nacional o Dr. Hermelino Lopes Rodrigues. Esses pesados encargos, cá e lá, que exigem do operoso director um constante ir e vir entre Bello Horizonte e a capital do paiz (já o publico não ignora que sua senhoria dispõe, para isto, de um passe livre por conta do governo de Minas Gerais), impediriam que sua senhoria fosse nomeado para Conselheiro Penitenciário, como successor de Alexandre Drummond. Foi, portanto, digno de um Andrada esse gesto elegante do Sr. Presidente de Minas, que tirou de sobre os ombros de um seu amigo, o Dr. Lopes Rodrigues, o peso de um encargo, que positivamente, o esmagaria

(INSTITUTO..., 1929e, p.2).

Como podemos perceber o clima da posse de Lopes Rodrigues no Instituto Raul Soares foi marcado por ironia, recusa e ataque por parte da imprensa da capital. A maior indignação era centrada na amizade entre Rodrigues e o Presidente Andrada, que alheio às pressões se mantinha impassível no convite e na confiança depositada ao Professor Catedrático de Psiquiatria. Uma vez diretor do Raul Soares,

Rodrigues quase não foi ao Rio de Janeiro durante 1929. O relato semanal do “Hotel dos Estrangeiros”82 apontou apenas uma viagem de Rodrigues para o Rio de

Janeiro em Julho de 1929. O diretor do Instituto teve muito trabalho naquele ano. A situação caótica no Instituto Raul Soares exigia do novo diretor providências rápidas e eficazes no combate aos maus tratos aos doentes. Rodrigues se empenhou muito no seu cargo, mas as resistências foram inúmeras, conforme veremos no próximo capítulo.