2.6 PONTAL DA BARRA
2.6.3 Loteamento Residencial Pontal da Barra e Complexo
O loteamento Residencial Pontal da Barra ocupa uma fração de terras de 163 ha, situado em área de preservação ambiental, entre a barra do Canal São Gonçalo e a margem direita da Laguna dos Patos, no Laranjal.
O residencial Pontal da Barra juntamente com o loteamento Novo Valverde, representa a expansão urbana dos balneários mais antigos, Santo Antônio e Valverde no sentido sul.
O conflito socioambiental no entorno desse loteamento residencial marca o início das manifestações de ambientalistas, ONGs, moradores do Laranjal e outros profissionais lutam contra a descaracterização do banhado ali presente.
O conflito emergiu, quando a empresa Pontal da Barra Loteamentos Mineração e Negócios Gerais Ltda. começou a interferir na área de banhado, drenando e aterrando as áreas alagadiças, para a construção de um loteamento residencial no local. As obras do loteamento e o corte ilegal de árvores levaram as ONGs CEA e GEEPAA a denunciarem as intervenções no banhado nos jornais e na defensoria comunitária. Conforme matéria no Diário Popular, entidades ambientais manifestaram-se sobre esse fato:
O corte ilegal de 15 corticeiras – do – banhado, arbusto nativo da região do Pontal da Barra foi denunciado ontem ao promotor da defensoria comunitária. [...] A corticeira é considerada imune ao corte pela Lei 9.519/92, do Código Florestal Estadual. (DIÁRIO POPULAR, outubro de 1994, p. 6).
É importante ressaltar que um dos sócios desse loteamento é o ex-prefeito Irajá Andara Rodrigues (PMDB). Este se encontrava no exercício de poder no período das denúncias, tendo declarado ao jornal Zero Hora “[...] que o corte não foi feito pelos proprietários dos loteamentos, mas por uma empreiteira encarregada de instalar postes de energia elétrica na área” (ZERO HORA, 21 de outubro de 1994, p.?).
As denúncias levaram a promotoria de justiça especializada de Pelotas a abrir um inquérito, cuja discussão da ação pautava-se no fato de que parte do loteamento estava dentro de uma área de banhado
considerada pela FEPAM, autora da licença ambiental, como campo inundável.
Nas negociações para o licenciamento ambiental do empreendimento, foi acordado entre os empreendedores e a FEPAM que o loteamento seria licenciado, caso uma parte do banhado fosse preservada. Conforme consta na licença prévia concedida pela FEPAM, uma área de aproximadamente 46 ha deveria ser preservada, por tratar- se de uma área de banhado, estando o restante identificado como campo inundável, liberado para ocupação.
Assim, em 1999, da sua área total de 228,96 ha, o empreendedor incorporou 65,33 ha ao Sistema Nacional de Unidade de Conservação (SNUC) e obteve a licença prévia para o loteamento. A área de banhado foi enquadrada na categoria de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN), sendo instituída pelo IBAMA a primeira e única RPPN de Pelotas.
No ano anterior, o jornal Diário da Manhã havia publicado uma nota sobre a importância da preservação dos banhados: “Banhados do Estado no Conselho Nacional”. Essa nota apresenta o advogado ambientalista Antônio Soler, integrante da ONG – CEA, como o representante dos três Estados da região Sul na reunião do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA). Conforme aponta a nota:
Antônio Soler frisa que a moção pela preservação imediata dos banhados remanescentes do RS foi aprovada por unanimidade, recebendo 72 votos de conselheiros de todo o Brasil e que o CEA está estudando uma proposta de resolução em conjunto com o Grupo Especial de Estudos e Proteção do Ambiente Aquático (GEEPAA) para normatizar a preservação e uso sustentável desses ecossistemas com o objetivo de aprovação pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente. (DIÁRIO DA MANHÃ, dezembro 1998, p. 12).
Diante desse fato, representantes de diversas entidades43
de defesa do ambiente realizaram denúncias sobre as obras do loteamento Pontal
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Dentre essas ressaltam: o GEEPAA, a CEA, a APEB (Associação Pelotense de Biólogos), CORECICLO (Cooperativa de Reciclagem de Lixo), SMUMA, (Secretária Municipal de Meio Ambiente), a deputada estadual e membro da
da Barra. Encaminharam um documento ao Ministério Público, solicitando o embargo das obras do empreendimento imobiliário, e destacando:
Eles também questionam a condenação em primeira instância dos proprietários do loteamento em razão das irregularidades destacadas e a continuação das obras que estão degradando os ecossistemas existentes, principalmente os banhados. Está sendo requerido ao Ministério Público um encontro entre [...] todos os profissionais que se manifestaram contrariamente ao loteamento. (DIÁRIO POPULAR, 30 de janeiro de 1998, p. 09).
Tanto a FEPAM, órgão estadual responsável pelo licenciamento ambiental do loteamento, quanto a prefeitura, não consideraram a lei de zoneamento existente, ao liberarem o loteamento. Conforme a Lei Municipal Nº 2565/80 do II Plano Diretor, uma parte da área do loteamento que ocupa uma Zona de Preservação Permanente Legal (ZPPL). Nesse tipo de área, não é permitida nenhuma intervenção no local. Outra parte do empreendimento ocupa uma Zona de Preservação Natural (ZPPN), onde a ocupação humana é permitida com restrições de usos. Essa área, para ser licenciada, necessita do Estudo de Impacto Ambiental (EIA), bem como de Relatório de Impacto Ambiental (RIMA). Os documentos foram entregues pelos empresários, porém continham erros e equívocos graves, detectados mais tarde nas averiguações.
Em entrevista concedida para o presente trabalho, o promotor de justiça Dr. Paulo Charqueiro informou-nos que uma grande discussão técnica foi levantada. Técnicos e professores especializados da UFPEL tinham opiniões divergentes e optaram por não emitirem seus pareceres. Assim, técnicos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) foram trazidos pelas ONGs, para emitirem um parecer sobre o caso.
Conforme avaliação do biólogo e professor da UFRJ José Fernando Pacheco:
Comissão de Saúde e Meio Ambiente Cecília Hypólito, professores e acadêmicos de Ciências Biológicas da UFPel e UCPel (DIÁRIO POPULAR, jan.1998, p. 09).
[...] os banhados litorâneos da costa do Rio Grande do Sul oferecem condições únicas de reprodução, alimentação e trânsito para uma infinidade de aves aquáticas da região austral sul-americana. [...] a conservação do Pontal da Barra salvaguardará parcela do ambiente de inestimável valor em um total de 224 espécies de aves que habitam a área, incluindo espécies raras e já ameaçadas dentro de suas respectivas áreas de distribuição, como o socó boi marrom (DIÁRIO POPULAR, 23de março de 1995. p. 8).
Esses profissionais apontaram que o loteamento seria inviável e que se trata de uma área de banhado que deveria ser preservada. Os empreendedores tendo a licença de instalação concedida pela FEPAM mantiveram as obras no local, enquanto a ação civil pública tramitava.
No entanto, nem mesmo a área da RPPN estava recebendo os devidos cuidados. De acordo com estudo coordenado por Barger (2006), essa RPPN não cumpre as normas do SNUC. Apresenta uma série de irregularidades, como a presença de ocupações humanas, de animais domésticos e acúmulo de lixo próximo à vegetação de matas, como evidencia a Figura 17.
Figura 17: Entrada da RPPN pela rua marginal ao canal São Gonçalo. Fonte: BAGER (2006)
O uso indevido desse espaço gera acúmulo de lixo, corte das matas existentes para uso de lenha e compactação do solo, provocada pelo pisoteamento dos animais.
Numa das vistorias realizadas pela FEPAM, foi detectada a situação da RPPN, ou seja, o não cumprimento das condições e restrições estabelecidas pela licença de instalação do loteamento acordada junto à FEPAM, o que gerou um procedimento criminal. Conforme consta no processo crime nº 2201998038 da comarca de Pelotas:
[...] os infratores Irajá Andará Rodrigues e Irineu Paludo, no período compreendido entre 18/09/2000 e 17/03/2004, mediante atividade de implantação de atividade imobiliária no Balneário do Laranjal e denominado Loteamento Pontal da Barra, teriam praticado o crime ambiental previsto no art. 60 da Lei 9605/98, “ao instalar em qualquer parte do território nacional, obras potencialmente poluidoras44, contrariando as normas legais e regulamentares pertinentes”. (TJ-RS, 2005)
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A FEPAM, em 2003, ao realizar uma vistoria no empreendimento, identificou uma série de irregularidades: “extravasamento de esgotos para a rede pluvial, sistema de proteção contra cheias fora das dimensões especificadas e
Os empresários autuados alegaram que não houve descumprimento dos itens da licença, e informaram que foram vítimas de roubos, em 2003 pelos ocupantes das margens do São Gonçalo. Assim, a FEPAM retificou a sua manifestação e, em nova vistoria realizada em abril de 2005, não identificou nenhuma irregularidade. Não havendo delitos, encaminhou o arquivamento do processo criminal.
No entanto, é importante salientar que, nas vistorias realizadas no local feitas pela FEPAM, foram identificadas duas situações de ocupações irregulares: uma da classe de baixa renda e outra da classe média. A primeira, na RPPN, com moradias e criatório animal, e a segunda, com os adquirentes dos lotes no loteamento Pontal da Barra. Conforme consta na Vistoria da FEPAM:
[...] ocupação irregular de parte da área de lazer (recreação pública – 5,20 ha) com residências e criação de animais, junto a mata nativa no interior da mesma, na altura da Rua Quarai com a Rua 19. [...] os moradores do loteamento relataram dificuldades como ligações clandestinas de esgotos, acessos com má conservação, inundações periódicas nos períodos de chuvas e etc., o que tem causado a inadimplência dos adquirentes dos lotes. (FEPAM, RG, 2003)
Nos períodos em que as chuvas são mais intensas, é comum os terrenos mais baixos serem inundados no Laranjal. O fato de as áreas de banhados terem sido ocupadas sem as condições necessárias de drenagem das águas expôs os moradores a transtornos provocados por inundações.
No ano de 2002, devido a uma cheia do canal São Gonçalo, um dique de contenção estourou inundando o loteamento como mostra a Figura 18.
insuficiente, falta de cercamento e de placas indicativas na RPPN, ocupação irregular de mata nativa, com moradia e criação, condições críticas de pavimentação e valetamento de acessos, significativo potencial de impacto ambiental, inclusive fora da área do empreendimento com a ocupação da área de banhado” (FEPAM/RG, mar. 2003).
Figura 18: Alagamento nos loteamentos Pontal da Barra e Novo Valverde. Fonte: GUIMARÃES (2002)
Esse acontecimento demonstra a fragilidade da área física em relação às ações de drenagem e aterramentos realizadas pelo homem. Diante desse acontecimento, consideramos pertinente levar em conta o posicionamento de Serra sobre os resultados das modificações feitas ao meio-ambiente:
As adaptações do espaço são, portanto, conscientes e dirigidas para determinadas finalidades; entretanto, as modificações do meio-ambiente resultantes dessas adaptações implicam, com frequência, aspectos negativos imprevistos. (SERRA, 1987, p. 48).
Sobre esse aspecto, o empreendedor em entrevista relatou que houve falhas no funcionamento das bombas d‟água que realizam a drenagem do terreno. O entrevistado não descarta a possibilidade de sabotagem por parte daqueles que querem a impugnação do loteamento, tendo também um fundo político, visto que preparava candidatura a Câmara Federal.
O Ministério Público, em investigação, identificou o rompimento de um dique improvisado com sacos de areia no Pontal da Barra e a ausência de bombas de sucção de água. Esses tinham sido colocadas pela municipalidade, para solucionar o problema dos moradores que tiveram suas casas invadidas pela água. Segundo matéria publicada no D.P. (20 de junho de 2002, p. 3): “Rompimento de dique inunda Pontal da Barra. Prefeitura acionará proprietários do loteamento por danos ambientais”.
A ação cívil pública para barrar o loteamento foi morosa em função de uma grande discussão técnica, para a qual foram chamados profissionais da Fundação Zoobotânica do Rio de Janeiro e Metroplam afim de avaliar o banhado. Profissionais das universidades locais não se manifestaram, e o juiz acabou julgando o caso com base nos documentos existentes e, assim, julgou-o improcedente.
Não obstante, o empreendedor aproveitou-se da licença concedida para a efetivação do loteamento e projetou, sobre o mesmo, a construção de um Hotel.
Assim, o empreendedor apresentou, na Câmara de Vereadores de Pelotas, seus projetos para o Pontal da Barra e Pelotas, ocasião em que ele mostrou a maquete do Complexo Turístico Hotel Cavalo Verde, contendo este, além de um grande hotel, um parque temático composto de auditório para 212 pessoas, salão de festas, estacionamento para 1000 veículos, 2 espaços para rodeios com arquibancadas para 1000 pessoas, um pavilhão reproduzindo o carnaval da Rua XV de Novembro, parque aquático com 5 piscinas, parque de diversões e, ainda, um amplo espaço destinado às diversas culturas que fazem parte da história de Pelotas com sua gastronomia e danças típicas: portuguesas, alemãs, italianas, sírio-libanesas, espanholas e africanas. Também, a construção de um campo de golfe, tudo isso para além da área do loteamento já licenciado. No caso da licença ambiental do complexo turístico do Pontal da Barra, o órgão ambiental municipal considerou o empreendimento de grande impacto ambiental e repassou a responsabilidade para a FEPAM. Os órgãos de fiscalização estadual, não percebendo grandes diferenciações entre a utilização residencial, já licenciada, e a função de hospedagem, dispensaram o empreendimento hoteleiro da licença ambiental estadual. Isso, porque, no entendimento dos representantes da FEPAM, conforme consta no Inquérito Cívil (2008-60), “um hotel em área já loteada é isento de licença ambiental no âmbito estadual; que, no entanto, isso não significa a dispensa de licenciamento por parte do órgão ambiental municipal”.
Neste ponto, cabe também destacarmos a existência de um conflito de competências entre os órgãos licenciadores e fiscalizadores federais, estaduais e municipais. Tal conflito foi confirmado por dois depoentes. O analista ambiental do IBAMA relatou que um agravante da problemática ambiental da orla está no impasse entre os órgãos ambientais: “Muitas vezes se fica na dúvida de quem é a competência para licenciar a ocupação e obras de determinados locais, principalmente nas áreas de Marinha”. Esse conflito também foi apontado como um agravante pelo depoente da FEPAM. Segundo ele, “existe um conflito institucional onde uma das facetas é administrativa”. O depoente refere- se aos processos de municipalização da questão ambiental e aponta que: [...] dos 497 municípios do Rio Grande do Sul, aproximadamente uns 200 já fazem licença ambiental. Nesse sentido, enquanto a maioria dos municípios na regional licenciam o padrão stander que corresponde a 2 mil metros, Pelotas ultrapassou esse limite licenciando sobre 10 mil metros. [...] Além de falta de experiência das prefeituras em relação às incumbências de cada órgão fiscalizador, há falta de corpo técnico profissional, e assim como ocorre na FEPAM se fiscaliza muito aquém do que deveria. (informação verbal)45. A falta de articulação entre os órgãos públicos ambientais, de certa forma, acaba deixando brechas nas quais os empreendedores imobiliários costumam agir. Isso, quando não pressionam o Estado para alterar as políticas urbanas e ambientais em prol de seus interesses.
Não é demais ressaltar que para construir o hotel, o empreendedor precisaria de lotes maiores, os quais o mesmo solicitou junto a prefeitura as áreas públicas do loteamento. Conforme depoimento de técnicos da SQA, “em 31 de dezembro de 2009 foi votada e aprovada a desafetação das vias públicas para criar o poligonal do Hotel, indo contra os interesses públicos”.
Essa situação gerou impasses no licenciamento do empreendimento em escala local, também por conta das denúncias encaminhadas à Procuradoria da República. O curso de Ecologia da Universidade Católica de Pelotas encaminhou um laudo técnico,
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Informação fornecida por Paulo Anselmi Duarte da Silva, em entrevista a autora.
esboçando a ideia de que quase toda a área do Pontal da Barra é área de banhado, sendo essencial para o equilíbrio hídrico da região, pois, é habitat de espécies endêmicas ameaçadas de extinção, bem como local onde se encontram sítios arqueológicos devendo, portanto, ser preservada. No presente estudo, a preocupação com a preservação futura do banhado fundamenta-se em argumentos ambientais, considerando a legislação em todas as esferas, a qual discorre sobre áreas úmidas, histórico-culturais e socioeconômicas (CRUZ, 2008, p. 5-6).
O Laboratório de Ensino e Pesquisa em Antropologia e Arqueologia da Universidade Federal de Pelotas (LEPAARQ - UFPel), também, encaminhou um laudo técnico arqueológico comprovando a presença de sítios arqueológicos no Banhado Pontal da Barra e destacando a sua importância cultural.
O LEPAARQ é reponsável pelo Projeto de Mapeamento Arqueológico de Pelotas e Região, com registro no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Com base nessas pesquisas, foi identificada a existência de sítios arqueológicos das culturas indígenas Guarani e de construtores de cerritos tanto no litoral, quanto na zona serrana de Pelotas.
A pedido da municipalidade, o LEPAARQ produziu um laudo técnico para a Comissão de Elaboração do Plano Diretor vigente em Pelotas. O objetivo foi identificar, no município, áreas de interesse cultural e áreas de interesse arqueológico. Como resultado desse trabalho, têm-se a identificação, o registro e os respectivos estados de preservação de 16 sítios46
, encontrados na localidade Pontal da Barra. Esse estudo serviu como laudo apresentado ao Ministério Público Federal na tentativa de preservar o banhado Pontal da Barra e evitar a destruição dos legados indígenas com a urbanização da praia. Os sítios arqueológicos estão situados em áreas a serem ocupadas pelos projetos de loteamentos Valverde e Pontal da Barra e pelo complexo turístico Hotel Cavalo Verde.
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Os grupos construtores de Cerritos, denominados pela arqueologia brasileira como Tradição Vieira, ocuparam a região sul da Laguna dos Patos desde aproximadamente 2.435 ± 85, sendo até aproximadamente 200 ± 80 (cf. Schmitz 1976). Segundo Basile (2002), os grupos indígenas que construíam os Cerritos teriam sido os índios Charrua e Minuano, os quais, na época do contato ocupavam o Sul do Rio Grande do Sul, às margens da Laguna dos Patos, canal São Gonçalo, Lagoa Mirim e regiões litorâneas e interioranas do Uruguai (Basile; Becker, 2002; Schmitz, 1976 e Cope 1992) (CERQUEIRA; MILHEIRA; CUNHA, 2008, p.4).
Antes mesmo de a população conhecer o processo histórico de ocupação indígena na região, os vestígios da existência desses terão sido aniquilados pelos novos empreendimentos imobiliários. Sobre a importância da manutenção desses sítios arqueológicos, destacamos um trecho do laudo elaborado para a prefeitura:
Os sítios arqueológicos do Pontal da Barra, além de serem importantes fontes para compreensão da história regional devem ser encarados como elementos significativos para o desenvolvimento de projetos turísticos e educacionais que permitam auxiliar na sustentabilidade das comunidades locais (CERQUEIRA, 2008, p.3).
A SQA também encaminhou um laudo técnico ambiental ao Ministério Público, reconhecendo que o Pontal da Barra é uma área de banhado. Essas denúncias levaram à instauração de um inquérito civil, contendo em sua capa a seguinte informação: “Apurar o impacto ambiental de empreendimentos imobiliários e turísticos a serem construídos na área do Pontal da Barra, junto à Lagoa dos Patos e ao Canal São Gonçalo, na praia do Laranjal, em Pelotas/RS” (PORTARIA, MPF/PRM-PEL/GAB/MCS n◦ 003/2008). Nesse momento, o empreendedor foi questionado sobre os impactos ambientais e socioculturais que o seu projeto poderia gerar. Em defesa de seu empreendimento, o ex-prefeito, em declaração à Procuradoria da República, responde que:
A FEPAM decidiu licenciar há mais de dez anos o loteamento, tendo em vista a circunstância de que se não fosse feita a ocupação legal e ordenada, essa acabaria acontecendo desordenadamente, com sacrifícios dos matos ali existentes e comprometimento do lençol freático, além do que a maior parte da área era perfeitamente habitável, como o é hoje. Na época já havia a ocupação por posseiros da Barra, de uma pequena parte da margem do São Gonçalo e da rua Nova Prata no contíguo loteamento Novo Valverde, com absoluta complacência do Poder Público. [...] que se não fosse a vigilância permanente dos proprietários do loteamento e
de seus moradores regulares neste período de mais de 10 anos, teria havido ocupação total da área privada, com completa destruição dos matos existentes e estaríamos convivendo com uma grande favela. (5 de março de 2008). Os agentes imobiliários assim como as elites locais, no intuito de legitimar suas ações, são interpretados por eles mesmos como ativos na história do município. O loteador, de acordo com as palavras do ex- prefeito, interpreta as suas ações como as melhores possíveis. A sua intenção é sempre em prol do desenvolvimento da cidade e de sua melhoria.
Desse modo, enquanto o projeto do Resort “Hotel Cavalo Verde”, orçado em R$ 13 milhões e de 150 ha de área tramitava nas esferas do poder público, mesmo estando sob uma liminar, as intervenções, para transformar o banhado numa área apta à ocupação, permaneciam em atividades, como mostra a Figura 19.
Figura 19: Obras no Banhado Pontal da Barra Fonte: IBAMA (2010)
Enquanto a SQA procurava negociar com o empreendedor um projeto que garantisse a ecologia da paisagem, ele deveria optar entre hotel e loteamento. Dessa forma, foi enviado à SQA, pelo chefe maior do executivo, um ofício pedindo a agilidade no licenciamento do Hotel, “pois, conforme imagem do Google anexa, não vê motivo de