• Nenhum resultado encontrado

Luís Alvares de Andrade - O Pintor Santo e mentor das Alminhas

No documento Génese das Alminhas (páginas 93-97)

CAPÍTULO I Génese das Alminhas Génese das Alminhas

5.1 Luís Alvares de Andrade - O Pintor Santo e mentor das Alminhas

Uma figura incontornável quando se aborda o tema das Alminhas, é a de Luís Alvares de Andrade, natural de Lisboa. Pintor e dourador de profissão, teve um percurso de vida totalmente dedicado à vida religiosa. Aos 25 anos fundou a irmandade de Vera Cruz, e apresentam-no como o instituidor da procissão dos Passos anualmente celebrada na cidade de Lisboa pela irmandade da Vera Cruz e Passos na igreja da Graça.196

Devoto paroquiano de S. Nicolau, foi pela primeira vez nomeado por ofício em 22 de Setembro de 1599, pintor régio da corte de Filipe II de Espanha, I de Portugal

“(...) pintor de tempara, dourado e estofado(...)com o qual (ofício) não averá mantimento algum, mas serlhehão pagas as obras que fizer(...).”197

196 Cf. Jorge CARDOSO, Agiológio Lusitano dos Sanctos e Varoens illustres em virtudes do Reino de Portugal, e suas conquistas, vol. II, Lisboa, 1657, pp. 413-414. Sobre a vida e obra de Luís Alvares de Andrade, sabemos que quando sua mãe ficou viúva, foi entregue aos cuidados dos dominicanos Frei Francisco de Bovadilha, (confessor da Rainha Dª. Catarina), e Frei Luís de Granada, com quem aprendeu a ler e a escrever no convento de S. Domingos, tornando-se um discípulo muito afeiçoado e um acérrimo voluntário e devoto da S. S Trindade e do Santíssimo Sacramento. Foi o instituidor da Via -Sacra e um dos principais fundadores da procissão dos Passos realizada na segunda 6ª feira da Quaresma, na Graça, onde se fundou a 1ª Irmandade, que se dedicou a essa devoção. Confirmada por D. Miguel de Castro, Arcebispo de Lisboa, em 1587, depressa se estendeu a todo o país.

197 IANTT, Torre do Tombo, Chancelaria Filipe II, Lº 7, fls. 222 e v., sobre este pintor consultar igualmente Sousa VITERBO, Noticia de Alguns Pintores Portuguezes e de outros que, sendo estrangeiros exerceram a sua arte em Portugal, Lisboa, Typographia da Academia Real da Sciencias, 1903, p. 31.

(Documento 6).

Mais tarde, e porque terá perdido a carta referente a esse oficio foi novamente nomeado por Alvará de 29 de Junho de 1601 cujo teor deixa explicito o pormenor de

“(...) e desta merce se lhe passou portaria ao dito Luis Alvarez a Xxij de Setembro de noventa e nove, pela qual se lhe fez carta do dito officio, que diz se perdeo e se não acha: cumprirseha hu delles somente, e eu Manuel Godinho de Castello Branco a fiz escrever.”

88 aplicou-se a pintar e a distribuir à sua custa, painéis de madeira avulsos, primeiro da S. S. Trindade, e depois, com as almas do purgatório com a usual legenda PN/AM.

Tornou-se um asceta, visitava frequentemente os doentes nos hospitais a quem consolava e dava de comer por sua própria mão, aos demais, não perdia a oportunidade de os alertar para os sufrágios devidos aos mortos. Como leigo, exerceu um trabalho incansável na difusão das devoções saídas da reforma Católica.198

O contributo deixado pelo cronista e especialista em santos portugueses, Padre Jorge Cardoso no seu “Agiológio Lusitano”199, onde, além dos santos canonizados, dos beatos e dos mártires, inclui pessoas “(...) de esclarecida virtude, e acreditadas no céu com maravilhas”, e as de “(...) conhecida e exemplar vida, dignas de se proporem para imitação”, descreve o papel de Luís Álvares de Andrade, chamado de “pintor santo”, que pelos finais do século XVI princípios século XVII, divulgou e difundiu de maneira tão peculiar o culto às almas do Purgatório, ajudando a uma maior proliferação das alminhas. “(...) mandou imprimir mais de vinte mil papéis com a Oração do santo Sudário, indulgência o Papa Clemente VIII, que distribui pelo reino, e fora dele, procurando despejar o Purgatório, recitando-se em graça.

Invenção foi sua o retrato das almas a óleo, que no meio das chamas estão ardendo, pelas portas da cidade, e lugares públicos, despendendo nestas tábuas grande soma de dinheiro, e nas muitas cópias que para todo o reino, e suas conquistas, mandou suspender pelas paredes com esta letra: Irmãos lembraivos das almas que estão no Purgatório, com hum Pater Noster e Ave- Maria”200

Este pequeno parágrafo retirado do Agiológio Lusitano, livro escrito poucos anos após a morte de Luís Alvares de Andrade e portanto com alguma veracidade, ao ser citado por Leite de Vasconcelos, celebrizou a figura de Luís Alvares de Andrade como o introdutor das Alminhas em Portugal nos finais do Século XVI.

201

198 Cf. Diogo Barbosa MACHADO, Bibliotheca Lusitana, Tomo II, Lisboa, 1752, p. 54. O autor assim fala dele: “ Teve grande devoção à S. S. Trindade, fizera muitos quadros onde representava as 3 Divinas Pessoas e os colocara em diversos templos, assim como grande devoção tinha pelo Santíssimo Sacramento.”

199Cf. Joaquim Fernandes da CONCEIÇÂO, Espiritualidade e religiosidade no Portugal Moderno - O Agiológio Lusitano do Padre Jorge Cardoso, Dissertação de Mestrado em História Moderna e Contemporânea, Porto, 1996. Estudo sobre a vida e a obra do Padre Jorge Cardoso, autor do Agiológio Lusitano.

200 Cf. CARDOSO, op. cit., Vol. II, 1657, pp. 408-411.

201 Cf. VASCONCELOS, op. cit., Tomo VII, p. 59.

De facto, uma outra referência ao mesmo assunto ficou escrita pelo próprio filho de

89 Luís Alvares de Andrade, Lucas de Andrade, onde confirma a iniciativa de seu pai:

”Se diz não havia della noticia neste Reyno, o meu pay fez imprimir muitas milrepartindoas por todos, pera que ajudassem a sahir as almas das penas do purgatório de quem era particular devoto, alem das lembranças que fez por nas portas, e partes publicas huas taboas com as almas pintadas, pera que os fieis Christãos tivessem memoria dellas, pera as socorrerem com suas oraçoens (...)”.202

Como pintor e dourador, Luís Alvares de Andrade executou trabalhos em igrejas da Ordem de Santiago, podemos apreciar a sua arte de douramento, num retábulo de invocação mariana, que se encontra na capela da Santa Casa da Misericórdia de Almada.

203 Efectuou também obras de pintura e decoração em navios da armada Real.204 Muito estimado entre os seus confrades, foi um dos quatro que assinaram o compromisso da Irmandade de S. Lucas em 1602 e compraram a capela do dito santo.205

Luís Alvares de Andrade, está também associado ao incremento da difusão da Via-Sacra na cidade de Lisboa, aliás, muito acarinhada pelos Jesuítas. Este tema da morte do corpo e da ressurreição do corpo e da alma foi recorrente em pregações e retábulos, não esqueçamos o tema de base da Via Crucis – principalmente a sua

202 Cf. Ernesto SALES, Nosso Senhor dos Passos da Graça (de Lisboa), Estudo Histórico da sua Irmandade com o título de “Santa Cruz e Passos”, Imprimatur, Lisboa, 1925, p. 14. Esta edição é um Livrinho de bolso usado como guia de orações escrito por Luís Alvares de Andrade e acrescentado pelo seu filho Lucas de Andrade com dedicatória ao Conde de Odemira datado de 1656. Após a exposição, lê-se: “O Papa Clemente Oitavo, a instancia da Infanta Dona Catherina Duqueza de Saboia concedeo, que todas as vezes, que se disser esta oração em louvor do Sancto Sudário se tire hua alma do purgatório. ORAÇAM. Senhor Deos, que deixastes os sinaes(...)”.

A primeira edição traduzida das Advertências Espirituais para mais agradar a Deus,.por Luís Alvares de Andrade foi em 1625, um pequeno folheto dedicado a D. Mariana de Lencastre e onde não falta o painel das Alminhas.

.Sobre esta obra deixada por Luís Alvares de Andrade, “Advertencias espirituaes para mais aggradar a Deos N. Senhoor com hum exercicio para depois da Sagrada Comunhão” (de D. Luís de Velasco), Lisboa, 1625, 1639, 1645, 1647, 1656 (acrescentado por seu filho Lucas de Andrade), 1670, 1674.

203Cf. Vitor SERRÃO, Giraldo do Prado, Cavaleiro-Pintor do Duque de Bragança D. Teodósio II, in Callipoli, Vila Viçosa, nº 12, 2004, p.p. 248-274. O retábulo, da autoria de Giraldo Fernandes do Prado foi executado por encomenda do provedor Francisco de Andrada, em 1590. A obra de marcenaria foi encomendada ao mestre Henrique Antunes e finalizada no douramento pelo nosso

“Pintor Santo” em comunhão com Francisco Rodrigues.

204 Cf. António Alberto Banha de, ANDRADE, Dicionário da História da Igreja em Portugal, 1º Volume, Editorial Resistência, 1980, p. 235. Em 1616, pagaram-se-lhes “(...)las pinturas, flocaduras, brolas e cordones de seda carmesi(...)”, do estandarte grande de damasco destinado à Capitania Real (3$979rs);

205 Vários autores escreveram sobre a vida e obra de Luís Álvares de Andrade, consultar, Arsénio Sampaio de ANDRADE, Dicionário Histórico e Bibliográfico de Artistas e Técnicos Portugueses, Lisboa, 1959, p.17. ; Fernando PAMPLONA, Dicionário de Pintores e Escultores Portugueses, Vol.

I, 3ª Edição, Livraria Civilização, 1991, p.104. ; Cyrillo Volkmar MACHADO, Colecção de memórias relativas às vidas dos pintores, Lisboa, 1823, pp. 72-73.; Vitor SERRÃO, O maneirismo e os estatutos social dos pintores portugueses, Lisboa, 1983, pp. 157 e seguintes.

90 Maria.

É da sua autoria, assim como de outros, em 1587, a instituição da Irmandade do Senhor dos Passos da Graça, organizadora da respectiva procissão ainda hoje em vigor, que partia da igreja dos Jesuítas de São Roque e recolhia à de Nossa Senhora da Graça do convento dos Agostinhos percorrendo as 7 estações.206

Luís Álvares de Andrade, padeceu de gota nas mãos e pés, durante 14 anos, falecendo após muito sofrimento em Lisboa a 3 de Abril de 1631.207

Muito versado nos ritos e cerimónias litúrgicas, era sempre consultado nas maiores dúvidas que surgiam entre os “mestres-de-cerimónias” sendo a sua opinião muito respeitada. Deixou uma vasta bibliografia, e dedicou-se a escrever manuais e tratados religiosos: “Acçoens Episcopaes, tiradas do Pontifical Romano &

cerimonial dos Bispos, com hum breve compendio dos poderes, & privilegios dos Bispos”, em 1671, assim como, acrescentou uma obra de seu pai de1656,

“Advertencias spirituais para mais agradar a Deos N.S: com hum exercicio, pera despois da sagrada comunhão”, dedicado ao Conde de Odemira.

O seu filho seguiu a vida religiosa, Lucas de Andrade foi ordenado de presbítero e obteve um benefício na igreja de S. Nicolau em Lisboa, sendo depois promovido a Capelão de Sua Majestade, prior de Nossa Senhora dos Anjos, matriz da extinta Vila de Villaverde do patriarcado de Lisboa.

208

Terá sido desta forma, e pela iniciativa de Luís Álvares de Andrade, fervoroso religioso e conhecido por “Pintor Santo”, que pelos finais do século XVI, princípios do século XVII, se divulgaram e difundiram de maneira tão peculiar as Alminhas.

206 Cf. Diogo Barbosa MACHADO, Bibliotheca Lusitana, Coimbra, Atlântica Editora, 1965-1967, 4 vol.

207 Cf. ANDRADE, op. cit, Dicionário, pp. 235. Os Jesuítas consideravam-no entre os benfeitores da Casa de S. Roque, e deram-lhe carta de Irmandade e sepultura na cova 12 da 1ª ordem da Igreja, onde Jaz com sua mulher Beatriz Cabral falecida em 1650.

208 Cf. ANDRADE, op. cit., Dicionário, 1980, pp. 233-234.

91

II CAPÍTULO

No documento Génese das Alminhas (páginas 93-97)

Documentos relacionados