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3. O ACERVO MODERNO DO BNB

3.4 O Lugar

3.4.3 O lugar como premissa projetual

O lugar como pretexto para o projeto alcançou outro patamar na agência de Penedo-AL, que apresenta um gesto de reverência ao contexto, tornando-o emblemático, dentro do acervo moderno do BNB, pelo esforço de diálogo com o seu entorno, um sítio histórico de grande valor histórico e cultural, que guarda marcas dos colonizadores portugueses, holandeses e dos missionários franciscanos à beira do “mítico” Rio São Francisco.

A identidade deste edifício está intrinsecamente relacionada ao contexto urbano onde se insere. E isso se apresenta em diversas decisões tomadas no projeto que fazem referência ao conjunto cultural à sua volta: a solução da cobertura com tradicionais telhas de barro; a presença marcante do muxarabi, elemento tradicional da arquitetura portuguesa e colonial, como elemento de proteção contra a insolação; o gabarito do edifício com a adoção de um pavimento semienterrado, diminuindo a altura total, criando uma relação de maior proximidade com a escala do entorno, dominado por um casario com exemplares entre um e três pavimentos (figura 3.37).

Figura 3.37 – Edifício de Penedo: trecho da fachada leste e pormenor da esquadria.

Fonte: arquivo técnico do BNB.

À esquerda percebe-se o pavimento semienterrado. As duas imagens ilustram o uso do muxarabi.

Outra forma de se relacionar com o lugar se coloca na forma que o edifício foi implantado, ocupando cerca de metade do lote, graças à sua disposição em três pavimentos, liberando a outra metade do terreno para a conformação de uma praça. Essa implantação se configurou de forma bastante singular diante da

massa construída contínua local, característica dos estreitos lotes de origem colonial, onde as edificações ocupam, tradicionalmente toda a testada do terreno sem recuos. Buscou, deste modo, se integrar ao cenário urbano através de uma preocupação em oferecer um espaço à cidade, evidenciando respeito ao conjunto cultural edificado à sua volta (figura 3.38).

Figura 3.38: vistas da agência Banco do Nordeste de Penedo-AL e o seu entorno.

Fonte: arquivo técnico do BNB.

Na imagem à direita o espaço que se configura como praça. Ao fundo, nas duas imagens, o rio São Francisco.

O projeto elaborado em 1977 anteviu o reconhecimento do valor histórico e cultural da área quase 10 anos antes do seu tombamento. O edifício em questão está, inclusive, alinhado aos atuais conceitos patrimoniais de inserção de novas edificações em centros históricos, numa iniciativa muito anterior ao teor da Carta de Petrópolis (1987) do IPHAN, que coloca que toda cidade é um organismo histórico. Ao utilizar a referência do entorno como prerrogativa prepositiva para o projeto, a obra de Liberal de Castro e Neudson Braga se insere na postura projetual consciente e apropriada ao espaço e tempo de sua inserção urbana.

Outro exemplo que busca estabelecer uma relação com o lugar é o CAPGV. Nesse caso, o entorno não era um conjunto arquitetônico de relevância histórica e sim a cobertura verde natural do antigo sítio Passaré, uma área de cerca de 26,55ha ainda não urbanizada, localizada num bairro afastado do centro de Fortaleza, onde o edifício seria implantado (figuras 3.39). O arquiteto Wesson Nóbrega52 afirmou que a presença marcante de importantes exemplares arbóreos foi

um dos pressupostos iniciais para a implantação do edifício em diversos blocos separados por áreas verdes que contariam com as árvores nativas.

No estudo preliminar, que ainda não previa a estrutura metálica espacial, uma das principais características do projeto, já se consideravam grandes áreas de pergolados em concreto que possibilitariam a presença do verde existente. Os blocos administrativos ficariam voltados para essas áreas através da transparência das esquadrias em toda a lateral (figura 3.40).

Figura 3.39 - Vista aérea do sítio

Passaré em Fortaleza. Figura 3.40 – CAPGV: estudo preliminar.

Fonte: arquivo histórico do BNB. Registro do local onde seria construído a sede

do BNB. Ao centro a lagoa do Passaré, ao fundo o estádio Castelão ainda inconcluso.

Fonte: arquivo histórico digital do BNB.

Figura 3.41 – CAPGV: montagem da estrutura espacial.

Fonte: arquivo histórico digital do BNB.

Registros da montagem da estrutura espacial da primeira etapa (à esquerda) e da segunda (à direita).

Na proposta final, permaneceram as áreas de jardim em torno dos blocos, mas teve que ser elaborado um projeto paisagístico, devido à retirada da cobertura vegetal original pela construtora, para diminuir o prazo da obra e devido à necessidade técnica de montagem da estrutura espacial no chão para posterior

içamento (figura 3.41). Assim, Roberto Burle Marx foi contratado para restituir a ideia original dos jardins no projeto, de reconstruir a relação entre arquitetura e paisagem, imaginada na proposta inicial (figuras 3.42 e 3.43).

Figura 3.42 – CAPGV: Projeto de Burle Marx, segunda etapa.

Fonte: arquivo técnico do BNB.

Figura 3.43 – CAPGV: o paisagismo dialoga com o entorno.

Fonte: arquivo do autor.

A ideia de dialogar com o local foi mantida, também, pela permeabilidade do projeto possível pela presença da grande estrutura metálica, que transpassa acima de todos os blocos e definiu grande áreas de transição entre o interior do edifício e o exterior, estabelecendo uma relação de aproximação entre a edificação e seu entorno. Nas palavras dos autores, eles queriam um edifício onde os usuários percebessem o dia passando pelo movimento do sol; soubessem que estava

chovendo, quando ocorresse; e para onde olhassem, o verde da natureza seria visto e isso é possível devido à grande transparência dos blocos protegidos pela estrutura espacial. Um partido arquitetônico pensado para aquele lugar específico.

Ao perceber os valores do entorno e utilizá-los numa postura projetual consciente e apropriada ao contexto de inserção do edifício, o edifício de Penedo e o CAPGV atingem o propósito da arquitetura defendido por Norberg-Shulz ([1983], 2008), fornecendo um referência existencial, que possibilite uma orientação no espaço e identificada com o caráter específico do lugar.

Os exemplares analisados evidenciam diferentes formas de diálogo com o entorno, demonstrando os valores do modernismo como movimento internacional de vanguarda, como também as especificidades da sua manifestação no Brasil, mais referenciada na cultura nacional. Desde modo, a concepção dos projetos envolveu, em maior ou menor grau, considerações a respeito do clima e do contexto de onde foram inseridos.

Esses exemplares modernos constituem uma referência histórica da ligação do BNB com as suas respectivas cidades, onde muitos se tornaram, conforme foi explicitado no capítulo anterior, marcos da modernidade e testemunhos daquele momento histórico quando se pensava um Nordeste próspero em um Brasil “grande”. O tempo já decorrido, entre 32 e 50 anos de construção, consolidou a presença desses edifícios no contexto urbano no qual estão inseridos, criando, nesse período, uma relação de pertencimento ao local, sendo parte da “memória” de cada lugar.

Ressalta-se que alguns projetos, como Penedo e CAPGV, estabeleceram um vínculo de pertencimento imediato, pois foram elaborados a partir da compreensão dos valores dos locais de sua inserção, uma “poesia do habitar” aspirada por Norberg-Shulz ([1976], 2008).