O lugar representa para o homem sua mais íntima relação como o espaço circundante. Poetas, prosadores, o homem comum enfim, todos de alguma maneira se referenciam a ele, para cantá-lo, homenageá-lo, mostrar o seu valor ou, simplesmente, recordá-lo. Suas referências envolvem as experiências vividas, sua história, suas memórias e seus sentimentos.
“Não há lugar como o lar”, soleniza o geógrafo Yi-Fu Tuan (2013, p. 11), que complementa o pensamento, advertindo que há escalas diversas no sentido de lar: “a velha casa, o velho bairro, a velha cidade ou a pátria”, todos esses entes podem, para o homem, constituir-se em lar (TUAN, 2013, p. 11).
Em 1843, em Coimbra, Gonçalves Dias escreveu um dos mais belos e conhecidos poemas da literatura brasileira, a “Canção do exílio”. Quando o escreveu, o poeta já se encontrava em solo europeu há alguns anos, onde fora cursar a Faculdade de Direito. O
“exílio”: “As pessoas, em todos os lugares, tendem a considerar a sua terra natal como o lugar centralou o centro do mundo” (TUAN, 2012, p. 54, grifo original).
Para demonstrar a superioridade do seu “lugar”, Gonçalves Dias (1998, p. 158) busca na natureza as referências para concretizar suas emoções:
Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá; As aves, que aqui gorjeiam, Não gorjeiam como lá. Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores.
(...)
Minha terra tem primores, Que tais não encontro eu cá; Em cismar — sozinho, à noite — Mais prazer encontro eu lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá.
Percebe-se, nas palavras do poeta, que a própria natureza foi mais prestigiosa com seu rincão. Lá, o céu é mais estrelado, o gorjeio das aves é mais sublime; lá, também há mais flores, mais vida, mais amores, então, por tudo isso, naquele lugar, há mais prazer.
“Canção do Exílio” faz parte da 1ª. Geração Romântica brasileira, na qual a exaltação da terra e da natureza, nostalgia e nacionalismo estão entre suas principais características. Nesse poema, o lugar do eu-poético está conectado à natureza, não à natureza contemplativa e decorativa do Arcadismo, mas a uma natureza expressiva, que significa, que se mostra (BOSI, 1994). É onde o homem está, pois “o fulcro da visão romântica do mundo é o sujeito”, afirma Bosi (1994, p. 93).
“Lugar” é afetividade e os sentidos humanos capturando a realidade, o existir no mundo. O homem está no mundo, como o mundo está nele, e esse mundo, sob várias nuances, invade-lhe através do som: “Onde canta o Sabiá”, oupelo olhar: “Sem qu’inda aviste as palmeiras”.
A captura das coisas do mundo, no dia-a-dia, transforma os espaços em lugares, os quais se tornam singulares, únicos. Por isto que, num misto de nostalgia e aflição, buscando consolo nas lembranças da terra, das palmeiras e do canto do sabiá, o poeta escreve:
Sem que eu volte para lá; Sem que desfrute os primores Que não encontro por cá; Sem qu'inda aviste as palmeiras, Onde canta o Sabiá.
Observa-se, então, um forte apelo do poeta romântico quanto a seu lugar. O conceito de lugar enquanto marca da afetividade humana pode ser ainda encontrado na música, na poesia, na prosa, no cinema, enfim, na arte. A visão poética de ‘lugar’ de Gonçalves Dias tem simbiose com a visão poética do espaço do filósofo Gaston Bachelard, que na obra A Poética do espaço (2008), analisa o espaço pelas lentes dos devaneios poéticos, ou seja, suas investigações
visam determinar os valores humanos dos espaços de posse, dos espaços defendidos contra forças adversas, dos espaços amados. Por razões não raro muito diversas e com as diferenças que as nuanças poéticas comportam, são espaços louvados. Ao seu valor de proteção, que pode ser positivo, ligam-se também valores imaginados, e que logo se tornam dominantes (BACHELARD, 2008, p. 19).
Para Bachelard (2008, p. 8), “tudo que é especificamente humano no homem é logos”. Estes podem ser espaços felizes e/ou de hostilidade. Para a sua poética, só interessam os primeiros, aqueles nos quais homem e espaço são uno, ou seja, os felizes, àquele ao qual o poeta se referiu.
Percebe-se claramente que o conceito de lugar para o poeta e para o geógrafo humanista Yi-Fu Tuan possui a mesma essência dos “espaços amados” de Bachelard. Na atualidade, tais categorias tornaram-se muito valiosas para diversas áreas do conhecimento. Segundo Holzer (2003), o lugar tornou-se conceito fundamental dentro dos estudos geográficos, como forma de se conhecer a realidade humana a partir de suas vivências. Esta palavra, durante muito tempo, ficou relegada a segundo plano em relação a outros conceitos espaciais da ciência geográfica, como paisagem, espaço e território. O motivo era que seu conceito mais antigo concebia apenas o sentido locacional, entretanto, nos últimos anos, esta ideia teve seu sentido renovado e, consequentemente, expandido. Para Marandola Jr. (2012c, p. XIV), a relevância atribuída a essa ideia geográfica advém
do surgimento de abordagens teóricas que procuravam enfatizar valores humanistas orientados pelas filosofias do espírito, dando atenção à diversidade, à heterogeneidade e à diferença [...], e (d) o movimento de mundialização que forjou uma oposição entre o global-local/mundo-lugar a partir da subjugação do segundo
Do primeiro processo emergiram discussões sobre identidade, enraizamento, experiência e percepção, sentimento de lugar, etc.; do segundo, puseram-se em relevo debates sobre territoriedade, soberania e mundialização. Apesar de terem se iniciado de forma independente, ambos os processos estão hoje interligados concretamente, porque todas essas discussões, ao fim e ao cabo, atuam sobre a realidade que acontece mais próxima dos homens, àquela ligada ao mundo vivido, à dimensão existencial espacial (MARANDOLA JR., 2012c), ou seja, tentam entender como a ação humana, por meio de suas experiências, vai moldando a superfície terrestre.
Em termos gerais, as discussões sobre o espaço do lugar na experiência do mundo transcendem a ciência geográfica, permitindo diálogos e atrelamentos desta com as ciências sociais, a filosofia, o cinema, a literatura e outros campos do saber. Este trabalho de pesquisa, de certa forma, demonstra essa transcendência ao aliar os conceitos geográficos à analise literária da obra de Gabriel García Márquez. Aparentemente dois saberes distintos, porém a diferença é marcada somente na superfície ou no olhar superficial do observador desatento, pois a literatura e a geografia guardam entre si relações insuspeitadas, nutrem-se da mesma matéria, porque o mundo interessa tanto ao geógrafo quanto ao escritor. A literatura discorre sobre o mar, o tempo, o mundo, a terra, o espaço, o homem; a geografia, também. Abaixo dois textos que mostram a matéria-prima, neste caso o mar, sendo talhada por cada uma dessas áreas do conhecimento. Para a Literatura:
O dia não é hora por hora, é dor por dor,
o tempo não se dobra, não se gasta,
mar, diz o mar, sem trégua, terra, diz a terra, o homem espera. E só
seu sino
está ali entre os outros guardando em seu vazio um silêncio implacável que se repartirá
quando levante sua língua de metal onda após onda.
De tantas coisas que tive, andando de joelhos pelo mundo, aqui, despido,
não tenho mais que o duro meio-dia do mar, e um sino.
continua o espaço. E vive o mar.
Existem os sinos. (NERUDA, 2009)
Para a Geogafia Humanista de Dardel:
O canto das águas parece cheio de subtendidos, como sua claridade é cheia de claro- escuros. [...]. Mas o vasto silêncio das águas não é da mesma natureza que o grande silêncio da floresta; sua imobilidade não tem o mesmo valor que a fixidez da planície; é uma imobilidade retida, recolhida, um repouso logrado de uma inquietude. Marinha ou lacustre, a água mais calma responde ao sopro que a faz ondular. O “império das ondas” é revelação da profundidade e, por vezes, do chamado do abismo [...] encanto enganador vem do reino das sombras. O mar é uma força envolvente [...] A tempestade revela brutalmente o desejo de tragar [...] (DARDEL, 2011, p. 20-21).
O primeiro texto é o poema “Inicial”, do livro Últimos Poemas, do chileno, Nobel de Literatura, Pablo Neruda (2009), que nutria intensa admiração pelo mar, para quem dedicou incontáveis poemas. O outro texto refere-se a um trecho retirado de O Homem e a Terra: natureza da realidade geográfica,do geógrafo Eric Dardel. Duas formas de olhar o mundo: a primeira assumidamente literária, a outra trata do objeto geográfico, portanto, científica. Mas, quanta poesia nas imagens de Dardel!, diria Bachelard. Sua linguagem transforma-se na do poeta e, sem dificuldade, fala à imaginação. Esta é a concepção de Dardel para se falar do conhecimento geográfico. Para ele, “o rigor da ciência não perde nada ao confiar sua mensagem a um observador que sabe admirar, selecionar a imagem justa, luminosa, cambiante, e cabe ao geógrafo somente dar ao termo concreto seu amparo e sua medida” (DARDEL, 2011, p. 3).
Na geografia fenomenológica dardeliana, “a água não é somente o espelho com o qual a Terra se estende ao céu [...] a floresta não é somente a extensão arborizada da realidade objetiva [...]” (DARDEL, 2011, p. 37). Foi a ciência que, com sua linguagem direta, fechou-se à imaginação. Dardel diz ser possível para o geógrafo testemunhar sob a mesma pena essa evocação da natureza se ultrapassar a avaliação geometrizante da Terra e conhecê-la geograficamente.
Segundo Dardel (2011), o espaço geográfico tem cor, cheiro, tem nome. Cabe ao conhecimento geográfico decifrar esses signos, decifrar a Terra, em outras palavras, iluminar o [...] que a Terra revela ao homem sobre sua condição humana e seu destino. Não se trata, inicialmente, de um atlas aberto diante de seus olhos, é um apelo que vem do solo, da onda,
complementa, que assim sem esforço, a linguagem do geógrafo transforma-se na do poeta (DARDEL, 2011).
O conceito de terra como texto revelando ao homem seu destino remete a uma linguagem poética, na qual a Terra possui seu próprio léxico: o líquido, o rochoso, o luminoso, o aéreo, “comunicando-se com o movimento e os sons” (DARDEL, 2011, p. 5); por usá-lo, o geógrafo não deixa de fazer ciência. A exploração dessas expressões geográficas leva à geografia dos sonhos, àquela que se oferece à imaginação, à liberdade do espírito; ela não implica, pois, só no “reconhecimento da realidade em sua materialidade, ela se conquista como técnica de irrealização, sobre a realidade” (DARDEL, 2011, p. 5).
Diante disto, há a possibilidade de, através da linguagem, se restituir ao homem o mundo sensível. Neste ponto, encontra-se claramente a imbricação de Dardel com o pensamento de Merleau-Ponty, que é o retorno a uma visão primeira do mundo. Para ambos,
a concepção cientifica do mundo é considerada absurda, se ela própria não se percebe como o prolongamento e a expressão de um movimento original, que começa na percepção de mudança das coisas e do mundo e conduz à linguagem” (BESSE, 2006, p. 85).
Em outros termos, trata-se do retorno ao mundo anterior à ciência, mundo no qual a própria ciência fora concebida e cuja presença teima em afastar. Trata-se, também continua Besse (2006), de se restituir à ciência sua dependência em relação ao “mundo da vida”, do qual ela tenta ilusoriamente prescindir.
Nas palavras de Merleau-Ponty, temos:
Retornar às coisas mesmas é retomar esse mundo anterior ao conhecimento do qual o conhecimento sempre fala, e é em relação ao qual toda determinação científica é abstrata, significativa e dependente, como a geografia em relação à paisagem – primeiramente nós aprendemos o que é uma floresta, um prado ou um riacho. (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 4).
Para isso, o geógrafo deve deixar-se envolver pelos sentidos de doçura e de luz, se libertar dos pensadores, para se elevar aos cumes (DARDEL, 2011). Entretanto, seria um equívoco pensar que Dardel, ao tratar das verdades dos lugares, estivesse tratando de substituir uma concepção objetivamente reinante por uma subjetiva, porquanto o espaço geográfico é, de início, um espaço concreto, “espaço praticado, vivido e percebido, um espaço da vida [...]” (BESSE, 2006, p. 87).
Essa perspectiva dardeliana de olhar o mundo, subjetivamente, mas sem deixar de lado o saber e a inteligência, não é uníssona dentro do pensamento geográfico, entretanto tem encontrado bastante ressonância entre intelectuais da área.
Para muitos geógrafos, a partir do conceito de ‘lugar’, entendido fenomenologicamente, houve um ponto de convergência na geografia contemporânea. Para Relph (1976), como se viu, conceito de lugar parte da experiência humana, ele é o espaço existencial ou espaço vivido. Isto significa que é no dia-a-dia, nas experiências do homem com ele mesmo, com seus pares, com as coisas que o circundam, com o mundo enfim, é que os lugares emergem, que se concebe o sentido de lugar.
O lugar é o fundamento de nossa identidade como indivíduos e como membros da comunidade, o lugar onde habita o ser. O lar não é só o lugar em que você está feliz por viver, ele não pode estar em toda parte, não pode ser tocado, é um centro de significados insubstituível (RELPH, 1976, p. 39).
Dentro dessa assertiva, os lugares se incorporam à vida humana de acordo com suas experiências, porém, adverte Relph (1976, p. 43), “os lugares são essencialmente focos de intenção11, que têm usualmente localização fixa e traços que persistem em uma forma identificável”. A inserção da intencionalidade humana no conceito de lugar aproxima o pensamento de Relph ao de Dardelquando este observa que, “no âmbito da sua visão cotidiana e de sua movimentação diária e habitual, o homem exprime sua relação geográfica com o mundo [...]” (DARDEL, 2011, p. 52).
A intencionalidade se manifesta mostrando que o homem não está inserido no mundo como um objeto, o ser humano e o mundo “con-vivem” a partir dela. Como se viu a consciência humana é intencional, está sempre dirigida para um objeto, que é sempre objeto da consciência (TRIVIÑOS, 1987). Assim pode-se afirmar que a intencionalidade é o ato pelo qual o homem (re) significa o mundo, a partir de uma singularidade; ela dá sentido e significado às suas ações, ensejando sua relação com o mundo.
11Intencionalidade é um conceito filosófico recuperado por Franz Brentanoda Escolástica, uma subcategoria
dentro da filosofiamedievalpara definir o estatuto da consciência, qualificada por estar dirigida para algo, ou de ser acerca de algo, possuída pela maior parte dos nossos estados conscientes. O termo foi mais tarde usado por Edmund Husserl, que defendeu que a consciência é sempre intencional. A intencionalidade distingue a propriedade do fenômeno mental: ser necessariamente dirigido para um objeto, seja real ou imaginário. É neste sentido, e na fenomenologia de Husserl, que este termo é usado na filosofia contemporânea. As nossas crenças, pensamentos, anseios, desejos são sempre acerca de alguma coisa. Do mesmo modo, as palavras que usamos
Conforme ensina Yi-Fu Tuan (2013, p. 12), “os lugares são centros aos quais atribuímos valor e onde são satisfeitas as necessidades biológicas de comida, água, descanso e procriação”. Essa definição de lugar como um centro de valor, na qual o homem, além do alimento, encontra também apoio, sentindo-o como abrigo essencial, fonte de segurança e de bem-estar físico e psicológico, constitui-se em uma das formas mais básicas e fundamentais do que representa lugar na vida do ser humano, porque isso tem a ver com a sua própria sobrevivência como espécie. Nessa perspectiva, o ventre da mãe e, em seguida, seu colo seriam os primeiros lugares na vida do homem. Pensado assim, “o lugar para ele deixa de ter conotação locacional e passa a ter como fundante a experiência vivida, constituindo-se em proposta transcendental aos domínios do racional” (COSTA, 2011, p. 26).
Mas o “lugar” para Tuan assume, além dessa, outras formas e gradações. No artigo “Geografia Humanística”, o autor afirma que:
Uma poltrona perto da lareira é um lugar, mas também o é um estado-nação. Pequenos lugares podem ser conhecidos através da experiência direta incluindo o sentido íntimo de cheirar e tocar. Uma grande região, tal como a do estado-nação, está além da experiência direta da maioria das pessoas, mas pode ser transformada em lugar - uma localização de lealdade apaixonada - através do meio simbólico da arte, da educação e da política. Como um mero espaço se torna um lugar intensamente humano é uma tarefa para o geógrafo humanista; para tanto, ele apela a interesses distintamente humanísticos, como a natureza da experiência, a qualidade da ligação emocional aos objetos físicos, as funções dos conceitos e símbolos na criação da identidade do lugar. (TUAN, 1982, p. 149)
Em todos esses exemplos, “a afetividade humana se mostra” (TUAN, 2013, p. 168). Daí porque se conclui que a afetividade está sempre, intrinsecamente, relacionada ao conceito de lugar. Visto assim, faz-se necessário perceber alguns pontos. Primeiramente, não são as proporções físicas que constroem a essência e o valor do lugar, mas a natureza da experiência humana, bem como o grau e a qualidade da ligação emocional e a afetividade envolvida nesse processo. Depois, as relações afetivas com o lugar não se dão necessariamente, de forma direta, ou seja, pela capacidade de o homem produzir símbolos, o lugar pode ser conhecido apenas conceitualmente.
Acerca do pensamento de Tuan, a geógrafa brasileira Lívia de Oliveira (2012, p. 12), em seu artigo “O Sentido de Lugar”, explica que a
valorização do lugar provém de sua concretude; embora seja passível de ser engendrado ou conduzido de um lado para outro, é um objeto que se pode habitar e desenvolver sentimentos e emoções. Tal realidade concreta é atingida por meio de
Outro conceito fundamental, na Geografia Humanista Cultural, é o de espaço. Para Gomes (2005, p. 307), este é
considerado ao mesmo tempo como o resultado concreto de um processo histórico, e neste sentido ele possui uma dimensão real e física, ou uma construção simbólica, que associa sentidos e ideias. Entre essas duas posições extremas, encontra-se toda uma gama de concepções que evoluem com os pressupostos iniciais de cada inspiração, o espaço sendo visto sob diferentes ângulos: dos valores, da alienação, da distância existencial, do comportamento e do mundo vivido.
Ao discutir o lugar como conceito geográfico,Tuan faz uma associação direta entre este e o espaço, explicando que essas duas ideias guardam entre si relações significativas, não podendo, por esta razão, ser definidas de forma independente, porque “o que começa como espaço indiferenciado transforma-se em lugar, à medida que o conhecemos melhor e o dotamos de valor” (TUAN, 2013, p. 14). Holzer ressalta que estes conceitos estão orientados e estruturados pela intencionalidade do ser e são termos extremamente familiares ao homem, relacionando-se as suas experiências mais íntimas.
De acordo com GOMES (2005, p. 310), o “espaço é sempre um lugar, isto é, uma extensão carregada de significações variadas”. Nos textos dos geógrafos humanistas, continua ele, a expressão “espaço” tende a ser trocada por lugar, quando leva a uma visão mais integrada do espaço com seus valores.
Para Jeff Malpas:
a importância estratégica dos conceitos de espaço e lugar deriva não apenas de seu papel em qualquer grupo de oposições binárias ou de sua relação com outros grupos de conceitos mas também, em grande parte, de sua indispensabilidade e de sua ubiquação no pensamento e na experiência humana (apud FARAH, 2004, p. 52).
Apesar de Dardel (2011) não fazer referências ao par espaço/lugar, seus conceitos se desenvolvem a partir do ponto de vista reflexivo do homem frente à Terra, emanando daí essas duas acepções: espaços geométricos e espaços geográficos. Os primeiros são neutros, homogêneos e principalmente vazios de sentido, enquanto os outros se diferenciam daquele pela presença do homem que lhes imprime certa singularidade. Por isso, vislumbra-se uma influência significativa do pensamento de Dardel sobre os estudos de Tuan.
veneziano Marco Polo ao reino do imperador Kublai Khan, no século XIII. Nesse romance, o grande imperador não pode se afastar do centro do poder, então Marco Polo tem a incumbência de, através de suas narrativas, ilustrar para o tártaro, cinquenta e cinco cidades do seu magnífico império. Em uma passagem, Polo assim descreve a cidade de Irene:
É a cidade que se vê na extremidade do planalto na hora em que as suas luzes se acendem e permitem distinguir no horizonte, quando o ar está límpido, o núcleo do povoado: os lugares onde há maior concentração de janelas, onde a cidade rareia em vielas mal iluminadas, onde se acumulam sombras de jardins, onde se erguem torres com fogos de artifício; e, se o entardecer é brumoso, uma claridade anuviada infla- se como uma esponja aos pés da enseada (CALVINO, 2012, p. 114).
Na narrativa de Polo, cada cidade aparece como única, como singular; seja pelos seus nomes, seja por suas características particulares, fato que enchia de êxtase o poderoso imperador, que, ao contemplar mentalmente as “paisagens essenciais” do viajante, tentava refletir sobre a “ordem invisível que governava a cidade, sobre as regras a que correspondiam o seu surgir e formar-se e prosperar e a adaptar-se às estações e definhar e cair em decadência” (CALVINO, 2012, p. 112). Tentava compará-las a um jogo de xadrez e, por vez,