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Do arcabouço teórico-metodológico

2 Do Arcabouço Teórico

2.2 Construcionismo em psicologia social

2.2.1 Lugar da linguagem na psicologia social construcionista

Assim, partido da idéia de que a produção de conhecimento faz parte de uma construção lingüística, argumentativa, portanto retórica, entendemos que a linguagem torna-se central na Psicologia Social de base construcionista. Nesse sentido, acreditamos ser razoável acrescentar que a perspectiva de linguagem, abordada por essa Psicologia Social de cunho construcionista, não é oriunda das idéias cognitivistas que concebe a linguagem como meio de acesso à realidade. Pelo contrário, a idéia de linguagem trazida nesse trabalho considera-a como produção de realidade; uma concepção de linguagem que se fortalece com o surgimento – como é trazido por Tomás Ibáñez Garcia (2004), em seu texto O “giro lingüístico” – de um movimento de filósofos da linguagem, ainda no início do século passado.

Obviamente que não pretendemos fazer uma vasta e profunda revisão bibliográfica no que diz respeito à Filosofia da Linguagem para explicar tal movimento. Assim como também não poderíamos deixar de ao menos citar os principais filósofos responsáveis por esse movimento no século XX. Começando por Friedrich Ludwig Gottlob Frege (1849 – 1925), Bertrand Arthur William Russell (1872 – 1970), passando por Ludwig Joseph Johann Wittgenstein (1889 – 1951), Mikhail Mikhaillovich Bakhtin (1895 – 1975), além de John Langshaw Austin (1911 – 1960), John Rogers Searle (1932 –), e finalmente Michel Foucault (1929 – 1984). Mesmo considerando as tensões entre cada um desses filósofos, foram eles responsáveis por pensar a linguagem para além da perspectiva mentalista do cognitivismo, por exemplo.

É importante destacar nesse trabalho que os filósofos citados não se preocuparam com a linguagem sem que houvesse uma razão central, sobretudo as primeiras investigações filosóficas. A busca da Filosofia da Linguagem estava, inicialmente, em encontrar uma forma exata para a linguagem, para conseguir a exatidão que o modelo científico positivista necessitava/necessita, objetivando A Verdade Moderna. Dar-se início, assim, a um projeto filosófico-científico, no sentido de construir uma linguagem que atendesse às exigências da lógica formal, que dessem sustentação de verdade, homogeneizando os estudos científicos. O projeto desse empreendimento filosófico-científico tinha como tema o discurso científico, uma vez que havia um problema a ser resolvido na ciência: a imprecisão da “linguagem natural”.

Portanto, segundo Guido Antônio de Almeida (1986), em seu texto Aspectos da

Filosofia da Linguagem: Contribuição para um confronto e uma aproximação entre filosofia e ciência da linguagem,

O interesse filosófico pela linguagem equivale assim, num primeiro momento, ao interesse pelas diferentes linguagens, pelo uso lingüístico de diferentes expressões, o objetivo do filósofo sendo o de distingue entre o sentido e o não sentido, entre o discurso sensato e o discurso desprovido de sentido ou meramente especulativo. (p. 8)

E os desdobramentos dessa percepção primária trouxeram outras significativas contribuições. Ainda, segundo Antônio de Almeida (1986), o conceito de “Jogo de Linguagem” de Wittgenstein, além do desenvolvimento das contribuições desse filósofo através de John Austin – a partir da idéia dos “proferimentos performativos” e “atos ilocucionários” –, bem como da proposta de J. Searle, a partir da idéia de “atos de fala” (considerados os principais pensadores da pragmática), fazem com que a filosofia da linguagem tenha outro rumo, inclusive é fundamental para pensar o próprio lugar da ciência como verdade construída por discursos.

E, sendo a Filosofia da Linguagem um espaço ressignificado – a partir da perspectiva da linguagem como ação trazida por Wittgenstein – as contribuições advindas desse lugar na Filosofia foram fundamentais para pensar a própria Psicologia como Ciência, bem como suas práticas e seus saberes, num lugar de produções de verdades. Esse movimento da Filosofia é chamado por Mary Jane Spink e Rose Mary Frezza (2000) de virada lingüística, que segundo elas, “trata-se de um terreno complexo por ser transdisciplinar e contar, portanto, com uma multiplicidade de abordagens, cada qual presa a seu sistema de referência teórico e metodológico” (p. 33). Portanto, as autoras trazem a idéia de que essa virada lingüística atinge não apenas uma disciplina (um campo da Ciência), mas vários campos científicos. E entendemos que essa complexidade teórica e metodológica advém, também, da crise paradigmática trazida por essa virada.

Dessa forma, a linguagem (nessa perspectiva filosófica) aparece como a possibilidade de entender a realidade, e a produção científica, diferentes da proposta moderna de se fazer ciência, a partir da lógica formal, da neutralidade, da exatidão, da imparcialidade. É por essa razão que o Construcionismo Social tem como ponto central a linguagem, por conceber a idéia de que os processos de objetivação das relações sociais estão baseados também nos processo de linguagem. Concepção essa trazida também por Spink e Frezza (2000) quando estão tratando das críticas feitas ao Construcionismo, em que colocam a não possibilidade de

um reducionismo lingüístico por parte dessa abordagem, mas entendem que o lugar da linguagem é central para compreendermos como se dão processos de objetivação e subjetivação, pois o discurso é um ato, uma ação que produz efeito/sentido.

Assim, o lugar da linguagem na Psicologia Social é o mesmo lugar que ela ocupa no Construcionismo Social, e que ainda Spink e Frezza (2000) apontam três focos dados à linguagem na Psicologia Social de base construcionista, a saber: 1) na formatação – onde elas chamam atenção à questão gramatical, com foco na sintaxe e relações entre os significantes; 2) no sentido – onde analisam os aspectos semânticos da linguagem, ou seja, os significados; 3) na performática – onde consideram a questão pragmática da linguagem (o uso) dos enunciados, onde elas recorrem aos filósofos que já citamos: Austin e Searle. Importante apontarmos, também, que a perspectiva de linguagem defendida pelas autoras se diferencia das idéias de Noan Chomsky (que parte da gramática generativa), ao passo que se alinha às concepções de Mikhail Bakhtin, que relaciona a linguagem à questão da ideologia (pela influência do marxismo em sua obra).