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A noção de que somos mulheres africanas em diáspora perpassa a elaboração desse movimento, que reconhece o cuidado às mulheres negras enquanto estratégia política, de modo que, em nossos encontros, prezamos pelo poder da oralidade que é “considerada como a materialização, ou a exteriorização, das vibrações das forças [...], em que a fala humana coloca em movimento forças latentes, que são ativadas e suscitadas por ela” (HAMPÂTÉ BÂ, 1982, p. 172).

Bâ (1982) retoma a tradição bambara do Komo, onde a palavra é a força fundamental que emana de Maa Ngala, o próprio ser supremo, e elucida que a fala amplia os sentidos, enquanto “percepção total” que nos permite tocar, cheirar e ver o que se está sendo dito, tendo as palavras um caráter divino. Nessa perspectiva da oralidade como um valor civilizatório africano, imbuído a nós pela nossa ancestralidade (BÂ, 1982), que mantiveram viva a importância da fala na sua potência criadora e a escuta que percebe tudo, criando um vai e vem “que gera movimento e ritmo, e, portanto, vida e ação” (HAMPÂTÉ BÂ, 1982, p. 172). Nesse novo território, é que a Roda das Pretas assume o lugar de uma ferramenta ancestral. Segundo Eudaldo Santos Filho e Janaína Alves (2017) é esse processo de preservação da oralidade que garante que nós possamos superar limites entre os indivíduos, garantindo o compartilhamento de vivências, a comunhão e a sobrevivência do grupo.

Desta maneira, nós, da RMN, adotamos esse movimento de fala-escuta como cuidado estendido às mulheres pretas. Com isso, tomamos posse da oralidade como uma tecnologia de promoção de cuidado, além da capacidade de criar e de pôr a vida em ação, além de fazê-lo segundo o local que ocupamos

socialmente, direcionando às outras que, não só recebem a informação, mas compreendem o que se diz, com o peso que se diz, por falar/ouvir de um local bastante semelhante. Cabe destacar que “até o presente momento o caráter da oralidade, uma característica da cultura africana, ainda não recebeu a devida valorização da intelectualidade brasileira. Os intelectuais reforçam, sobremaneira, a cultura letrada europeia” (FONTOURA, 2004, p. 132).

As Rodas foram se tornando de suma importância para nós, integrantes da RMN, e para as mulheres que vinham participar, à medida que foi se tornando um espaço de cuidado e de promoção de saúde. Pinto, Boulos & Assis (2006), em uma experiência com grupos de autoajuda com mulheres negras, afirmam que espaços como estes possibilitam que mulheres negras possam curarem-se, enquanto reconstroem suas histórias individuais e coletivas. Isso torna-se real em nossa vivência, pois, em poucos encontros conseguimos falar sobre dores profundas, ao passo que, naquele espaço, encontramos o cuidado que somente outras pessoas que compreendem os efeitos da colonização sobre a vida de mulheres negras é capaz de oferecer.

Discutimos conceitos e amadurecemos nosso olhar. Nossas escolhas urgiam das mulheres que participavam, através de temas latentes e inflamados demais para serem ignorados. As temáticas abordaram: “A solidão da mulher negra”; “Colorismo”; “E não sou eu uma mulher?”, “Estereótipos da Mulher Negra”; “Racismo Institucional nos serviços de saúde”; “Amor”; “Mulher negra no poder”; “Encarceramento feminino”; “Reforma Previdenciária e o impacto na vida das mulheres”; “Autocuidado em tempos de crise”.

Ao percebermos nossas realidades, enquanto mulheres negras em um país com herança colonial, conseguimos, coletivamente, nos livrarmos da culpa pela experiência da colonialidade, que nos impõe um cenário de dificuldades sociais e econômicas. Em todas as Rodas essa teia de complexificação desse olhar sobre a nossa realidade ganhava um novo foco, mas em muitas Rodas também retomamos questões como identidade, ainda que essa não fosse a temática principal. Essa reflexão coletiva permite o enfrentamento de opressões que atravessam nosso cotidiano, ao mesmo tempo que outras mulheres pretas são fortalecidas para que façam o mesmo, pois o cuidado é circular. Assim, uma comunidade é construída quando as mulheres negras conseguem compartilhar com outras mulheres negras suas emoções e suas histórias (PINTO, BOULOS & ASSIS, 2006).

Nesse sentido, compreendemos que a função da comunidade é de potencializar as pessoas nela inseridas. Assim, quando a Roda das Pretas se transforma em uma comunidade para nós, mulheres negras, além de ser um espaço de cuidado, é também um espaço de potência. Sobonfu Tomé em seu livro “O espírito da intimidade” diz que:

o objetivo da comunidade é assegurar que cada membro seja ouvido e consiga contribuir com os dons que trouxe ao mundo, da forma apropriada [...] quando você não tem uma comunidade, não é ouvido; não tem lugar em que possa ir e sentir que realmente pertence a ele; não tem pessoas para afirmar quem você é e ajudá-lo a expressar seus dons (2007, p.35).

Segundo a autora, quando não vivemos em comunidade, deixamos de compartilhar nossas potencialidades, e isso “nos afeta espiritual, mental e fisicamente” (2007, p.35). Isso foi importante na Roda. Por exemplo, discutimos sobre: “Mulheres Negras no Poder”, e, a partir deste debate, observamos esse poder como uma potência de gestar, gerir, organizar, comandar, liderar comunidades, espaços, enxergar-se possível a partir do espelho da outra, ou seja, como uma parte de nos potencializarmos.

Em comunidade, as mulheres negras se reconhecem e se organizam. Isso é possível, pois existe uma dor que só nós conhecemos, como afirmou Vilma Piedade (2017), ao cunhar o conceito de dororidade: os corpos das mulheres negras são marcados por uma “dor interseccionalizada” (QUADROS, 2021), intercruzada principalmente de racismo e machismo, que só nós conhecemos. E, por conhecer, acolhemos. Dessa maneira, quando partilhamos nossas vivências com outras mulheres negras, “estamos também ouvindo a nós mesmas e podemos vislumbrar a possibilidade de nos reconciliarmos com o passado” (PINTO; BOULOS; ASSIS, 2006, p.174). Nas Rodas sobre solidão, amor e autocuidado, ficaram explícitas a importância desse acolhimento, de nos enxergarmos como portos e, também, como dignas de recebermos amor, visto as durezas do racismo e do sexismo.

“Nas conversas realizadas nas Rodas, evidenciamos sentidos, necessidades, angústias que não se referem apenas ao espaço do corpo negro, mas dos diferentes sentidos que trazem lembranças de territórios ocupados por ele no ciclo da vida”

CAPÍTULO 11 Redes Intelectuais: epistemologias e metodologias negras, descoloniais e antirracistas

(RUFINO, 2013, online). Dessa forma, para Patrícia Gomes Rufino (2013) a circularidade perpassa o caráter transversal e cíclico do tempo, ao nos colocar diante de elementos do passado, no presente, por meio da memória, que é própria, mas que se forja a partir de uma herança coletiva. Essa circularidade - em suas diversas nuances - é considerada essencial para a construção das Rodas das Pretas, porque compreendemos que ela retroalimenta a oralidade, o sentimento de pertencimento e a capacidade de organização de mulheres negras no mundo (RUFINO, 2013).

Representando um ato de resistência perante a vontade de amar, nos reconhecendo e nos potencializando umas às outras, a simbologia que a Roda nos aponta diz também sobre a força e sobre a potência do amor preto, no resgate e na construção de modos de existir em diáspora. A necessidade de amor e a dificuldade de reconhecer o amor em si e entre os nossos foi marcante nos relatos das mulheres pretas. Tem sido difícil para nós, negras, entendermos o que é amar. Para bell hooks essa dificuldade se deve também ao fato de que “somos um povo ferido. Feridos naquele lugar que poderia conhecer o amor, que estaria amando” (2006, p. 189).

Para pessoas pretas, especialmente nós, mulheres, “essa é uma de nossas verdades privadas, que raramente é discutida em público [...], é tão dolorosa que as mulheres negras raramente falam abertamente sobre isso” (hooks, 2006, p. 188). A Roda das Pretas trouxe a possibilidade de estar em comunidade, e, diante de tanta confusão, tanta dor, de encontrar, de ser acalanto e de ser potência, por meio do resgate de práticas ancestrais e decoloniais, contribuindo no crescimento umas das outras e fazendo do amor uma ação.

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