CAPÍTULO 1: ARQUITETURA E A HUMANIDADE
2. Espacialidade humana e arquitetura
2.3 Lugar e pertencimento
Heidegger nos apresenta um conceito de espaço que vai muito além de uma localidade física ou geográfica. O conceito espacial heideggeriano não apresenta sentido cartesiano, não expressa distanciamentos ou aproximações matemáticas, mas, sim, interrelações existenciais.
Heidegger trata sobre o espaço como “lugar arrumado” (HEIDEGGER, 2012a, p.134), “liberado, num limite” (HEIDEGGER, 2012a, p.134), como vemos na citação a seguir. Esse limite, portanto, não deve ser entendido como uma demarcação geográfica, mas como o onde em que uma coisa
“dá início à sua essência” (HEIDEGGER, 2012a, p.134). Espaço e, portanto, os lugares, são fundamentais para a questão do ser.
Espaço (Raum, Rum) diz o lugar arrumado, liberado para um povoado, para um depósito. Espaço é algo espaçado, arrumado, liberado, num limite, em grego πέρας. O limite não é onde uma coisa termina, mas, como os gregos reconheceram, de onde alguma coisa dá início à sua essência. Isso explica por que a palavra grega para dizer conceito é ὁρισμος, limite. Espaço é, essencialmente, o fruto de uma arrumação, de um espaçamento, o que foi deixado em seu limite. O espaçado é o que, a cada vez, se propicia e, com isso, se articula, ou seja, o que se reúne de forma integradora através de um lugar (HEIDEGGER, 2012a, p.134)
Se estar-sendo só é possível sob a relação de unidade junto ao mundo, uma vez que o mundo é uma extensão existencial, estar-sendo implica em relações indissociáveis entre
54 existência e lugar60: estar-sendo-nos-lugares-do-mundo, ou melhor, estar-sendo-junto-aos-lugares-do-mundo.
É seguindo esse pensamento que Heidegger irá analisar as relações de ocupação e lugar, no sentido de demorar-se junto ao lugar, de pertencimento ao lugar. Dessa maneira, a noção de mundo e, assim, de lugar não é compreendida de maneira objetificada, mas a partir de suas relações junto aos estar-sendo presentificados. Logo nas primeiras páginas de A caminho da linguagem, o filósofo alemão explicita:
A palavra “lugar” significa originariamente ponta de lança. Na ponta de lança, tudo converge. No modo mais digno e extremo, o lugar é o que reúne e recolhe para si. O recolhimento percorre tudo e em tudo prevalece. Reunindo e recolhendo, o lugar desenvolve e preserva o que envolve, não como uma cápsula isolada, mas atravessando com seu brilho e sua luz tudo o que recolhe de maneira a somente assim entregá-lo à sua essência (HEIDEGGER, 2003, p.27)
A compreensão sobre a espacialidade humana se dará, portanto, a partir do caráter de encontro do mundo, abordado como um tipo de teia de remissões em que tudo se conecta, isto é, a partir de uma conjuntura de interrelações onde cada estar-sendo pode ser um tipo de fluxo condutor para o encontro de outros estar-sendo. No sentido de demorar-se, de não ir embora, de permanecer junto a, de estar-sendo-junto-a, esse estar-sendo traz consigo uma possibilidade de abertura para os demais. O sentido essencial de conexão e abertura proposto por Heidegger nos propicia exaltar as profundas conexões presentes e estabelecidas a todo momento na vida cotidiana.
O caráter de encontro entre os estar-sendo presentificados no mundo indica, assim, um sentido de significatividade, de pertencimento entre estar-sendo e lugar, um lugar-próprio onde o estar-sendo pode ser compreendido em uma possibilidade de abertura de sentido: “O lugar-próprio é cada vez um determinado ‘ali’ e ‘aí’ a que um instrumento pertence” (HEIDEGGER,
60 Michael Inwood, em A Heidegger Dictionary, aponta que o filósofo alemão usa diferentes palavras para “lugar”, a depender do contexto de emprego: “Heidegger uses several words for ‘place’: 1. Ort is used for the positions of things in space as conceived by mathematical physics (BT, 91 on Descartes's of res extensae) and also metaphorically, e.g. the place or ‘locus’ of truth (BT, 226). 2. Platz is used for the proper ‘place’ of/for something:
‘The Platz is the specific “there” and “over here” to which a piece of equipment belongs’ (BT. 102). 3. Stelle,
‘spot, position’, is used, like Ort, for the position of something in geometrically conceived space. 4. The more elevated Stätte, ‘site’, hardly occurs in BT but it is important later as the ‘site’ of a decisive event in the history of being (cf. BT, 388: Kultstätte, ‘site of a cult’). The Greek ‘polis is the site of history [Geschichtsstätte], the There in which, from which and for which history happens’ (IM, 117/128)” (INWOOD, 1999, p.199).
55 2012b, p. 301). Seja em relação a um estar-sendo conforme ao Dasein ou não, um lugar será sempre, dessa maneira, um onde particular, com um caráter próprio, construído ao longo do tempo. Em Heidegger, portanto, não há como compreendermos um lugar de maneira não relacionada aos estar-sendo, ao mundo e o que o constitui.61
Esse sentido intrínseco de pertencimento ao lugar em um tipo de estar-sendo autêntico em seu lugar essencial pode ser visto tanto em relação a um utensílio e seu lugar próprio de utilização, quanto para um morador e sua terra natal, uma arquitetura e seu lugar de implantação e até mesmo para o pertencimento entre diferentes lugares.62 A partir das teorias heideggerianas, podemos discutir não só sobre uma relação de pertencimento, mas também sobre uma relação de pertencimento mútuo, de co-pertencimento. Um morador de Brasília, por exemplo, pode carregar a cidade enraizada em si próprio, mas assim como o morador pertence à Brasília, Brasília também pertence ao morador, não no sentido de posse, mas de um tipo de vinculação essencial, ou melhor, em uma interrelação de pertencimento mútuo e de possibilidade de apreensão.
O caráter do lugar, no sentido de uma identidade própria, é, assim, partilhado pelas coisas que nele se encontram. Como em um tipo de conjuntura de significados e interrelações entre estar-sendo e seu lugar-próprio e entre diferentes lugares-próprios, as coisas podem, enfim, ser apreendidas pelo ser humano.
61 Como exemplo, Heidegger discorre sobre o lugar-próprio de um instrumento: “O ente ‘para a mão’ tem, cada vez, uma proximidade diversa, que não pode ser estabelecida por medida de distâncias. Esse estar -perto se regula pelo manejo e pelo emprego ‘calculado’ do ver-ao-redor. O ver-ao-redor do ocupar-se fixa o que desse modo está perto e, ao mesmo tempo, quanto à direção em que o instrumento é acessível a cada momento. Essa direcionada proximidade do instrumento significa que este não é unicamente um subsistente em algum lugar do espaço, tendo seu lugar no espaço, mas, como instrumento, está por essência colocado, acomodado, disposto, posto-em-seu-lugar. O instrumento tem sua localização, lugar-próprio ou ‘está por aí’, o que por princípio deve-se distinguir de uma pura ocorrência em um lugar qualquer do espaço” (HEIDEGGER, 2012b, p. 301).
62 Assim como vimos no subtópico “2.2 Morar enquanto enraizar-se existencial” enquanto o Dasein mora o mundo, os estar-sendo não conformes ao Dasein são analisados por Heidegger a partir de uma relação de interioridade, como em um tipo de encadeamento infinito. Sobre a relação entre essa interioridade e a abordagem ontológica sobre o lugar em Heidegger, Ligia Saramago diz: “Não obstante a extrema simplicidade do conceito de interioridade recíproca, o pleno sentido deste ‘dentro’ traz consigo alguns desdobramentos significativos.
Primeiro, enfatiza e expõe como inevitável a ideia de pertencimento mútuo e em cadeia envolvendo todas as coisas;
segundo, este pertencimento se manifesta principalmente na forma de um permanente abrigar, noção esta que comparecerá expressivamente ainda diversas vezes no pensamento de Heidegger em diferentes contextos e, por fim, traz consigo a reflexão heideggeriana sobre um tema clássico das filosofias do espaço, a noção de lugar e a relação deste com o espaço em geral” (SARAMAGO, 2005, p. 57), e também: “A noção de pertencimento mútuo não se restringe, contudo, aos instrumentos e seus lugares, mas se expande, desdobrando -se em relações de pertencimento de proporções ainda mais amplas entre os próprios lugares de um determinado contexto – ‘o todo de lugares reciprocamente direcionados’ – e estes, no que se remetem uns aos outros, configuram um todo ao qual eles próprios acabam por pertencer” (SARAMAGO, 2005, p. 61-62).
56 O espaço que é descoberto como espacialidade do todo instrumental pelo veraoredor no sernomundo pertence cada vez ao ente ele mesmo como seu -lugar-próprio. O mero espaço está ainda encoberto. O espaço despedaçou-se em lugares-próprios. Mas essa espacialidade tem sua própria unidade mediante a totalidade-da-conjuntação conforme-ao-mundo do utilizável espacial. O “mundo ambiente” não se insere em um espaço já-dado, mas sua mundidade específica articula, em sua significatividade, a conexão-de-conjuntação cada vez própria a uma totalidade de lugares próprios designados pelo ver-ao-redor. Cada mundo individual descobre cada vez a espacialidade do espaço que lhe pertence. Fazer que o utilizável venha de encontro cada vez em seu espaço do mundo-ambiente só permanece onticamente possível porque o Dasein é ele mesmo “espacial” quanto a seu ser-no-mundo (HEIDEGGER, 2012b, p. 305)
É dessa maneira que Heidegger analisa a espacialidade do Dasein, a partir de sua relação com as coisas que o cercam, em seu espaço de existência.63 O sentido de lugar supera, portanto, qualquer caracterização geográfica, indicando um enlaçamento essencial e ontológico à vida humana. A relação de pertencimento a um lugar e a relação com as demais coisas no sentido de permanecer junto a, de estar-sendo-junto-a (Da-bei-seins) é condição para o morar pensado em seu âmbito fundamental.
Vemos, em Heidegger, uma importância decisiva atribuída a estar-sendo em seu lugar, em uma relação autêntica e essencial de pertencimento, que nos possibilita discutir sobre as transformações derivadas da vinculação intrínseca entre ser humano e seus lugares de moradia, no sentido de uma demora junto aos lugares, de enraizar-se aos lugares, como vimos anteriormente, no subtópico “2.2 Morar enquanto enraizar-se existencial”. Ora, se o Dasein tem como traço co-constitutivo estar-sendo presentificado no mundo em conjunção com os demais estar-sendo, sejam estes conformes ao Dasein ou não, e se as relações espaciais de pertencimento abrem caminho para que o Dasein compreenda o mundo e compreenda a si próprio, deve-se ressaltar uma possibilidade de troca fundamental entre existência humana e sua espacialidade. Nesse sentido, não só o estar-sendo modifica o lugar, mas também o lugar modifica o estar-sendo. Em melhores palavras, há uma vinculação dialética e transformadora
63 Para Heidegger, a conexão imediata com a existência e essa relação de co-pertecimento e de significatividade junto as coisas presentificadas no mundo foi levada ao esquecimento pela filosofia ocidental de base metafísica que se ocupou em buscar algo que estivesse “por trás”, ou melhor, uma causa formal que estivesse “acima” da própria presentificação.
57 entre o ser humano enquanto conviva e seus lugares de convívio.64 Trazendo esse pensamento para o âmbito da arquitetura, temos a arquitetura não apenas como parte estruturante da vida humana, mas também como fenômeno transformador da humanidade.65
A abordagem fenomenológica vai ao encontro do trabalho da arquitetura e do urbanismo, que se empenham – ou deveriam fazê-lo – em trazer para a materialidade também a dimensão existencial humana, em uma relação recíproca, em que esta é expressa pela materialidade construída que, por sua vez, tocará a primeira. Justamente por sua preocupação em aproximar-se do mundo-vivido, a fenomenologia é uma abordagem coerente para o propósito de se fazer arquitetura e urbanismo. Acredito em uma arquitetura e em um urbanismo que buscam o entendimento de sua matéria-prima in loco, a apreensão das experiências e anseios humanos com/nos espaços, o desvelar dos motivos que promovem conexões intrínsecas e viscerais das pessoas com os lugares. A arquitetura e o urbanismo, disciplinas que se propõem a pensar, criar, planejar e trazer à materialidade ambientes destinados a serem habitados, têm por matéria-prima a experiência do ser humano nos espaços.
Muito coerente, portanto, dela aproximar-se para apre(e)nder, a partir do mundo-vivido, como se habita (BRANDÃO, 2017, p. 22)
Vale a pena avançarmos esse pensamento, a fim de explicitar que estar-sendo-junto-a-arquitetura é parte crucial e co-constitutiva da espacialidade humana em uma relação mútua, isto é, o ser humano influencia a arquitetura e a arquitetura influencia o ser humano. A proposta desta Dissertação abrange o desenvolvimento, sempre de maneira crítica e reflexiva, de um tipo de idealismo necessário para a mudança do rumo da arquitetura no século XXI frente a essa relação essencial humana, ainda que saibamos que, para Heidegger, qualquer idealismo seria considerado metafísico, ou melhor, qualquer direcionamento seria entendido como uma formatação vazia baseada em verdades pressupostas. Com o intuito de superar as limitações do
64 Como já explicitado anteriormente, utilizamos, aqui, o conceito de conviva cunhado por Coutinho em Educação arquitetônica da humanidade. Para tal aprofundamento, cf. as explicações ao longo do texto, principalmente a partir do subtópico “2.5 Obra arquitetônica como alicerce do enraizar-se”, do Capítulo 1.
65 Cf. Bollnow, em Human Space, que diz: “The way we experience being in a place can be very different, according to whether we are lost in the fortuitousness of a 'somewhere' or feel bound to this one specific place as the one which belongs to us or has been granted to us. We can feel lost or sheltered in space, in Unity with it or unfamiliar with it. There are therefore forms of being in space, variations of the relationship with space. Man is also Always in space 'somehow' (...) space becomes a sort of medium in which I find myself, and only with such a medium can one speak meaningfully of being in a space” (BOLLNOW, 2011, p. 256).
58 posicionamento heideggeriano e buscar a abertura necessária para tal avanço, as teorias propostas por Luciano Coutinho em Educação arquitetônica da humanidade nos impulsionam enquanto desenvolvimento arquitetônico e, de maneira geral, enquanto desenvolvimento humano.66
Tendo em vista a abordagem heideggeriana sobre o lugar e as aberturas de discussão possibilitadas pelas teorias do filósofo alemão acerca da espacialidade humana, resta tratarmos, sempre com intuito de trazer a discussão para o âmbito da arquitetura, os desdobramentos de ssa abordagem no construir e no morar humanos. Para tal, retomaremos alguns conceitos heideggerianos já apresentados anteriormente, a fim de expormos uma sequência de pensamento mais completa sobre o caminho a ser percorrido em direção a um maior reconhecimento existencial sobre a arquitetura.