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2.2. Poder e vulnerabilidades masculinas: el viejo celoso

2.2.1. Luis e Loaysa: no teatro das representações

El celoso extremeño, en primera instancia, describe una contienda

entre dos formas de afirmar la voluntad masculina de poder.

Edwin Williamson

Pelas nossas explanações anteriores, podemos observar que, nesta novela, temos formas sui generis de exercer o poder tanto pelos homens quanto pelas mulheres. No caso dos homens de El celoso, é com a entrada do virote16 Loaysa na casa do velho Carrizales que o embate entre as distintas formas de poder masculinas se torna visível.

16 Edwin Williamson define, a partir de Porras, como “A los mozos solteiros llaman también virotes porque ansí como los virotes se disparan a muchas partes, éstos no tienen asiento ninguno en ninguna, y andan vagando de barrio en barrio’ (WILLIAMSON, 1990, p. 800). Helena Percas de Ponseti se dirige à etimologia da palavras na tentativa de esclarecimento. En jerga, virote significa flecha desbocada

Porém, antes de encaminhar para o estudo desta complexa personagem, vamos desviar o olhar para uma personagem coadjuvante que manifesta uma função primordial na narrativa: o negro Luis. Para Helena Percas de Ponseti (1994), este é um personagem de fácil caracterização. O negro era o único homem, além do velho ciumento, que habitava aquela fortaleza. Porém, ele não oferecia perigo à honra daquelas mulheres, porque era eunuco, além disso, também, tinha o acesso limitado a casa ficando emparedado entre duas portas que controlavam a entrada. Nas leituras de García López (2001), Luis é interpretado como um nome irônico, pois a personagem se constitui como uma figura cômica ‘penosa, enternecedora e irrisoria’. A observação é pertinente, pois, se atentarmos para o que diz o Dicionário de nomes próprios, o nome Luis significa ‘combatente glorioso’ ou ‘guerreiro famoso’ ou mesmo ‘famoso na guerra’17.

Pela performance demonstrada pelo negro que se torna, de certo modo ‘assexuado’ pela castração, tampouco a sua postura demonstra ser uma combatente, mas um sujeito vulnerável às seduções de Loaysa.

Luis é uma personagem importante no sucesso da ação proposta por Loaysa porque, é através dele, que o antagonista consegue adentrar ao ‘monasterio’ de Carrizales. Jorge García López, citando o pensamento de Zimic (1996), escreve que “las carencias de su confinamiento lo transforman en aliado ideal del virote para la primera embestida a la fortaleza de Carrizales, una rendición que prefigura la de su ama” (GARCÍA LÓPEZ, 2001, p. 892). Para convencê-lo da ajuda, Loaysa, além de utilizar seus disfarces, consegue conquista-lo através de uma de suas paixões, ou seja, a música. Ouvindo algumas canções tocadas do lado de fora pelo falso mendigo, o negro “diera un brazo por poder abrir la puerta y escucharle más a su placer: tal es la inclinación que los negros tienen a ser músicos” (CERVANTES, 1995, p. 30). O narrador fala com ironia, generalizando o comportamento dos negros, ao mesmo tempo em que destaca o pensamento do virote sobre a importância deste para a efetivação do intento causador da desonra de Leonora e, por conseguinte, do marido ciumento, “pareciéndole que por donde se había de comenzar a desmoronar aquel edificio había y debía ser por el negro” (CERVANTES, 1995, p. 30).

asociada con el órgano viril; etimológicamente, la raíz vir del latín virilis, masculino, fuerte, y la terminación -ote aumentativo jergal, proyectan la imagen de una sexualidad bien definida. En germanía, nos informa Molho, “virote designa la cuchilla del matarife, de lámina larga y penetrante, proyección metafórica del miembro viril” (PERCAS DE PONSETI, 1994, p.141).

Como observa Helena Percas de Ponseti, o negro “siente una pasión avasalladora por la música que le hace olvidar por momentos el terror que le inspira Carrizales cuando se ve en posesión de una guitarra” (PERCAS DE PONSETI, 1994, p. 107). Percebido o gosto do eunuco pela música, o astucioso Loaysa procura persuadi-lo de que aprenderia a tocar em menos de quinze dias. Advertindo das privações que viviam os indivíduos reclusos ali, Luis explica a Loaysa que não cantava mal. Este, com suas artimanhas, empenha-se em conquistar a confiança do negro:

_ Por Dios, Luis _ replicó Loaysa, que ya sabía el nombre del negro _ que si vos diésedes traza a que yo entrase algunas noches a daros lición, en menos de quince días os sacaría tan diestro en la guitarra que pudiésedes tañer sin vergüenza alguna en cualquiera esquina; porque os hago saber que tengo grandísima gracia en el enseñar, y más que he oído decir que vos tenéis muy buena habilidad, y a lo que siento y puedo juzgar por él órgano de la voz, que es atiplada, debéis de cantar muy bien (CERVANTES, 1995, p. 31).

Vejamos como o astuto antagonista utiliza várias formas de conquistar o eunuco, seja através de promessas ou de elogios. Do mesmo modo, incentiva o negro ao consumo do vinho, bebida que dificultando o uso da razão, facilita o processo de conquista dos propósitos. O negro esclarece que nenhuma coisa lhe enrouquece tanto quanto o vinho, mas que não o deixará de tomar. Então o galanteador lhe diz, “bebed, hijo Luis, bebed, y buen provecho os haga, que el vino que se bebe con medida jamás fue causa de daño alguno [...] porque la seca garganta ni gruñe ni canta” (CERVANTES, 1995, p. 34). A orientação do antagonista não está, de todo, arbitrária uma vez que Juan Luis Vives, no sexto capítulo da Introdução à sabedoria, previne, “entre cear e dormir, torno a admoestar que não bebas; pois não há coisa mais danosa para o corpo, para a memória e para o engenho; mas, se a sede te fadigar, bebe pouco, um pequeno trago bastante antes de dormir” (VIVES, 1964, p. 27). Em seguida adverte que “guarda-te de beber vinho em demasia [...]”, pois “o vinho é sepultura da memória” (VIVES, 1964, p. 28). A fala de Loaysa ainda está coerente com esse discurso já que ele explica ‘que el vino que se bebe con medida jamás fue causa de daño alguno’. Porém, a argumentação se torna irônica uma vez que o próprio negro o explica como se dá a reposição dos jarros com vinho pelas escravas sugerindo fazer consumo intenso da bebida.

Se Loaysa denota saber dos danos causados pelo vinho, já advertidos por Vives, faz uso dele para entorpecer e ‘conquistar’ a cumplicidade do negro Luis. Somos

informados pelo narrador de que, na segunda noite, o enganador “abrazó a su buen discípulo y le besó en el rostro, y luego le puso una gran bota de vino en las manos [...]” (CERVANTES, 1995, p. 36). O pequeno fragmento prova a hipocrisia das ações do rapaz, pois simula manter uma afetividade pelo inocente eunuco, por meio do beijo, além de lhe legar aquilo que gosta, o vinho, embora sabendo ser prejudicial. Segue o narrador explicando que Loaysa “ordenó que luego tomase lición Luis, y como el pobre negro tenía cuatro dedos de vino sobre los sesos, no acertaba traste. Y con todo eso, le hizo creer Loaysa que ya sabía por lo menos dos tonadas […]” (CERVANTES, 1995, p. 37). As expressões ‘ordenó’ e ‘le hizo creer’ são suficientes para demarcar a ação do virote sobre o negro, ao mesmo tempo em que a expressão ‘pobre negro’ demonstra a consciência do narrador frente a essa fragilidade, ademais de sugerir o consumo do vinho. As páginas da ficção revelam que todas as atitudes do antagonista a fim de executar o plano arquitetado são criteriosamente calculadas. De acordo com a observação de Maria Augusta da Costa Vieira,

[a]s restrições absolutas ao mundo exterior que Carrizales impõe a todos da casa são proporcionais à eficiência desses prazeres imediatos que Loaysa oferece a eles, seja pelo estímulo das sensações produzidas pelo violão e a voz, seja pelo vinho, que no caso entorpece o entendimento (VIEIRA, 2012, p. 181).

Pelo que se percebe, a inexistência da vida social faz com todos aqueles indivíduos se tornem vulneráveis a qualquer tipo de conquista. Não só as mulheres como ainda o negro eunuco são vítimas da sedução do jovem Loaysa. A atitude em vista do negro Luis é exemplar da ingenuidade. Depois de questionado por uma das escravas sobre quem lhe havia dado a guitarra, responde com convicção: “_ el mejor músico que hay en el mundo, y el que me ha de enseñar en menos de seis días más de seis mil sones” (CERVANTES, 1995, p. 37). A ingenuidade do homem nesse caso é tão forte que se confunde com a ignorância, referida pelo narrador, ao comportamento da não tão ingênua, Leonora.

Curioso observar que, como estamos mostrando, aquela aparente postura masculina orientada pelos códigos de conduta vai sendo pari passu desconstruída à medida que deparamos com fragilidades tão evidentes na personalidade de algumas personagens. É lícito reiterar que as orientações contidas nos códigos se destinavam a uma classe distinta, mas vale também acrescentar, consoante anotamos anteriormente,

que tais formas de condutas procuravam ser imitadas pelas mais diversas camadas sociais, uma vez tais ‘homens e mulheres’ dos tratados se tornavam modelos a serem seguidos. No ambiente ficcional das duas novelas que estamos citando, interessante é que as personagens parecem ter em vista esses propósitos éticos e morais, mas criam, a seu modo, a suas próprias normas e personalidades. Pensando na dinâmica dos gêneros e de suas personalidades, isto é, nos comportamentos previstos para homens e para mulheres, no caso de Luis, a castração engendra uma forma de torna-lo assexuado, por isso é permitido a ele compor aquela fortaleza habitada por mulheres. Mais uma vez a ficção nos demonstra outro lado já que, é como homem a partir dos padrões tradicionais, isto é, forte e corajoso, para exercer a função de guarda, de segurança daquela casa, que o velho ciumento precisa dele. E parece ser esta força o requisito selecionado por Carrizales para eleger Luis como guarda de sua casa, já que lhe falta e não são necessários a seu senhor os atributos do homem enumerados por Vives.

A los hombres muchas cosas les son necesarias. Le es necesario al hombre tener prudencia, y que sepa hablar, que tenga discurso en las cosas del mundo, también que tenga ingenio, memoria, que tenga arte para vivir, que tenga justicia, liberalidad, grandeza de ánimo, fuerzas de cuerpo y otras cosas infinitas […] Pero en la mujer […] [s]ola una cosa se requiere de ella, y ésta es la castidad (VIVES, 1995, p. 79).

Nota-se que, no excerto acima, Juan Luis Vives enumera os predicativos necessários para o homem e, para a mulher, exige apenas a castidade. Pensando por essa via, cumpre ressaltar que os dotes masculinos exigidos são variados em função das distintas atividades sociais a eles atribuídas. Ao que se refere à mulher, a imposição se detém na guarda do seu corpo, isto é, do seu sexo. Uma das formas de restrições previstas para a mulher quando se trata da guarda da virgindade se embasa na crença da vulnerabilidade delas, ou seja, pensadores como Vives, León e outros citados no primeiro capítulo, inclusive aqueles da Antiguidade clássica, acreditam que as mulheres são seres propensos ao convencimento e às conquistas de outros, por isso deve estar reclusas aos cuidados dos pais e, posteriormente, do marido. Como salientamos anteriormente, Cristina de Pizán (2001) foi uma das vozes de mulheres a hostilizar essa ideia, advertindo que estas deveriam atentar para o modo como os homens as viam e as tratavam, seres frágeis, facilmente manejáveis e frívolas, dispostas à domesticação.

Seguindo esse raciocínio, o comportamento apresentado por Luis se aproxima daquele esperado da mulher nos relatos vigentes, isto é, propenso à manipulação já que

a castração o faz de determinada forma efeminado, pois, pelo olhar bíblico, o eunuco era um homem passivo, ou melhor, que tinha retida a sua virilidade. E os atributos masculinos não são imprescindíveis para a condição a que está submetido, apenas o uso da força do corpo, instrumento que ele não utiliza na narrativa, haja vista a sedução de Loaysa. Para concretizar o plano arquitetado, o astuto manipulador precisa da vulnerabilidade do eunuco e conta com o apoio dele na execução de seu plano, dominando-o, estrategicamente, através de suas fragilidades, a música, o vinho, as promessas e os elogios. Carentes como os demais naquele ‘monasterio’ são propensos a ceder à sedução do ‘invasor’, como destacou Vieira (2012).

Loaysa é, segundo caracterização de Helena Percas de Ponseti (1994), uma personagem muito complexa. Sua apresentação na obra é introduzida por certa depreciação de sua classe.

Hay en Sevilla un género de gente ociosa y holgazana, a quien comúnmente suelen llamar gente de barrio. Éstos son los hijos de vecino de cada colación, y de los más ricos della: gente baldía, atildada y meliflua, de la cual y de su traje y manera de vivir, de su condición y de las leyes que guardan entre sí, había mucho que decir; pero por buenos respectos se deja (CERVANTES, 1995, p. 28-29).

Diferentemente do modo como nos foi apresentado Carrizales, ‘nacido de padres nobles’, a caracterização de Loaysa nos põe defronte ao caráter aparentemente elitista do texto. Utilizamos o termo ‘elitista’ para se referir aos privilégios de linhagem que o narrador parece ressaltar no decorrer do texto, ressaltando a origem nobre do casal protagonista. Se para descrever Carrizales o narrador explica ao leitor que este pretende mudar de vida em relação a seu passado desregrado, com Loaysa ele já antecipa que desta personagem não se pode esperar o que está previsto em vista de costumes e de valores.

O narrador o apresenta como filho de ricos, mas que, ao contrário de seguir os nobres valores orientados, essa classe de pessoas faz suas próprias leis. Classificado como integrante de um grupo bastante contraditório, o narrador utiliza uma linguagem bastante metafórica com expressões como ‘baldía’, ‘atildada’ e ‘meliflua’, sugestiva do vazio de caráter neles encontrado. O termo ‘melíflua’ parece precaver da facilidade de conquista proveniente daquele tipo de comportamento e, ainda sobre o comportamento deles, o condutor da história adverte não dizer muito em vista de respeito. Segue

definindo o antagonista como um virote, “uno destos galanes, pues, que entre ellos es llamado virote, mozo soltero” (CERVANTES, 1995, p. 29).

Se as origens do antagonista são, de certa maneira depreciadas, o termo virote, explicado páginas atrás no entendimento de Percas de Ponseti, é explicado pelo narrador apenas como moço solteiro. Já Edwin Williamson explica que, como as ‘gentes de barrio’, o virote Loaysa, vagando de um espaço a outro, está habituado às suas próprias regras e às desordens, “gracias a su enorme confianza en sí mismo, Loaysa puede vivir en un continuo alboroto [...]” (WILLIAMSON, 1990, p. 800). Atentando para as práticas dessa personagem e a vulgaridade da conduta das personagens que povoam a fortaleza de Carrizales, Maria Augusta da Costa Vieira explica que “a atuação de Loaysa não o situa no âmbito da vulgaridade. O virote não se deixa levar pelas aparências sensíveis das coisas; ao contrário, sua ação é calculada passo a passo; portanto, não brota dos afetos, mas sim da razão” (VIEIRA, 2012, p. 182). Consoante anotamos anteriormente, as ações de Loaysa são cuidadosamente planejadas a fim de alcançar o seu intento, adentrar a fortaleza e conquistar a jovem esposa.

Se as ações do virote não se situam no âmbito da vulgaridade, também não estão no campo da discrição. Embora disponha da racionalidade própria dos discretos, diz Vieira, suas ações se enquadram nas características da simulação.

Não se trata de encobrir uma verdade, mas de produzir uma mentira:

simular que está a serviço da música e da diversão das pessoas,

quando, na verdade, sua intenção é adentrar a fortaleza e aproximar-se da jovem esposa que leva uma vida monacal. Loaysa simula honestidade, finge o que não é, calcula todas as etapas de sua façanha, enfim, age como se estivesse em uma cena teatral que supõe progressões na ação e mudanças de figurino: de “pobre mendicante” coxo e maltrapilho transforma-se em jovem de “gentil disposição” e de tão “boa aparência” que as mulheres da casa o olhavam como se fosse um “anjo” (VIEIRA, 2012, p. 182).

Veja-se que todas as mudanças do antagonista são previamente arquitetadas e, ele mesmo admite ao negro Luis, depois de adentrar a fortaleza, de que tudo é ‘indústria’. As transformações e as atitudes tomadas por Loaysa o distanciam dos princípios e valores para um bom cortesão, como orientam Baltasar Gracián em El

discreto e El héroe, além das premissas pregadas por Dantisco no Galateo e Castiglione

em El Cortesano.

Como também percebe Maria Augusta Vieira, as relações sociais de Loaysa se baseiam na técnica do teatro, e todos os disfarces e recursos que utiliza são direcionados

a um único objetivo, ou seja, romper aquela clausura e se aproximar da protagonista. Para isso, “sabe discernir perfeitamente o que pode agradar a uns e a outros e é capaz de construir sua imagem segundo seus próprios interesses” (VIEIRA, 2012, p. 182). Os primeiros sinais da conduta do jovem nos foram dados pelo narrador desde sua apresentação. Contando com o auxílio de ‘dos virotes un mantón’, Loaysa inicia a execução de seu plano a partir da conquista do negro eunuco, como explicamos anteriormente. Sobre os amigos do antagonista, o narrador emite uma crítica bem apurada quando explica que “nunca para tales obras faltan consejeros y ayudadores” (CERVANTES, 1995, p. 29).

Como estamos refletindo acerca da conduta de homens e de mulheres expressas na ficção, interessa-nos apontar o motivo que instiga aquele teatro arquitetado por Loaysa. Apenas “[s]upo la condición del viejo, la hermosura de su esposa y el modo que tenía en guardarla; todo lo cual le encendió el deseo de ver si sería posible expugnar, por fuerza o por industria, fortaleza tan guardada” (CERVANTES, 1995, p. 29). Sobre os motivos que desencadeiam a ação do engañador, acrescenta williamson: “[l]a voluntad de Loaysa es autosuficiente y despreocupada. Si se propone conquistar a la mujer de Carrizales no es porque la desee (ni siquiera la ha visto), ni porque tenga relación alguna con el viejo (no lo conoce para nada); es por llevar la contraria” (WILLIAMSON, 1990, p. 800). Nos estudos de García López, este ainda percebe que “Loaysa, por supuesto, no ama a Leonora, a quien no conoce – ni siquiera la ama ‘de oídas’- la joven no es más que victoria para exhibir ante la gente de su calaña” (GARCÍA LÓPEZ, 2001, p. 889).

As razões apresentadas pelo narrador e as justificativas de Williamson comunicam a irresponsabilidade e a inconsequência das atitudes tomadas por aquela personagem. Embora estejamos cientes da distinção entre ambas as formas de representação, convém mencionar que a expressão da voz narrativa nos remete, sutilmente, a alguns traços pintados no clássico Don Juan, de autoria atribuída a Tirso de Molina. Aquele, como este, burla da religião, do casamento, da ordem social, das normas, dos prescritos, seduz por seduzir, mente, enfim, brinca, por intermédio de seus disfarces, com a estrutura de vida edificada por Carrizales. Embora seja importante assinalar que a publicação do livro que popularizou a personagem na Espanha El

burlador de Sevilla y convidado de piedra tenha sido posterior à publicação do conjunto

das doze narrativas curtas cervantinas, é lícito afirmar que a origem desse tipo de personagem é bem remota. Segundo Victor Said-Armesto (1946), as raízes literárias da

personagem Don Juan podem ser encontradas nos romances galegos e leoneses medievais. Também Forcione (1982), lido por Jorge García López, identificou esse viés na personagem

como una figura demoníaca, una suerte de Don Juan, especialmente en sus descripciones, varias a lo largo del relato, y en la extraordinária escena en que aparece rodeado de las mujeres de la casa e iluminado por el torzal de cera que sostiene Luis, escena que sugere también el poder de los instintos naturales reprimidos (GARCÍA LÓPEZ, 2001, p.889).

Trazendo em si traços que o afastam dos modelos de nobres cortesãos previstos pelos códigos e que, de certo modo, o aproxima do anti-herói Don Juan, vale recordar que Don Juan, de Molina, sente-se fortemente atraído por Ana apenas ao ouvir o Marquês de la Mota falar sobre e de seu amor por ela, assim como Loaysa apenas sabe da beleza da moça e do excessivo ciúme do velho, sente-se atraído por desmoronar aquele universo criado pelo marido ciumento. Como explica Williamson (1990), ele sequer deseja a jovem Leonora porque também nunca a havia visto. Nele, sobressai o ensejo de rompimento do que fora construído com recato e reclusão. Como observa Sócrates Nolasco sobre o mito espanhol, desprezando os princípios religiosos, Don Juan privilegia “enganar as mulheres e depreciar os homens com os quais elas estão

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