CAPÍTULO 4 - PESQUISA DE CAMPO
4.5 Lumpemproletariado: um paria na sociedade burguesa?
Neste item, discutiremos sobre as mulheres em situação de rua enquanto lumpemproletariado na obscuridade da sociedade burguesa, ilustrados pela metáfora do pária, a fim de clarificar a realidade vivenciada e imposta pelos limites da cidadania burguesa a estas mulheres.
A negação do status de cidadão transforma o lumpemproletariado em pária, no sentido de que as condições desumanas vividas pelas mulheres em situação de rua não diferem do pária indiano, visto que a primeira consequência é a desclassificação social, ou seja, trata-se de uma demanda que não existe para o sistema capitalista, nem como exército de reserva, como já descrevemos neste trabalho. Para Engels (1968, p. 117), “a concorrência entre os trabalhadores é a expressão mais completa da guerra de todos contra todos que impera na moderna sociedade burguesa”, posto que esta concorrência acontece onde cada membro de cada classe é um obstáculo para o outro da mesma classe, colocando todos os seus membros em posição de conflito, logo a luta de classes é enfraquecida em suas frentes. Para Marx e Engels, o lumpemproletariado consiste na parte mais baixa de uma sociedade, pois não compõe o exército de reserva, sendo irrelevante para o capital, sem lhes causar ganho algum, senão um problema caso entre para agenda governamental e tenha voz na arena de disputa dos recursos.
Como já esclarecido anteriormente, a formação do lumpemproletariado na sociedade capitalista e a metáfora do pária são parâmetros para descrever a miséria e o descaso vivido pelos grupos marginalizados, como a população em situação de rua, sendo mais crítico ao tratar da condição das mulheres em situação de rua. Nossos dados demonstram claramente o porquê estas mulheres são classificadas como lumproletariado na sociedade burguesa e como a figura do pária traz compreensão do “status negativo” vivido por estas mulheres em condição de rua:
A metáfora do pária é usada para pensar “a singularidade do indivíduo que não se encaixa na definição do grupo para o qual está designado por um processo de alteridade” O pária não é aquele que se provém de qualquer grupo para definir a si mesmo, mas emerge daqueles grupos construídos e estigmatizados como “de menor valor” em cada contexto (VARIKAS, 2011, p. 126).
A estigmatização, como fruto de uma ideologia fundada na meritocracia, como já discutido, colabora no processo de exclusão social; consequentemente, contribui para a invisibilidade destes grupos, que não se enquadram no “cavalheiro” de Marshall. O próprio termo utilizado pelo sociólogo é passível de crítica, no sentido de que dá a entender que a cidadania é só para os homens ou que são os homens que oferecem o parâmetro do que seja cidadania: não possuem trabalho nesta sociedade, não possuem rendimentos próprios, consequentemente se tornam um pária, um cão, condição na quaç somente é possível algum tipo de acesso a recursos através de experiências marginais de trabalho: biscates, emprego doméstico, sem carteira assinada, enfim, constituindo-se no lumpemproletariado.
Esta interpretação acerca do lugar na pirâmide social por parte destas mulheres em situação de rua se torna cada vez mais clara ao analisarmos as respostas que inferem sobre conceitos e direitos básicos para ser um cidadão na sociedade burguesa. A respeito da pergunta “Você já pagou a previdência, se sim, por quanto tempo?”, E2 respondeu: “O que é isso nunca paguei”.
O nível de desconhecimento situa as entrevistadas na condição de lumpemproletariado. As condições subhumanas relatadas demonstram o lugar como de um “cão” na sociedade, ou seja, um pária, com o mesmo sentido etimológico de cão. Percebeu-se por meio de perguntas pontuais que esta condição é diária e complexa no processo de cidadania, como revela a fala da E5 a respeito de experiências negativas nas ruas: “[...] já passei 5 dias sem comer, eu pedia mas as pessoas mandavam eu trabalhar”. Tanto a ideia meritocrática na fala dos terceiros, como a condição de pária são vistas nessa fala, pois a ausência do trabalho, como já mencionado, constitui-se em uma condição essencial para se obter o status formal de cidadão na sociedade burguesa, literalmente descartando a própria sorte, ou a prática da filantropia, estes renegados párias. O cenário é típico do capitalismo, que tem nas questões sociais um problema econômico, pois são recursos “improdutivos” por se tratar de uma demanda que não participa do sistema de produção. A ascensão social se atrela ao status formal de cidadania, pois quanto mais bem-sucedido nesta sociedade, mais se têm direitos.
É importante ressaltar que a leitura da sociedade acerca desta demanda também colabora no processo de estigmatização do pária, pois acerca desta indiferença:
Os relatos de Bauman sinalizam essa dificuldade em se constituir a unidade humana na sua diversidade. Esse fenômeno ocorre porque os desconfortos da Pós-Modernidade evidenciam a fragilidade para se lidar com tudo o que se manifesta fora dos domínios do “Eu”. Não existe uma resposta capaz de eliminar os refugos humanos – representados pelos “Vagabundos. (BAUMAN, 1999, p. 45).
Se o descaso e a depreciação, condizentes com um pária, parte da sociedade em geral, como vimos no relato anterior, o próximo relato também denuncia este descaso por parte do poder público, isolando estas mulheres de qualquer possibilidade de reconhecimento de direitos e de dignidade. Sobre experiências negativas nas ruas, “Fui presa por homicídio, já paguei o que devo pra sociedade, matei o cara, com uma faca, que tentou me estuprar. A polícia quando puxa meu B.O [boletim de ocorrência] me trata igual cachorro” (E2):
O pária é o “negro inferiorizado” descrito por Frantz Fanon, oprimido sob a imagem que “a sociedade branca”. Párias são também os vencidos da Comuna de Paris, os ciganos da Romênia n século XIX, os pigmeus, os “indígenas” “exibidos ao público civilizado das metrópoles”, os homossexuais, e a lista continua... (VARIKÁS, 2014, p. 65).
E as mulheres em situação de rua, no que diferem destas demandas citadas? Talvez em suas particularidades; ao serem ignoradas só tornam mais complexa a situação destas. A figura do pária se converte, portanto, em um recurso pelo qual os grupos subalternos expressam sua existência social, ainda que invisíveis a essa sociedade. A repulsa por estas pessoas, revela que mais do que ignorá-las, é preciso depreciá-las, visto que algo legitima a insignificância destas: “Viver na rua é tudo de ruim que você imaginar, a pessoa te xinga, te abusa, se você pede um copo d’agua as pessoas cospem em você” (E9).
A contradição é um dos pontos que demonstra como a desigualdade tem suas bases sólidas, pois o Brasil é um dos maiores produtores de alimento do mundo; no entanto, a fome ainda assola grande parte da população brasileira, problema também vivenciado pelas mulheres em situação de rua: “A comida tinha dia que eu pegava no lixo quando o restaurante fechava e colocava no lixo” (E8).
Umas das falas mais emblemáticas desta pesquisa, cabe de forma propícia neste tópico, é a fala que relata a prática de aborto coercitivo, como já mencionado por uma das entrevistadas, muitas mulheres são obrigadas a abortar, por meios totalmente insalubres, completando todas as áreas possíveis de defraudação do corpo, das emoções e sentimentos, inclusive espirituais, no sentido de consciência de si e da vida. No corpo desta pesquisa relatamos também o caso, divulgado na mídia, da mulher em situação de rua, Janaina, que sofreu um aborto coercitivo, determinado pelo poder público, sem qualquer plausibilidade. Tais histórias reforçam o fato de que a desigualdade só tende a crescer no Brasil, pois fenômenos sociais provenientes do modo de produção capitalista fragilizam continuamente os “desafortunados”, gerando a luta de classes dentro da própria classe. Nessa perspectiva, a lei é “a do mais forte”. O Brasil sofre com o processo de favelização, ou seja, aumento de favelas, moradias impróprias e degradantes.
O cenário habitacional é um forte indício da condição de desigualdade. O aglomerado de casas, em grande parte construídas nos morros, contrasta com as mansões e as casas em condomínios fechados. Quanto à desigualdade alimentar, há pessoas que não têm condições para comer o mínimo necessário. Muitas passam fome, decorrendo daí quadros de desnutrição nas ruas.
A culpabilização de si é aparente na fala das entrevistadas, como se a pobreza fosse culpa da “incapacidade” em doutrinar-se de acordo com a “religião” capitalista, que reza o trabalho como o atributo dos atributos, fruto dos que se esforçam. É neste paradoxo em que o caminho metafísico parece ser mais fácil do que o material, pois a esperança está “fé” mais do que na luta política, a final, sem consciência política, não há luta política, consequentemente o distanciamento de qualquer possibilidade de ser reconhecido como cidadão na sociedade burguesa.
Sobre o projeto de vida, diz E6: “Que eu ainda vou ser uma vencedora, e tudo isso foi só uma experiência, Deus é minha força, o cair é do homem o levantar é de Deus”. O cair aqui é entendido como a responsabilidade pela própria condição, demonstrando ausência de uma consciência de classe, ou de qualquer mudança proveniente de acesso a direitos de cidadania.
Sendo assim, através dos relatos retratados aqui, tem-se uma melhor compreensão da precisão da metáfora do pária, a fim de situar as mulheres em situação de rua, acerca de sua realidade de exclusão social, e também entender que, na cadeia social, as mulheres nesta situação compõem parte do lumpemproletariado de Marx e Engels, marcados pela invisibilidade social e pela inviabilidade de compor a massa produtiva da sociedade burguesa. Por isso, a cidadania, condicionada a um lugar na produção, renega estas mulheres ao esquecimento; consequentemente, são vulnerabilizadas cada vez mais pela falta de representatividade e assistência propícia às suas particularidades, levantando o seguinte questionamento: quem lutará pelos direitos de cidadania das mulheres em situação de rua, visto que nem na legislação, irrisória para a demanda geral – população em situação de rua, tem-se suas particularidades contempladas, entregando cada uma ao seu próprio “mérito”?