CAPÍTULO 2 OS DIÁLOGOS QUE PERMEIAM AS HIERARQUIAS PERCEBIDAS
2.1 A luta pela integridade da propriedade camponesa: as formas
Como já relatado no primeiro capítulo deste trabalho, o campesinato brasileiro originou-se no interior dos grandes latifúndios e em “terras livres”. Porém, este arranjo foi alterado a partir de fatores históricos de cercamento dessas terras em decorrência de sua apropriação privada por grupos capitalizados. A terra deixa de ser um recurso livre de apropriação por meio do trabalho e passa a ser mercadoria adquirida por meio da compra.
Este fato transformou profundamente o modo de vida das populações camponesas que, a partir do cercamento das terras tiveram os seus territórios comprimidos e a impossibilidade de apropriação de novos espaços que lhes garantissem a expansão do território para a instalação de novas unidades familiares. Assim, mecanismos que garantam a integridade do patrimônio territorial foram e são acionados por estas populações. Entre eles, a migração de parte dos filhos do casal e a divisão da herança da terra entre os membros masculinos da família são os que evitam a sua minifundização. Na organização familiar, considerando o homem – aquele que
deve “governar” – garantidor da reprodução camponesa, é a ele destinada a terra de herança.
Se a mulher não é responsável por nada que se ligue de modo direto à existência física da terra, como atribuir-lhe a posse ou a propriedade desta mesma terra? É justamente à partir desta lógica que as questões de herança como um problema masculino se tornam inteligíveis (MOURA, 1978, p. 29).
Neste capítulo, parto do princípio de que no campesinato brasileiro ocorreram três fatores históricos que desorganizaram as características pré-existentes deste modo de vida em “terras livres”. O primeiro fator ocorreu em 1850, com a publicação da Lei de Terras. Anterior à esta lei, a forma de acesso à terra era por meio da doação real ou do apossamento de territórios ainda não povoados, caracterizando a formação do campesinato em “terras livres”. Os grupos camponeses estabeleciam-se em determinada área e a apropriação da terra ocorria por meio do trabalho.
Esta lei passou a considerar que a única forma legal de apropriação da terra seria a sua compra, instituindo uma nova estrutura fundiária. Em decorrência da privatização da terra e da sua conseqüente concentração, as populações camponesas passaram por vários processos de expropriação ou de perda de seus territórios – ou de parte deles – principalmente os de apropriação coletiva.
Outro momento histórico que desencadeou transformações no seio das populações camponesas e, principalmente das relações destas com os proprietários das terras – quando moravam dentro de suas propriedades como foreiros ou meeiros – se deu com o Estatuto do Trabalhador Rural, em 1963. Este estatuto regulamenta as relações de trabalho no campo e proíbe o “cambão”, dias anuais de trabalho não- remunerados do morador devido aos donos da terra. Com isso, os proprietários deixaram de conceder terras em aforamento uma vez que este arranjo não era mais vantajoso para os mesmos (HERÉDIA, 1979).
Por último, devo citar o Estatuto da Terra, promulgado em 1964. Segundo Oliveira (2001) o Estatuto da Terra era lei morta, uma vez que foi criada para abafar os movimentos sociais que reivindicavam a reforma agrária e que já tinha havido avanço neste sentido no governo anterior. Esta lei foi uma estratégia utilizada pelo governo
para sufocar uma possível revolução camponesa, estabelecendo metas que nunca foram cumpridas da esperada reforma do sistema fundiário concentrador. Em contrapartida, o que ocorreu de fato foi a modernização conservadora do campo que garantiu às elites rurais a permanência e acentuação das desigualdades vivenciadas no campo brasileiro. Com isso, ampliou-se a expansão dos grandes latifúndios modernizados e capitalizados, atualmente denominados agroindústrias. A expropriação do camponês acentuou-se ainda mais neste período, assim como o seu encurralamento. A possibilidade de apropriação da terra negada ao camponês gerou o seu parcelamento para atender às demandas familiares. Conforme Oliveira,
Certamente, a maioria dos filhos dos camponeses, cujas propriedades tenham superfície inferior a 10 hectares, jamais terão condição de se tornar camponeses nas terras dos pais. A eles caberá apenas um caminho: a estrada. A estrada que os levará à cidade, ou a estrada que os levará à luta pela reconquista da terra, (2001, 187-8). Cercados pelos grandes proprietários das terras, essas populações tiveram seus territórios cingidos e perderam, com isto, as possibilidades de expansão dos mesmos. Em conseqüência, e como forma de resistência, novas estratégias são formuladas para evitar o excessivo parcelamento que constitui o minifúndio, comprometendo a reprodução do grupo familiar camponês.
São dois os momentos em que o parcelamento da terra camponesa pode ocorrer. O primeiro quando os filhos se casam e há a necessidade de terras para o arranjo do novo grupo doméstico que se forma. O segundo ocorre com a morte dos pais, quando juridicamente a terra deve ser dividida em partes iguais pelos herdeiros.
Quando ocorre um destes fatores mencionados, os mecanismos para evitar o parcelamento da terra são acionados, e neste caso, os códigos locais, em contradição ao código legal, são colocados em prática. Estes mecanismos evidenciam, principalmente, uma lógica interna regida pela dimensão hierárquica da organização familiar camponesa. Mecanismos estes que foram elaborados ao longo da história do país, como uma resposta desta parcela da população que luta para manter o seu modo de vida, apesar das constantes proibições legais impostas pelo Estado que visa, antes
de tudo, o desenvolvimento econômico e tecnológico via expansão capitalista através de um sistema fundiário excludente e concentrador.
Nos estudos realizados por Herédia (1979) em uma área decadente de engenho, na zona da mata pernambucana, a tendência é que a terra fique para o filho homem caçula. Isto se deve ao fato de que normalmente na época da morte dos pais, os filhos mais velhos já estarem casados e, por isso, já terem se estabelecido em outras localidades, seja por meio do arrendamento, seja através da migração – sendo a migração compreendida como um dos mecanismos que garantem a não fragmentação da terra.
Ao migrarem, os filhos tendem a respeitar o princípio do não parcelamento da terra, e deixam aos herdeiros que permaneceram a parte a que teriam direito. Os filhos casados que permanecem como camponeses rendeiros tendem, também, a respeitar este princípio, e deixam as suas parcelas para aquele “que se encontra em piores condições”, ou que permaneceu na unidade originária.
Neste caso, quando ocorre a venda da terra, normalmente a transação se faz entre irmãos. São estabelecidos preços favoráveis à sua compra entre herdeiros, para que o patrimônio permaneça na família e indivisível.
Entre irmãos também é a forma preferencial de venda da terra em São João da Cristina, no sul de Minas Gerias, constatado no estudo realizado por Moura (1978). Nesta localidade há uma forma peculiar de troca de terras – e de sua permanência no núcleo familiar original – por meio do matrimônio. Quando uma mulher se casa, normalmente ela transfere-se para as terras do marido. Este fato aciona a transferência das terras por meio da venda ao irmão. Com o dinheiro da venda, o marido compra as terras da sua própria irmã, para que fique com o lote maior que teria de direito por herança, e isto ocorre entre famílias, perpetuando a troca de terras sucessivamente. Segunda a autora, as transações irmã-irmão, são, na realidade, entre cunhados, pois dá-se a mulher (irmã, filha) a um não-parente e, com isto, espera-se poder “negociar” com o cunhado (Idem, p. 45).
Godói (1999) aponta estratégias complexas utilizadas por populações do Vale do Jequitinhonha para garantir a integridade do patrimônio territorial. Diferente dos casos relatados por Moura (1978) e Herédia (1979), esta pesquisa foi realizada em terras concedidas pelo Estado no início do século XIX, em troca de serviços prestados na “conquista dos índios que habitavam aquelas caatingas” (GODÓI, 1999, p. 60), originando o campesinato de fronteira.
Descendentes de um ancestral comum, o veio Vitorino, estes camponeses nomeiam o seu território como a grande fazenda, no sentido de condomínio e não de apropriação privada (GODÓI, 1999) que foi, ao longo dos tempos, dividida entre os descendentes de forma a atender a população ligada pelo parentesco. A apropriação se dava por meio do trabalho ou da abertura do “serviço”, onde se implantava uma roça demarcava-se a sua posse. A autora aponta este como um “sistema de direitos combinados”, isto é
a depender da relação que o indivíduo venha a estabelecer com a terra vai ser definido o conjunto de direitos sobre ela. A terra em absoluto é classificada como inalienável, sendo o indivíduo responsável por ela diante do grupo. “Aquele que quisesse a terra por ser dele, agora ele tinha que demarcar”. A terra de comum é pensada como fonte de recursos naturais como a madeira (para a cerca e a cozinha), o mel, a caça e os corpos d’água (tanques, barreiros, cacimbas) indispensáveis para a reprodução do grupo. Através do trabalho – abrindo serviço, o indivíduo estabelece um outro tipo de relação com a terra e passa a apropriá-la individualmente. (...) o trabalho investido assegura (por extensão) o direito camponês à própria terra trabalhada: “agora tá em abandono, caiu a cerca, não levantou mais, mas é dele o círculo, qualquer um que quiser fazer o serviço dele, tem que se autorizá com ele, pedir para ele se pode levantar aquela roça lá.” (Idem, p. 58).
Anterior à década de 1950, as terras eram consideradas como terras de conjunto, ou seja, não retalhadas pelos donos da fazenda (são considerados donos todos os descendentes do tronco do veio Vitorino). Após esta década, houve a exigência legal de demarcação das terras, e com isso foram acionadas estratégias que garantissem as condições de sua permanência em terras livres. A autora destaca que as tradições sucessórias devem ser entendidas como portadoras de uma racionalidade própria e que satisfazem às exigências de reprodução deste campesinato, (Idem, p. 87).
Com a imposição da demarcação das terras, estas foram repartidas em terras
de ausentes, que garantiam aos parentes que migraram o direito à posse da terra caso
retornassem. Estas terras serviam também à apropriação comum dos recursos naturais enquanto não fossem demarcadas pelos ausentes no seu retorno. Foram também repartidas em terras de conjunto, quando há a união das terras em uma gleba comum por um grupo de famílias para terem acesso maior aos recursos naturais nas áreas não utilizadas pela agricultura. E, finalmente, em terras de padroeiro, que são as terras doadas por uma família a São Pedro. Neste caso, o santo era “apossado e tratado como pessoa moral”, e nelas instalavam-se famílias que demarcavam sua posse por meio da implantação da roça, ou seja, do trabalho investido nela.
Com relação aos direitos de herança instituídos pelo código civil, neste estudo a migração é apontada também como forma de impedir a fragmentação da terra – os pais tendem a ceder os seus direitos a alguns membros do grupo familiar. Os códigos locais exprimem
a realização prática de categorias culturais num contexto histórico específico, como vimos ocorrer após a divisão, separação e demarcação da antiga fazenda, quando a ética subjacente à terra de comum passa a ser expressa através das novas categorias: terra de conjunto, terra de ausente e terra de santo, continuando a respeitar antigas orientações econômicas, sociais e simbólicas que, estando inscritas nos sujeitos, através de uma memória de ação (de práticas), asseguram a “presença ativa de experiências passadas que, *...+ tendem mais seguramente que todas as regras formais e as normas explícitas, a garantir a conformidade das práticas e sua constância através do tempo” (Bourdieu, 1990: 91). (Apud GODÓI, 1999, p. 149- 150).
Em outras palavras, para a autora os camponeses formularam regras locais de acesso à terra, e neste processo eles “jogavam” com as regras do código civil ao ignorarem a obrigação de inventariar e de dividi-la entre os herdeiros, impedindo o seu parcelamento, preservando a integridade territorial do patrimônio, além de elaborarem novas categorias de acesso que permitiram a continuidade da posse da terra sobre os novos contornos expressos por este conjunto de leis.
Nos estudos realizados por Doris Rinaldi Meyer (1979) em uma área de antigo engenho na Mata Sul de Pernambuco, os camponeses garantiram a existência e
continuidade de seu modo de vida através da sua instalação em “terra de santo” doada por um ex-proprietário dentro de suas posses. As “terras de santo” são áreas consideradas como terras livres para o camponês - fato que se verifica em várias partes do país - que dela se apossa para construírem seus espaços de vida e trabalho.
A especificidade do caso estudado pela autora está na localidade em que se encontra o pequeno povoado que se formou na terra doada, depois transformada em vila. Este se encontra dentro dos limites da propriedade. Com isso, as relações entre proprietário e moradores ocorrem em termos de troca tradicional de favores na qual
o proprietário faz concessões de terra, água, lenha e frutas, concessões essas que implicam num tipo de reciprocidade em que o trabalho que os habitantes da vila realizam para ele é pensado em termos de ajuda. Se por um lado, o senhor de engenho precisa negar a existência da terra do santo – “Pedras é o arruado de meu engenho” – submetendo a vila como um todo, para extrair sobre- trabalho (...).
Por outro lado, o reconhecimento da existência do patrimônio deve necessariamente ocorrer em algum nível, possibilitando que o senhor de engenho acione um tipo de exploração “moderna” baseado numa reciprocidade “tradicional” onde a categoria ajuda tem um papel fundamental (MEYER, 1979, p. 67).
Neste caso, caracteriza-se novamente a subordinação da população camponesa em relação ao proprietário da terra. A categoria trabalho especifica aquele realizado na lavoura do sítio camponês, o trabalho realizado para o proprietário das terras recebe a conotação de ajuda.
Na área que circunda a Vila de Pedras, encontram-se vários conjuntos de sítios e alguns antigos engenhos (atualmente voltados para a produção de cana-de-açúcar). Estes sitiantes – sua formação remete à fragmentação dos engenhos – estabeleceram- se na região a partir da década de 1920. A maior parte dos sitiantes da região vive, após três gerações de fragmentação via transmissão hereditária, em pequenas parcelas de terras. A partir deste fato, a autora aponta os mecanismos acionados por esta população para evitar o parcelamento excessivo de suas terras.
As filhas mulheres, apesar de legalmente herdeiras, estão praticamente excluídas das heranças, isto se explicando pela marcada divisão dos papéis atribuídos a elementos masculinos e
femininos nesse tipo de organização social. Uma mulher não pode dirigir um sítio – isto só ocorre em casos muito especiais como o de viuvez prematura com os filhos ainda pequenos ou de invalidez do marido – este papel devendo ser desempenhado pelo marido, o chefe da família. Com o casamento, que se realiza preferencialmente entre os próprios agricultores, o noivo devendo ter uma situação econômica superior à da noiva ou pelo menos equivalente à desta, as moças deixam a propriedade paterna indo morar nas terras do noivo, próprias ou de seu pai (Idem, p. 94).
Assim como ocorre em Herédia (1979), permanece a tendência de o pai designar seu sucessor, considerado aquele em quem ele mais confia, para permanecer na terra. Nesse caso, pode não ser o mais velho, uma vez que este pode já ter deixado a casa, abrindo espaço para que um irmão seja investido na condição de herdeiro. Geralmente não há divisão da terra, apenas legalmente. Na prática, os irmãos casados que moram no sítio e os solteiros compram as partes dos irmãos e permanecem na terra, ficando ela indivisível.
Podemos perceber por meio dos estudos apontados a forma como se dá a sucessão do direito à terra camponesa, que esta segue uma lógica própria e interna e que expressa a dinâmica de elaboração dos códigos locais de sua transmissão.
O entrelaçamento de dois códigos [legal e local] não é ali o resultado de um “passado” que insiste em coexistir com um presente e sim a evidência de que heranças camponesas podem forçar uma lógica própria ao mesmo tempo em que os códigos nacionais, pela história afora tentam impor – mais ou menos violentamente – suas próprias regras do jogo (MOURA, 1978, p. 89).
Este entrelaçamento permite à família camponesa o proteger-se contra a minifundização, sendo a terra condição necessária de existência do seu modo de vida. Entre os mecanismos apontados, a migração é lembrada como um dos mais importantes. Uma forma também característica de se manter a integridade territorial do patrimônio é reparti-la entre os membros masculinos da família. Para que isto ocorra, nega-se à mulher o direito à herança. Têm direito à herança da terra os membros familiares que a cultivam, ou seja, que trabalham nela. E quem trabalha a terra é o homem, pois a mulher exerce o papel de colaboradora, sendo o seu trabalho compreendido como ajuda, mesmo que este seja efetuado na roça junto aos demais membros masculinos da família.
2.2- As hierarquias percebidas: o processo de aprendizagem e os nomes do