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A CAMPANHA POLÍTICA ELEITORAL COMO PROCESSO CONTRA HEGEMÔNICO:

1.2. Eleição como meio e não como fim em si mesma

1.2.1. Luta permanente

A sociedade é um “grande campo de batalha” (KELLNER, 2001, p. 79) permanente pela hegemonia cultural das ideias, isto é, “um campo de dissonâncias, palco de conflitos e duelos” em que as forças hegemônicas e contra-hegemônicas concorrem pela liderança cultural-ideológica, ora reforçando o exercício da hegemonia, ora enfraquecendo os consensos firmados (COUTINHO, 2006, p. 41). Para isso, utilizam-se dos aparelhos privados de hegemonia, amplamente presentes no dia a dia das pessoas, como forma de produzir e disseminar as suas visões de mundo e de promover o compartilhamento de valores sociais (GRAMSCI, 2000, p. 119), de maneira que a disputa pelas ideias acontece a todo momento nos meios de comunicação, partidos políticos, instituições religiosas, sindicatos, sistema escolar, diversas organizações sociais, empresas, instituições de caráter científico e artístico, nos espaços de entretenimento etc. Isso porque, conforme já abordado nesta pesquisa, a hegemonia é uma construção historicamente construída, instável e sujeita a alterações na sua correlação de forças, então a sua afirmação ou resistência é feita cotidianamente.

Esta disputa constante pelas ideias acontece na “sociedade civil”, que na teoria gramsciana representa o conjunto das relações ideológico-culturais e intelectuais, isto é, a sociedade civil em seu aspecto cultural (PORTELLI, 1977, p.65) e é composta pelo conjunto dos organismos não-estatais ou particulares, conhecidos como “organismos privados”. Ainda de acordo a definição de Gramsci nos Cadernos do Cárcere (GRAMSCI, 2004, p.20), também existe a “sociedade política” (Estado), que exerce o controle direto por meio da coerção e é constituída pelas instituições políticas (instituições de Estado) e pelos aparelhos repressivos e coercitivos do Estado (Polícia, Justiça).

Por enquanto, podem-se fixar dois grandes “planos” superestruturais: o que pode ser chamado de “sociedade civil” (isto é, o conjunto de organismos designados vulgarmente “privados”) e o da “sociedade política ou Estado”, planos que correspondem respectivamente, à função de “hegemonia” que o grupo dominante exerce em toda a sociedade e àquela de “domínio direto” ou de comando, que se expressa no Estado e no governo “jurídico” (GRAMSCI, 2004, p. 20).

37 Os conceitos de sociedade civil e sociedade política remetem à configuração gramsciana de “Estado ampliado”, que seria a soma das arenas da guerra de posição e da guerra de movimento, de modo que sua hegemonia significa a “primazia da sociedade civil sobre a sociedade política” (PORTELLI, 1977, p. 65). Esta configuração ampliada dialoga com Marx e Engels, que no Manifesto do Partido Comunista se referem ao Estado como sendo a “sociedade política”, isto é, a instituição Estado no sentido estrito (MARX; ENGELS, 1848). Já a “sociedade civil” marxista se refere ao conjunto da vida comercial e industrial, ou seja, ao “conjunto das relações materiais dos indivíduos dentro de um estágio determinado de desenvolvimento das forças produtivas” (MARX; ENGELS, 1846, p. 33) e não às culturais de Gramsci (PORTELLI, 1977, p. 65). De qualquer forma, não há dicotomia entre os dois pensamentos, apesar da distinção conceitual, pois não existe ruptura de ideias, uma vez que Marx e Engels falam do intercâmbio entre infraestrutura e superestrutura, princípio também adotado por Gramsci.

Definida por Gramsci como “arena da luta de classes”, a sociedade civil é um espaço de relações de poder e de contradições, em que grupos sociais antagônicos brigam para fazer valer os seus interesses, nas palavras de Coutinho (2000, p. 18), é uma “esfera pluralista de organizações, de sujeitos coletivos em luta ou em aliança entre si, (...) o espaço da luta pelo consenso, pela direção político-ideológica”. O consenso, entretanto, não é obtido por meio de concordâncias, mas de embates de ideias, negociações, conciliação de interesses e concessões nos aspectos que não são fundamentais, além disso, existe uma minoria sobre quem a hegemonia não é exercida. Moraes (2009, p. 38) explica que não se trata de um espaço de harmonização de vontades e de emergência de um “terceiro setor” situado para além do Estado e do mercado, mas de um terreno da luta de classes, das disputas pelo poder econômico, político e ideológico. É nestas condições que a hegemonia é permanentemente exercida e que os termos das relações da estrutura e da superestrutura são decididos.

Nem sempre, entretanto, é possível conciliar interesses díspares e até antagônicos, então o consenso constantemente se alterna com a coerção dentro das sociedades civil e política. O consentimento, somente, não constrói a base da hegemonia, assim como o controle direto, se usado frequentemente e apenas ele, não consegue sustentar de forma durável uma dominação (MORAES, 2009, p. 38). Espaço político por excelência, a

38 sociedade civil é, nas palavras de Moraes, “um campo de dissonâncias, enfrentamentos e duelos, ora para reforçar o exercício da hegemonia, ora para enfraquecer os consensos estabelecidos”. Assim, é preciso que os grupos e classes sociais que queiram se manter ou conquistar a hegemonia cultural das ideias compreendam que há o momento do consenso e há o momento de uso da força, e que saibam identificar e equilibrar um e outro. Afinal, é luta de classes e ela acontece o tempo todo, ininterruptamente.

De acordo com Coutinho, Gramsci explica que a sociedade civil só pode ser compreendida sob a luz das “relações sociais que se expressam no mercado” (COUTINHO, 2006, p. 41), que são relações de classes, de dominação e resistência, e de disputa pelo poder. Portanto, não se pode pensar em hegemonia e contra-hegemonia sem se pensar primeiro no antagonismo entre os grupos e classes sociais (DANTAS, 2008, p. 91). Barbero (2003, p.110) afirma que é a partir deste “campo de forças de classe” que as práticas sociais recebem seu sentido, se aglutinam e adquirem coerência política.

A disputa pelas ideias e consensos sociais que permitem a conquista da liderança cultural-ideológica existe, portanto, porque existem interesses conflitantes na sociedade, e com eles, projetos políticos, visões de mundo e valores diferentes. São pensamentos desenvolvidos e colocados em prática pelos sujeitos políticos inseridos no processo da luta de classes e, mais que um sistema de ideias, relaciona-se com a capacidade de inspirar e orientar a ação política, de acordo com o imaginário de cada grupo social. Segundo Gramsci (1991, p. 63), é “o terreno sobre o qual os homens se movimentam, adquirem consciência de sua posição, lutam, etc”. De um lado estão os grupos e classes dominantes buscando afirmar a sua hegemonia e de outro, as forças contra-hegemônicas negando e tentando disseminar as suas próprias ideias.

Os pensamentos da classe dominante são também, em todas as épocas, os pensamentos dominantes, ou seja, a classe que tem o poder material dominante numa sociedade é também a potência dominante espiritual. A classe que dispõe dos meios de produção material dispõe igualmente dos meios de produção intelectual; de tal modo que o pensamento daqueles a quem é recusado os meios de produção intelectual está submetido igualmente à classe dominante. Os pensamentos dominantes são apenas a expressão ideal das relações materiais dominantes concebidas sob a forma de ideias e, portanto, a expressão das relações que fazem de uma classe a classe dominante; dizendo de outro modo, são as ideias e, portanto, a expressão das relações que fazem de uma classe a classe dominante; dizendo de outro modo, são as ideias do seu domínio (Marx, 1976, p.p.55 e 56).

39 Um conceito que se relaciona com o enfrentamento permanente travado na sociedade civil, onde acontece a luta de classes e a disputa pela hegemonia, é o de cotidianidade, de Agnes Heller. A vida cotidiana, explica a autora, é vida de todos os indivíduos, o espaço-tempo do ser social, isto é, onde todos os seres humanos se produzem e reproduzem, e se põem em movimento inteiramente, com todos os seus sentidos, capacidades e potencialidades, embora não possam desenvolver suas capacidades e potencialidades plenamente (HELLER, 1989, p. 17). Ainda segundo a teórica marxista, “a vida cotidiana é, dialeticamente, lugar de dominação e rebeldia/revolução”. O indivíduo na cotidianidade é voltado para as suas atividades de sobrevivência, exercendo o trabalho que lhe cabe na divisão social do trabalho mecanicamente e sem noção da totalidade (dimensão humano-genérica), portanto, é alienado (sem participação consciente nesta produção), mas esta condição não é um abismo insuperável (HELLER, 1989, p.90).

Como a vida cotidiana na sociedade civil é constantemente palco de disputa de uma pluralidade de pensamentos, pode haver a suspensão da cotidianidade, que é a tomada de consciência desta situação de alienação e a criação de possibilidades de liberdade e de escolhas moralmente orientadas (HELLER, 1989, p.26). Este processo de conscientização é caracterizado pela autora como elevação da particularidade, onde há alienação e inconsciência dela, para o humano-genérico, colocando-se assim acima da cotidianidade (produção e reprodução mecânicas). Além disso, desenvolve sua individualidade, definida como a liberdade (sempre relativa) de fazer escolhas e a consciência de que faz História (HELLER, 1989, p.p.27-29), em oposição à particularidade, em que o indivíduo faz história mas não sabe que a faz.

Entretanto, não adianta apenas disputar as ideias ou “permanecer só nos horizontes da conscientização”, se não se conquistar e consolidar a hegemonia, isto é, usar as ideias para transformar a sociedade (FREIRE, 1992, p.103). Em consonância com a preocupação de Freire, Douglas Kellner propõe no terceiro capítulo de sua obra “A cultura da mídia: estudos culturais, identidade política entre o moderno e o pós-moderno” (2001) o “multiculturalismo insurgente”, ação prática com objetivo de transformação, que consiste em culturas insubordinadas como formas de resistência à dominação e de contra-hegemonia. A ideia integra a “Pedagogia do Oprimido” (FREIRE, 1987), do educador pernambucano, vislumbrando a construção social da consciência crítica, ajudando o oprimido a ver sua

40 própria opressão, dar nome aos opressores e a articular objetivos e ações, bem como lhe auxiliando na promoção de sua luta contra a dominação com vistas à transformação social.

Assim como o ciclo gnosiológico11 não termina na etapa de aquisição do conhecimento já existente, pois se prolonga até a fase da aquisição do novo conhecimento, a conscientização não pode parar na etapa de desvelamento da realidade. Sua autenticidade se dá quando a prática do desvelamento da realidade se constitui uma realidade dinâmica e dialética com a prática da transformação da realidade (FREIRE, 1992, p.103).

Como as ideias são histórica e socialmente construídas e, portanto, mutáveis, e como a luta pela hegemonia cultural das ideias é permanente, deve ser estabelecida em todos os ambientes, sejam físicos ou virtuais. Barbero (2003) explica que com o advento das mídias digitais12, a hegemonia e a contra-hegemonia passaram a operar, principalmente, no campo das tecnologias da comunicação. Isso porque não se tratam apenas de suportes técnicos, mas de uma nova forma de sentir e organizar a percepção sobre o mundo e a experiência de sociabilidade, em que os valores e consensos compartilhados socialmente estão sendo refragmentados e rearticulados (CANUTO; CANUTO, 2013, p.8). Daí a importância de se compreender as mídias digitais e as mídias sociais13, estas como espaços essencialmente relacionais e interativos, como canais de circulação das ideias hegemônicas e contra-hegemônicas, bem como de se entender de que forma esta disputa pela liderança cultural-ideológica opera. “O uso que os movimentos sociais14 fazem das redes sociais possibilitam novas experiências, onde se considera a multiplicidade de atores na sociedade civil, onde se tem a oportunidade de conhecer as demandas culturais e políticas da população”. (CANUTO; CANUTO, 2013, p.8).