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As pré-campanhas inserem uma nova dinâmica no cotidiano da cidade. O anúncio das eleições altera as condutas e comportamentos dos envolvidos em processos eleitorais e, desses, os pré-candidatos são os mais especulados e envolvidos nas situações que remetem às eleições.

Os possíveis candidatos, mesmo estando em estado de indefinição, assumem novas condutas cujas consequências são importantes para sua credibilidade perante os possíveis eleitores e diante de seus partidos, ou mesmos de outros possíveis postulantes a candidatos, que surgem durante a disputa.

O período pré-eleitoral é percebido como importante no estabelecimento da candidatura dos postulantes, pois marca as primeiras movimentações e antecipa a disputa, ocorrente por duas vias. A primeira corresponde às disputas intrapartidárias para definição dos candidatos, quando o candidato a candidato apresenta elementos que viabilizem sua candidatura, trata de uma disputa política. A segunda diz respeito às relações externas, que o pré-candidato tenta estabelecer com os possíveis eleitores, tratando da disputa eleitoral.

A elaboração das pré-campanhas passa, então, por esses dois processos de disputas eleitorais, característicos e simultâneos da competição política, considerados como luta política e luta eleitoral, que estão relacionados diretamente com o momento.

As eleições não remetem apenas à conquista de fins específicos, mas também estabelecem meios para acúmulo de capital simbólico por parte dos agentes em disputa, capazes de se tornarem candidatos mais representativos em eleições posteriores.

A luta política consiste na manutenção de esquemas para atuação. Um político ou partido não se candidatam apenas com intenção de vitória, pois além da disputa, prevalecem as relações estabelecidas durante o processo, quando o candidato ou partido podem assumir novas projeções, reelaborando posições no campo. É o caso, por exemplo, dos acordos firmados durante o processo eleitoral, estruturados pelas coligações ou mesmo pelo apoio pessoal de um político a outro concorrente a cargos executivos.

Neste tipo de luta, pode-se perceber que se levam em conta as condições sociais (o capital simbólico acumulado ao longo da vida política dos agentes em disputa é uma delas), de que cada agente dispõe para impor a sua intenção, que só se impõe como vontade legítima quando é conhecida e reconhecida como tal.

Ao postulante ou partido é necessário a construção de uma trajetória, condição de sua existência pública. Cada eleição possibilita a elaboração da imagem pública e o fortalecimento do capital político17.

Quando alguns candidatos considerados de partidos “nanicos”, aparentemente, sem nenhuma condição de disputa, entram na concorrência, para pleitos mais visíveis, como os cargos majoritários, utilizam o espaço para consolidar ou anunciar seu nome, estando assim, inserindo sua imagem no cenário político. Esses casos demonstram o quanto é importante estar em cena para arrecadar capital simbólico suficiente para concorrer possivelmente a outros cargos. O caso contrário também ocorre, quando alguns agentes, que já têm uma biografia mais consolidada em campanhas eleitorais, não se arriscam entrar numa disputa quando não tem chance de concorrer, nem de representatividade na disputa, isso implicaria em desprestígio de sua imagem.

O processo pré-eleitoral antecipa as tensões eleitorais. Faz com que os pré- candidatos já se insiram no “clima eleitoral”, tornando-os competitivos, pois, antes mesmo de se lançarem candidatos, há disputas internas que devem ser vencidas nas 17 Segundo Bourdieu o capital político corresponde a um capital simbólico em que são geradas crenças de produção no campo “O capital político é uma forma de capital simbólico, crédito firmado na crença e no reconhecimento ou, mais precisamente, nas inúmeras operações de crédito pelas quais os agentes conferem a inúmeras operações de crédito pelas quais os agentes conferem a uma pessoa – ou a um objeto – os próprios poderes que eles lhes reconhecem”. (2005:187).

cúpulas dos partidos e de suas executivas, a quem cabe a legitimidade de delegar quem será candidato. É o partido que acumula capital simbólico de reconhecer e delegar a apresentação do legítimo representante nos processos eleitorais.

A aquisição de uma capital delegado obedece a uma lógica muito particular: a investidura – ato propriamente mágico de instituição pelo qual o partido consagra oficialmente o candidato oficial a uma eleição e que marca a transmissão de um capital político. (BOURDIEU, 2005:192).

É durante o período eleitoral, ai se incluem as pré-campanhas, que as pessoas dispõem de espaço de visibilidade e agregação ao campo político. Trata-se de luta por aventar arranjos e possibilidades de elaborar formas de manter o sujeito em cena, adicionando a ele força simbólica que lhe sirva de capital de troca. Portanto, estar no jogo, concorrer às eleições, corresponde a uma apresentação necessária para manter e arrecadar capital político.

Sendo assim, faz parte do processo de lutas eleitorais os postulantes a candidatos se colocarem como a melhor opção para os partidos. Essa é a primeira das competições a serem vencidas pelos, ainda, pré-candidatos. As anunciações da disputa consistem nessas primeiras aparições desses personagens que buscam demonstrar força simbólica para se anunciarem como representantes do partido. Isso acontece quando os postulantes a candidatos, antes de serem homologados como candidatos, demonstram condições para viabilizar suas candidaturas. A melhor maneira disto acontecer consiste nas articulações em torno de seu nome, capita pessoal18, para candidato. Incluir o nome na disputa consiste em agregar valor a ele, assim como convencer outros a apostarem em seu nome como candidato.

A probabilidade de sucesso, seja como êxito nas eleições ou apenas conquistando projeção, é condição da existência social dos candidatos. A competição eleitoral configura a função pública e social dos agentes em luta, portanto aos candidatos, se faz necessária uma posição no campo, possibilitada por meio da competição, do risco da eleição, premissa fundamental para a inserção no campo político. A competição eleitoral é a maneira de participar do jogo, de ser atribuídas

18Segundo Bourdieu:O capital pessoal de ‘notoriedade’ e de ‘popularidade’ – firmado no facto de ser

conhecido e reconhecido na sua pessoas (de ter um ‘nome’, uma ‘reputação’, etc) e também no facto de possuir um certo número de qualificações específicas que são a condição da aquisição e da conservação de uma ‘boa reputação’”. (2005:191).

visibilidade e posição no campo, consequentemente, é uma regra estar dentro da concorrência, pois, assim, lhes é atribuída uma função no jogo. Como observou Bourdieu,

Através dos jogos sociais que propõe, o mundo social procura nos agentes bem mais, e na verdade outra coisa, que os objetivos aparentes, os fins manifestos da ação: a caçada conta tanto a presa, se não mais; e há um proveito da ação que excede os proveitos explicitamente perseguidos – salário, preço, recompensa, troféu, título, função – e que consiste no fato de sair-se do anonimato, e de afirma-se como agente, envolvido no jogo, ocupado, habitado para certos fins e dotado objetivamente, e portanto subjetivamente, de uma missão social (BOURDIEU, 2005:54).

A pré-campanha condiciona a apresentação do implícito da luta com base nos golpes e contragolpes típicos do campo político. A permanência dos agentes na luta depende do estabelecimento das relações fixadas durante o embate, não só como de apresentação ao mundo social, mas também como momento de conquista dentro do próprio espaço.

Se a luta eleitoral está condicionada à visibilidade dos agentes e à sua permanência no campo político, essa disputa está relacionada à credibilidade que o agente deve estabelecer com seus possíveis eleitores. Esta credibilidade está associada diretamente à imagem que o postulante a candidato transmite ao eleitor já nas primeiras movimentações de pré-campanha, ainda muito pautadas na especulação sobre as possíveis candidaturas. Os pretensos candidatos tentam inserir na opinião pública uma expectativa em torno sua imagem formada na possibilidade de sua candidatura.