• Nenhum resultado encontrado

A mãe suficientemente boa e o holding de Winnicott

A mãe é o elemento básico e essencial que interfere diretamente na personalidade infantil. Seu relacionamento com o filho inicia-se com a formulação do embrião e se prolonga por todas as fases de vida do indivíduo. Esse processo incumbe um conhecimento prévio de reações, sentimentos, desejos e impulsos maternos, objetivando proporcionar ao bebê, especialmente no primeiro ano de vida, o melhor dos desenvolvimentos (MIELNIK, 1993).

A fisiologia e o processo de maturação característico da gravidez proporcionam mudanças fisiológicas que sensibilizam a mulher para mudanças psicológicas significativas. Tais mudanças geram preocupações da gestante advindas desse processo (WINNICOTT, 1990).

No transcorrer dessa transição, a gestante se identifica com seu bebê no útero, percebendo uma maior sensibilidade às necessidades do bebê, demonstrando, assim, interesse pelo mesmo, até algum tempo depois do parto, num processo denominado por Winnicott (1990, p. 52) de “identificação projetiva”.

Além do vínculo, merece destaque o ambiente onde essa díade é constituída. De praxe, um ambiente satisfatório é essencial para proporcionar o desenvolvimento saudável do bebê, principalmente por sua vulnerabilidade, fragilidade e total dependência em relação ao meio em que ele se desenvolve, pois vive num estado de solidão essencial, dependendo

significativamente dos cuidados maternos ou de quem exerce essa função (WINNICOTT, 1990).

A teoria psicanalítica winnicottiana concebe a figura materna ou os cuidados maternos como elemento essencial na construção do processo de maturação do psiquismo do bebê. Uma relação mãe-bebê insatisfatória, caracterizada pela falta de cuidados maternos essenciais e suficientes, interfere no desenvolvimento psicológico saudável, podendo gerar manifestações de agressividade desde a infância até outras fases da vida, em especial a adulta (WINNICOTT, 1997).

O holding tem como característica peculiar a relação da mãe construída com seu

bebê, identificando-se com ele. Quando satisfatório, é uma porção básica de cuidado e vínculo que assentará as bases para o desenvolvimento salutar das capacidades inatas do indivíduo (WINNICOTT, 2011).

No quinto e último encontro com gestantes, intitulado como “Presenciando o

holding”, realizou-se uma abordagem dialógica norteada pelo primeiro estágio da mãe

suficientemente boa, proposto por Winnicott (2011) através do holding, buscando despertar um pensamento crítico e reflexivo das mães a respeito dessa temática.

Os embasamentos sobre o holding partem da abordagem psicanalítica proposta por Winnicott (1990), onde ele definiu esse termo como uma forma onde a figura materna ou substituta protege de agressões, propondo uma rotina de cuidados ao bebê, acolhendo, abraçando, afagando ou sustentando-o pelos braços, proporcionando crescimento físico ou psicológico a um ser indefeso que necessita de apoio.

Esses cuidados estimulados pelo holding relacionam-se a uma comunicação íntima e afetiva entre a mãe-bebê, objetivando condicionar uma vida saudável, remetendo a questões que focam o amor materno, a capacidade de amar e os amores calmos e excitados do bebê. Quando a mãe protege o filho com seu holding, proporcionará a essa criança condições de formar bases sólidas ao desenvolvimento de sua saúde psíquica (LEJARRAGA, 2012).

Uma díade mãe-bebê bem integrada fortalece o ego do bebê e organiza suas defesas, desenvolvendo padrões pessoais marcados hereditariamente. A deficiência do holding

acarretará extrema aflição no filho com sensação de despedaçamento e outras reações patológicas. De praxe, um apoio egóico inadequado acarretará padrões de comportamento patológico no bebê descritos como apatia, inibição, inquietude, dentre outras atitudes patológicas. Certamente, a presença da mãe suficientemente boa pode proporcionar um processo de desenvolvimento real, que fomentará as bases para o desenvolvimento saudável das capacidades inatas do indivíduo (WINNICOTT, 2011).

Pádua (2013) reforça as hipóteses da teoria Winnicottiana, descrevendo que o bebê terá uma vida saudável da psique-soma inicial, se a mãe for suficientemente boa, pois esses sinais serão identificados pela mesma, auxiliando melhor o filho no contexto de suas necessidades. O fator inverso, relacionado a uma maternagem precária ou inconstante, poderá causar prejuízos psicológicos ao bebê, estabelecendo uma unidade psicossomática insatisfatória, podendo vulnerabilizá-lo futuramente, por meio de doenças psicossomáticas.

Winnicott (1990, p. 56) descreve a mãe suficientemente boa como “aquela que é capaz de satisfazer as necessidades do nenê no início, e satisfazê-las tão bem que a criança, na sua saída da matriz do relacionamento mãe-filho, é capaz de ter uma breve experiência de

onipotência”. Ao exercer essa função desde o final da gestação até as primeiras semanas de

vida do seu filho, a mãe absorve uma sensibilidade e uma capacidade psíquica em particular de perceber, auxiliar e acolher as necessidades do bebê, e, ao mesmo tempo, desiludi-lo quando necessário.

Kehdy (2013) descreve que, na teoria Winnicottiana, o contexto da “mãe suficientemente boa” não se direciona à perfeição materna, mas sim a uma mãe factível a erros, principalmente porque, caso aquela existisse, poderia prejudicar o bebê, não contemplando seu aspecto humano e suas frustações advindas da realidade.

A preocupação materna primária não é sinônimo de sentimentalismo. A mãe que

atua de forma suficientemente boa “ama, mas também se permite odiar seu bebê, sendo,

entretanto, capaz de conter seu ódio, sem atuá-lo e sem se vingar” (CELERI, 2007; p. 422). É importante que haja um esforço e interesse por parte da mãe, demonstrando intimamente a seu filho como ele é realmente aceito e amado. Essa deve perceber a subjetividade e sentimentos do bebê como um ser humano, com necessidades básicas, destinado a viver futuramente por si mesmo, independente, autoconfiante e autorrealizado (MIELNIK, 1993, p. 15).

Através de uma revisão bibliográfica de pesquisadores da área psicossomática e psicanalítica no contexto da relação mãe-bebê, Pádua (2013) destacou a importância da figura materna no início da vida do bebê, principalmente quando essa percebe e entende a comunicação da criança relativa às suas necessidades básicas, aversões e preferências, fortalecendo o vínculo, suprindo essas necessidades com afeto e proporcionando continência quando necessário.

Para proporcionar uma sustentabilidade a todo esse processo, Barbosa et al. (2010) destacam a importância do holding profissional, definido como o modo de como o profissional de saúde oferece um suporte e atenção adequados à mãe para que essa lide com

questões relacionais ao seu filho de maneira menos ansiogênica, principalmente devido à forte carga emocional adquirida na gestação.

Proporcionar esse tipo de holding pode estimular uma maternagem suficientemente boa, desde a concepção, com propostas que fomentem o vínculo e confiança transmitidos à mãe como um mecanismo de segurança física e emocional em toda a gestação e hora do parto.