O método que orientou a presente pesquisa foi o materialismo histórico dialético. A seguir, far-se-ão algumas considerações importantes sobre a adoção deste método no estudo de casos.
Karl Marx estabeleceu bases metodológicas e epistemológicas para nortear seus estudos da história e interpretar a realidade histórica e social, utilizando a dialética como método. A lógica formal, que promovia a separação entre sujeito e objeto (MARX; ENGELS, 1989) não satisfazia aos interesses do investigador, que partiu de observações acerca do movimento e das contradições do mundo, dos seres humanos e de suas relações.
Marx (1983) persuadiu a consciência do mundo à materialidade do habitual e não à ideia ou ao conceito que correspondem ao objeto que se encontra fora da consciência. Para o autor, para que se possa compreender um fenômeno social é necessário que se remeta às bases materiais em que os sujeitos estão inseridos, uma vez que são nessas bases que suas consciências são produzidas. A compreensão do fenômeno social deve ainda levar em conta a luta de classes, a dominação e a alienação.
A explicação e a compreensão dos fenômenos sociais são feitas segundo referenciais teóricos que correspondem às visões de mundo que coexistem na sociedade. O processo saúde-doença, por exemplo, enquanto manifestação fenomênica do mundo social, não escapa a este processo de interpretação. Neste trabalho, o objeto saúde-doença será apresentado por meio do materialismo histórico dialético.
Para utilizar esse referencial filosófico como marco teórico de interpretação é preciso entendê-lo como teoria do conhecimento, que a partir de determinada visão de mundo tem como meta não só interpretar, como transformar a realidade, dado que esta corrente filosófica, diferentemente das demais existentes, reconhece o papel político do ser humano, enquanto
agente social de transformação da realidade, e não como mero receptor de determinações sociais e econômicas.
Para Harnecker (1980), o materialismo histórico-dialético está constituído por uma teoria científica da história - o materialismo histórico - e por uma teoria filosófica - o materialismo dialético - cujo método foi utilizado por Marx e Engels, que tentaram compreender o mundo a partir da evolução histórica da humanidade.
Marx (1983) afirma que não apenas as ideias transformam o mundo, pois é preciso que elas sejam submetidas à prática. Em função disto, notam-se duas posições claramente divergentes, em relação à realidade, ou seja, duas visões de mundo irreconciliáveis, posto que partem de pressupostos antagônicos: o idealismo e o materialismo. Recolocadas historicamente, as duas visões de mundo, cabe agora explicitar seus pontos fundamentais e o conceito de “homem” e “sociedade” que advém delas para, a partir daí, tentar-se compreender as diferentes interpretações do processo doença.
O idealismo parte do princípio de que a consciência, ou qualquer das suas manifestações, como o pensamento, a vontade ou qualquer coisa de ideal e imaterial, é primária, fundamental e determinante. Por outro lado, a matéria, a natureza e o mundo material são produzidos por aqueles ou deles dependentes.
Assim, a base de todos os objetos e fenômenos do mundo é uma certa substância ideal, representada pela vontade divina, a razão mundial, a idéia absoluta, o espírito. Em outras explicações, os objetos e fenômenos do mundo são derivados das sensações e percepções do ser humano e de sua razão. De qualquer forma, sendo de uma natureza ou de outra, a essência de todas as coisas está na consciência humana.
Nesta visão, o ser humano é um ser ideal, existindo como entidade real na busca deste ideal. É também universal, ou seja, existe nele uma essência independentemente do momento histórico e do espaço geográfico em que vive. Como ser de existência, possui uma essência ideal, pois foi criado baseado nesta essência, e, por isso, durante toda a sua vida deve buscar assemelhar-se o mais possível a este ideal.
Os seres humanos reais e ativos são os produtores de suas representações e de suas ideias. Nesse caminho lógico, movimentar o pensamento significa refletir sobre a realidade partindo do empírico (a realidade dada, o real aparente, o objeto do senso comum), e pelas abstrações (elaborações do pensamento, reflexões, teoria) chegar ao concreto (compreensão mais elaborada do que há de essencial no objeto, concreto pensado). Assim, a diferença entre o empírico (real aparente) e o concreto (real pensado) são as abstrações (reflexões) do pensamento, que tornam mais completa a realidade observada (SAVIANI, 1994). Saviani
(2009), ao discutir a necessidade de o educador brasileiro passar pelo senso comum para a consciência filosófica, a fim de buscar a compreensão de sua pratica educativa, reforça o método materialista histórico-dialético como instrumento desta prática, e ensina que para a superação da etapa do senso comum educacional (conhecimento da realidade empírica da educação), por meio da reflexão teórica (movimento do pensamento e abstrações), para a etapa da consciência filosófica (realidade concreta da educação, concreta pensada, realidade educacional plenamente compreendida).
Sobre estas questões, o autor assim se pronuncia:
Com efeito, a lógica dialética não é outra coisa senão o processo de construção concreto do pensamento (ela é uma lógica concreta) ao passo que a lógica formal é o processo de construção da forma de pensamento (ela é, assim, uma lógica abstrata). Por aí, pode-se compreender o que significa dizer que a lógica dialética supera por inclusão/incorporação a lógica formal (incorporação, isto quer dizer que a lógica formal já não é tal e sim parte integrante da lógica dialética). Com efeito, o acesso ao concreto não se dá sem a medição do abstrato (mediação da análise como escrevi em outro lugar ou “detour” de que fala Kosik). Assim, aquilo que é chamado lógica formal para se converter num momento da lógica dialética. A construção do pensamento se daria da seguinte forma: parte-se do empírico, passa-se pelo abstrato e chega-se ao concreto. (SAVIANI, 1991, p. 11).
Bottomore (2001) preconiza que a ciência está relacionada com marxismo sob dois aspectos: a) o intrínseco - como algo que o marxismo é ou pretende ser; trata-se de um valor ou norma que envolve, ou pressupõe, uma epistemologia, e b) o extrínseco - como algo que ele procura explicar - e talvez até mesmo transformar. Uma epistemologia “adequada irá além do marxismo em seus limites intrínsecos, mas, como há outras práticas sociais além da ciência, o marxismo é mais abrangente em sua dimensão extensiva” (BOTTOMORE, 2001, p, 67).
Quando se relaciona o Marxismo à Ciência, acredita-se que a cientificidade sem a historicidade leva ao cientificismo, ao deslocamento da ciência da esfera sócio-histórica e a uma consequente falta de reflexividade histórica, e que a historicidade sem a cientificidade resulta no historicismo, na redução da ciência à expressão do processo histórico e ao consequente relativismo dos juízos. “Ambos os aspectos estão presentes em Marx: de um lado, ele se diz empenhado na construção de uma ciência, o que pressupõe uma posição epistemológica determinada; do outro, considera toda ciência, inclusive a sua, como produto e como um suposto agente causal da história” (BOTTOMORE, 2001, p.?).
Para Bottomore (2001):
Historicamente, Marx era um racionalista no sentido de que considerava a ciência como uma força progressista, potencial e realmente libertadora, capaz de aumentar o
poder do homem sobre a natureza e sobre seu próprio destino. Epistemologicamente, Marx era, ou pelo menos veio a ser, um realista num sentido próximo do moderno realismo científico, pois compreendeu: (i) que a tarefa da teoria é proporcionar uma explicação adequada e empiricamente controlada das estruturas que produzem os fenômenos que se manifestam na vida socioeconômica, muitas vezes em oposição ao modo espontâneo como aparecem; (ii) que estas estruturas são ontologicamente irredutíveis e normalmente defasadas em relação aos fenômenos que geram, reconhecendo dessa maneira a estratificação e diferenciação da realidade; (iii) que sua representação correta no pensamento é dependente da transformação crítica das teorias e concepções preexistentes, inclusive das que praticamente constitutivas dos fenômenos em estudo; (iv) que o processo de conhecimento científico é uma atividade prática, laboriosa, que caminha lado a lado com o reconhecimento da existência independente e da transcendência ao fato concreto dos objetos desse conhecimento que permanece “fora da cabeça, tal como antes [...] Para Marx, não há contradição entre a historicidade do conhecimento e a realidade de seus objetos, devendo ambas ser consideradas como dois aspectos da unidade dos objetos conhecidos (BOTTOMORE, 2001, p. 72).
O materialismo histórico apresenta, desta forma, autonomia específica como ciência e autonomia relativa como prática. Coloca-se, assim, a questão da autonomia específica do marxismo como projeto de investigação científica. Se o mundo é dialético, é preciso um método, uma teoria de interpretação que consiga servir de instrumento para a sua compreensão, e este instrumento lógico é o método dialético, desenvolvido por Marx. As contribuições desse método de interpretação são os caminhos metodológicos por ele oferecidos (DEMO, 2007).
Em seus estudos sobre metodologia da investigação, Marx (1983) descobriu a necessidade de definir uma categoria inicial de análise, que deveria, em sua grande simplicidade, ser tomada imediatamente pelo pesquisador como ponto de partida e, ao mesmo tempo, em sua complexidade pudesse oferecer as maiores possibilidades de reflexão e análise, para que de real aparente seja apropriada como real concreta. A essa categoria, Marx chamou de categoria simples, síntese de múltiplas determinações.
Desta forma, para analisar dialeticamente a realidade utilizam-se as categorias, que realizam a síntese de múltiplas determinações. Estas se modificam a partir de condições históricas determinadas pelo momento da análise, considerando a realidade como um todo dinâmico e em movimento, que deverá ser visto em sua totalidade. Ao perceber que todos são parte do funcionamento da sociedade, não faz sentido pensar a realidade sem a intenção de transformá- la (DEMO, 2007).
Severino (2007), ao correlacionar saber e poder; ao pensar a realidade com a intencionalidade de transformação, assevera que:
A dialética como tradição filosófica é uma tendência que tem na correlação entre o sujeito e o objeto uma interação social que vai se formando ao longo do tempo histórico. O conhecimento não pode ser entendido unicamente em relação à prática política dos homens, pois sua relevância não se apresenta apenas no ponto do saber, mas também de poder. O que lhe dá sentido é a práxis humana, a ação histórica e social regida por uma intencionalidade, buscando a transformação das condições elementares da existência da própria sociedade. (SEVERINO, 2007, p. 54).
De acordo com Marx (1989), a consciência somente se forma na ação transformadora, e essa ação deve ser coletiva, consciente e organizada. Assim, pode-se entender o conhecimento científico, constituído nessas bases, não somente como um procedimento que tem como função compreender o mundo, mas também como a constituição de possibilidades transformadoras da realidade, decorrentemente dos caminhos apontados pelo processo de elaboração intelectual.
Marx, em sua XI tese sobre Feuerbach, afirma que [...] os filósofos não fizeram mais que interpretar o mundo de No debruçar sobre os dados colhidos durante esta pesquisa, foram se apresentando categorias importantes para análise. Os princípios metodológicos de caráter pedagógico como a socialização do conhecimento, formação reflexiva fizeram parte dessa busca de categorias de análise (MARX, 1989, p. 56).
Segundo Severino (2008), a dialética é uma epistemologia que tem pressupostos que podem ser descritos como: a totalidade - as partes se articulam na composição do todo; a historicidade - estas articulações acontecem em momentos determinados e fazem parte de um processo histórico mais compreensivo; a complexidade - são as múltiplas determinações que culminam no fenômeno como resultante; a dialeticidade - que incluiu a luta dos contrários, o enfrentamento conflituoso na realidade concreta; praxidade - a relação entre a teoria e a prática, num movimento dialético construído sob a perspectiva histórica e social; a cientificidade - a explicação científica que justifica a regularidade dos nexos causais, mediante um processo histórico-social, pela atuação de forças contraditórias, e a concreticidade - o que está em evidência é a prática real dos homens, ou seja, a realidade concreta (SEVERINO, 2008).
Além da explicitação utilizada por Severino (2008), buscou-se conhecer e criticamente refletir acerca do campo de educação, analisado em sua dimensão pedagógica, por meio de categorias amplas, dentre elas o trabalho, que é a materialidade mais representativa do ser humano.
Como Marx (1988) descreve “Não é o que se faz, mas como, com que meios de trabalho se faz, é o que distingue as épocas econômicas. Os meios de trabalho não são só medidores do grau de desenvolvimento da força de trabalho humana, mas também indicadores das condições sociais nas quais se trabalha” (MARX, 1988, p. 144).
Para Bottomore (2001), a práxis é uma “atividade livre, universal, criativa e auto- criativa, por meio da qual o homem cria (faz, produz), e transforma (conforma) seu mundo humano e histórico e a si mesmo; atividade específica do homem que o torna basicamente diferente de todos os outros seres” (BOTTOMORE, 2001, p. 54). Observa-se que Kosik
(1976) reconhece que a práxis revela o homem como ser que cria e, portanto, compreende a realidade em sua totalidade continuamente: “a práxis do homem não é atividade prática contraposta à teoria; é determinação da existência humana como elaboração da vida” (KOSIK, 1976, p. 45).
Ao fazer referência à práxis, Kuenzer (1998) afirma que o conhecimento está em permanente movimento, crescente entre o pensamento do abstrato ao concreto através do empírico, ou seja:
[...] através do efetivo movimento da teoria para a prática e desta para a teoria, na busca da superação da dimensão fenomênica e aparente do objeto, buscando sua concretude; a teoria já produzida e expressa na literatura será buscada permanentemente a partir das demandas de compreensão do empírico e tomada sempre como marco inicial e provisório, a ser reconstruída e transformada na sua relação com o objeto de investigação (KUENZER apud FRIGOTTO, 1998).
No que diz respeito à parte e à totalidade, para o autor a “práxis pedagógica, em seu movimento, é totalidade concreta, onde partes e todo se relacionam dialeticamente” (KUENZER, 2002).
Kosik (1976) refere-se à totalidade afirmando que há conexão e mediação constante entre a parte e o todo, quando significam um só tempo, considerando que “um fenômeno social é um fato histórico na medida em que é examinado como momento de um determinado todo”. Para o autor, “o real é um todo estruturado que se desenvolve e se cria, e nesse sentido o conhecimento de fatos ou conjunto de fatos da realidade vem a ser o conhecimento do lugar que eles ocupam na totalidade do próprio real”. Desta forma, o conhecimento é processo de concretização dialética entre as partes e o todo e entre o todo e as partes, como enuncia o autor:
O conhecimento dialético da realidade não deixa intactos os conceitos no ulterior caminho do conhecer, não é uma sistematização dos conceitos que procede por soma, sistematização essa fundada sobre uma base imutável e encontrada uma vez por todas: é um processo em espiral de mútua compenetração e elucidação dos conceitos, no qual a abstratividade (unilateralidade e isolamento) dos aspectos é superada em uma correlação dialética, quantitativo qualitativo, regressivo progressiva. A compreensão dialética da totalidade significa não só que as partes se encontram em relação de interna interação e conexão entre si e com o todo, mas também que o todo não pode ser petrificado na abstração situada por cima das partes, visto que o todo se cria a si mesmo na interpretação das partes (KOSIK, 1976, p. 54).
Para Frigotto (1995), a totalidade não é tudo e nem é a busca do princípio fundador de tudo. Nesse sentido, investigar, sob a concepção de totalidade, significa buscar explicitar as múltiplas determinações e mediações históricas que constituem o objeto de pesquisa, pois “A historicidade dos fatos sociais consiste fundamentalmente na explicitação da multiplicidade de determinações fundamentais e secundárias que os produz”. (FRIGOTTO, 1995, p. 52).
Follari (1995) afirma que é importante entender que discorrer a soma das partes não equivale à totalidade, segundo a teoria marxista.
Segundo Kosik (1976), a totalidade não é a soma das ciências particulares, nem alguma combinação entre elas, mas uma categoria que não está fora ou acima das ciências, pois ela pertence à teoria construída socialmente. “Diríamos que pertence a uma ciência determinada, ou melhor, a uma teoria dentro desta disciplina. Nada tem a ver com a soma de discursos de ciências diversas que, por sua vez, não pode reproduzir o efeito que a categoria de totalidade produz quanto à analise da sociedade” (KOSIK, 1976, p. 132).
Denomina-se a hegemonia a supremacia de um grupo social através da dominação e da direção intelectual e moral deste grupo sobre outro, ou seja, “uma classe mantém seu domínio não simplesmente através de uma organização específica da força, mas por ser capaz de ir além de seus interesses corporativos estreitos, exercendo uma liderança moral e intelectual e fazendo concessões, dentro de certos limites, a uma variedade de aliados unificados num bloco social” (GRAMSCI apud BOTTOMORE, 2001).
No que se refere à contradição, Kuenzer (2002, p.78) afirma que “o capitalismo traz inscrito em si, ao mesmo tempo, a semente de seu desenvolvimento e de sua destruição”. Assim, entende-se que o capitalismo é atravessado por positividades e negatividades, por avanços e retrocessos que, ao mesmo tempo, evitam e aceleram a sua superação (KUENZER, 2002).
Lefebvre, ao se referir ao movimento dos contrários, (1961) descreve que:
[...] a totalidade sem contradição é vazia, inerte”, como afirma Hegel, nada existe, no céu e na terra, que não contenha em si o ser e o nada; assim, nada existe no mundo que não seja um estado intermediário entre o ser e o nada, mas não como “mistura, mas enquanto relação ativa de contrários em busca de superação, mesmo que conservando o que cada um tem de determinado: a incessante conversão de um no outro, e exclusão ativa (LEFEBVRE, 1961, 74).
Percebe-se, portanto, que pelo exposto, esta pesquisa deverá buscar, a cada instante, o movimento, a ligação e a unidade resultantes da relação dos contrários. Trata-se, assim, da superação das determinações mais concretas em relação às determinações mais abstratas, que direcionam o pensamento entre polos diametralmente opostos, mas dialeticamente relacionados. Busca-se a resolução ou a tentativa de resolução das tensões entre os contrários, não perdendo a riqueza do movimento e a complexidade do real, diante suas múltiplas determinações e manifestações (KUENZER, 2002).
Destaca-se que a transformação, para esta linha teórica, é orientada em favor das camadas que têm sua força de trabalho explorada e que seriam, para Marx, os produtores reais
da riqueza do homem. Pensando em termos de práticas educativas, para os quais o cotidiano é cenário determinado e determinante do e pelo ser humano, tem-se a educação como a formação de consciências de forma dinâmica, histórica, contraditória, totalizante e transformadora.
Ao refletir-se sobre a proposição geral do método dialético, entende-se que a realidade empírica é o ponto de partida. Sua análise se realiza por categorias (conceitos-chave). Essa análise retorna-se a essa realidade, denominada por Marx concreta ou concreto de pensamento. A dialética materialista é, portanto, o método voltado para a educação transformadora do ser humano e das estruturas sociais.
Ao aprofundar a ideia da construção do conhecimento, tecendo articulação entre o método e a teoria em um conjunto de “conexões estruturais”, Noronha (2002) assegura que:
Os dados não surgem nem falam por si mesmos. Eles são sempre respostas a indagações teoricamente claras que o pesquisador deve fazer do real [...] sempre articulados a uma problemática determinada historicamente. Não se trata de colecionar dados e ler documentos teorizando-os a partir de manifestações visíveis e aparentes (NORONHA, 2002, p. 14-17).
Esses modelos aparentes resultam na parcialidade de apreensão e na inutilidade da abstração sobre a realidade. A exatidão teórico-metodológica no manuseio das informações deve estabelecer o “concreto pensado” (FREITAS, 1995 apud OLIVEIRA, 2008). No intuito de atingir este fim, é imprescindível que as manifestações da realidade pesquisada possam insurgir no alargamento da “reflexão realizada a cada encontro com estes dados, elementos, conceitos, ponderando-se que as relações que conhecimento provoca no apreender são materiais, históricas e sociais” (OLIVEIRA, 2008, p. 116).
As categorias expressas pelo pensamento marxista advêm de uma realidade historicamente originada com a teoria. Nesse sentido, Noronha (2002) afirma que:
As categorias no processo de construção do conhecimento expressam, portanto, elementos mais gerais que conduzem o pesquisador à formulação adequada da realidade que pesquisa. As categorias são, antes de tudo, históricas, porque estão relacionadas ao grau de desenvolvimento do conhecimento a que seus elementos constitutivos estão vinculados. As funções das categorias são, portanto, de ordem metodológica, na medida em que operam um movimento do conhecido ao desconhecido (NORONHA, 2002, p. 18).
Na presente tese, as categorias são: trabalho, contradição e totalidade. Isto não significa que as outras categorias não sejam importantes, porém o fio condutor da coordenação das ideias foi requerido pela marca enfática das aludidas.
Na contextualização da formação médica, neste estudo, visando o inicio do exercício da profissão, dar-se-á destaque para a categoria trabalho, visto que interessa a formação do indivíduo para o mundo do trabalho. Desta forma, faz-se necessário recorrer a Marx (1983), para que se possa compreender dois conceitos fundamentais: o trabalho como “condição universal do metabolismo entre o homem e a natureza” e a “utilização da força de trabalho é o