4. CRISE DA UNIVERSIDADE E EDU-FACTORY
7.1 MÉTODO E MATERIAIS
47 O Professor externo convidado para o Seminário foi o Prof. Pedro Demo, à época Titular do Departamento de Sociologia da UnB, e pesquisador em avaliação no campo educacional.
O método empregado na realização dos estudos foi a análise de conteúdo, tal como proposta por Laurence Bardin (2009). A escolha do método de análise se deu em função de a natureza do fenômeno pesquisado estar remetido, mais amiúde, aos campos da psicologia social e sociologia. Outro fator decisivo foi o material de análise ser registrado na forma escrita, já que, segundo Henry e Moscovici (1968), “tudo o que é dito ou escrito é suscetível de ser submetido a uma análise de conteúdo”.
O domínio da aplicação da análise de conteúdo nessa pesquisa consistiu de 02 momentos: a) análise das formulações das políticas educacionais na educação superior, registradas nos documentos oficiais das agências do Estado, a fim de identificar e compreender os seus impactos nas práticas universitárias das Instituições Públicas; b) categorização e análise das respostas a questionários de avaliação institucional da UNIRIO, respondidos, na forma escrita, por docentes, técnico-administrativos e, principalmente, dos discentes dos cursos de graduação e pós-graduação, a cujas respostas se deu maior ênfase, visto que foram transformados em estudos de caso.
Os materiais submetidos à análise de conteúdo foram os documentos oficiais das agências dos Estados responsáveis pela formulação e implantação das políticas públicas no campo da educação, principalmente o MEC, a CAPES e o INEP, no período de 2001 a 2011; e também as respostas a questionários de avaliação institucional elaborados e aplicados pela Comissão Própria de Avaliação (CPA) da UNIRIO, os quais vinculam-se às exigências e critérios do Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior (SINAES), criado em 2004 pelo INEP.
É importante destacar que da CPA-UNIRIO participam docentes, discentes e técnicos-administrativos como representantes institucionais.
Portanto, não houve qualquer intervenção nossa na elaboração e aplicação dos questionários de avaliação institucional da UNIRIO, nem mesmo na triagem das respostas recebidas. Coube-nos a realização de sistematização das respostas/enunciados segundo a sua ocorrência, e posterior análise desse material.
Foram apuradas as descrições subjetivas individuais; o tratamento descritivo das respostas foi efetuado segundo a frequência temática dos enunciados e posterior indicação de categorias pertinentes. Nessa etapa, a técnica de investigação permitiu identificar, por meio de descrição objetiva, sistemática e quantitativa do conteúdo das respostas, a sua interpretação e a categorização dos enunciados. As regras adotadas para a categorização foram: ocorrência/frequência, homogeneidade, exclusividade, adequação ou pertinência, segundo as perguntas dos questionário. A delimitação das unidades temáticas surgiu em decorrência,
sobretudo, da pertinência e da significação das respostas/enunciados aos fenômenos investigados na pesquisa, com destaque para a categoria autonomia.
Apesar de indicada em alguns gráficos e tabelas a categorização/classificação empregada não privilegiou a situação sócio-econômico-cultural dos respondentes, a fim de que não se efetuasse uma distinção dos alunos dos cursos de EAD como alunos de nível sócio-econômico-cultural inferior.
Foram utilizados os dados disponíveis, respeitando-se a sua confidencialidade, uma vez que não foi pleiteado qualquer acesso privilegiado em função de a observadora ser membro da comunidade acadêmica da UNIRIO.
Na categorização, privilegiou-se o conteúdo/significado dos enunciados na sua relação com o fenômeno de constituição da subjetividade, a autonomia, na educação a distância, sem implicação, a priori, da questão sócio-econômico-cultural como causalidade, apesar de incluí-la como contingência, sobretudo para preservar a análise/interpretação (significação).
As unidades temáticas foram convertidas em quantitativos como consequência da objetivação das respostas/enunciados em gráficos e tabelas.
A análise concedida aos enunciados categorizados, transformados em indicadores de caráter mais conceitual, permitiu elucidar as conexões do fenômeno da subjetividade (alusão teórica) com a autonomia e a qualidade (alusão aos respondentes/respostas).
O estudo a partir desse universo de respondentes teve como objetivo recolher elementos de uma micropolítica da subjetividade no plano da educação superior a distância.
Os documentos oficiais de políticas educacionais foram selecionados em função da sua periodicidade, uma vez que um novo conjunto de práticas educacionais foi ‘demandado’ às Universidades Públicas para implantação dessas políticas. Ou seja, a partir do PNE 2001-2011, uma série de programas e ações foi colocada em marcha, exigindo das IPES reprogramações e práticas que se coadunassem com as novas formulações políticas.
Selecionou-se, do conjunto dos documentos oficiais produzidos no período de 2001 a 2011, aqueles que apresentavam implicação direta com o ensino superior e, mais especificamente, com a modalidade a distância. Pretendeu-se identificar manifestações do fenômeno da subjetividade à luz da macropolítica posta em marcha pelo Estado brasileiro. Aqui, diferentemente da análise do estudo de caso da avaliação institucional da UNIRIO, foi realizada uma leitura minuciosa das formulações, diretrizes e metas estabelecidas, bem como dos compromissos assumidos pela União para a sua implementação.
A perspectiva de análise adotada consistiu em avaliar o cumprimento das diretrizes traçadas pelo próprio Estado e indicar em que medida o seu grau de implementação impactou
ou inviabilizou a concretização das políticas e práticas educacionais no plano micropolítico. Dito de outra forma, pretendeu-se identificar os estados de tensão entre os planos micro e macropolítico decorrentes de impasses legais, normativos, sobretudo jurídicos, que obstaculizaram a gestão dos processos necessários à consolidação das respectivas formulações.
A interpretação e análise realizada sobre os planos, as ações e os programas teve como objetivo realçar as inconsistências dos enunciados das formulações políticas quando confrontadas no ‘território’ Universidade Pública. Ou seja, indicar as tensões e distorções provocadas pela desterritorialização/reterritorialização das formulações macropolíticas nos ambientes da vida universitária (micropolítica).
Os documentos/textos que apresentaram indicações mais pontuais para o emprego dessa abordagem/avaliação no nível macropolítico foram, além do PNE 2001-2011, o Decreto nº 6.096, o Programa REUNI e a Avaliação INEP do PNE para o período de 2001-2008. Outros documentos ‒ por exemplo os da CAPES ‒ apesar de relevantes do ponto de vista dos impactos nas práticas educacionais e nas gestões locais (nível micropolítico) e da homogeneização que provocam nos “tecidos do saber”, não evocam efeitos significativos quando confrontados com as “expectativas” do nível macropolítico, ainda que seja importante sinalizar que o conjunto de abordagens adotadas pela CAPES interfere significativamente na autonomia da Universidade e no conceito de qualidade como possibilidade diferencial.
Coube-nos, na análise documental e interpretação dos conteúdos, ressaltar as condições de produção e a recepção das “mensagens” (formulações políticas) no contexto universitário por meio de inferência nas diretrizes, metas, programas, planos e ações propostas/ programadas. Ou seja, a análise tentou captar e compreender a “fala” do Estado e sua interação com as dinâmicas e o ambiente universitário, uma vez que se tratava de realidades distintas, mesmo que, em tese, pudessem visar o mesmo objeto, ou objetivos.
De forma mais contundente, pretendeu-se indicar o lugar que a Universidade ocupava nas proposições do Estado.