SEÇÃO II – PERCURSOS
CAPÍTULO 2. O Poder Teológico-Político no Brasil contemporâneo
2.3. O método para a pesquisa de campo e as Regularidades discursivas
Como já levantado na introdução e no primeiro capítulo, há importantes distinções metodológicas entre os autores que são os fundamentos teóricos deste trabalho. Como disse, aceitando a interdisciplinaridade como premissa, o que une as principais referências aqui trabalhadas é a demarcação do método de investigação filosófica, que fundamenta o itinerário intelectual dos três autores, podendo dividi-los em dois grupos: o método dialético em Kierkegaard e Lyra Filho, com suas críticas e o método histórico-crítico do racionalismo de Espinosa.
Do primeiro, não abro mão da compreensão da unidade de contraditórios que explica a realidade e dela se aproxima na medida em que expõe os conflitos que se colocam no seio da sociedade e do Estado. Entretanto, com Kierkegaard, não deixo de pontuar a infalibilidade da proposta de supressão dos paradoxos pela ideia de síntese como elaborada por Hegel, tendo em vista que aqui suponho a impossibilidade de redução das duas partes em debate por uma síntese que supere a disputa de hegemonia pelos modelos de positivação normativa, nos termos definidos por Lyra Filho. Do segundo método, sem descuidar das críticas a ele apresentadas no sentido sugerido pelo pensamento espinosano como dotado de suposta metafísica estática, por sua opção pelo imanentismo, não prescindo da crítica racionalista ao atual estágio da história.
Deste modo, o que aparentemente poderia ser contraditório, a meu ver não o é, pela própria noção dialética de superação em devir. Tendo essas premissas metodológicas assentes, reafirmo o posicionamento de Roberto Lyra Filho, para quem:
A investigação científica não pode prescindir da função crítica e totalizadora da filosofia e esta não pode, igualmente, prescindir da ciência, sem transformar-se num jogo arbitrário, de simples diletantismo especulativo, que também manifesta um sentido ideológico elitista e alienado. Quando falo em Filosofia, refiro-me à Filosofia viva; não há outra. Tudo mais é contrafação (LYRA FILHO
in SOUTO & FALCÃO, 1999, p. 72).
Aceitando essa função crítica da Filosofia e o diálogo entre os métodos dialético e racionalista-histórico, optei, como técnica de pesquisa, pelo método estrutural de leitura para analisar a documentação que constitui o campo dessa pesquisa. Não confundido com o que se denominou estruturalismo, esse tipo de leitura propõe “a premissa metodológica (ainda que provisória) de que um texto deve ser lido como parte de um sistema coerente de argumentos, conceitos e proposições” (MACEDO JUNIOR, 2007, p. 6). E a fim de delimitar os dados empíricos aqui estudados, busco as respostas
para o que vem a ser o objeto do sistema de argumentos, conceitos e proposições do campo. O objeto, como já deixei entrever nos tópicos anteriores, são os discursos elaborados e proferidos por Deputados Federais que compõem duas frentes parlamentares da Câmara dos Deputados do Brasil no ano de 2013. Mas, o que considero serem os discursos? Como foram delimitados? Quem são os deputados analisados? Porque esses e não outros?
Por discursos entendo, com Foucault, serem “os textos (ou as falas) tais como se apresentam com seu vocabulário, sintaxe, estrutura lógica ou organização retórica” (FOUCAULT, 2009, p. 84). No caso desse trabalho são os textos ou falas proferidas no campo da política institucional da Câmara dos Deputados do Brasil. Ainda de acordo com Foucault, os discursos, bem como a sua ordenação sistemática são um resultado final, por vezes, provisório, “de uma elaboração, há muito tempo sinuosa, em que estão em jogo a língua e o pensamento, a experiência empírica e as categorias, o vivido e as necessidades ideais, a contingência dos acontecimentos e o jogo das coações formais” (FOUCAULT, 2009, p. 84-85). Além do que, conforme Anthony Giddens, “o discurso é um modo de construir sentidos que influenciam e organizam tanto as nossas ações quanto à concepção que temos de nós mesmos” (GIDDENS, 1991, p. 78).
Os discursos que são objeto dessa investigação estão registrados por instâncias formais em atas e documentos com a memória dos debates, quer seja nas comissões específicas, quer no Plenário da casa legislativa ora estudada. Tradicionalmente utilizados como objetos de pesquisa da História, que realiza o trabalho e utiliza dessa “materialidade documental (livros, textos, narrações, registros, atas, edifícios, instituições, regulamentos, técnicas, objetos, costumes etc.) que apresenta sempre e em toda parte, em qualquer sociedade, formas de permanências, quer espontâneas, quer organizadas” (FOUCAULT, 2009, p. 7-8).
A partir dessa compreensão do que vem a ser esses documentos de registro da história pública do país, escolhi as atas publicadas no Diário da Câmara dos Deputados, em que se reduz a termo os diversos discursos em conflito ou consenso em torno dos direitos humanos das minorias sexuais. Aqui, a delimitação temática da presente pesquisa. Definidos, pois, o conceito de discurso, identificados os documentos e delimitado o tempo e o espaço para a pesquisa, como restou explicado no tópico anterior, fiz a escolha dos interlocutores com quem discuto os dois campos, o poder
Teológico-Político por um lado e a defesa dos Direitos Humanos das minorias sexuais, por outro.
Do total de 74 representantes da atual composição da Frente Parlamentar Evangélica, defini que os deputados que teriam seus discursos analisados nessa pesquisa estivessem entre os 37 reeleitos e, mais especificamente, entre os 17 reeleitos por mais de dois pleitos eleitorais. Isso para melhor compreender os debates anteriores ao ano- chave de 2013, assim também à possibilidade de continuidades e permanências nos discursos sustentados por estes parlamentares.
Tendo em vista o ideal de proceder a uma análise qualitativa dos discursos, delimitei o número de cinco deputados, observada a pluralidade de partidos e distintos colégios eleitorais. Estes 05 (cinco) são aqueles que de fato possuíam um repertório de discursos que apresentasse relação de identidade capaz de formar uma unidade discursiva, que aqui classifico como homofobia institucionalizada, nesse caso, na esfera legislativa. Em outras palavras, para compor o quadro ora apresentado, fazia-se necessário que o discurso fosse homogêneo e uniforme aos demais discursos dessa categoria (homofobia institucionalizada), repetindo-se com frequência nos pronunciamentos dos deputados e deputadas, de modo a identificar uma regularidade discursiva a respeito do tema. O mesmo procedimento foi adotado para a análise dos discursos da Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos Humanos, como veremos no capítulo seguinte.
Dito isto, enfatizo que o meu foco de atenção passa agora a ser os repertórios, gramáticas e mecanismos de atuação política, sintetizados em seus discursos, levados a cabo pelos parlamentares evangélicos e também católicos, que se arvoram à condição de protagonistas nos processos de negação de direitos da população LGBT.
2.4. Discursos de negação do reconhecimento de direitos: entre a intolerância e o