3.1. TIPO DE ESTUDO
Este estudo é uma pesquisa de abordagem qualitativa, orientada pela perspectiva de gênero e que adota o referencial metodológico da análise temática.
Buscou-se a abordagem qualitativa, uma vez que a mesma possibilitaria o que FONTANELLA et al. (2006) referem como “compreensão científica de fenômenos”, buscando nos participantes da pesquisa experiências de vida e informações específicas, que ajudem a compreender o fenômeno estudado, qual seja, a motivação e trajetória dos obstetras para seu posicionamento frente à episiotomia.
Segundo Bardin (1977), a análise temática é uma das formas que melhor se adequou a investigações qualitativas. Como propõe o mesmo autor (ob. cit.), três etapas constituem a aplicação desta técnica de análise: (1) Pré-análise; (2) Exploração do material; (3) Tratamento dos resultados e interpretação.
Após coleta de dados, por meio de entrevistas que se iniciavam com a identificação do entrevistado, e que se seguiam com perguntas semi-abertas, foi realizada a transcrição dessas entrevistas, eliminando-se as falas a entrevistadora e buscando aquilo que foi definido por MEIHY (2014) como “textualização” e “transcriação”, em um trabalho de transformar a gravação, em arquivo digital sonoro, em fala escrita na primeira pessoa, de modo inteligível e corrido, “em favor de um texto mais claro e liso”.
A análise teve, então, início, com a realização do que se costuma chamar de “leitura flutuante”, atividade esta que objetivou gerar impressões iniciais acerca do material a ser analisado (Bardin, 1977). Para o caso da pesquisa aqui apresentada, o “corpus de análise” resultou das informações obtidas por meio da supra citada transcrição.
Na transposição dos dados para análise, com a finalidade de preservar a identidade e evitar identificação indireta dos entrevistados e de suas falas, foram trocados os nomes e algumas características pessoais, bem como programas e instituições aos quais estavam vinculados.
Quanto a análise temática, objeto da presente sistematização, esta se relaciona “à noção de TEMA [que] está ligada a uma afirmação a respeito de determinado assunto. Ele
comporta um feixe de relações e pode ser graficamente representada através de uma palavra, um frase, um resumo.” (MINAYO; 2002; p. 208).
Segundo GOMES (2002) e MINAYO (2004) a análise temática compreende três etapas: pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados obtidos e interpretação. A pré-análise é a fase onde o investigador [...] [organiza] o material a ser analisado. Nesse momento, de acordo com os objetivos e questões de estudo, definimos, principalmente, unidade de registro, unidade de contexto, trechos significativos e categorias. Para isso, faz-se necessário que façamos uma leitura do material no sentido de tomarmos contato com sua estrutura, descobrimos orientações para a análise e registramos impressões sobre a mensagem. (GOMES, 2002, p.76). A exploração do material pressupõe aplicar o que foi definido na pré-análise, sendo essa a mais demorada das três etapas, pois talvez haja necessidade de repetir várias vezes a leitura do material. A interpretação, última etapa, [...] ocorre a partir de princípios de um tratamento quantitativo. Entretanto, (...) nesta fase devemos tentar desvendar o conteúdo subjacente ao que está sendo manifesto. Sem excluir as informações estatísticas, nossa busca deve se voltar, por exemplo, para ideologias, tendências e outras determinações características dos fenômenos que estamos analisando. (GOMES; 2002; p.76; grifo nosso).
Como aponta Bardin (1977, p. 101). A fim de analisar os dados obtidos, “o analista, tendo à sua disposição resultados significativos e fiéis, pode então propor inferências e adiantar interpretações a propósito dos objetivos previstos, ou que digam respeito a outras descobertas inesperadas”. Após o recorte, os dados foram classificados em 11 (onze) temas principais, que resultaram do agrupamento progressivo dos elementos. Destaca-se que os títulos das categorias temáticas foram definidos durante a realização das etapas de pré-análise e de exploração do material.
Na sequência, foram definidas categorias, para a realização da análise do material coletado.
3.2. POPULAÇÃO DE ESTUDO
3.3. SELEÇÃO DOS PARTICIPANTES
Este estudo parte de perspectiva orientada pelo olhar de gênero, considerando que os vieses de gênero modulam a assistência à saúde materna (DINIZ, 2009), entendendo gênero como o sexo socialmente construído (RUBIN, 1993) - configuração da identidade, da sexualidade e da reprodução. Essa modulação expressa-se na assistência materna por dois modelos hoje polarizados. Um deles expresso na subestimação da capacidade parturiente da mulher, da necessidade de "correção" do corpo feminino e na utilização liberal da tecnologia e das intervenções, o que se optou por chamar de modelo típico. O outro modelo expressa-se na confiança na fisiologia do parto, na preferência pelo parto vaginal e pela evitação das intervenções, a não ser em caso de indicação adequada, e optou-se por chamar neste estudo de modelo atípico.
A gama de profissionais médicos obstetras que atendem o parto vaginal distribui-se entre os dois pólos apontados, de forma e em posicionamentos muito variados. A lista de participantes desta pesquisa foi composta, de início, por pessoas pertencentes ao círculo de amizades da pesquisadora, que, conforme explicitado, atuou como doula e tem conhecimentos na área. A partir dessas pessoas, foi aplicado o método de snowball, em que cada sujeito indicou outro para ser entrevistado.
Foi utilizada a Internet, por meio de redes sociais e correio eletrônico, além de contato telefônico quando possível, com o objetivo de convidar os médicos obstetras a participarem do estudo.
Foram convidados 14 (quatorze) médicos obstetras, sendo que dois deles não participaram. Um deles viu-se impossibilitado, por questões ligadas à disponibilidade de agenda; e outro não desejou conceder a entrevista, por entender que, como faz parte do círculo de conhecidos da pesquisadora, isso comprometeria o estudo. Todos os demais 12 (doze) profissionais convidados concordaram em participar. Cada profissional foi então convidado para conhecer e assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) (ANEXO I). Considerou-se que o TCLE foi regularmente assinado quando o mesmo foi devidamente preenchido e assinado. Após, então, cada um foi convidado a participar da entrevista, em local de sua escolha, sempre pessoalmente.
3.4. COLETA DE DADOS
Os dados foram obtidos por meio de entrevistas semiestruturadas, norteadas por questões semiabertas (Anexo II). Foi solicitada aos participantes autorização para que a entrevista fosse gravada em aparelho de áudio (MP3, tablet, celular e/ou gravador), esclarecendo-se que, em caso de o entrevistado desejar dizer algo sem gravar, que bastaria pedir para a entrevistadora desligar o aparelho de gravação. O número total de participantes foi definido a partir da repetição e saturação dos discursos, conforme proposto por MINAYO (2002) e explicitado por BERTAUX (1980), apud ALBERTI (2005). À medida que foram evidenciados discursos ricos e abrangentes, com diferenciação em temas, foram constituídas unidades de significado.
3.5. FORMA DE ANÁLISE DOS RESULTADOS
Após cada entrevista, a pesquisadora realizou anotações em caderno de campo, conforme sugere ALBERTI (2005, ob. cit.), para que se apreendessem os pontos importantes abordados durante a conversa, além das expectativas da pesquisadora em relação ao depoimento.
Na análise de todo o material - entrevistas transcritas, cadernos de campo da observação -, seguiu-se a leitura flutuante do material, com o contato exaustivo e a impregnação pelo conteúdo do levantamento, transcrições e anotações, o que permitiu o cotejamento de como os temas emergem, em suas perspectivas e contextos.
As entrevistas foram transcritas conforme o método sugerido por MEIHY (2014) como “textualização” e “transcriação”, lidas e relidas até a identificação de unidades de significado. Com a repetição das falas, encontrou-se as seguintes categorias definidas a priori, com abertura para alterações e para temas surgidos a posteriori:
1. Recebimento de ensino e treino prático de procedimento técnico. 2. Questionabilidade ou não do conteúdo da educação médica. 3. Reconhecimento ou não da parturiente como sujeito de direitos. 4. Autonomia da paciente na prática profissional.
5. Reconhecimento da possibilidade de mudança da prática. Primeiras tentativas. Modelos a serem seguidos.
6. Mudança efetiva. Marcadores. 7. Reação dos pares.
Com a leitura detalhada e distribuição na forma dessas categorias, foi realizada análise temática do material selecionado, a partir dos temas de análise iniciais e aqueles que surgiram no decorrer do trabalho (MINAYO 1995). Durante esse processo, os resultados foram analisados e cotejados com a bibliografia, e discutidos à luz do referencial teórico apresentado.
3.6. ASPECTOS ÉTICOS
O projeto de pesquisa obedeceu à Resolução nº 466/2012 (CNS, 2012), de Diretrizes e Normas Regulamentadoras, que trata de pesquisa com seres humanos, foi regularmente submetido aos Comitês de Ética em Pesquisa das instituições envolvidas, e devidamente aprovado pela CEP, via Plataforma Brasil, em 29 de abril de 2015, sob CAAE nº 43112115.5.0000.5421.
Após serem informados sobre a natureza da pesquisa e assegurado o sigilo quanto a sua identidade, os participantes assinaram Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Anexo I), autorizando sua participação no estudo e utilização dos dados em eventos/artigos acadêmico-científicos.