2.1 CAPÍTULO 1: EVOLUÇÃO DO DEFICIT E DA DESIGUALDADE DE ACESSO À
2.1.3 Métodos
2.1.3.1 A área de estudo e o componente do saneamento
O universo de análise foi constituído pelos 78 municípios do Espírito Santo, sendo que a análise do deficit em esgotamento sanitário foi realizada por microrregião de planejamento, conforme apresentado na Figura 11.
Optou-se por analisar por microrregiões pois, conforme Boscariol (2017, p. 143), "[...] o 'desenho' de regionalizações foi tido como uma forma de compreender, ordenar e planejar o território", e, também segundo Guimarães (1942) apud Lira e Cavatti (2011, p. 6), "uma região deve ser caracterizada por um conjunto de fatores correlacionados entre si e não por um único fenômeno de forma isolada. Essa correlação é que confere à referida área geográfica certo grau de homogeneidade". Dentre os componentes do saneamento básico, esta pesquisa restringiu-se em analisar o esgotamento sanitário em função da menor cobertura desse serviço quando comparado à cobertura de abastecimento de água (MENDONÇA; MOTTA, 2007; SAIANI; GALVÃO, 2011; BRASIL, 2015; LANDAU; MOURA, 2016; OLIVEIRA;
RAVAGNANI, 2016; STECKEL; RAO; JAKOB, 2017; MONTEIRO; LIRA; BONADIMAN, 2017).
Figura 11 – Microrregiões de planejamento do Espírito Santo
Fonte: IJSN (2017a).
2.1.3.2 O banco de dados e a estimativa do deficit
Entende-se nesta pesquisa que, até o momento, o conceito de deficit estabelecido no Plansab é o mais adequado para medir o atendimento aos serviços de saneamento. Porém, considerando que os dados disponíveis nos bancos nacionais sobre saneamento não permitem medir o deficit de forma exata ao conceito definido no plano, dois pressupostos foram assumidos para a escolha do banco: menor número de lacunas de informações municipais no período de análise e atualização dos dados.
O banco oficial do Sistema de Informação da Atenção Básica – Siab8 foi o que
melhor atendeu aos pressupostos, com poucas lacunas referentes ao número de
8 Siab é um dos sistemas desenvolvidos pelo DATASUS (Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde), que disponibiliza dados desde 1998, gerados a partir do trabalho das equipes de Saúde da Família e Agentes Comunitários de Saúde, que com o avanço da compreensão do conceito de saúde e de seus determinantes, realizam a análise da situação sanitária das moradias
famílias entrevistadas e com última informação para o ano de 2014. A estimativa do deficit de acesso ao esgotamento sanitário foi então realizada por meio de dados secundários, disponibilizado pelo SUS.
No Siab (BRASIL, 2017a) a condição sanitária das famílias entrevistadas9,
especificamente para o esgotamento sanitário, se classifica conforme o destino do esgoto gerado exclusivamente no sanitário:
• Sistema de esgoto: quando o domicílio possui rede de esgoto conectada à rede pública, sem distinção entre sistema separador e unitário10 e sem
referência à existência de tratamento final do esgoto coletado;
• Fossa: quando o esgoto é lançado em fossa, sem distinção entre séptica, rudimentar ou outras soluções;
• Céu aberto: quando o esgoto é lançado no quintal, em valas, rua, riacho, mar, entre outros.
Com base nestes dados, considerou-se na composição do deficit de coleta de esgotamento sanitário o número de famílias que lançam o esgoto em fossa e a céu aberto. Ainda que a fossa séptica seja considerada como solução alternativa individual adequada, principalmente em meio rural, sua utilização foi incluída como deficit por dois motivos: (i) no banco de dados não há distinção entre as opções de fossa (séptica ou rudimentar); e, (ii) os dados censitários de 2010 mostraram que, dentre os domicílios entrevistados no Espírito Santo que possuíam fossa, 73% tinham fossa rudimentar (IBGE, 2010) – o que representa grande quantitativo de famílias com uma solução precária que não reduz os riscos sanitários e ambientais. Quanto a temporalidade, analisou-se dados anuais no período de 2001 a 2014. Iniciou-se em 2001 pois neste ano o Estado se consolidou em 78 municípios, com a criação de Governador Lindemberg. Finalizou-se no ano de 2014 por ser o último ano disponível no Siab.
para compor uma das dimensões do estado de saúde das famílias, constituindo-se como o principal instrumento de monitoramento das ações da Estratégia Saúde da Família.
9 No âmbito do Siab, define-se família como o conjunto de pessoas ligadas por laços de parentesco, dependência doméstica ou normas de convivência que residem na mesma unidade domiciliar. Inclui empregado(a) doméstico(a) que reside no domicílio, pensionista e agregados.
10Sistema separador: o esgoto sanitário e a água de chuva são conduzidos ao destino final em canalizações separadas. Sistema unitário: o esgoto sanitário e a água de chuva são conduzidos ao destino final dentro da mesma canalização (VON SPERLING, 2005).
O deficit municipal foi estimado, para cada ano, conforme Equação (1). O deficit estadual foi calculado pela média dos resultados municipais e o deficit por microrregião foi obtido pela média do deficit dos municípios das respectivas microrregiões.
(1)
Para avaliar a evolução do deficit e a persistência da desigualdade de acesso ao serviço, realizou-se estatística descritiva dos dados em nível estadual e por microrregião. Efetuou-se também a representação gráfica dos dados médios anuais, por microrregião, de forma a facilitar a análise ao longo do tempo e a identificação de tendências. Foram utilizados os softwares Eviews 9.5 e Excel 2016.
Pode-se citar como limitação dos dados do Siab, a diferença na cobertura da atenção básica entre os municípios, e de um ano ao outro em um mesmo município; o que interfere no número de famílias entrevistadas. Ao se analisar os dados de cobertura populacional da atenção básica nos municípios capixabas, disponíveis na Sala de Apoio à Gestão Estratégia do Ministério da Saúde (SAGE, 2018), pôde-se observar que no período de análise da presente pesquisa, o menor percentual de cobertura foi na Região Metropolitana da Grande Vitória.