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Métodos de recolha e tratamento da informação

2. Enquadramento teórico e metodológico

2.4. Métodos de recolha e tratamento da informação

A escolha do método de investigação resultou dos objectivos gerais e do modelo definidos para o presente estudo. Neste contexto, serão de destacar os métodos da investigação social conformes com o princípio geral formulado por Alan Bryman, em Social Research Methods:

The term ‘social research’ as used in this book denotes academic research on topics relating to questions relevant to the social scientific fields, such as sociology, human geography, social policy, politics, and criminology. Thus, social research involves research that draws on the social sciences for conceptual and theoretical inspiration. Such research may be motivated by developments and changes in society, [...] but employs social scientific ideas to illuminate those changes. It draws upon the social sciences for ideas about how to formulate research topics and issues and how to interpret and draw implications from research findings. In other words, what distinguishes social research of the kind discussed in this book is that it is deeply rooted in the ideas and intellectual traditions of the social sciences (Bryman, 2008: 4s).

A estratégia metodológica escolhida, qualitativa, contempla, de forma abrangente e sistematizada, dimensões de análise adequadas aos objetivos do estudo. Isto pressupôs, quanto ao método, a utilização de fontes secundárias, documentais, e primária, entrevistas (quadro 1). O LIVRO NO ESTERTOR DO ESTADO NOVO Conjuntura política e sociocultural em Portugal Enquadramento Internacional

Estratégias adoptadas por editores e livreiros portugueses

O LIVRO NO DEALBAR DA DEMOCRACIA

Políticas públicas para a educação, o livro e a leitura

Transições no panorama da edição

Edição em sistema de clube do livro: o Círculo de Leitores O LIVRO EM DEMOCRACIA E O DESENVOLVIMENTO SOCIOCULTURAL Hábitos de compra e leitura de livros Práticas de leitura Repercussões socioculturais

Quadro 1 - Dimensões de análise e métodos

Esta opção não recolhe unanimidade entre os diversos autores que se têm pronunciado sobre vantagens e inconvenientes do uso de fontes primárias e fontes secundárias numa mesma investigação. No entanto, há indicações no sentido de que a utilização integrada tem vantagens a considerar: «After all, such a strategy would seem to allow the various strengths to be capitalized upon and the weaknesses offset somewhat. » (Bryman, 2008: 628). A utilização simultânea justifica-se, nesta investigação, porque as fontes secundárias sobre a edição (numa perspetiva histórica) existentes em Portugal são reconhecidamente incompletas, tanto por insuficiências dos dados estatísticos oficiais, como pela inexistência de instrumentos para salvaguarda do património da edição contemporânea portuguesa, designadamente das fontes de história oral31, conforme constata Daniel Melo:

31 “História oral é um método de pesquisa (histórica, antropológica, sociológica etc.) que privilegia a realização de entrevistas com pessoas que participam de, ou testemunharam, acontecimentos, conjunturas, visões do mundo, como forma de se aproximar do objeto de estudo. Como consequência, o método da história oral produz fontes de consulta (as entrevistas) para outros estudos, podendo ser reunidas em um acervo aberto a pesquisadores. Trata-se de estudar acontecimentos históricos, instituições, grupos sociais, categorias profissionais, movimentos, conjunturas etc. à luz de depoimentos de pessoas que deles participaram ou os testemunharam” (Alberti, 2004:18).

Dimensões de análise Métodos

Fontes secundárias (documentais) Fonte primária (entrevistas)

O livro no estertor do Estado Novo Conjuntura política e sociocultural

X X

Enquadramento internacional

X X

Estratégias adoptadas por editores e

livreiros portugueses X X

O livro no dealbar da democracia Políticas públicas para a educação, o livro

e a leitura X X

Transições no panorama da edição

X X

Edição em sistema de clube do livro: o

Círculo de Leitores X X

O livro em democracia e o desenvolvimento sociocultural

Hábitos de compra e leitura de livros

X X

Práticas de leitura

X X

Repercussões socioculturais

Neste particular, Portugal encontra-se muito atrasado: não há ainda uma entidade pública que assuma, de modo proactivo, a responsabilidade pela prospecção, incorporação, tratamento arquivístico e disponibilização para consulta pública dos fundos documentais destas casas de cultura que são as editoras, e muito menos pela guarda das fontes de história oral (Melo, 2012: 179).

Justifica-se, igualmente, porque muita da informação, complementar ou inédita, relativa à actividade editorial e livreira que importa para este estudo, seja de carácter biográfico, documental, ou factual, apenas pode ser obtida por entrevista aos protagonistas:

...a preservação da memória das casas editoriais deve ser acompanhada pela criação de condições para o estudo da respectiva documentação e pelo colmatar das suas lacunas através da produção de novas fontes históricas, por via de entrevistas, tarefa que deve envolver o máximo de instituições, para se conseguir ter testemunho do maior número possível de antigos editores, além de autores, empregados, etc. (Melo, 2012: 183).

Questões como o efeito da distância temporal na memória dos entrevistados32, ou da relação de proximidade entre o investigador e o objecto de estudo33, foram devidamente consideradas e acauteladas na preparação do processo e no estabelecimento do método de recolha e tratamento da informação por entrevista. A pesquisa e recolha de dados secundários e primários foi precedida de revisão da bibliografia relativa a estudos editados em livro, revistas científicas, teses ou outros textos académicos e comunicações em congressos científicos.

Fontes secundárias (documentais)

A análise documental incluiu comunicações em sessões públicas de carácter institucional, documentação proveniente de artigos de jornais ou revistas em papel, artigos de jornais ou revistas em meios electrónicos e informação extraída de sítios da Internet.

32 “Tradicionalmente os investigadores tendem a pensar que os inquiridos dispõem da informação que lhes é solicitada através dos questionários. No entanto, mesmo quando presenciaram determinados acontecimentos, nada garante que tenham retido informação sobre eles, ou se o fizeram, que possam agora recordar-se dela. É, pois, bastante importante que os investigadores tenham em atenção o que é razoável esperar da memória e levem isso em consideração quando constroem perguntas que solicitam relatos de acontecimentos que ocorreram ao longo da vida dos inquiridos” (Foddy, 1996: 101).

33 “Que universos sociais são postos em contacto através das relações entre o investigador e o terreno? Em que modalidade é que esse contacto se estabelece? Este tema tem sido frequentemente discutido em termos de ‘familiaridade’ e ‘exotismo’. Uma posição pouco esclarecida é a que pretende que só um observador proveniente duma cultura estranha teria o distanciamento necessário à objectividade da análise. Mas é claro que, qualquer que seja a respectiva naturalidade, o investigador tem estatutos sociais específicos, tanto na sociedade de origem como no quadro da comunidade científica como, também, por um período de tempo mais ou menos alargado, no contexto social em estudo. Ignorá-los é um obstáculo à respectiva objectivação” (Costa, 1999: 146).

Fonte primária (entrevistas)

A selecção dos entrevistados teve em conta os objectivos gerais da tese, e as perguntas formuladas constam de um guião previamente elaborado e orientado para entrevistas semi-directivas (ver anexo 1). Para aferir a adequação das questões a colocar face aos objetivos traçados, foram previamente testados os procedimentos inerentes à realização das entrevistas, como sejam o pré-teste do guião e da listagem de normas, e a cooperação dos inquiridos no sentido de ser confirmada a correcta interpretação das questões colocadas (Foddy, 1996: 200-208). Procurou-se estabelecer procedimentos apropriados para a gestão do tempo e dos meios disponíveis para efectivação das entrevistas, e formular questões adequadas aos objetivos da investigação. Para selecção dos protagonistas a entrevistar foram tidos em consideração critérios objectivos, alicerçados na informação pública disponível e aferidos em consulta com outros profissionais do livro, por forma a assegurar conhecimento efectivo e multifacetado sobre a actividade editorial e livreira no período em estudo, diversidade nas funções então exercidas, abrangência na visão profissional, diversificação nas perspectivas individuais. As entrevistas, concretizadas mediante convite pessoal e directo, foram feitas também pessoalmente, face- a-face, nas instalações indicadas pelos entrevistados, tiveram uma duração média de duas horas e ocorreram entre 22 de Outubro de 2015 e 12 de Março de 2016 (anexo 2). Foi acautelado o registo das entrevistas em gravação de áudio e feita, posteriormente, a respectiva transcrição integral para ficheiro de texto. A análise foi realizada com auxílio de uma grelha, a qual foi depois preenchida com os extractos que constituem os testemunhos mais importantes para a investigação. Os excertos mais relevantes em termos analíticos foram integrados no texto da tese, ao longo dos diferentes capítulos. Houve o cuidado de privilegiar os testemunhos centrados no período em estudo, sem desprezar as componentes relativas a períodos anteriores ou posteriores, sempre que úteis para uma análise integrada e uma visão global compreensiva.