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6 METODOLOGIA DA PESQUISA

6.2 Métodos e procedimentos do estudo analítico

Engeström (1999) apresenta cinco princípios que ajudam a sintetizar a Teoria da Atividade. O primeiro princípio afirma que um sistema de atividade, mediado por artefatos, orientado para um objetivo e construído coletiva e continuamente, é visto como uma unidade básica de análise.

O segundo princípio refere-se às múltiplas vozes nos sistemas de atividades. Dentro do sistema diferentes indivíduos possuem uma história própria e ocupam posições diversas na divisão do trabalho, construindo o objetivo de maneiras distintas, ou mesmo conflitantes, em relação à perspectiva de outros membros de sua comunidade.

O terceiro princípio é o da historicidade. Esse princípio leva em consideração que uma atividade se desenvolve e se transforma ao longo de um período de tempo e que, portanto, para a compreensão dos seus problemas e potencialidades é necessário um estudo histórico. Esse estudo deve levar em consideração a história da atividade em foco e

de seus objetivos, bem como da história das ideias e das ferramentas que a influenciam e a moldam.

O quarto princípio refere-se ao papel central das contradições como fontes de mudanças e desenvolvimento. De acordo com Engeström (1999), as alterações na atividade ao longo do seu desenvolvimento seriam motivadas por contradições internas no sistema de atividade, ou seja, as contradições internas impulsionariam as mudanças e o desenvolvimento da atividade, manifestando-se por tensões que se evidenciam através de problemas dentro do sistema de atividade. O desenvolvimento ocorre através da superação dessas tensões.

O quinto princípio dispõe sobre a possibilidade de transformações expansivas da atividade. À medida que as contradições de um sistema de atividade se intensificam, geram reordenamentos, renegociações e uma constante construção do sistema da atividade pode surgir. Nesse contexto, as regras podem ser reinterpretadas, as tarefas redistribuídas e os objetivos podem ser modificados, causando, ao longo do desenvolvimento da atividade, mudanças no papel dos componentes que a constituem.

Adotando então estes princípios como norteadores de nossa discussão, os dados coletados foram analisados segundo os princípios da TA, estabelecidos por Engeström (1999), conforme quadro a seguir:

Quadro 1 – Princípios da Teoria da Atividade

SISTEMA DE ATIVIDADES Sistema mediado por artefatos e a atividade orientada ao objetivo

MULTIVOCALIDADE

A divisão de trabalho em uma atividade cria posições diferentes para os participantes. São redes de interação e uma fonte tanto de problemas como de inovação (as várias “vozes” que fazem parte da comunidade).

HISTORICIDADE

Os sistemas de atividades tomam forma e se transformam ao longo do tempo, fazendo com que seus problemas e potencialidades só possam ser entendidos através de sua história

CONTRADIÇÕES Os problemas e os conflitos dentro e entre sistemas de atividades, são fonte de mudança e desenvolvimento

TRANSFORMAÇÕES EXPANSIVAS

O objetivo e o motivo da atividade são reconceitualizados em um horizonte mais amplo de possibilidades e mudanças.

Mwanza (2000) utilizou o modelo sistêmico da atividade proposto por Engeström (1987) como modelo heurístico de conceitos da TA considerados relevantes para a análise das práticas de trabalho. A utilização do modelo se baseia na intenção de entender o contexto social e cultural da comunidade ao mesmo tempo em que considera aspectos de mediação da atividade através das ferramentas, regras e divisão de trabalho.

Através de uma Estrutura de Notação da Atividade, as variáveis do sistema de atividades são separadas em triângulos menores de subatividades. Na Notação da Atividade, cada combinação deve conter um ator (sujeito ou comunidade), um mediador (ferramenta, regra ou divisão de trabalho) e um objetivo no qual a atividade está focada. Desta forma, cada combinação da notação representa um triângulo completo de relação dos componentes da atividade principal.

Assim, a partir da análise de cada uma das atividades, os dados foram discutidos com base na Estrutura de Notação da Atividade, proposto por Mwanza (2000), o qual consiste nas seguintes relações:

Sujeito – Ferramenta – Objeto: Quais ferramentas o sujeito usa para atingir seu

objetivo e como são usadas?

Sujeito – Regras – Objeto: Quais regras afetam a maneira que o sujeito atinge seu

objetivo e como afetam?

Sujeito – Divisão do Trabalho – Objeto: Como a divisão do trabalho influencia a

maneira do sujeito satisfazer seu objetivo?

Comunidade – Ferramenta – Objeto: Como as ferramentas em uso afetam a maneira

da comunidade satisfazer seu objetivo?

Comunidade – Regras – Objeto: Quais regras afetam a maneira da comunidade

satisfazer seu objetivo e como?

Comunidade – Divisão do Trabalho – Objeto: Como a divisão do trabalho afeta a

maneira da comunidade satisfazer seu objetivo?

Estas questões fizeram parte do estudo analítico com o intuito de investigar mais substancialmente a ocorrência de contradições no sistema das atividades, assim como as relações entre as variáveis do sistema, pois de acordo com Mwanza (2000) analisar as práticas de trabalho por meio desta estrutura permite entender como a atividade funciona.

Uma das principais fontes da Teoria da Atividade proposta por Engeström, é a epistemologia histórica proposta por Marx Wartofsky (1979). O pensamento central da epistemologia histórica considera que as formas superiores de representação, exemplificadas pelas teorias científicas ou obras de arte, podem ser vistas como uma evolução, a partir dos modos de representação que estão relacionados com nossas práticas produtivas, sociais e linguísticas. Wartofsky (1979) afirma, que é através da produção de artefatos, que os seres humanos transformam a natureza e a si mesmos e,

assim, o uso de artefatos mais avançados dá origem a novas formas específicas de organização social e interação humana.

Com base nos estudos de Wartofsky (1979), Engeström (1990) classifica os mediadores de ações humanas em três tipos de artefatos culturais. O primeiro grupo de artefatos, os artefatos primários, são aqueles diretamente utilizados na produção de produtos e serviços, tais como, ferramentas de trabalho ou até mesmo palavras ou conceitos utilizados na comunicação durante o trabalho. Os artefatos secundários, são aqueles que representam os artefatos primários. Nesse grupo incluem-se modelos, regras, guias e teorias que explicam como certas ações ou atividades são ou devem ser conduzidas.

Além dos artefatos primários e secundários, que estão diretamente relacionados com as atividades produtivas, Engeström (1990) também propõe a existência de artefatos terciários, não diretamente conectados às ações, mas que possam ser usados para conceber novas ações e para desenvolver novas formas de produção.

O autor desenvolveu, então, uma hierarquia utilizada para identificar os artefatos mediadores essenciais, organizados através de questionamentos sobre suas características.

A partir deste entendimento foi feito ainda, em seguida, um detalhamento do sistema de cada atividade utilizando os Tipos de Artefatos Mediadores envolvidos na atividade, definidos por Engeström (1990):

Artefatos Primários: O QUE? cada agente estudado usa e faz na atividade (MEIO

para alcançar o objetivo) – o que está envolvido diretamente na atividade.

Artefatos Secundários: COMO? cada agente estudado alcança seu objetivo

(COMPREENSÃO do que fazer para alcançar o objetivo) – o que representa ou explica a atividade.

Artefatos Terciários: POR QUE? cada agente estudado realiza a atividade desta

maneira (MOTIVO para alcançar o objetivo – o que relaciona pensamento e reflexão sobre a atividade).

Estes artefatos mediadores envolvem também as ferramentas, regras e a divisão do trabalho.

Cada uma das etapas seguidas em cada estudo, as quais serão detalhadas nos próximos capítulos metodológicos, foram fundamentais para que os objetivos específicos propostos nesta tese fossem atendidos, promovendo, assim, as discussões necessárias para a geração das recomendações propostas para se alcançar o objetivo geral deste trabalho.

7 ESTUDO DE CAMPO 1: ANÁLISE DA ATIVIDADE DOS ILUSTRADORES

Com o intuito de entender como acontece a atividade do ilustrador, procuramos ilustradores que produzem ou já produziram ilustrações para livros didáticos infantis de Português.