A priori, destaca-se que foi feita a articulação com os serviços participantes da pesquisa visando facilitar a entrevista com os usuários de SPA, na tentativa de conseguir um maior público para o dia da coleta. A partir disso, realizaram-se a identificação e abordagem individual dos usuários de SPA pelos profissionais apoiadores do projeto, os quais estavam vinculados ao serviço e possuíam uma maior aproximação com os usuários e, posteriormente, realizou-se a entrevista pelos pesquisadores treinados para a coleta de dados.
O estudo desfrutou da contribuição de bolsistas para a coleta de dados, os quais integram o grupo de estudo e pesquisa intitulado: Saúde Mental, Cuidado e Violência (GESAM). Eles foram previamente treinados para a coleta mediante capacitação prévia. A entrevista foi realizada em um único encontro com cada usuário.
Os participantes garantiram consentimento por meio da assinatura do TCLE e, em seguida, realizou-se a coleta a partir de dados constantes no prontuário e uma entrevista semiestruturada subsidiada por 4 instrumentos com tempo médio para aplicação de 30 a 40 minutos, em sala reservada no próprio serviço a fim de garantir a privacidade.
Os instrumentos foram o Formulário sociodemográfico, clínico e padrão de consumo (APÊNDICE A), Self-Reporting Questionnaire (SRQ-20) (ANEXO A), Escala questionário sobre a saúde do paciente ou para avaliação de depressão (PHQ-9) (ANEXO B) e o Índice de Risco de Suicídio - IRIS (ANEXO C). As escalas SRQ- 20 e PHQ-9 foram preenchidas pelos usuários, enquanto as demais, aplicadas na entrevista e assinaladas pelo pesquisador. Todavia, ressalta-se que para os usuários sem escolaridade todos os instrumentos
foram registrados pelo pesquisador responsável.
O Formulário sociodemográfico, clínico e de padrão de consumo foi adaptado de Silva et al. (2017), o qual busca caracterizar os participantes quanto às variáveis sexo, idade, cor da pele autorreferida/raça, religião, escolaridade, ocupação, estado civil, número de filhos, renda familiar (em salários mínimos), número de moradores no domicílio e situação de moradia. Nos aspectos clínicos, investigaram-se a hipótese diagnóstica principal e presença de comorbidades clínicas ou psiquiátricas, bem como sua relação com o uso de SPA, para avaliar se foi antes ou após o uso. No que concerne ao consumo de SPA, questionou-se a idade do primeiro uso da SPA, a SPA de primeiro uso, as mais utilizadas (de escolha) e a SPA problema, a presença de histórico familiar de uso de SPA, assim como o tempo em abstinência dessas substâncias.
Para a classificação das SPA, utilizou-se como referência o teste de triagem do envolvimento com álcool, cigarro e outras substâncias (Alcohol, Smoking and Substance
Involvement Screening Test / ASSIST), o qual foi desenvolvido com apoio da Organização
Mundial da Saúde e divide as SPA em nove classes: derivados do tabaco, bebidas alcoólicas, maconha, cocaína/crack, estimulantes/anfetaminas ou êxtase, inalantes, hipnóticos/sedativos, alucinógenos, opioides ou outras substâncias (HENRIQUE et al., 2004).
O Self-Reporting Questionnaire (SRQ) foi originalmente desenvolvido por Harding
et al. (1980) em 8 países, composto por 30 questões (SRQ-30) que buscavam rastreamento
psiquiátrico, em que 20 abordam os sintomas psicossomáticos para rastreamento de transtornos não psicóticos, 4 para investigar transtornos psicóticos, 1 para convulsão e 5 para transtorno relacionado ao uso de álcool (LIMA; HOTOPF; MARI, 1999). Entretanto, as variáveis para investigar psicose ficaram em desuso devido à baixa sensibilidade, o que possibilitou uma adaptação do instrumento com 20 questões para rastreamento de transtornos não psicóticos (SRQ-20), sendo, inclusive, recomendado pela OMS pela facilidade de manuseio e custo reduzido.
Nessa perspectiva, o SRQ 20 já foi validado em diversos países, inclusive no Brasil (GONÇALVES; STEIN; KAPCZINSKI, 2008), apresentando bom desempenho em termos de identificação de casos positivos e negativos, bem como efetividade para uso em larga escala. É constituído de 20 questões e utilizado como ponto de corte 7/8 para a presença de transtorno mental comum ou sofrimento mental, destacando-se a sua funcionalidade para rastreamento e não diagnóstico, apresentando sensibilidade de 86,33%, especificidade de 89,31%, valores preditivos positivos e negativos de 76,43% e 94,25%, respectivamente (GONÇALVES; STEIN; KAPCZINSKI, 2008).
Além disso, utilizou-se o PHQ-9 derivado do PRIME-MD 12, que foi originalmente desenvolvido para identificar cinco transtornos mentais comuns: depressão, ansiedade, abuso de álcool, transtornos somatoformes e transtornos de alimentação (SPITZER et al., 1994). No Brasil, foi validado por Osório et al. (2009) e se caracteriza por ser um instrumento de aplicação relativamente rápida, contendo nove questões, com a finalidade de avaliar a frequência de sinais e sintomas de transtorno depressivo nas últimas duas semanas (SANTOS et al., 2013).
O PHQ-9 avalia os nove sintomas para episódio depressivo, que consistem em humor deprimido, anedonia, problemas com o sono, cansaço ou falta de energia, mudança no apetite ou peso, sentimento de inutilidade, distúrbios na concentração, lentidão ou inquietação excessiva e pensamentos suicidas. Além disso, o questionário contém uma décima pergunta que avalia a influência desses sintomas no desempenho das atividades diárias (SANTOS et al., 2013). Cada item pode ser pontuado em uma escala tipo Likert de 4 pontos, que varia de 0 (nenhuma vez) a 3 (quase todos dias), ou seja, a pontuação pode ser de 0 a 30 com indicador positivo a partir do valor maior ou igual a 10 (BERGEROT; LAROS; ARAÚJO, 2014). A escolha pelo PHQ-9 se deu pelo fato de episódios depressivos estarem muito relacionados ao risco de suicídio.
Por fim, utilizou-se o IRIS, visto como de rápida e simples execução, para investigação do risco de suicídio. É composto por 12 itens referentes a aspectos sociodemográficos, ao contexto envolvido e à esfera suicida, em que o escore total máximo é 20, a saber: (3x1) + (7x2) + 3= 20, ou com a presença de plano suicida já obtém o escore total permitido. Para isso, estimaram-se pontos de corte, divididos em três grupos, tais como risco reduzido com escore menor que 5; risco intermediário com escore total entre 5 e 9; e risco elevado com valor total maior ou igual a 10 (VEIGA et al., 2014).
4.5.1 Dificuldades no campo
Considerou-se necessária a elaboração deste tópico, uma vez que o estudo abrangeu oito municípios da região com coleta de dados presencial de um grupo específico, emergindo alguns impasses no processo. De início, aponta-se a dificuldade na delimitação da população de usuários de SPA atendidos nos serviços para calcular a amostra, uma vez que não havia números atualizados. Também houve certos obstáculos referentes à articulação prévia com alguns municípios para a assinatura da carta de anuência.
Alguns gestores, mesmo aprovando a realização da pesquisa por meio da carta de anuência, restrigiram o seu apoio necessário durante o trabalho de campo, com cancelamento
do agendamento da coleta. Referente à entrevista para coleta de dados, em alguns municípios, poucos usuários de SPA estavam presentes nos dias para coleta, mesmo com o agendamento prévio com a equipe do serviço. Isso suscitou a necessidade de aumentar a frequência de ida ao serviço e, em um município específico, foi necessária a realização de visita domiciliar em conjunto com os profissionais apoiadores para concluir a coleta. Destaca-se que, para cada serviço, eram deslocados, no mínimo, três entrevistadores para facilitar o processo.
Ademais, alguns profissionais apresentaram dificuldades em determinados momentos para a identificação e abordagem dos participantes, resultando em uma permanência maior dos entrevistadores no município. Aponta-se, ainda, a mudança de bolsistas para coleta de dados, os quais precisaram de maior capacitação para dispor de habilidade no momento. Ressalta-se que o auxílio dos bolsitas no processo de coleta de dados foi considerado de grande relevância para o estudo.