3. MIDIAS NA EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO DOCENTE................................... 3 1
3.2. MÍDIA-EDUCAÇÃO: OBJETO DE ESTUDO E FERRAMENTA
A trajetória histórica da Mídia-Educação, segundo Rivoltella (2012), perpassa por três perspectivas no contexto internacional: Institucional, caracterizado por políticas públicas voltadas à Mídia-Educação, dentre elas recomendações estabelecidas em documentos oficiais, como declarações, relatórios e cartas, elaboradas, por exemplo, pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) e pela Comunidade Européia; Social, que contempla as organizações/associações livres de pessoas, professores e educadores, e congressos que promovem a interação entre mídia-educadores para a troca de experiências; e Teórica, abrangendo a linha dos modelos conceituais e metodológicos, em que há o desenvolvimento do pensamento da Mídia-Educação.
No contexto nacional, não é possível falar em Mídia-Educação sem falar em educação popular, que por sua vez se constitui pela “formação do cidadão: a alfabetização é ferramenta para a compreensão do mundo (conscientização) e de expressão da cidadania (participação), segundo ensinamentos de Paulo Freire (BELLONI, 2012, p. 33)”. Isto pois, para Belloni (2012, p. 33), atuar na perspectiva da “Mídia-educação significa antes de mais nada falar a linguagem dos alunos, usar os meios de comunicação para criar condições ótimas de ensino e priorizar a comunicação sobre os padrões escolares”. Corroborando, Deliberador (2012, p. 287) afirma que
trabalhar a mídia-educação significa estimular a criticidade e a criatividade dos alunos envolvidos e fazer com que a comunicação não constitua um processo unívoco, mas se estabeleça como uma prática de comunicação dialógica de trocas e interações para que o educando deixe de ser apenas espectador para se tornar sujeito de sua própria história.
Fazer Mídia-Educação significa proporcionar momentos em que se utilizem
recursos que estejam ligados ao contexto do educando, a fim de promover a
melhoria nas condições de ensino-aprendizagem, que busque pelo diálogo contínuo e transforme as relações nesse processo.
Belloni (2009) vai dizer que a Mídia-Educação é uma das dimensões das TICs, e é contemplada por duas perspectivas inseparáveis, objeto de estudo e ferramenta pedagógica”. Através da significação de educação para as mídias, com as mídias, sobre as mídias e pelas mídias, encontra-se a função de compensar as diferenças que distanciam os estudantes do ambiente escolar (BELLONI; BÉVORT, 2009).
Por isso, Belloni e Bévort (2009) afirmam ainda que a educação formal precisa compreender e incorporar mais as novas linguagens, desvendar os seus códigos, dominar as possibilidades de expressão e as possíveis manipulações, pois o uso das mídias está presente na vida da maioria das crianças e adolescentes.
Considerando essas relações, entendemos que as ações mídia-educativas devam ser processos participativos e que auxiliem o desenvolvimento da cidadania e contribuam para a formação de um novo pensamento referente aos contextos educacionais.
Embora Rivoltella (2012) atente para a necessidade da Mídia-Educação se voltar para públicos de todas as faixas etárias, o foco da realização de ações mídia-educativas está voltada principalmente para as crianças e os jovens em idade escolar. E por conta desse mesmo público as atividades têm forte proximidade com o contexto da educação formal, a escola.
Se a criança e o jovem se constituem como atores importantes em relação a ME, apontamos a necessidade de pensar a respeito da formação enquanto cidadão.
E o processo de desenvolvimento da cidadania está intimamente ligado ao sentimento de pertencimento a uma comunidade, do fato de se saber e de se sentir cidadão de uma comunidade, o que pode promover no indivíduo a motivação para o desenvolvimento de ações em projetos comuns (CORTINA, 2005 apud DELIBERADOR, 2012). Além da questão do pertencimento coexiste o pensamento da autonomia, que dentro do universo da educação, baseado em Paulo Freire, Zatti vai dizer que
vinculada à idéia de dignidade, defendemos que ninguém é espontaneamente autônomo, ela é uma conquista que deve ser realizada. E a educação deve proporcionar contextos formativos que sejam adequados para que os educandos possam se fazer autônomos (ZATTI, 2007, p. 53).
Fleck (2004 p. 36) conceitua autonomia como “a condição de uma pessoa ou de uma coletividade, capaz de determinar por ela mesma a lei à qual se submeter”.
Nesse sentido, segundo a mesma autora, a palavra “lei” pode ser considerada como sinônimo de “convenção”, por exemplo. Sendo assim, dentro dos processos educativos um cidadão autônomo ou o grupo ao qual pertence teria condição de tomar determinada decisão sobre uma determinada convenção que interfere em sua(s) vida(s), com o objetivo de adotá-la ou não.
Outra questão referente ao contexto da formação da cidadania e que está intimamente ligada ao desenvolvimento de autonomia do educando, está o processo emancipatório que a Mídia-Educação pretende proporcionar, já que a reflexão sobre pertencimento contribui para a formação de cidadãos cada vez mais livres e humanos, afirma Tonet (apud DELIBERADOR, 2012, p. 289). Emancipatório porque tem como um dos principais objetivos a promoção de uma percepção crítica entre os envolvidos, e que deve ter como consequência a disposição para alterar alguns aspectos da sua realidade, mesmo que seja alterar o ponto de vista de suas análises.
Nesse sentido vale lembrar que da mesma forma que o aprendizado da leitura não se constitui separado do aprendizado da escrita, ações que se configurem como mídia-educativas também não se caracterizam apenas pelo despertar crítico, especialmente da mídia, mas também pelo uso e produção dessa ferramenta (FANTIN, 2006).
As ações mídia-educativas devem contribuir para a formação de um novo pensamento referente aos contextos educacionais, por serem processos participativos, e auxiliarem o desenvolvimento da cidadania. Esta, por sua vez, é construída a partir de processos que permitam a autonomia do individuo (DELIBERADOR, 2012).
Pensando que as ações mídia-educativas são contempladas por duas
perspectivas inseparáveis - objeto de estudo e ferramenta pedagógica -, através da
significação de educação para as mídias, com as mídias, sobre as mídias e pelas
mídias, encontra-se nesse processo (não apenas a formação para o pensamento
crítico, mas também a produção e uso da ferramenta) a função de minimizar o
distanciamento dos estudantes do ambiente escolar.
Configuram-se, portanto, de extrema importância para as novas gerações,
pois apresentam-se como um espaço de socialização, mais interessantes que o
ambiente escolar, e que permitem o desenvolvimento de novas habilidades de
aprendizado, autônomos e colaborativos (BELLONI; BÉVORT, 2009).
No documento
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ
(páginas 34-37)