A atualidade e principalmente o futuro não muito distante, é marcada por um grande avanço tecnológico: seja a partir dos produtos da mídia, das TIC, seja no seu conteúdo simbólico, seja nos equipamentos eletrônicos disponíveis no mercado, configurando-se assim, num mercado altamente efêmero e inovador. No entanto, as “Velhas” tecnologias – a escrita, o jornal artesanal, a máquina fotográfica e máquina de filmar analógicas – constituem elementos ainda presentes no cotidiano das pessoas, podendo tornar-se um potencial criativo no aspecto pedagógico.
Experiências com essas mídias velhas e novas (SANTOS, 2007; BELLONI, 2001; FANTIN, 2011; FANTIN e GUIRARDELLO, 2008; PIRES, 2002; 2003; BETTI, 1989; 2003 entre outros), ainda, em parcerias com grupos de pesquisa no Brasil e no Exterior entre tantas outras, vem demonstrando “que o uso” das TIC no âmbito escolar, constitui-se numa viagem sem volta. A todo instante as pessoas, eu, você, os alunos nas escolas, todos nós, recriamos, ou melhor, damos novos sentidos e novos significados, com autonomia e emancipação a esses meios, o que estimula estudos nesse campo.
livre, e tornar o código fonte do programa disponível. Disponível em:
Outro aspecto importante refere-se às formas simbólicas48que são mediadas pelos meios de comunicação de massa49, principalmente a televisão, mas já vem sendo observada também com os computadores, através da Rede Mundial de Computadores (internet), e neste aspecto estão presentes no conteúdo destes meios, uma gama de poder (simbólico)50 que, de certa forma, são expressivos no cotidiano das pessoas, principalmente quando se trata de apelos consumistas no campo de entretenimento, da criança, do brinquedo, pois o que está em jogo é a ideologia do consumo na sociedade atual.
Pensando por este aspecto que estudos no campo da Mídia-Educação corroboram para emancipação com autonomia dos sujeitos em nossa sociedade. Fantin (2011, p. 15), em seus estudos com crianças e mídia, explica que “a educação é entendida como ação em busca da significação, e a mediação escolar na relação entre criança e a cultura se refere às ações que procuram ampliar os conhecimentos e interações das crianças, fazendo-as entender como suas experiências participam dos sistemas simbólicos da cultura”. Nesse sentido que perspectivamos a inserção da mídia e TIC no ambiente escolar e que o lócus desta inserção fosse a Educação Física, pois, apesar de já existir uma variedade de estudos nesta área, ela ainda carece de reflexões.
Compreendemos como as novas Tecnologias de Informação e Comunicação tornam-se fascinantes (enfeitiçamento) frente às pessoas e, como expõe Belloni, (2001 p. 24), “é importante lembrar que este deslumbramento frente às incríveis potencialidades das Tic’s está longe de ser uma ilusão ou um exagero apocalíptico, mas, ao contrário, constitui um discurso ideológico bem coerente com os interesses da indústria do setor". Esta é uma questão
48 Entende-se, a partir do pensamento de Thompson (1998), que em todas as sociedades os seres
humanos se ocupam da produção e do intercâmbio de informações de conteúdo simbólico.
49 Refere-se à produção institucionalizada e difusão generalizada de bens simbólicos através da
fixação e transmissão de informação ou conteúdo simbólico. Mesmo com as considerações feitas por Thompson (1998) de que os termos comunicação e massa (C.M.) são complexos, pelo fato de, na maioria das vezes, na mídia haver uma transmissão e também não atingir a todos os sujeitos. Outro ponto relevante, segundo Belloni (2001), que é comum no meio acadêmico, é a expressão C.M. como sinônimo de mídia.
50
Para Tompson (1998) – o poder simbólico nasce na atividade de produção, transmissão e recepção do significado das formas simbólicas. "O Poder Simbólico, é a capacidade de intervir no curso dos acontecimentos, de influenciar as ações dos outros e produzir eventos por meio da produção e da transmissão de formas simbólicas" (p. 24). Para Bourdieu (2002), o Poder Simbólico é esse poder invisível, o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exerceu. Poder quase mágico, que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou econômica), só se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário. Apesar de Thompson (1998) apropriar-se do termo (poder simbólico) elaborado por Bourdieu o diferencia na sua conceituação. No entanto, entendemos que ambos os conceitos serão utilizados em nosso trabalho, pois no primeiro há um avanço na perspectiva frankfurtiana e o segundo assemelha-se ao conceito de fetiche e alienação que percorremos no decorrer deste trabalho. Ainda, Thompson (1998), a partir do pensamento de Pierre Bourdieu, explica que há quatro dimensões do poder: Político – representado pelas instituições públicas; Coercitivo, as instituições militares e a força bélica; Econômico, instituições econômicas (empresas) marcadas pelos oligopólios dos conglomerados econômicos e o Simbólico – Instituições culturais, igreja, indústria da mídia, entre outros.
importante que não pode ser desconsiderada, mesmo tendo clareza que elas (TIC) possam representar a potência para (des) construir as estruturas (des) iguais postas pelo capitalismo. Além de colocar a comunicação de massa que sempre teve uma estrutura de via de mão única numa outra perspectiva que seja de forma descentralizada, como acontece com a internet, a partir das redes sociais,
[...] a situação é muito melhor do que a que vivemos com os meios de comunicação de massa, nos quais, na prática, a comunicação possível é majoritariamente unilateral e mercantilizada. Há muito mais pessoas em nossa sociedade capazes de expressar e compartilhar seus pontos de vista pela internet do que pelos meios de comunicação de massa. (SIMON e VIEIRA, 2008, p. 27)
Neste caminho – Odisseia – cheio de obstáculos e monstros devoradores, (re) nasce a subversão – uma forma política e legítima de fugir aos caprichos da Fortuna, de romper com o processo de Alienação e Semiformação entre outros escapes – a exemplo do uso autônomo, da internet. No entanto, ainda constitui-se um entrave a educação para a mídia (internet): seja na formação de professores, seja na “inclusão digital”.
As barreiras são maiores do que pensamos, pois encontramos no contexto educacional situações complexas e complicadas ao uso das TIC no processo de ensino- aprendizagem, ou melhor, encontramos uma resistência por parte dos professores em lidar com elas alegando sua (in) capacidade, os professores alegam que não foram preparados – formados – para lidar com as novas tecnologias/mídias de informação e o sentido emancipador que elas podem provocar, não há uma inserção no Projeto Político Pedagógico das escolas que inclua a discussão do uso das mídias e TIC, entre outras questões. O que se observa é que a formação cultural, aqui baseado no pensamento esclarecedor e no sentido colaborativo, distancia-se das novas linguagens e do cotidiano/escolar.
Essa realidade não é ficção nem exagerada, basta fazermos um levantamento nas pesquisas no Brasil que abordam esse problema e veremos o esboço de um quadro alarmante. Obviamente, esse quadro não é generalizado e na atualidade há muitas experiências com uso das mídias e TIC na educação que potencializam nossas inspirações a, efetivamente, apostar nos sujeitos.
Temos clareza que não basta encher os professores de cursos técnicos para uso das TIC, pois logo que acabam esses cursos a vida escolar é determinante e se não houver um projeto que garanta esta discussão no cotidiano, não veremos avanços. O professor deve estar imerso nesta realidade e atento às mudanças estruturais na sociedade, principalmente advindas
da realidade dos jovens e também experimentar, sem medo de errar, esquecendo o tabu que professor não erra51.
Mas isto só não basta. É preciso que a Escola também esteja preparada para essa nova etapa do processo de aprendizagem, significa dizer que, além da anuência dos profissionais da educação no interior da Escola, é preciso um espaço adequado, permanente, vivo, que faça com que as TIC e as experiências com a mídia se tornem comuns e não um bicho estranho.
Estamos presenciando, já de algum tempo e mais determinante no momento atual, uma avalanche da chegada de computadores no ambiente escolar e mais que isto, na ideia associa-se um computador por aluno (UCA)52. No entanto, algumas experiências53 têm exposto, pelo menos, duas facetas: de um lado a necessidade urgente de se colocar à disposição dos alunos computadores conectados à rede mundial de comunicação face à carência; de outro lado, os obstáculos de uma política pública que garanta a acessibilidade com autonomia no tocante à velocidade dos equipamentos e, neste sentido, pensar na Formação como um estímulo à emancipação. Como diz Pretto (2011, s/p):
Aqui está o foco do que acreditamos ser o centro do processo formativo de professores e alunos: a melhor forma de fazer com que essa turma54 passe a viver plenamente o universo da cultura digital e lhes proporcionar uma imersão intensa no universo de informação e comunicação propiciado pelas tecnologias digitais. No caso dos professores, pensamos que isso lhes possibilitará, tão logo estiverem mais relaxados e confortáveis com a presença dos uquinhas nas suas vidas e nas escolas, incorporarem tudo isso como elementos estruturantes da formação da juventude enquanto produtora de conhecimentos e de culturas e não como mera consumidora de informações (e de produtos!). Informações essas que abundam na internet e que, se não trabalhadas, constituem-se numa mera reprodução dos tradicionais (e velhos) meios de comunicação de massa
A perspectiva de construir novos conceitos e linguagens a partir das TIC e da mídia ganha consonância com a cooperação e compartilhamento de conhecimento entre as pessoas, o que implica, também, não só alunos e professores compreenderem a importância de estarem em rede, mas, principalmente, o sentido do compartilhamento, o sentido de ajudar os
51
Referência ao texto de Theodor Adorno, “Tabus acerca do Magistério”. Educação e Emancipação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000.
52 O Projeto UCA é uma iniciativa do Governo Federal que visa a distribuir a cada estudante da
Rede Pública do Ensino Básico Brasileiro um laptop voltado à educação. A intenção do Programa é inovar os sistemas de ensino para melhorar a qualidade da educação no país.
53 Nelson Pretto. “A moça do computador”. Disponível em: http://terramagazine.terra.com.br
Acesso em: 12/08/2011.
54
Refere-se a uma turma das 10 escolas do interior da Bahia em que se está trabalhando a formação de professores, onde fora implantada o Projeto Um Computador por Aluno-UCA, mas que, entendemos, ultrapassa os limites territoriais.
outros e a si mesmo, a descobrirem, a conhecerem, o que já vem sendo desenvolvido por vários profissionais da educação55. É nesse sentido que buscamos uma imersão com autonomia e emancipação e, ao mesmo tempo, ir quebrando o modelo unilateral da comunicação de massa.
Mas, para isto, além de superarmos as adversidades no campo material da vida, é preciso superar a esfera do Poder Simbólico. O “efeito dominó” provocado por ele presente nas mídias esboça-se em ideologia. É como se o mundo, em todas as suas contradições e diferenças, agora encontrasse um sentido comum. Nesse aspecto,
[...] o poder, portanto, é a supremacia do espetáculo – a nova forma de modo de produção capitalista, como descobriu Guy Debord [...] sobre todas as atividades humanas. O poder, enfim, é a gestão do espetáculo pelos seus encarregados que, no entanto, não são seus autores, mas seus subordinados. (BUCCI e KEHL, 2004)56
Assim, chama-nos atenção o alerta de Thompson (1998, p.30) com o termo comunicação de massa, que pode provocar enganos, pois nem todos os produtos da mídia atingem milhares de pessoas. Seja em época passada ou presente, nos permite a pensar que esse termo ("massa") não pode ser reduzido a uma questão de quantidade. "O que importa na comunicação de massa não está na quantidade de indivíduos que recebe os produtos, mas no fato de que esses produtos estão disponíveis em princípio para uma grande pluralidade de destinatários".
Outro aspecto importante sobre o qual nos alerta Thompson (1998) é relacionado aos “receptores” (sujeitos) dos produtos da mídia, que são vistos como sujeitos passivos, sem sensibilidade, sem criticidade, como uma "esponja" que absorve água. Isso seria uma contradição, devido à complexidade com que os produtos da mídia chegam até os sujeitos, nas vidas deles, provocando diferentes interpretações e reações. Ideia esta compartilhada por vários autores da Educação e Educação Física no Brasil – Belloni (2001), Betti (1989; 2003), Pires (2002; 2003) – que perspectivam, a partir daí, a necessidade de uma educação para a mídia, no sentido de criar autonomia e esclarecimento ao sujeito receptor.
Por isso, neste estudo, para se compreender o impacto dessas tecnologias nas sociedades e nos processos de relações sociais, bem como em suas instituições, principalmente as educacionais, foi “necessário ir além das condições técnicas [...]. É preciso
55
A obra de Pretto e Silveira (2008) traz reflexões importantes no tocante a esta questão e, principalmente, às possibilidades democráticas de subverter a dominação no campo das redes informacionais.
valorizar o mundo real dos sujeitos, considerá-los como protagonistas de sua história e não como receptores de mensagens e consumidores de produtos culturais". (BELLONI, 2001 p.21)
A perspectiva de ler criticamente a "comunicação de massa" (C.M.) passa pelo significado de analisá-la também pelo enfoque econômico (indústria de equipamentos eletrônicos) que gera bens culturais; pelo aspecto político, bem como artístico-cultural, para romper com o processo de banalização da cultura – Indústria Cultural – e educacional, campo esse com uma diversidade cultural imensa devido às experiências que os alunos carregam nas suas relações com os meios e as TIC. Assim, os contextos sociais específicos, os quais a mídia está presente, serão lidos, a partir de sua própria realidade. Além disso, como expõe Sibília (2008), hoje vivemos em um tempo em que as pessoas são estimuladas a fazer várias coisas ao mesmo tempo (habilidade multitarefa) e isso talvez possa representar novas formas de cognição, até porque a relação face a face vai dando lugar, cada vez mais, à relação mediada pelos meios de comunicação.
Outro aspecto importante diz respeito ao cunho ideológico presente nos produtos da mídia, pois “transmite informações, alimenta o imaginário do sujeito e constrói uma interpretação do mundo e, com isso, difunde ideias sobre a cultura corporal de movimento" (BETTI, 1998, PIRES, 2003). Isso implica, necessariamente, que precisamos interpretá-la, refleti-la e problematizá-la a partir do contexto social no qual estão inseridos, libertando-se dessas “amarras”. Parece-nos uma visão otimista e o é, mas, sobretudo, não se faz de forma aleatória, e sim envolta no arcabouço teórico-praxiológico que possibilita uma mudança de olhar e de ação.
E as TIC e a Mídia são faces da mesma moeda? Compreendemos que às vezes sim, como é caso da relação de consumo numa visão econômica, mas estamos nos referindo à possibilidade de trabalhar na escola, tanto com a mídia, ou seja, uma ideia de Mídia-Educação em que os alunos analisam criticamente as mensagens da mídia, fazem uso dos equipamentos midiáticos e produzem, com responsabilidade, sua própria mídia, como também relacionar o potencial das Tecnologias de Informação e Comunicação numa perspectiva para a Formação do aluno. É neste aspecto que pensamos que elas se convergem.