1. CAMINHOS TEÓRICOS PERCORRIDOS
1.9. MÚLTIPLAS REALIDADES
Peter L. Berger e Thomas Luckmann14 fazem referência à
realidade advertindo que ela é interpretada pelos homens para que seja dotada de sentido à medida em que eles buscam tornar o mundo coerente para si e entre si. É nesta realidade que se estabelece a relação entre a comunicação e o sentido do que é veiculado. Estes dois aspectos estão sempre presentes no círculo de relações da classe dos bancários. Com vizinhos, familiares, instituições, amigos, colegas de trabalho são selecionados os assuntos, são discutidas as questões que permeiam o tema “privatização” e toda a forma que este assunto está armazenada como, por exemplo, o que se sabe, o que se ignora, o que se fala, o que se silencia. Para Berger e Luckmann (1985:30), esta dinâmica se realiza de forma intencional, pois é dirigida para o interesse destes receptores. O local e o momento da experiência vivida
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é o pano de fundo. Os bancários podem estar presencialmente no local de trabalho, em casa ao mesmo tempo vivendo algum estado de sua subjetividade como a ansiedade, preocupação ou tristeza, onde atuariam as mediações situacionais. As experiências e as conseqüentes estruturas de significação provocadas por estas experiências são, segundo os autores, intencionais. Elas realizam-se em estado de plena vigília e consciência. Da mesma forma, argumentam os autores (Op.cit.:18)
“Objetos diferentes apresentam-se à consciência, como constituinte de diferentes esferas da realidade (...) reconheço meus semelhantes com os quais tenho que tratar no curso da vida diária como pertencendo a uma realidade inteiramente diferente de que têm as figuras desencarnadas que aparecem em meus sonhos. Minha consciência por conseguinte é capaz de mover-se através de diferentes esferas da realidade.(...) Tenho consciência de que o mundo consiste em múltiplas realidades. Quando passo de uma realidade a outra experimento a transição como uma espécie de choque. Este choque deve ser entendido como causado pelo deslocamento da atenção acarretado pela transição(...). A realidade da vida cotidiana é a que se apresenta como sendo a realidade por excelência. Sua posição privilegiada autoriza a dar-lhe a designação de realidade predominante. A tensão da consciência chega ao máximo da vida cotidiana, isto é, esta ultima impõe-se à consciência de maneira mais maciça, urgente e intensa. É impossível ignorar e mesmo difícil impedir sua presença imperiosa. Conseqüentemente, força-me ser atento a ela de
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maneira mais completa. Experimento a vida cotidiana no estado de total vigília. Este estado de total vigília de existir na realidade da vida cotidiana e de apreendê-la é considerado por mim normal e evidente, isto é, constitui minha atitude normal.”
Uma destas realidades vividas é a própria atividade de recepção a partir das leituras do Jornal do SEEC-RE e da campanha pela preservação dos Bancos Federais. A atividade de recepção permite aos indivíduos que se afastem dos contextos práticos de suas vidas, mas é vivenciada em estado de plena consciência. Ao ter acesso às informações fornecidas pelo Jornal do SEEC-PE, estas matérias envolvem um substancial grau de distanciamento espacial da realidade predominante, e também temporal, propiciando aos receptores um certo deslocamento dos seus contextos de vida. Eles podem estar no caixa do banco efetuando algum pagamento a algum cliente, podem estar prestando atendimento a algum mutuário sobre aquisição de casa própria ou conversando com seus filhos em casa, por exemplo, e,
no momento em que têm nas mãos o Jornal dos Bancários15, o
impresso do Sindicato dos Bancários, mergulham na leitura e entram em um outro mundo. Embora provoque este deslocamento da consciência do indivíduo, a recepção resultante das mediações institucionais do SEEC-PE deve ser vista como parte da atividade de rotina, pois integra as atividades diárias dos trabalhadores. A recepção se sobrepõe e imbrica a outras atividades nas formas mais complexas, e parte da importância que os tipos específicos de recepção que tem para os bancários deriva das maneiras com que eles os relacionam a outros aspectos de suas vidas. A leitura do jornal, por exemplo, pode acontecer dentro da condução enquanto o empregado se desloca para o trabalho, durante o expediente para escapar temporariamente de alguma preocupação no ambiente de trabalho e mergulhar no mar de
15 Impresso produzido pelo SEEC-PE. Sua características estão descritas na segunda parte deste trabalho.
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notícias sobre assuntos vinculados a sua condição de trabalhador bancário que o jornal do SEEC-PE propicia.
É fundamental trazer para este momento teórico a importância da linguagem para a compreensão da realidade. A linguagem com o seu sistema de sinais cristaliza a compreensão, objetivando a percepção de mundo e oportuniza a integração, uma vez que os indivíduos, para comunicarem-se, necessitam fazer parte de um certo padrão de linguagem. Para os dois teóricos, a linguagem tem o fundamental papel de tornar presente uma infinidade de objetos que se encontram em níveis espaciais, temporais e sociais distantes. Além desta transcendência proporcionada pela linguagem, o padrão característico de cada linguagem aproxima o emissor da mensagem do receptor. Esta aproximação acontece em função da linguagem tornar o outro mais alcançável ao indivíduo. A linguagem torna mais real e mais concreta a subjetividade de cada indivíduo, não só para quem emite a mensagem, como também para o receptor, pois, no momento em que ocorre a comunicação cotidiana, a linguagem cristaliza este significado, por mais dinâmico que se apresente. Os padrões dominantes da linguagem do Jornal dos Bancários buscam uma aproximação com o leitor bancário. Construída sobre uma pontual objetividade, sem rebuscamentos e com frases curtas, a redação das notícias do jornal facilita a leitura que o bancário realiza e, na maioria das vezes, o bancário vive um considerado grau de stress diário, provocado pela atividade que exerce, podendo afetar a sua capacidade de apreensão das notícias. A linguagem presente na realidade da vida tem a capacidade de transcendência do “aqui agora”. Ela é capaz de realizar pontes entre diferentes espaços da realidade e os integra, estabelecendo uma só totalidade dotada de um objetivo: aproximar o receptor do fato ocorrido. Estas pontes acontecem em função dos estados de comunicação que podem ser de diversas naturezas. Oral, escrita, através de figuras ou símbolos a linguagem estabelece uma sincronia entre os objetos que estão socialmente ausentes. A maneira pela qual a linguagem é estruturada no Jornal do SEEC-PE contribui para que acontecimentos relacionados à privatização dos Bancos
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bancário, sejam objetivados independente da dimensão geográfica ou temporal que afasta o fato da publicação da notícia. A cobertura dada pelo jornal do SEEC-PE no lançamento, em Brasília, do Comitê Nacional em Defesa dos Bancos Públicos e do ato em defesa dos
Bancos Públicos,16 em São Paulo, acontecimento que reuniu mais de
mil pessoas, são exemplos de que a linguagem aproxima o acontecimento do receptor. Qualquer evento que diretamente ou indiretamente se relacione com o processo de privatização dos bancos públicos o SEEC-PE, através do seu jornal, permite que o trabalhador das unidades mais longínquas do sertão pernambucano possa tomar conhecimento. Este aspecto aproxima o Sindicato da categoria.