1 Um gênero que nunca morre
1.1 A música pop não é rock?
Um dos termos que mais usamos para a música popular é música pop. Na sua origem "pop" vem da abreviação da palavra inglesa "popular" e quer dizer uma música para ser ouvida por muitas pessoas, produzida em larga escala e de acesso fácil. O termo se aproxima de uma música vista como mercadoria, produzida pelas majors10 para atender à demanda da indústria da música de um público em larga escala dentro de uma cultura de massas. As grandes companhias de discos controlavam a distribuição dos artistas, decidiam o que iam produzir e como difundir, o que consolidou o pop em uma ambiguidade de uma música feita por músicos de qualidade, mas manipulada por representantes da indústria da música por conta de uma logística de mercado massivo. Mas qual a diferença entre música pop e rock? Para Frith (2001), a diferença está na forma como a autenticidade é relevante ou não para cada uma destas etiquetas. Segundo Frith, a autenticidade não é uma questão relevante para o pop, aí é onde reside a principal diferença. Entretanto, Frith coloca que a música pop abarca também o rock, já que é:
(...) uma música produzida para o consumo, para ser rentável, como uma forma de empreendimento comercial e não de arte. Definida por estes termos “música
pop” abarca todas as formas populares contemporâneas: o rock, a música
country, o reggae, o rap, etc. (FRITH, 2001, p. 137).
Mas ao incluir tantos gêneros que se posicionam de forma diversa individualmente, a nomenclatura traz um problema para si, e o rock posiciona-se em um antagonismo com o pop, demarcando sua música como fora do pop. No raciocínio de Frith (2001), podemos pensar que o pop comporta o rock, mas que o rock tensiona o pop para marcar uma determinada posição identitária, criando alianças de afetos e gostos.
10 “São chamadas de majors as companhias mais poderosas da indústria fonográfica. Ramos de atividade
de grandes conglomerados multimídia transnacionais, elas controlam grande porção do mercado de música mundial, determinando seus caminhos. Após diversas aquisições de companhias menores e fusões ao longo de todo o século XX (DIAS, 2000), são consideradas majors as companhias SONY, BMG, Universal, WEA e EMI” (FERNANDES, 2007, p. 12).
O pop tornou-se uma etiqueta abrangente que não define um gosto singular, mas vários gostos e relações identitárias. Sua trajetória está ligada à história da música popular massiva e, como parte da cultura massiva, obedece a uma produção padronizada, de vendas substanciais e forte circulação nos meios de comunicação massivos. Esta construção faz com que o pop seja visto pelos fãs do rock não como arte, mas como um negócio.
A afirmação do gosto superior que proclama o fã do rock resulta na emissão de juízos de valor sérios e formados sobre a música popular massiva, que se pressupõe uma consciência dos contextos sociais próprios desta música (KNEIGHTLEY, 2001, p. 157).
Os textos musicais são produtos sociais, portanto ao trabalhar com clichês melódicos, absorver sonoridades musicais de todas as partes do mundo e usar temas recorrentes como amor, traição, solidão, os sons do pop vão nos criando sempre uma familiaridade, algo que não nos causa estranhezas. As canções do grupo sueco ABBA soam familiares aos ouvintes que percebem uma música para se distrair, dançar, se entreter. Janotti Júnior explica que:
A longa história da demarcação do que é considerado música pop e aquilo que é assumido pelos fãs como rock passa também pela divisão entre “liberdade criativa”, mercado independente e grandes conglomerados multimídiaticos (JANOTTI JÚNIOR, 2003, p. 37).
Ao contrário do pop, o rock exige da audiência a postura de uma música que é para ser levada a sério, não apenas diversão, uma música que carrega certa postura ideológica e estética, que tem autonomia criativa e autenticidade.
A história da música pop começa a ser marcada, segundo Frith (2001), a partir da comercialização do microfone nos anos 1930, trazendo uma mudança substancial para a forma de cantar, que passa a ser mais suave. Esta mudança tecnológica faz surgir um dos primeiros cantores de música pop, Frank Sinatra, The Voice, que arregimenta fãs adolescentes durante suas apresentações e inaugura um novo estilo vocal, associado com naturalidade, mais do que com virtuose, com senso sobre a canção, acentuando certas palavras e dando para a música uma pulsação emocional. “Frank Sinatra tornou- se uma estrela, o cantor pop das massas” (FRITH, 2001, p. 141). O uso do microfone possibilitou aos cantores o toque mais intimista na interpretação das canções, trazendo para a música pop uma das suas principais marcas, o sentimentalismo. Frank Sinatra e o microfone estabelecem um padrão para os anos 1930 com uma música voltada para discos vocais, e com os cantores dominando o cenário.
Este novo tipo de estrela pop vocal precisava de canções emotivas, diretas e simples que eram nutridas pelo repertório do jazz (...). Os cantores também recorriam aos repertórios da música folk, da música country e do rhythm and
blues (FRITH, 2001, p. 142).
O pop, em geral, construía o som ao redor de uma voz líder sedutora, sustentada por coros e acompanhamentos. Este padrão passou a dominar a lista de vendas, acabou sendo adotado “pelo selo Motown, que o aperfeiçoou nos anos 1960 com outros artistas” (FRITH, 2001, p. 144). Segundo Frith, estas sonoridades usadas pela música pop chegaram ao rock, mas foram consideradas muito comerciais, e fortaleceram a posição do rock como uma música demarcadamente de oposição ao pop.
Ao longo da sua história, o pop foi se firmando com canções que tinham como principal impacto o amor, o sentimentalismo. Podemos ter como exemplo duas canções bastante populares: “Fernando”, do ABBA11, e “Good Bye Yellow Brick Road”, de Elton John. As carreiras do grupo sueco e de Elton John se dão em grande parte a partir da divulgação das suas canções na televisão, quando as músicas entraram na nossa vida, e mesmo quem não falasse inglês e não compreendesse o sentido das palavras tinha familiaridade com a sonoridade. Isto acontece porque o pop tem uma capacidade de expressar nosso lado mais sentimental, uma espécie de magnetismo que transforma estas canções em clássicos do pop. Para Frith, podemos definir o pop como a “música que escutamos sem querer, aquelas canções que conhecemos sem realmente saber como” (FRITH, 2001, p. 149). A música pop nos absorve nos rádios, nas televisões, instalam-se na nossa vida porque ela é acessível, musicalmente é melódica, harmoniosa, tranquila e nos toca diretamente, de forma rápida, familiar.
O objetivo nesta tese ao falar brevemente sobre a música pop é entender como o rock, sendo também música popular massiva, acentua suas diferenças com o pop, a partir de posições ideológicas e sociais que amplificam valores como autenticidade e articidade, que, para o rock, são posições que o colocam em outros interesses que não são apenas comerciais. Para Frith:
Rock é um produto musical massivo que carrega uma crítica do seu próprio
sentido de produção; ele é um produto de consumo massivo que constrói sua própria audiência autêntica (FRITH, 1981, p. 11).
Cada som tem um efeito e um sentido, portanto, por mais contraditório que esta posição do rock pareça (autonomia × mercado, massivo × individual), ele é um gênero
11 Grupo sueco formado em 1972. Nos anos de 1975 a 1978, colocou 18 músicas na lista das dez mais vendidas.
que tem uma ideologia que nem sempre se articula apenas de forma musical, porque evoca uma inconformidade, uma agressividade que se aplica tanto a sua sonoridade quanto aos seus ideais. Para Janotti Júnior, isso acontece porque as práticas discursivas do rock mostram que esta “é uma forma de negociação (do rock) com as possibilidades oferecidas pelas sociedades contemporâneas” (JANOTTI JÚNIOR, 2003, p. 20). Ao adotar esta posição de diferença em relação ao pop, o rock se coloca de forma diferente no mercado e oferece outro tipo de produto para suas audiências, trazendo outros afetos e alianças.