As colecções osteológicas encontram-se na Herdade da Mitra, nas proximidades da cidade de Évora, na região do Alentejo Central (ver mapas no ANEXO 2).
CONTEXTO NATURAL E PAISAGÍSTICO
A paisagem da região de Évora é muito emblemática. Integrada na vasta planície alentejana, apresenta uma ondulação suave, com uma altitude média de 240 m. A paisagem do Concelho de Évora, com cerca de 1.300 Km2 e a apesar das transformações recentes, ainda se caracteriza por uma cultura de cereais (em regime extensivo), com zonas de pastagens e manchas de floresta de sobro e azinho. As linhas de água mais relevantes são o rio Dgebe, o rio Xarrama e a ribeira de Valverde. O clima é tipicamente mediterrânico, com Verões quentes (média anual de 128 dias com temperatura média superior a 25ºC) e Invernos frios (90 dias por ano com média inferior a 5ºC) (Câmara Municipal de Évora, 2011).
PRESENÇA HUMANA
Segundo a Câmara Municipal de Évora (CME), em 2011, o principal pólo urbano da região é a cidade de Évora, considerada uma cidade média portuguesa. Tem cerca de 50.000 habitantes e apresenta um crescimento razoável que contraria a tendência da região no seu conjunto (CME, 2011).
A região de Évora apresenta vestígios da presença humana desde a pré-história. Existem vários monumentos megalíticos dispersos pela região, dos quais se destacam os Cromeleques dos Almendres e a Anta do Zambujeiro. E desde aí a ocupação tem sido vasta e muito diversa. Aliás, as cidades árabe, medieval e modernas construídas sobre a cidade romana, deixaram fortes evidências da sua presença (CME, 2011). Todas essas marcas
31 deixadas pelos antepassados, em conjunto com a típica paisagem da região, contribuíram para Évora se tornar na cidade carismática que é hoje.
SOCIEDADE E CULTURA
O Centro Histórico de Évora é um sítio com uma identidade muito forte. Aliás, não foi por acaso que em 1986 foi incluído na Lista de Património Mundial pelo Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS), organismo da UNESCO, como explica a CME (2012): “Em 1986, o ICOMOS tomou como definição do Centro Histórico de Évora a de um centro urbano único, pela sua beleza, homogeneidade e dimensão, e pelo valor do seu património cultural e arquitectónico, que conta com mais de 380 edifícios classificados, dos quais 36 são monumentos nacionais”. Ou, mais especificamente: “[…] o de ser Évora o melhor exemplo de uma cidade portuguesa da idade do ouro (Século XVI) e de a sua paisagem urbana permitir compreender a influência da arquitectura portuguesa no Brasil, em locais como São Salvador da Baía, também Património Mundial da Humanidade desde 1985.” (CME, 2012).
Dos vários monumentos, destacam-se para este projecto as igrejas, porque antes da criação dos primeiros cemitérios enterravam-se os mortos junto delas (ou no seu interior, conforme o estatuto socioeconómico). Por conseguinte, as intervenções arqueológicas no centro da cidade são constantes e é habitual encontrar esqueletos sepultados nessas zonas. Sem esquecer as necrópoles romanas, árabes e visigóticas que surgem também regularmente (por vezes sobrepostas). Outro monumento que merece especial atenção é a Capela dos Ossos dada à sua afinidade em termos de colecção.
Para além das características já mencionadas, é de salientar a forte presença da Universidade de Évora, cujos pólos dispersos tanto no centro histórico como na envolvente, criam uma dinâmica bastante marcante, conferindo um carácter académico à cidade.
Presentemente, têm surgido vários projectos em Évora, como é o caso da Acrópole XXI23, que não se podem desprezar, pois estão a desenvolver novas dinâmicas que abrangem transversalmente a economia, a cultura, o turismo e o património.
23
Acrópole XXI define-se como “uma intervenção no núcleo urbano da cerca velha do Centro Histórico de Évora que visa revitalizar esta zona da cidade através da promoção de acções de regeneração urbana,
32 CONTEXTO MUSEOLÓGICO
Segundo os dados estatísticos do Instituto Nacional de Estatística (INE) para 2010 (ver ANEXO 3), existem 9 museus no Alentejo Regional e apenas 3 em Évora (com cerca de 31 mil
visitantes/ano), num universo de quase 14 milhões de visitantes por ano distribuídos pelos 360 museus existentes em Portugal (INE, 2011, pp. 154-155).
Constata-se assim que o quadro museológico nesta região é pobre, com todas as vantagens e inconvenientes que daí advêm. Aparentemente, se a concorrência é menor, a capacidade de angariar visitantes é superior. No entanto, uma oferta reduzida atrai menos pessoas à cidade e este aspecto terá, quase certamente, um ónus maior. Apesar de tudo, o panorama não é tão curto como possa parecer à partida.
Évora apresenta também 12 espaços de exposição de arte que tiveram 82 mil visitantes em 2010. Para além disso, existem na cidade outros espaços de índole museológica, apesar de não serem considerados museus no estudo do INE (2011). É o caso da Casa da Balança, da Unidade Museológica da antiga Central Elevatória de Águas, do Núcleo Museológico do Alto de S. Bento e do Centro Interpretativo Megalithica Ebora no Convento dos Remédios. Este quadro já denota um esforço para aumentar a diversidade da oferta museológica na cidade, o que é crucial para atrair um público interessado e criar sinergias. Contudo, e não excluindo outras colaborações, o Museu de Évora deverá ser o parceiro mais importante para alavancar o projecto.
Um documento fundamental para compreender a tendência museológica na cidade é o Plano Estratégico de Évora 2020 (Universidade de Évora, 2009). Neste estudo, onde são definidas estratégias e prioridades para a cidade, são apontados alguns vectores estratégicos extremamente favoráveis para a criação do museu. É o caso de se querer “criar um ‘bairro dos museus’, rede museológica e expositiva, de dominante histórico-artística, na acrópole da cidade antiga” (Carvalho et al., 2009, p. 121). Ou a pretensão de “consolidar e desenvolver rotas e circuitos temáticos do ponto de vista cultural ou turístico com especial relevo para o enfoque arqueológico de ‘Évora subterrânea’ e para o património edificado, móvel e integrado de cariz religioso” (Carvalho et al., 2009, p. 121). Um “bairro de museus”, ainda
acompanhadas da dinamização da actividade económica do comércio tradicional, do turismo, do património e da cultura.” (ÉVORAÉ, [201?]).
33 Figura 14. Espaços da Herdade da Mitra, nas proximidades da cidade de Évora.
que de uma índole (histórico-artística) diferente da que se perspectiva para o museu de Bioarqueologia, é um enquadramento extremamente cativante para qualquer projecto museológico que se queira implementar no local, pois a atracção de turistas e outros visitantes interessados parece ser francamente promissora. Por outro lado, os conteúdos e mensagens do museu idealizado vão completamente ao encontro do enfoque turístico- cultural em “Évora subterrânea”.
HERDADE DA MITRA
Como já foi referido, o acervo osteológico não se encontra no centro da cidade. Em vez disso, está depositado no Pólo da Mitra da Universidade de Évora (figura 14).
Este local situa-se numa zona rural onde a paisagem é constituída essencialmente por montados de sobreiros e azinheiras e a povoação mais próxima é Valverde, bem distinta do carácter urbano de Évora. Neste pólo faz-se investigação e dá-se formação em áreas como agronomia e zootecnia, veterinária e ciências biológicas. Aqui está situada também a Anta Grande do Zambujeiro, monumento megalítico com relevância internacional. A estrada que liga Évora a Alcáçovas (N380) dá acesso à herdade mas o serviço de transportes públicos é muito reduzido.
A localização do acervo na Herdade da Mitra pode vir a ser um problema para o projecto, dada a menor acessibilidade em relação ao centro de Évora. As soluções para associar o acervo ao centro da cidade serão discutidas no subcapítulo3.6.ESTRATÉGIAS DE UM PERCURSO.
34 Em relação ao enquadramento de um futuro museu, o balanço é positivo. Pois se por um lado as condições existentes apresentam fragilidades, como a reduzida dinâmica museológica, o momento de grave crise económica e financeira e alguma falha na comunicação entre a Câmara Municipal e a Universidade. Por outro lado, o rumo que se pretende para a cidade, a envolvente natural, social e o Património Construído (na cidade e região envolvente) oferecem um “caldo nutritivo” com potencial.