3. Contextualização histórico-política das duas obras
3.2 Macau durante 1920-1930 – uma vivência intersticial
Para começar a análise da presente secção, antes de mais, precisamos de localizar, com a maior precisão possível, o período em que se desenrola o enredo de O Caminho do
Oriente, a fim de podermos demarcar aproximadamente a dimensão da nossa análise.
Efetivamente, quanto a este assunto, não conseguimos identificar nenhuma data explicitamente indicada de atividades praticadas pelas personagens. No que diz respeito à razão desta indefinição temporal, no “Prefácio do Autor”, Inso explica que a narração do livro não é propriamente dirigida por uma tentativa histórica, mas tenta somente assumir “um quadro ou esboço da […] vida colonial [em Macau]” (1996, 13). Neste sentido, além da indefinição temporal, a partir dos detalhes abaixo demonstrados, notamos também que a organização do enredo, em vez de seguir uma rigorosa ordem cronológica, revela uma montagem “arbitrária” de acontecimentos factuais.
Ora, tendo presente o período em que decorreu a estadia de Inso em Macau (1926- 1929) e o ano da publicação da obra (1932), e, além disso, por via de três detalhes, podemos obter uma estimativa da época em que aconteceu a história.
O primeiro detalhe aparece no capítulo III, “Negócios e Cuidados”. Ao apresentar em que pé se encontrava a firma caseira dos dois protagonistas, o narrador indica que:
A firma Moreira & Antunes, Ltd.ª, com escritório para os lados da Alfândega de Lisboa, tinha sido muito afectada pelas últimas crises do câmbio e da cortiça, principal artigo que exportava.
A partir da referência da crise do câmbio e da derrota sofrida pela firma na Bolsa, seria plausível supormos que o enredo do livro tem como contexto socioeconómico a Grande Depressão datada de 1929.
O segundo detalhe encontra-se no capítulo XII, “Hong Kong”. Ao introduzir as cenas de Kowloon, o narrador refere que “[a] nova Hong Kong [...] possui o mais moderno, vasto e luxuoso hotel da China, o «Peninsula Hotel» [...]” (ibid., 67). Daí, sabemos que a história narrada no livro acontecia depois de 1928, visto que o referido “Peninsula Hotel” foi inaugurado no dia 11 de dezembro de 1928.
Por fim, tendo em conta a narração com que começa o capítulo II, “A Partida”, isto é, “[manhã] de sol, Tejo claro, cheio de luz, de um fevereiro que parecia primavera” (ibid., 17), desconfiamos que o entrecho de O Caminho do Oriente se desenvolve provavelmente a partir do início de 1930.
Porém, há pormenores que não se encaixam nesta nossa inferência e cuja presença pode ser justificada pela afirmação de Inso de que “os factos narrados [...] aparecem com leves deslocações de época e de meio, conforme convém à obra” (ibid., 13); entre eles, destacam-se a data da publicação – 14 de junho de 1927 – do jornal que o comandante da
Pátria lia na ocasião em que Rodolfo e Frazão visitavam Julião Torres – “um funcionário
macaense muito considerado na Capitania dos Portos” (ibid., 116) – para obter informações comerciais de Macau (cf. ibid., 119), assim como a referência aos acontecimentos da Revolução de Cantão (cf. ibid., 161-162) – evento que vamos analisar de seguida.
ao seu leitor como um manuscrito que tivesse sido achado “num velho baú” (Brookshaw 2000, 40; cf. secção 1.2), é atribuído à atualidade, pois, primeiro, segundo o nosso estudo, o período em que se desenvolve a história fica muito próximo do lançamento do livro (1932); e, em segundo lugar, um enredo obsoleto nunca serviria de “propaganda indispensável daquela outra metade do mundo” (Inso 1996, 16).
Antes de começarmos a delinear os principais eventos que, na altura que abrange a história de O Caminho do Oriente, influenciavam a situação de Macau, precisamos de esclarecer sucintamente as circunstâncias sociopolíticas contemporâneas de Portugal e da China.
Com efeito, as primeiras três décadas do século XX, tanto para Portugal, como para a China, foram período de guerras e de revoluções. No caso de Portugal, depois do desaparecimento do traumático século XIX, a “onda de nacionalismo” (Brookshaw 2000, 33-34) induzida pelo Ultimato Inglês e o sucessivo processo revolucionário resultaram, em 1910, na destituição da monarquia e na instauração da República (cf. Gunn 1998, 155). Somente um ano mais tarde, na China, se repetiram cenas semelhantes: rebentou a Revolução Xīn Hài e, em 1912, a arcaica monarquia foi substituída pela República.
Contudo, os regimes republicanos recém-estabelecidos, para ambos países, não iriam trazer a liberdade e a democracia que eram os objetivos iniciais da fundação das duas Repúblicas; em vez disso, principiaram, em Portugal e na China, séries de agitações sociopolíticas.
No livro intitulado Ao Encontro de Macau: Uma Cidade-Estado portuguesa na
de Portugal após a instauração da primeira República, afirma que se seguiram “quinze anos de instabilidade” (ibid.). Neste período, de acordo com o historiador, os republicanos foram “incapazes de ultrapassar os problemas económicos e financeiros herdados, corporizados nas dívidas feitas durante a 1.ª Guerra Mundial” (ibid.). Depois do término da Grande Guerra, a situação caótica no país tornou-se “quase uma realidade, com mudanças de governos e gabinetes, agitação laboral e assassínios políticos” (ibid.). Segundo Gunn, o golpe militar de 1926, com toda uma gama de medidas ditatoriais, deu cabo de perturbações convulsas do país, e foi esta ocasião que fez o homem – António de Oliveira Salazar – que, como “[o] novo Ministro das Finanças, [...] começou a exercer forte influência no seio do governo [ditatorial]” (ibid.).
Relativamente à conjuntura enfrentada pela China na mesma época, por um lado, Gunn comenta que:
[…] a revolução de 1911 e o estabelecimento da nova República, não só acabou com milénios de domínio monárquico, como estabeleceu um novo sentido de orgulho na pátria, definido como
patriotismo ou nacionalismo, alargando-se não só aos círculos das elites mas também ao povo em
geral. Macau, Hong Kong e todos os Chineses ultramarinos não podiam deixar de ficar incólumes a
este novo regime.13 (ibid., 159, ênfases nossas)
Por outro lado, no seu livro, Gunn não deixa de nos demonstrar as cenas de lutas e de perseguições sangrentas que eram levadas a cabo na China Continental, e em que se digladiavam duradouramente o Partido Comunista Chinês e o “Kuomintang”. De entre
13 Curiosamente, parece que se encontra em discrepância do original esta tradução em português, pois, no
texto originalmente escrito em inglês, a frase é o seguinte: “Macao, Hong kong and the overseas Chinese alike could not but be affected by this new definition of polity” (Gunn 1996, 113-114).
essas lutas, o historiador destaca a Revolta de Cantão – evento que se menciona também em O Caminho do Oriente –, apreciando o feito heroico dos comunistas chineses com as seguintes palavras:
[em] Dezembro de 1927, os comunistas em Cantão protagonizaram a heróica, ainda que prematura, Revolta de Cantão [...]. Como foi registado pela história, e sem dúvida aplaudido pelos regimes coloniais em Hong Kong e Macau, este golpe de estado prematuro fez com a ala direita do Kuomintang, sob o comando de Jiang Jieshi, assassinasse quase todos os que estavam envolvidos no acontecimento. (ibid., 154)
No capítulo XXVI, “A casa da Penha”, do romance de Inso, na conversa seguinte entre o tenente Plínio e o seu servente chinês, A-Hiu, observamos a representação do evento: “– A-Hiu! – Pronto! – Então que notícias há de Cantão? – Li-Chai-Sam já tomou conta cidade, muita cabeça cortada!” (Inso 1996, 161). Na mesma ocasião, o seguinte comentário proferido por Segismundo – “um funcionário da colónia, [...] antigo companheiro de Rodolfo” (ibid., 73) – permite-nos conhecer a visão sem dó nem piedade
de um “representante do poder imperial” perante as cenas orientais mais desumanas: “–
Pode até haver por lá revoluções onde todos se comam uns aos outros, como grilos, que isso interessa-nos mediocremente, chega cá tão diluído, afecta-nos aqui tão pouco...” (ibid., 162).
Após uma breve apresentação das situações em que se entrelaçavam guerras e revoluções e que eram atravessadas tanto por Portugal como pela China, é razoável pensarmos que, nos anos 20 do século XX, não só os chineses tinham “as dúvidas e as preocupações [...] com os acontecimentos internos” (Gunn 1998, 159) mas também os
portugueses andavam afligidos pelos acontecimentos surgidos em Portugal Continental. Sob esta ótica, podemos, agora, compreender a atitude de ignorância tomada por Portugal perante Macau – palmo de terra, que se situa na longínqua China –, e o subsequente estado de “divórcio” entre o país e o (Extremo) Oriente.
No entanto, o descuido bilateral em relação a Macau de modo algum significava que a cidade se encontrava isenta de problemas; em vez disso, naquela “época de guerra e revolução” (ibid., 133), ao passo que ondas nacionalistas na China Continental se tornavam cada vez mais impetuosas, a pequena cidade sob a administração portuguesa, situada no estuário do rio das Pérolas, vivia diversas ameaças iminentes, de entre as quais, na presente secção, vamos demonstrar as atividades de greve realizadas pelos chineses e as atividades comunistas internacionais que preferiam Macau como seu posto ideal.
Quanto a greves que causavam dano a Macau, salienta-se “a anti-britânica e anti- imperialista Greve Geral e Boicote de 1925-1926” (ibid., 153). Com respeito às ondas de choque desta “Greve Geral”, que atacavam Macau, Gunn sintetiza que:
[embora] Macau, contrariamente a Hong Kong, não fosse alvo directo da […] Greve Geral […] que, no seu auge, lançou para o delta do Rio das Pérolas cerca de 250.000 grevistas e famílias, e, citando um historiador, “esteve muito perto de arruinar Hong Kong e de liquidar os interesses britânicos no Sul da China,” o território não ficou imune quer às consequências económicas da greve quer às suas
mais abrangentes ramificações políticas, atiçadas pela Frente Unida [formada entre o] Partido
Comunista chinês [e o] Kuomintang que liderou os acontecimentos em Cantão, pelo menos até Jiang Jieshi ter desencadeado o seu “terror branco” anti-comunista na cidade do sul da China, durante a primavera e o verão de 1927. (1998, 153, ênfase nossa)
seguintes palavras de Julião Torres, podemos observar alguns dos resultados daquela Greve Geral:
Olhe, antes das perturbações actuais da China, todo o comércio de exportação das sedas era feito por intermédio de Hong Kong [...]. Veio depois a guerra surda ao estrangeiro, sobretudo ao inglês, e o
comércio deixou de fazer-se por Hong Kong e hoje é feito, na maior parte, por intermédio de Xangai
[...].
De Xangai, a seda é exportada para a Europa via Marselha e via Canadá [...].
[...] Veja o que nós poderíamos ter alcançado se, na altura devida, tivéssemos empregado os meios necessários para fazer derivar para Macau, aqui tão perto de Cantão, uma parte que fosse da exportação das sedas! (Inso 1996, 117, ênfase nossa)
No princípio de 1927, de acordo com Gunn, “as autoridades portuguesas registaram o início de uma grande manifestação levada a cabo no ‘terreno neutro’ situado a norte [das] Portas do Cerco”, mas, “embora Macau tivesse informado cordialmente as autoridades de Cantão, [estas] não tinham recursos para dominar a situação” (1998, 153). Por conseguinte, uma semana mais tarde, ponderando que Macau poderia ser ameaçada por atividades de greve empreendidas pelos chineses, o Governador de Macau “entrou em contacto com os Consulados de Hanoi, Kwang Chau Wan e Manila solicitando-lhes que requisitassem, urgentemente, fornecimentos de comida e combustíveis para o caso das greves degenerarem em crise” (ibid.).
Até ao final do mesmo ano, perante a situação extremamente perturbada e melindrosa de Cantão despois da Revolta comunista, continuando a sofrer danificações provocadas por tumultos acontecidos nas fronteiras entre Cantão e Macau, esta última procurou “coordenar a sua política com as de Hong Kong” e esta tendência “não foi uma
medida desencorajada pelos Britânicos” (ibid., 154). Em relação a mais detalhes desta coordenação formada entre Macau e Hong Kong, Gunn demonstra que:
[…] quando o Governador de Macau interpelou o seu homólogo em Hong Kong no sentido de saber se ele iria aceder aos pedidos de armas e munições do General Li Chai-sum em troca da sua garantia de neutralizar os grevistas “vermelhos” na fronteira Macau-China e Lapa, foi aconselhado a contemporizar, invocando, para tal, a posição de Lisboa. O Governador Clementi, que também admitiu ter sido abordado pelo General Li, observou que o general deveria, em primeiro lugar, obrigar-se a respeitar os diretos dos tratados estrangeiros, e suprimir a pirataria e os assaltos. (ibid., 154-155)
Através do excerto acima citado, reconhecemos que, com efeito, na altura, Macau sobrevivia de modo intersticial por entre as inumeráveis conturbações chinesas, a presença do colosso britânico e a administração frouxa de Portugal. Além disso, mediante as atitudes aplicadas pelas autoridades de Macau ante o governo inglês de Hong Kong e ante “o eventual poder sobre Cantão” (ibid., 133), podemos subentender que, no momento, existia uma dupla dependência no imperialismo português quanto à questão de Macau, isto é, a dependência da aliança estabelecida com a Grã-Bretanha e a da conjuntura
chinesa.
No que diz respeito a representações da situação de Macau, nos capítulos XVII, “A sala verde”, e XXV, “Exportações ou importações”, do romance de Inso, notamos, respetivamente, que o governador de Macau e a sua esposa ofereceram um jantar de gala a “altas personalidades de Hong Kong” e que o Governo inglês convidou o Governador de Macau a visitar Hong Kong (cf. Inso 1996, 102 e 149). Além disso, no capítulo XXVI, “A casa da Penha”, nas conversas realizadas durante o jantar, as personagens portuguesas
admitiam abertamente a condição de dependência da política chinesa em que vivia
Macau (cf. ibid., 162).
A propósito das atividades comunistas internacionais levadas a cabo no território de Macau nos anos 20 e das atitude das autoridades de Macau perante este problema, no seu livro, Gunn indica que, então, na cidade, se promovia “a ideologia de direita”, de modo que se sustentava a “vigilância sobre a esquerda” (1998, 156). Quanto a mais pormenores, o historiador reporta que:
[em] 1924, Lisboa avisou o Governador de Macau da ameaça do comunismo internacional […]: “O início da revolução internacional depende dos resultados da revolução chinesa” [Gabinete do Governo do Arquivo Histórico de Macau]14. Especificamente, a colónia portuguesa de Macau corria
grandes riscos, devido à presença de organizações secretas bolchevistas, em constante comunicação com a Rússia via China. Mesmo a colónia portuguesa de Angola em África, era considerada como vulnerável. […]
Em 1927 as autoridades britânicas em Hong Kong tomaram conhecimento de um relatório que denunciava a existência de um centro comunista em Macau, nomeadamente no Hotel Corona. Supunha-se que este centro formava uma ligação importante com as actividades comunistas no sul da Índia, Indochina francesa, Índias Orientais Holandesas e as Filipinas. (ibid., 156-157)
No que toca a intenções dessas atividades comunistas que tinham Macau como “uma base ou esconderijo”, conforme Gunn, os seus objetivos “não eram tanto os Portugueses mas mais os regimes coloniais nas suas respectivas pátrias” (ibid., 159, ênfase nossa). Apesar de tudo, “as autoridades de Macau não necessitaram de orientação na sua perseguição aos presumíveis subversivos” (ibid., 158).
3.3 Macau nos anos 60 – “coexistência entre o gigante comunista e o pequeno