• Nenhum resultado encontrado

Na ficção, isto é, no romance e no conto, Machado podia fazer praça de realis-mo, ceticisrealis-mo, pessimismo e outros dogmas, mas na crônica livrava-se de todo este compromisso doutrinário, reconquistando, mediante o humorismo, que se diverte com as posições definitivas e dogmáticas, sua liberdade interior. De onde se con-clui que a nota distintiva do humorismo machadiano, na crônica, está na recupera-ção de sua autenticidade pessoal, de sua liberdade criadora, acima e à parte de suas convicções filosóficas e dos conceitos e preconceitos das escolas literárias de seu tempo. Como cronista, Machado voltava a ser ele mesmo, livre de qualquer com-promisso com o “outro”, o cético, o pessimista, o descrente.

“Não me obriguem os leitores a pôr os colarinhos do estilo grave...” (O.C.,

III, p. 403). O humorismo machadiano, temperado de ironia, é seu encontro com as coisas postas em seu lugar. Rompe convenções, estoura lugares-co-muns, questiona ideias feitas, desmascara hipocrisias, desmoraliza figuras de retórica e devolve ao escritor sua autonomia e sua elasticidade de espírito pró-prias para encarar as coisas sob ângulos mais autênticos e verazes.

Brincando, brincando, refletindo, refletindo, descobre realidades insuspei-tas, disfarçadas sob a capa do lugar-comum repetido à exaustão, e da inércia mental irremovível:

M a c h a d o e o R i o d e J a n e i r o

“Não há muito quem brade contra a centralização política e administra-tiva? É uma flor de retórica de todo discurso de estreia; um velho bordão;

uma perpétua chapa. Raros veem que a centralização não se operou ao sa-bor de alguns iniciadores, mas porque era um efeito inevitável de causas preexistentes. Supõe-se que ela matou a vida local, quando a falta da vida local foi um dos produtores da centralização” (O.C.,III, p. 404).

Eis um exemplo da capacidade de desmistificação do humorismo machadi-ano. Ainda hoje é comum atribuir-se a falta de vida local à centralização políti-co-administrativa, quando a história ensina que é o contrário que acontece.

Este achado desmente a teoria conspiratória da história. A força das coisas é maior do que a vontade dos grupos que agem isolados na sombra e na contra-mão do trânsito da vida política e social.

Fica a pergunta no ar: será Machado de Assis o precursor do humorismo carioca, com seu humor de folhetim, seu “ar brincalhão e galhofeiro” nas crô-nicas, conforme ele, deliberadamente, proclamava?

Repetimos que Machado foi um carioca da gema e orgulhava-se disso. Ser cari-oca significa armazenar um capital de experiência histórica, social, política e cultu-ral superior ao que é comum no restante do nosso país. O Rio de Janeiro, do alto do Corcovado, assistiu e participou de tudo o que aconteceu de importante no Brasil desde a chegada de D. JoãoVIem 1808. Toda esta vivência acumulada e fermentada na memória coletiva imprimiu ao habitante do Rio de Janeiro um per-fil privilegiado, distinto dos naturais de outros Estados. O carioca é o único bra-sileiro que não é provinciano. Porque viveu muito tempo à sombra da corte imperial, depois da capital da República, numa cidade que era a primeira a receber as novi-dades que chegavam de fora, e onde se tomavam decisões de interesse nacional, com todo o contexto que tais decisões pressupunham, como a opinião pública, mais sensível na capital, a imprensa, e a sociedade organizada (patrões, trabalhado-res, sociedades de classe, Exército, Igreja, intelectuais, etc.).

No Rio de Janeiro a permeabilidade entre as classes sociais é muito maior do que em outros pontos do Brasil. Existe um diálogo e uma aproximação muito maior entre a elite e o povo do que em outros estados, nos quais as

clas-ses são mais estratificadas e distantes entre si. A capilaridade cultural é muito maior e mais fecunda do que no restante do país. O homem e a mulher do povo no Rio sabem que não estão no mesmo nível das classes mais favoreci-das, mas procedem como se estivessem no mesmo plano. No Rio todos têm opinião sobre tudo e sabem argumentar com propriedade e coerência, num discurso sempre lubrificado por um humorismo peculiar.

O humorismo carioca tem por alvo ostatusdas pessoas e das instituições.

Numa cidade em que o “sabe com quem está falando” não tem a força de inti-midação que pode ter em outras regiões do país, e na qual a República nivelou a aristocracia ao comum do povo, todo imprudente que pensa em olhar os ou-tros por cima recebe punição na hora: será ridicularizado para todo o sempre.

Da mesma forma, a proximidade da população com os representantes do po-der, ao tempo em que o Rio era capital da República, estimulava a cobrança dos políticos, sempre em termos humorísticos. Figuras preferidas dessa co-brança eram o presidente da República e quem estava mais perto dele. Getúlio Vargas, ao tempo da ditadura, não era poupado pelas línguas do povo. Eram anedotas sobre anedotas, e dizem que Vargas toda noite se reunia com seus as-sessores para saber o que diziam dele, e ria às gargalhadas com o que ouvia.

O carioca vê o mundo que o cerca com olhos críticos, meio céticos, meio di-vertidos, sempre atento ao outro lado das opiniões consagradas, esperando a hora em que tudo vai dar em samba. Eis aí a diferença entre cariocas e paulistas.

Estes últimos, italianados, inventaram a expressão “acabar em pizza”, versão li-mitada e menos espirituosa do dito carioca mais antigo “acabar em samba”.

O humorismo carioca, finamente malicioso, é de molde a provocar mais o sorriso irônico do que o riso aberto ou a gargalhada. Tem por base o consenso de uma sociedade que já viu o direito e o avesso das coisas, e não se deixa enga-nar facilmente. O humorismo carioca é uma instituição popular, um patrimô-nio cultural da cidade, a competição renovada a cada minuto a propósito de qualquer coisa, na disputa por quem se sai melhor, quem tem mais presença de espírito. Sua finalidade essencial é a desmistificação. Nenhum propósito ético, nenhum traço doridendo castigat mores.Nada disso, nada de dar lições, nem de

M a c h a d o e o R i o d e J a n e i r o

censura dos costumes. Apenas, o que não é pouco, a sabedoria acumulada na luta pela vida. Como quem diz: “eu te conheço desde o outro carnaval”, “não vem que não tem”. Em bom português, é a malícia da puta velha, com muitos anos de janela e a quem ninguém engana.

Os humoristas cariocas conhecidos nada mais fazem do que refletir esse hu-mor agudo e meio debochado criado não por eles, mas pela população carioca.

Aparício Torelly, o Barão de Itararé (gaúcho acariocado), Sérgio Porto, o fa-moso Stanislaw Ponte Preta, Millôr Fernandes, ainda e sempre na ativa, Ziral-do, cartunista, o grupo do Pasquimsão alguns representantes dessa forma de experiência da vida em que consiste o humorismo carioca.

O humorismo carioca é polêmico, não para corrigir as pessoas e as institui-ções, mas para desmistificá-las. O humorismo machadiano é igualmente polê-mico, atingindo pessoas, instituições, serviços públicos, e até o leitor, também para desmistificá-los. Conta Machado a acusação de um amigo: “Você ri de tudo, dizia-me ele. E eu respondi que sim, que ria de tudo, como o famoso barbeiro da comédia,de peur d’être obligé d’en pleurer” (O.C.,III, 437). Pode ser, mas enquanto não chorava, o autor das crônicas, tal como o barbeiro, divertia os outros e se divertia ele mesmo.

Talvez caiba indagar se Machado de Assis, com a abundância de sua verve, além de bem humorada, sempre irônica, não seria o precursor do humorismo ca-rioca, que tem naqueles nomes acima citados seus representantes consagrados no curso do séculoXX. Precursor do Barão de Itararé e de tantos outros brilhantes expoentes? Veja-se como Machadinho brinca com a polícia, por exemplo:

“Ossecretascompreenderam que a primeira condição de uma polícia se-creta era ser sese-creta. Para isso era indispensável não só que ninguém soubes-se que eles eramsecretascomo até que nem mesmo chegasse remotamente a suspeitá-lo. Como impedir a descoberta ou a desconfiança? De um modo simples: – gritando: Sousecreta!Ossecretasdeixavam de sersecretas,e, sabendo o público que eles já não eramsecretas, agora é que eles ficavam verdadeira-mentesecretas” (O.C.,III, 424).

O luar e o lugar