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CAPÍTULO 4 – PARA ALÉM DO DISCURSO NARRATIVO

4.2. Machuca e o contexto político do Chile nos anos 70

Ressaltando o que já foi dito sobre o contexto político conturbado da América do Sul na década de 60, nas eleições para a presidência do Chile em 1964, o médico e político marxista Salvador Allende, candidato pela terceira vez consecutiva, perde nas urnas para Eduardo Frei, candidato pelo Partido Democrata Cristão, graças à intervenção da Agência de Inteligência dos Estados (CIA) que contribuiu com metade da verba de sua campanha e comandou uma massiva campanha publicitária.

Nessa época, o Chile tinha uma parcela imensa de sua população vivendo abaixo da linha de pobreza; tal como muitos países que foram colonizados na América, ricos em recursos naturais, mas com uma distribuição de renda extremamente desigual. Ao final do governo de Frei, a população estava carente e insatisfeita. Em 1970, Salvador Allende se candidata pela quarta vez pela Unidade Popular (UP), uma frente criada no ano anterior e tinha o apoio do Partido Comunista, que abriu mão de seu candidato, o poeta e militante Pablo Neruda. Com também bastante apoio de partidos e organizações comunistas de diversos países do mundo, incluindo o Brasil48, Allende vence as eleições, eleito com uma diferença de 40 mil votos sobre Jorge Alessandri, um dos candidatos. Em 3 de novembro de 1970, Allende assume a presidência da República do Chile, sendo considerado o primeiro presidente socialista a governar um país não-comunista com apoio de comunistas. Ele permanece no governo até o golpe militar em 11 de setembro de 1973, fato que faz parte do momento histórico do filme

Machuca.

Dos três filmes estudados, Machuca se caracteriza por ter imagens mais diretas e expressivas do momento histórico retratado, as tensões do último ano do governo de Allende, em meio a pressões nacionais que antecediam o golpe militar de Augusto Pinochet.

Na sua tentativa de governar o Chile de forma igualitária, Salvador Allende introduz reformas marxistas econômicas e sociais e nacionaliza diversas empresas privadas. No filme que estamos estudando, vemos representados alguns aspectos do seu governo, como a distribuição

47 Debe existir una correspondencia, y el “juego” que se pone en marcha, debe salvaguardar, punto por punto, de los

riesgos del mundo real, de la agresión de la arbitrariedad y del terror. De ahí la paradoja: ha de cambiarse de casa, de entorno vital (de escuela), incluso de nombre… para seguir viviendo y para seguir soportando la contundencia de ese “afuera” del fanal que se crea para los niños y que, como toda campana de cristal acaba quebrándose.

48 Esse fato também é retratado no filme que já citamos A culpa é do Fidel! (2006). O personagem Fernando de La

144 racionada e igualitária de alimentos e com a entrada de alunos carentes no renomado colégio de educação em língua inglesa para garotos da capital Santiago, o Saint Patricks, que se torna o ponto de partida para o desenrolar das ações do filme, por caracterizar o encontro dos dois protagonistas, Gonzalo Infante e Pedro Machuca.

Como já abordamos na análise do foco narrativo e de personagem no filme, diferente dos outros protagonistas, Harry e Mauro, que se encontravam escondidos, Gonzalo representaria o outro lado político, o de uma família favorável ao golpe militar e insatisfeita com o governo popular49, e ao contrário de um isolamento, ele acaba descobrindo outra Santiago, outras realidades.

O filme, a partir do olhar de Gonzalo, põe em cena as dificuldades do tumultuado governo da Unidade Popular. Junto com Machuca e Silvana, Gonzalo conhece a realidade de crianças e adolescentes que trabalham,conhece o lado mais pobre da cidade – e moradias completamente diferentes das casas da sua vizinhança, conhece novas ruas de Santiago e através dela participa de manifestações políticas, que se dividiam entre os nacionalistas favoráveis a um governo mais controlador e os partidos socialistas e populares, que apoiavam o presidente Allende e eram contrários às tentativas de golpe militar que se mostravam iminentes. O pesquisador Fábian Nuñez, fala sobre as proposições do diretor Andrés Wood ao realizar um filme centrado na perspectiva de Gonzalo:

Trata-se, antes de tudo, da descoberta do mundo por um adolescente: o encontro com as desigualdades sociais, a decepção com os pais e a iniciação erótica. O fato de se passar durante o governo da UP acentua tais aspectos, o que não significa que o fator político seja desconsiderado. Wood nasceu em 1965 e, por conseguinte, era uma criança durante o Golpe, ou seja, a sua relação com o governo Allende não é o de um militante saudosista ou um ferrenho crítico. Portanto, a UP vista pelos olhos de um adolescente, no filme, abranda o lado mais polêmico e controverso do governo Allende, apesar de sua simpatia por ele(NUÑEZ, 2006, p.207).

Além da mirada infantil, que proporciona ao filme uma abordagem particular,bastante marcante e expressiva, o mais relevante do filme de Andrés Wood é que pela primeira vez no cinema ficcional chileno o governo da UP é abordado de forma clara, mesmo que sob um

49 No filme, o pai de Gonzalo é visto como uma pessoa “em cima do muro”, apaziguador dos dois lados. A frase mais

expressiva que ele diz sobre a situação política do país é que “O socialismo pode ser o melhor para o Chile, mas não para nós”, quando sugere que a família se mude para a Itália com ele. Já a mãe do menino, é caracterizada como extremamente elitista e claramentecontrária ao governo de Allende.

145 ponto de vista bastante particular, o de um garoto. Tal como disse o crítico Jorge Morales50, é o primeiro filme de ficção que trata do período da Unidade Popular de frente, ainda que o olhasse de lado.

4.2.1 – Santiago, uma cidade dividida

Em Machuca, a caracterização da cidade de Santiago é realçada em sua dicotomia, com dois polos completamente distintos, com uma população rica e outra paupérrima, onde a convivência entre esses dois lados era permeada por preconceitos de ambas as partes.

Para Fabían Nuñez, é significativa a criatividade do diretor Wood para transformar em imagens a diferença de classes daquele período, em que podemos afirmar que o Chile era uma cidade bipolarizada; como também a gravidade da crise política (através de elementos como o muro na rua, que muda de pichação e de cor ao longo do filme e do qual já falamos). A caracterização da relação com os pais, que são expressas nos seus aspectos mais sórdidos – o arrivismo da classe média e o alcoolismo e a rudeza da classe proletária, segundo o pesquisador, acaba por aproximar ainda os meninos, que se encontravam desamparados pelos adultos, com exceção do diretor da escola, o padre McEnroe. (NUÑEZ, 2006, p.2008).

Outro aspecto que explicita a diferença de classe nos filmes são os meios de comunicação, que tal como Kamchatka, também serve para nos situar no contexto histórico da narrativa, o panorama político do Chile na época. Vemos o rádio como um elemento presente na classe pobre, e a imprensa escrita e a televisão como elementos fundamentais na rotina da classe média. Nuñez fala sobre a principal consequência histórica do regime militar e ficcionalmente, da consequência do regime para os protagonistas:

O aumento da concentração de renda como, talvez, a consequência mais perversa de quase vinte anos de regime militar, é o que salta aos olhos e lança, com pesar e lamento, um olhar para a tentativa, rompida, pela UP de criar uma sociedade mais justa. O desaparecimento de Pedro Machuca na vida de Gonzalo Infante é o surgimento de uma sociedade partida e dicotomizada (NUÑEZ, 2006, p.208, 2009).

Tal como afirma Nuñez, essa diferença se expõe de forma cruel ao final do filme, quando nós, junto com Gonzalo, não sabemos onde Machuca se encontra – o lugar onde ele morava virou

50 Crítica por Jorge Morales contida na Revista de Cine Mabuse e disponível em:

146 um descampado, e Gonzalo se muda para uma casa maior, junto da mãe e do amante Roberto, sugerindo uma separação dos pais.

4.3 - O ano em que meus pais saíram de férias e suas representações

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