5 PARA ALÉM DO DISCURSO NARRATIVO
5.2 MACHUCA E O CONTEXTO POLÍTICO DO CHILE NOS ANOS 70
Ressaltando o que já foi dito sobre o contexto político conturbado da América do Sul na década de 60, nas eleições para a presidência do Chile em 1964, o médico e político marxista Salvador Allende, candidato pela terceira vez consecutiva, perdeu nas urnas para Eduardo Frei, candidato pelo Partido Democrata Cristão, graças à intervenção da Agência de Inteligência dos Estados (CIA), que contribuiu com metade da verba de sua campanha e comandou uma massiva campanha publicitária.
Nessa época, o Chile tinha uma parcela imensa de sua população vivendo abaixo da linha de pobreza; tal como muitos países que foram colonizados na América, ricos em recursos naturais, mas com uma distribuição de renda extremamente desigual. Ao final do governo de Frei, a população estava carente e insatisfeita. Em 1970, Salvador Allende se candidatou pela quarta vez pela Unidade Popular (UP), uma frente criada no ano anterior e tinha o apoio do Partido Comunista, que abriu mão de seu candidato, o poeta e militante Pablo Neruda. Com também bastante apoio de partidos e organizações comunistas de diversos países do mundo, incluindo o Brasil48, Allende venceu as eleições, com uma diferença de 40 mil votos sobre Jorge Alessandri, um dos candidatos. Em 3 de novembro de 1970, Allende assume a presidência da República do Chile, sendo considerado o primeiro presidente socialista a governar um país não-comunista com apoio de comunistas. Ele permanece no governo até o golpe militar em 11 de setembro de 1973, fato que faz parte do momento histórico do filme Machuca.
Dos três filmes estudados, Machuca se caracteriza por ter imagens mais diretas e expressivas do momento histórico retratado, as tensões do último ano do governo de Allende, em meio a pressões nacionais que antecediam o golpe militar de Augusto Pinochet.
Na sua tentativa de governar o Chile de forma igualitária, Salvador Allende introduz reformas marxistas econômicas e sociais e nacionaliza diversas empresas privadas. No filme que estamos estudando, vemos representados alguns aspectos do seu governo, como a distribuição racionada e igualitária de alimentos e com a entrada de alunos carentes no renomado colégio de educação em língua inglesa para garotos da capital Santiago, o Saint
contundencia de ese “afuera” del fanal que se crea para los niños y que, como toda campana de cristal acaba quebrándose.
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Esse fato também é retratado no filme que já citamos A culpa é do Fidel! (2006). A personagem Fernando de La Mesa larga seu trabalho como advogado na França para trabalhar nas eleições de Salvador Allende.
Patricks, que se torna o ponto de partida para o desenrolar das ações do filme, por caracterizar o encontro dos dois protagonistas, Gonzalo Infante e Pedro Machuca.
Como já abordamos na análise do foco narrativo e de personagem no filme, diferente dos outros protagonistas, Harry e Mauro, que se encontram escondidos, Gonzalo representaria o outro lado político, o de uma família favorável ao golpe militar e insatisfeita com o governo popular49, e ao contrário de um isolamento, ele acaba descobrindo outra Santiago, outras realidades.
O filme, a partir do olhar de Gonzalo, põe em cena as dificuldades do tumultuado governo da Unidade Popular. Junto com Machuca e Silvana, Gonzalo conhece a realidade de crianças e adolescentes que trabalham, conhece o lado mais pobre da cidade – moradias completamente diferentes das casas da sua vizinhança –, conhece novas ruas de Santiago e nelas participa de manifestações políticas, que se dividem entre os nacionalistas favoráveis a um governo mais controlador e os partidos socialistas e populares, que apoiam o presidente Allende e são contrários às tentativas de golpe militar que se mostrava iminente. O pesquisador Fábian Nuñez, fala sobre as proposições do diretor Andrés Wood ao realizar um filme centrado na perspectiva de Gonzalo:
Trata-se, antes de tudo, da descoberta do mundo por um adolescente: o encontro com as desigualdades sociais, a decepção com os pais e a iniciação erótica. O fato de se passar durante o governo da UP acentua tais aspectos, o que não significa que o fator político seja desconsiderado. Wood nasceu em 1965 e, por conseguinte, era uma criança durante o Golpe, ou seja, a sua relação com o governo Allende não é o de um militante saudosista ou um ferrenho crítico. Portanto, a UP vista pelos olhos de um adolescente, no filme, abranda o lado mais polêmico e controverso do governo Allende, apesar de sua simpatia por ele(NUÑEZ, 2006, p.207).
Além da mirada infantil, que proporciona ao filme uma abordagem particular, bastante marcante e expressiva, o mais relevante do filme de Andrés Wood é que pela primeira vez no cinema ficcional chileno o governo da UP é abordado de forma clara, mesmo que sob um ponto de vista bastante particular, o de um garoto. Tal como disse o crítico Jorge Morales50, é o primeiro filme de ficção que trata do período da Unidade Popular de frente, ainda que o olhasse de lado.
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No filme, o pai de Gonzalo é visto como uma pessoa “em cima do muro”, apaziguador dos dois lados. A frase mais expressiva que ele diz sobre a situação política do país é que “O socialismo pode ser o melhor para o Chile, mas não para nós”, quando sugere que a família se mude para a Itália com ele. Já a mãe do menino é caracterizada como extremamente elitista e claramentecontrária ao governo de Allende.
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Crítica por Jorge Morales contida na Revista de Cine Mabuse e disponível em:
5.2.1 Santiago, uma cidade dividida
Em Machuca, a caracterização da cidade de Santiago é realçada em sua dicotomia, com dois polos completamente distintos, num uma população rica e noutra uma paupérrima, onde a convivência entre esses dois lados era permeada por preconceitos de ambas as partes.
Para Fabían Nuñez, é significativa a criatividade do diretor Wood para transformar em imagens a diferença de classes daquele período, em que podemos afirmar que o Chile era uma cidade bipolarizada; como também a gravidade da crise política (através de elementos como o muro na rua, que muda de pichação e de cor ao longo do filme; do qual já falamos). A caracterização da relação com os pais, que é expressa nos seus aspectos mais sórdidos – o arrivismo da classe média, o alcoolismo e a rudeza da classe proletária –, segundo o pesquisador, acaba por aproximar os meninos, que se encontravam desamparados pelos adultos, com exceção do diretor da escola, o padre McEnroe. (NUÑEZ, 2006, p.208).
Outro aspecto que explicita a diferença de classe nos filmes são os meios de comunicação, que tal como Kamchatka, também serve para nos situar no contexto histórico da narrativa, o panorama político do Chile na época. Vemos o rádio como um elemento presente na classe pobre, e a imprensa escrita e a televisão como elementos fundamentais na rotina da classe média. Nuñez fala sobre a principal consequência histórica do regime militar e, ficcionalmente, da consequência do regime para os protagonistas:
O aumento da concentração de renda como, talvez, a consequência mais perversa de quase vinte anos de regime militar, é o que salta aos olhos e lança, com pesar e lamento, um olhar para a tentativa, rompida, pela UP de criar uma sociedade mais justa. O desaparecimento de Pedro Machuca na vida de Gonzalo Infante é o surgimento de uma sociedade partida e dicotomizada (NUÑEZ, 2006, p.208- 209).
Tal como afirma Nuñez, essa diferença se expõe de forma cruel ao final do filme, quando nós, junto com Gonzalo, não sabemos onde Machuca se encontra – o lugar onde ele morava virou um descampado, e Gonzalo se muda para uma casa maior, junto da mãe e do amante Roberto, sugerindo uma separação dos pais.
5.3 O ANO EM QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS E SUAS