Capítulo II – Estudo Empírico
2. Caracterização do contexto educativo
2.1. Macro-contexto
O CE onde o estudo foi realizado pertence ao Agrupamento de Escolas de Ílhavo – constituído por doze estabelecimentos de ensino no total – e insere-se, nomeadamente, no distrito de Aveiro, situando-se na zona Centro litoral do país. O mesmo (CE) trata-se de uma instituição pública que engloba as valências de Pré-Escolar e 1.º Ciclo do Ensino Básico (1.º CEB). O seu horário de funcionamento é das 9:00 às 17:30, embora as aulas terminem às 16:00 para as crianças que não frequentam as Atividades Extracurriculares (AEC’s). Algumas das AEC’s desenvolvidas são Atividade Física e Motora, Inglês, Música e TIC. O modelo pedagógico adotado em sala de aula, o Movimento da Escola Moderna (MEM), distingue-se pela diferenciação pedagógica como fator de inclusão e
visa combater os desafios/constrangimentos de ensino-aprendizagem das crianças que serão desenvolvidos no próximo ponto (2.2). Este modelo valoriza o envolvimento e a corresponsabilização das crianças na sua própria aprendizagem, numa ótica de colaboração, diálogo, implicação e negociação (Grave-Resendes & Soares, 2002). Como estratégias de ensino o MEM diferencia-se pela organização do espaço e do tempo educativos e ainda pelos instrumentos de apoio ao trabalho das crianças (e.g. a Agenda Semanal, o Plano Individual de Trabalho e o Diário de Turma). Através destes instrumentos (e de acordo com as suas dificuldades, necessidades e interesses) as crianças: criam Planos Diários, trabalham em Tempo de Estudo Autónomo, realizam Apresentação de Produções e Trabalho de Projetos e debatem em Conselho de Cooperação. Desta forma, todos participam na tomada de decisões relativas à organização, gestão e avaliação dos assuntos da turma, o que se materializa num exercício de cidadania democrática ativa e progressivamente lhes confere uma maior autonomia (Grave-Resendes & Soares, 2002). Na Agenda Semanal também estavam definidos os horários para os momentos de recreio e almoço. Estes não são muito rígidos, dependendo do comportamento das crianças e de situações que justifiquem alguma flexibilidade. O intervalo da manhã decorria das 10:30 às 11:00, o intervalo do almoço era das 12:30 às 14:00 e o intervalo da tarde das 16:00 às 16:30. Apenas os dois primeiros intervalos (da manhã e do almoço) foram usados para realizar as vídeo-gravações necessárias ao estudo. O Município onde o CE está inserido caracteriza-se por ser um meio urbano, no entanto, a sua localização é periférica. Ainda assim, o CE acede facilmente a vários recursos da comunidade, dadas as suas parcerias e a oferta cultural do Município, dos quais se destacam: a Biblioteca Municipal, o Centro Cultural, a Escola Segura, a Fábrica e o Museu da Vista Alegre, o Museu Marítimo, o Navio-Museu Santo André, as Piscinas Municipais e o Pavilhão Desportivo Illiabum Clube. Porém, dada a sua localização periférica, o CE situa-se numa área maioritariamente rural, onde a agricultura é a principal atividade da população, uma vez que esta região esteve sempre ligada à produção de cereais. Ao longo dos anos surgiram vários grupos de etnia cigana que se estabeleceram nos arredores desta instituição, habitando em três acampamentos distintos. Consequentemente, as crianças que a frequentavam eram quase todas de etnia cigana, apenas existia uma menina de nacionalidade brasileira, pelo que muitas das crianças tinham relações de parentesco entre si, sendo que a maioria eram primos e/ou irmãos de outras crianças da instituição. Relativamente às famílias destas crianças, a maior parte era composta por 4 ou mais elementos, chegando a haver núcleos familiares com 10
membros. Embora a família assuma um papel de destaque na etnia cigana, dado o elevado respeito e consideração que os membros têm entre si, esta etnia não valoriza a progressão escolar, especialmente a das mulheres. Para isso veja-se que as mães, normalmente, são mais novas que os pais (o que é comum nesta etnia) e possuem níveis de escolaridade consideravelmente inferiores, sendo muito poucas as que concluíram o 1.º CEB, pelo que quase todas são analfabetas, ao contrário dos pais que, por sua vez, têm o 4.º, 6.º ou até 9.º ano, existindo muito poucos pais analfabetos. À exceção de um pai, todos os outros estavam desempregados e recebiam Rendimento Social de Inserção e Abono Familiar. Dadas estas circunstâncias, muitas destas famílias apresentavam inúmeras dificuldades financeiras, o que se refletia nas suas condições de vida precárias ao nível: da alimentação, da habitabilidade e higiene, dos transportes, entre outros.
No que concerne às instalações do CE, dada a requalificação do parque escolar em 2010, as condições físicas e materiais da instituição encontram-se em ótimo estado de conservação, as diversas áreas são coloridas e acolhedoras e há bastante iluminação natural proveniente das grandes janelas existentes por todo o CE. A figura seguinte trata- se de uma visão satélite do CE, de modo a fornecer aos leitores uma visão global do mesmo. Para uma melhor compreensão da sua estrutura, observe-se a legenda que acompanha a figura.
Figura 10: Visão satélite do Centro Escolar Legenda:
Instalações do CE
Entradas do CE: acesso ao JI (A) e acesso ao 1.º CEB (B)
Hall de entrada para o edifício do 1.º CEB, o refeitório e a sala polivalente Edifícios do JI e do 1.º CEB
Refeitório (1) e sala polivalente (2) Espaço de recreio exterior do 1.º CEB Espaço exterior traseiro
A B
JI
Relativamente aos espaços exteriores da escola, na parte traseira do CE existe um campo de futebol e de basquetebol com cerca de 150m2, cujo piso é de cimento. Dado o número reduzido de assistentes operacionais e a necessidade das crianças serem sempre supervisionadas por estas (regra do CE), bem como a existência de conflitos sérios nesta área durante os intervalos, no ano letivo anterior, este espaço apenas era usado pelas crianças nas aulas de Educação Física. Quanto ao espaço de recreio exterior, situado na parte frontal do edifício do 1.º CEB e da Sala Polivalente, este tem cerca de 350m2 e o solo é de dois tipos: tartan e cimento. Tendo em conta o número de crianças existentes, a sua área ultrapassa a dimensão legislada de acordo com os dados propostos para o JI – “não inferior ao dobro da área da sala de atividades, incluindo o espaço de zona coberta” (Despacho Conjunto n.º 268/97, p. 15). Este é delimitado por paredes de cimento com grades que permitem a visibilidade tanto para o exterior da escola, como do exterior para o interior da mesma e é constituído por: um escorrega, um equipamento de molas, um bebedouro, um banco retangular de cimento sem costas e dois caixotes do lixo fixos na zona de entrada da escola. O corredor em rampa que dá para a porta de entrada do edifício escolar é coberto e tem dois corrimões (um de cada lado), o que facilita o acesso a pessoas com mobilidade condicionada. Também compõem este espaço: uma árvore grande rodeada por uma cerca curta feita de canas e uma casa para pássaros de madeira, vários canteiros com terra, flores, paus, pedras e pneus que fazem de vasos. Apesar da existência destes recursos materiais, o espaço de recreio exterior considera-se padronizado pois evidencia caraterísticas tradicionais o que é visível no tipo de equipamentos e não se mostrou flexível no sentido em que se manteve igual até à intervenção no mesmo pela colega de estágio.
No que concerne ao espaço interior, nomeadamente ao piso 0, existem: duas salas de aulas; áreas de cabides; uma biblioteca que as crianças do JI também podiam utilizar; duas casas de banho para crianças e uma para adultos; um refeitório e uma sala polivalente (cf. 2.2); um gabinete de atendimento anexo ao hall de entrada, utilizado como espaço de atendimento e realização de chamadas pela assistente operacional; uma cozinha anexa ao refeitório e ao gabinete de atendimento e uma saída de evacuação alternativa para a parte traseira do espaço exterior. No piso 1 existem: duas salas de aula, embora estas não estivessem a ser utilizadas na altura, dado o número reduzido de crianças a frequentar o 1.º CEB; áreas de cabides; uma zona de arrumação de materiais de limpeza, roupas e leites; uma sala de professores com copa; duas casas de banho para crianças e adultos; um gabinete de trabalho com material didático; uma zona de arrumação geral e outra de
arrumação de material didático e ainda um terraço, utilizado apenas pelos adultos. Uma vez que o estudo se focou no espaço de recreio interior, a caracterização do mesmo é valorizada no ponto seguinte (2.2), no qual se irão abordar, igualmente, algumas das regras do CE que influenciaram as interações das crianças no recreio interior.
Em relação à equipa educativa e ao número de crianças, no ano letivo 2015/2016, durante o qual decorreu o estudo, era constituída por uma educadora, uma assistente operacional e 11 crianças no JI e duas professoras, uma assistente operacional e 23 crianças no 1.º CEB. As crianças do 1.º CEB estavam distribuídas por duas salas, pelo que a Sala 1 abrangia as turmas do 1.º e 2.º anos de escolaridade e era formada por 14 crianças, e a Sala 2 compreendia as turmas do 3.º e 4.º anos e era composta por 9 crianças. Apesar da população do estudo englobar todas as crianças do 1.º CEB, uma vez que o recreio interior é partilhado por elas (as crianças do JI só usufruíam do refeitório), o estudo foi realizado apenas com algumas crianças do grupo da Sala 2, o qual se apresenta com mais pormenor no ponto que se segue (2.2). No Anexo 4 podem observar-se os géneros e iniciais dos nomes das crianças de ambas as salas do 1.º CEB, o que será particularmente importante para uma melhor compreensão das situações registadas em vídeo, que se encontram descritas nos Anexos 5 a 8.